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sexta-feira, 20 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Nessas tardes de Agosto, quando termina o turno da fábrica, não há nada para fazer; quando muito, pode-se ir até à estrada de Forks Falls para ouvir as conversas dos presos, de grilhetas nos tornozelos.

Carson McCullers em Balada do Café Triste

Legenda: fotograma do filme «I Am A Fugitive From Chain Chang» de Mervyn Leroy.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Há momentos em que a necessidade mais premente de um homem é ter um objecto de amor, um foco em que centralize as suas comoções difusas. E há também ocasiões em que a irritação, o medo da vida, as desilusões, tudo isso, inquieto como espermatozóides, precisa de achar uma saída no ódio.

Carson McCullers em  Reflexos nuns Olhos de Oiro 

Legenda: Carson McCullers

domingo, 12 de março de 2017

RECADOS


O ano de 2017, assinala o centenário do nascimento de Carson McCullers, 19 de Fevereiro de 1917, bem como o cinquentenário da sua morte, 29 de Setembro de 1917.

Cumprindo as efemérides, a editora Relógio d’Água, publicou O Coração é um Caçador Solitário, numa tradução de  Diogo Vaz Pinto, seguindo-se A Balada do Café Triste, Relógio Sem Ponteiros, Reflexos nuns Olhos de Ouro e Frankie e o Casamento.

As “vidas invisíveis” que se revelam em páginas de uma prosa que parece tocar o silêncio segundo as flutuações de um blues. O ambiente do sul dos Estados Unidos, onde Lula Carson Smith nasceu há cem anos - 19 de fevereiro de 1917 - e cresceu, morrendo meio século depois sem nunca ter despido o vestido de menina. Nos seus livros vive toda aquela infância presa entre acordes de desolação, e uma adolescência tremida, partilhada com essas personagens que atravessam a juventude povoando cantos sombrios, numa timidez bravia. Um catálogo de inadaptados: figuras que carregam alguma deformidade, física ou íntima, algum estigma social, os seres errantes, as vidas presas por um fio.
E há os sonhos vigiados de perto pela vergonha, as contradições próprias das zonas mais agrestes desses territórios beirando o fim do mundo. O isolamento e com ele a suspeita de tudo, as comunidades como meios de clausura e castigo moral, a intolerância racial, a subjugação das mulheres aos maridos com existências sumidas em fundo doméstico, tudo isso comparece nos seus contos e romances. A sua é uma literatura da defesa dos espíritos desfeitos pelo embate num mundo que preza a forma do quadrado em que as suas dimensões se encerram.


No catálogo da editora existe já uma selecção de contos de Carson McCullers traduzidos por Ana Teresa Pereira.

domingo, 25 de dezembro de 2016

A SUA MISSÃO DIZIA RESPEITO AOS VIVOS


- Minha gente – disse o Dr. Copeland, sem expressão, e depois houve uma pausa. E as palavras acudiram-lhe de repente:
É este o décimo nono ano em que nos reunimos nesta sala para celebrar o Dia de Natal. Foi uma época sinistra, aquela em que o nosso povo ouviu falar pela primeira vez do nascimento do Nosso Senhor. Os negros escravos eram vendidos na praça do tribunal desta mesma cidade. Desde então, temos ouvido e contado a história da Sua vida um sem-fim de vezes. Assim, hoje a nossa história vai ser outra.
Há cento e vinte anos, outro homem nasceu num país conhecido pelo nome de Alemanha… longe, do outro lado do oceano Atlântico. Este homem compreendia, tal como Jesus Cristo. Mas os seus pensamentos não estavam dominados pela ideia de céu, ou do destino dos mortos. A sua missão dizia respeito aos vivos. À grande massa de seres humanos que labutam e sofrem, e mourejam até à morte. Às pessoas que ganham a vida a lavar roupa, a cozinhar para os outros, a colher algodão, a trabalhar com as tinas de tinturas escaldantes nas fábricas. A sua missão dizia-nos respeito a nós, e o seu nome era Karl Marx.
Karl Marx era um homem de senso, um sábio. Estudou e trabalhou e compreendeu o mundo em que vivia. Disse ele que a humanidade estava dividida em duas classes, os pobres e os ricos. Por cada rico havia mil pobres que trabalham para o tornar mais rico. Não dividiu o mundo em negros e brancos ou chineses: segundo Karl Marx, ser um dos milhões de pobres, ou um dos poucos ricos, era mais importante para um homem do que a cor da sua pele. A missão da sua vida era tornar todos os homens iguais, e repartir as grandes riquezas do mundo de tal forma que não houvesse mais ricos nem mais pobres, e que cada qual recebesse a sua quota-parte dos bens do mundo. Eis um dos mandamentos que Karl Marx nos deixou: «De cada um segundo a sua capacidade, a cada qual consoante as suas necessidades.»

Carson McCullerrs em Coração Solitário Caçador

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

RECADOS


Carson McCullers não produz em ritmo acelerado. Não se sente coagida pela ideia popular e ridícula de que um grande romancista tem de escrever anualmente um livro. Cinco anos decorreram entre o seu segundo romance e o terceiro. Consta-me que está a compor outro. Não há notícia literária mais grata do que esta para quem, como eu, encontra nos seus livros intensidade e nobreza de espírito como não possuíamos desde Herman Melville. Entretanto, pode a escritora convencer-se de que a sua obra já realizada não se eclipsará com o tempo, antes irradicará cada vez com mais fulgor.

Tennessee Williams no prefácio a Reflexos Nuns Olhos de Oiro

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer.

Carson McCullers

Legenda: Pintura de Edward Hopper

sábado, 9 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Como é que os mortos podem estar realmente mortos quando permanecem vivos na alma dos que atrás deixaram?


Legenda; não foi possível obter o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

OLHAR AS CAPAS



Mulheres Que Lêem São Perigosas

Stefan Bollmann
Tradução Maria Filomena Duarte
Prefácio Elke Heidenreich
Tradução do prefácio: Paulo Rêgo
Quetzal Editores, Lisboa Abril 2007

Entender-se-iam homens e mulheres melhor se os homens lessem tanto como as mulheres? Saberiam eles mais acerca das nossas vidas, dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos, se lessem Sylvia Plath, Virginia Woolf, Carson McCullers, Jane Bowles, Annemarie Schwarzenbach ou Dorothy Parker, do mesmo modo que nós lemos Hemingway, Faulkner, Updike, Roth, Flaubert e Balzac? «As mulheres lêem de maneira diferente», observa Ruth Kluger ao abordar este interessante tema. Elas também lêem mais. E, ao ler, são ambas as coisas, homem e mulher, não têm sexo, sofrem com o herói, com a heroína, com o autor, com a autora, é-lhes indiferente. Estão reféns do livro. Apenas consigo amara homens que lêem, que de repente erguem a cabeça com aquela expressão no olhar, vinda de bem longe, suave, uma expressão repleta de um conhecimento não apenas de si, mas também acerca de mim. No entanto, regra geral, os homens não gostam de mulheres que lêem. E só muito de quando em quando é que homens e mulheres lêem em conjunto.

(Citação retirada do prefácio)

domingo, 2 de outubro de 2011

POSTAIS SEM SELO


À tarde, subiam das chaminés delicadas colunas de fumo e no céu outonal aparecia a lua redonda e alaranjada. Não há nada mais calmo que as primeiras noites frias de Outono. Às vezes, durante a noite, quando não soprava o vento, ouvia-se na terra o apito do comboio que passava por Society City em direcção ao norte.

Carson McCullers em “A Balada do Café Triste”, Relógio D’Água

quinta-feira, 3 de março de 2011

POSTAIS SEM SELO


As pessoas da terra não estavam habituadas a reunir-se para se divertirem. Juntavam-se para trabalhar na fábrica, ou aos domingos para uma celebração religiosa, mas a intenção, nessas ocasiões, era reavivar a visão do Inferno, com o intuito de lhes incutir um saudável medo do Todo-Poderoso.

Carson McCullers em “A Balada do Café Triste”

terça-feira, 2 de março de 2010

CASA MUSEU KAREN BLIXEN


A casa Museu de Karen Blixen fica em Rungsted, numa lindíssima parte de Copenhaga, a que chamam a riviera dinamarquesa.

Um sossego de paraíso paira pela casa, nos jardins que a circundam, é suave o cântico dos pássaros que se abrigam pelas árvores. Karen Blixen assim quis. É por isso que custa, imaginar, que perante tanta beleza, Karen Blixen tenha passado os últimos anos da sua vida em ódios e vinganças, egoísmos e invejas com os seus amigos e também com os companheiros de escrita.A amargura de tudo o que se passou no Nepal -“Tive uma fazenda em África” - não não pode justificar tudo.

Da casa museu de Karen Blixen trouxe dois postais: a secretária no quarto Ewalds com a sua máquina de escrever “Corona” e Karen Blixen quando visityou Nova Iorque.

Sentados a uma mesa, vêem-se Karen Blixen, Arthur Miller, Marilyn Monroe e Carson McCullers. A fotografia foi tirada no dia 5 de Fevereiro de 1959.


CarsonMcCullers tinha 42 anos, devido problemas físicos e emocionais, era quase uma reclusa, todos os anos relia "Out of Africa" e considerava Blixen a sua "amiga imaginária," que sempre "estava lá quieta, serena e com grande sabedoria para me confortar."

Ao saber que Blixen gostaria de conhecer Marilyn Monroe, McCullers ligou para Arthur Miller, ainda casado com Marilyn, e marcou o almoço.

Blixen tinha 74 anos, e estava muitíssimo debilitada pela sífilis que contraiu em África. Por ser anoréxica, pesava 36 quilos e alimentava-se de ostras que acompanhava com champanhe!

Monroe tinha 33 anos e não conhecia, nem nunca lera, McCullers, tão pouco Blixen. Tinha acabado de filmar "Quanto Mais Quente Melhor" e, as usual, chegou atrasada ao almoço.

As três entenderam-se maravilhosamente, embora Arthur Miller diga que faz parte da lenda, a história de que as três dançaram juntas sobre a mesa de jantar de mármore de Carson McCullers. Riram a bandeiras despregadas quando Marilyn contou que, certa vez, tentara acabar de cozinhar macarrão usando um secador de cabelo.

Por sua vez Blixen disse que Marilyn era "quase que inacreditavelmente bonita," cheia de "uma vitalidade ilimitada" e de "uma inocência incrível"


Karen Blixen morreu em 1962 de inanição, Marilyn Monroe, no mesmo ano, de overdose ou, segundo outras versões, assassinada a mando do Clan da família Kennedy. Carson McCullers morreu em 1967 vitimada por um derrame cerebral.

Vou, agora, buscar o maravilhoso diálogo que encerra o terceiro capítulo da “África Minha”, quando o criado Ndwetti fala do voo que Karen Blixen fizera com Denys:

“ — Hoje subiram muito alto. Não vos conseguíamos ver, só ouvíamos o aeroplano zumbir como uma abelha.

Concordei que andáramos a voar muito alto.

- Viram Deus? - perguntou ele.

- Não, Ndwetti – respondi eu. Não vimos Deus.

- Ah, então é porque não subiram o suficiente. Mas digam-me lá: acham que conseguem subir o suficiente no seu aeroplano para ver Deus? - perguntou ele dirigindo-se a Denys.

- Na realidade, não sei - foi a resposta.

- Então - disse Ndwetti - não sei porque é que vocês os dois vão voar.