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sexta-feira, 26 de julho de 2019

SARAMAGUEANDO


José Saramago sempre entendeu que para que se possa conhecer melhor a obra de um escritor, é necessário publicar a correspondência trocada com os seus pares.

Saramago vai mais longe, e na longa conversa que manteve com João Céu e Silva, diz:

Tenho milhares de cartas e costumo dizer que a obra completa de um escritor só estará realmente completa publicando-se uma selecção das cartas dos leitores porque – fala-se tanto da teoria da recepção – é naquelas cartas que se vê realmente o que é a recepção. Em casa devemos ter umas duas mil cartas de leitores que é preciso classificar e ordenar.

Humberto Werneck que fez uma entrevista a José Saramago, cuja transcrição pode ser lida no ÚltimoCaderno de Lanzarote revela que «Saramago escreve pela manhã e no final da tarde a sua quota diária de literatura, nunca mais de duas páginas ao som de Mozart, Bach ou Beethoven, e responde a algumas das cartas, cerca de 100, em média, que lhe chegam todos os meses de vários cantos do mundo.»

No dia 8 de Agosto de 1998, entrada do Último Caderno de Lanzarote, Saramago volta ao assunto das correspondência que manteve com os seus leitores.

«Um dia deixei consignado nestes Cadernos a única ideia em tudo original que até aí tinha produzido (e suspeito que desde então não consegui espremer da cabeça outra de quilate semelhante), aquela luminosíssima ocorrência de que na publicação da obra completa de um escritor deveria haver um volume ou mais com as cartas dos leitores. Fala-se, discute-se, discorre-se sobre as teorias da receção (empurrando portas abertas?), e parece que ninguém repara no inesgotável campo de trabalho que oferecem as caretas dos leitores.»

José Saramago deixou-nos há 8 anos e penso que já correu o tempo suficiente para se tivesse dado andamento a essa ideia das cartas dos seus leitores.

Também não se compreende muito bem porque ainda não existe a publicação da correspondência com os seus pares-

Olhe-se o meritório trabalho que Mécia de Sena tem feito com a correspondência que Jorge de Sena manteve com uma série de intelectuais do seu tempo.

A única correspondência de Saramago publicada, é a que manteve com José Rodrigues Miguéis durante o tempo em que foi responsável literário da editora Estúdios  Cor.

O volume publicado com a correspondência de Jorge Amado não é muito significativo na medida em que não abrange cartas e apenas reúne trocas avulsas de faxes.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O QUE SE ESCREVE QUANDO JÁ A MORTE VEM SUBINDO A ESCADA


Apanhou a carta do chão, meteu-a no sobrescrito, escondeu-a entre os livros, mas não se há-de esquecer de procurar um sítio mais seguro, um dia destes vem Lídia fazer a limpeza, dá com a carta, e depois, é certo que ela, a bem dizer, não tem quaisquer direitos, se aqui vem a casa é porque a vontade lhe puxa, não porque eu lho peça, mas oxalá não deixe de vir, que mais queria Ricardo Reis, ingrato homem, meteu-se-lhe uma mulher na cama de seu livre gosto, assim não precisa de andar por aí arriscado a apanhar uma doença, há homens com muita sorte, e este ainda queixoso só porque não recebeu de Marcenda uma carta de amor, não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de amor. Diante do espelho do guarda-fato, que o reflecte em seu inteiro corpo, Ricardo Reis diz, Tens razão, nunca recebi uma carta de amor, uma carta que só de amor fosse, e também nunca escrevi uma carta de amor, nem por metade dela ou minha metade, esses inúmeros que em mim vivem, escrevendo eu, assistem, então a mão me cai, inerte, enfim não escrevo.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

FICOU TODO CHAREADO



Em que momento é que se zangou com o Cardoso Pires?

Começou muito cedo. Ele era um tipo muito consciencioso a escrever e mostrava-me sempre primeiro. Um dia ele estava a ler-me um texto e eu mostrei-me desinteressado, e ele disse: «Tu não estás a ligar nenhuma!» E eu respondi: «Não estou, porque não estou a gostar.» Ficou todo chateado. E depois ele chegou-se muito aos comunistas, para ter apoios, para ter público… Este último livro o Alexandra Alpha já nem li, e a Balada da Praia dos Cães é um disparate. Há um livrinho do cabo, um livrinho de memórias, bem não tem valor literário, mas é um documento muito mais giro que a Balada da Praia dos Cães.

E  como surgiu a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas?

No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas, eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco vs. Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só…

Mas as pessoas não se chatearam de lhes publicar as cartas?

Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca mais me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca eram mais de 100 ou 200 paus…

Legenda: José Cardoso Pires no Bar Americano no Cais do Sodré.

domingo, 20 de maio de 2018

CARTA


Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelhecí: Olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
«Deus te abençoe«, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

Carlos Drummond de Andrade em Antologia Poética

Legenfa: pintura de Vanessa Bell

quarta-feira, 14 de março de 2018

NOTÍCIAS DO CIRCO


Os CTT anunciaram esta semana que os seus resultados tinham caído 56% para os 27 milhões de euros, mas que mantinham o plano de distribuição de dividendos e iriam sacar reservas para poderem entregar aos acionistas 57 milhões de euros. A estratégia é esta: administração em dificuldades seduz acionistas carentes. A empresa fica sem fundos para investir, a não ser que se endivide, e é o segundo ano consecutivo. O mercado, evidentemente, gostou desta estratégia e da promessa de despedir mais ainda. A empresa é descapitalizada, mas se há dividendos as ações são reconfortadas - e a cotação subiu.
Os maus resultados foram a boa notícia.
Tudo lógico? Na Galp, há duas semanas, foi ao contrário. A empresa anunciou um crescimento dos lucros e dos dividendos, mas a cotação caiu. Os bons resultados foram a má notícia.

Francisco Louça no Expresso.

sábado, 2 de dezembro de 2017

ENTÃO, É NATAL


Os Pequenos Cadernos estão cheios de textos e citações de e sobre o Natal.
Começo com um interessante texto de António Bagão Félix, publicado no Público de 19 de Dezembro do ano passado, sobre o lamento de as pessoas já não mandarem cartões de Boas Festas aos familiares e aos amigos.
Eu hei-de de manter sempre essa tradição, que tanto prazer me dá.

A tecnologia permitiu, neste século, substituir os tradicionais cartões de boas festas por um bater frio de uma qualquer tecla, apagado com a singeleza de uma outra. É barato, é amigo do ambiente e facilita a selecção na resposta.
Acontece que, em vez da tradicional caixa de correio repleta, surgiu, em movimento uniformemente acelerado, a praga dos emails festivos, mecanicamente enviados, e extraídos de uma lista de amigos, indiferentes, desconhecidos e desavindos, com tratamento igualitário independente do destinatário.
A isso se juntou outra praga: a das mensagens escritas, vulgo SMS, que, sobretudo no dia 24, entopem os telemóveis e saturam as cabeças. Entre a catadupa que nos chega há de tudo. Por exemplo, os que nem sequer disfarçam ser mandados sem critério para uma massa informe de destinatários, os que se permitem enviar para “damas e cavalheiros” ou “car@ amig@, fazendo da arroba@ um símbolo assexuado em termos gramaticais, com “beijos e abraços” ou “abreijos”, os que têm longas dissertações aparvalhadas ou kitsch sobre o Natal e Ano Novo, os que trazem água no bico quanto a um favorzinho a pedir no próximo futuro, os que, na pretensão de inovar nas palavras gastas, fazem textos em que a emenda é pior do que o soneto.
Enfim, tratamentos de massa, cumprimentos de circunstância, anonimato de relação, eis tudo o que o Natal não é.
Por isso, uma súplica virtual: por favor, servidores de todo o mundo, uni-vos e façam greve!
Não escrevo cartões e evito emails e SMS. E agradeço que me tirem de listas de destinatários. Prefiro falar com as pessoas que me interessam, e assim, as reencontrar, que esse é um sinal do que o Natal é.
Sou católico. Mas confesso que tenho que fazer um enorme esforço para encontrar ou descobrir uns momentos de quietude, espiritualidade e paz de espírito para sentir o Natal em que acredito. Para sentir o Natal e não apenas passar por ele. Porque o que me é quase imposto é um abastardamento soez do aniversário do nascimento do Menino.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

RECUSOU PERCEBER E ACEITAR


Carta escrita em S. Domingos de Rana, sem data mas com horas: «Quatro e meia da manhã, como irremediavelmente de costume». E estre começo:

«Isabel querida, doce presença de quando estou só.»

Mário narra que estivera, num serão, na casa do escritor Manuel da Fonseca: «Poker, claro. Poker e brandy. Abundância das duas coisas»

Adiante:

Isabel, é assim. Agora estou aqui e queria ver-te. Não pode ser, claro, sejamos ajuizados e muito dignos. Como não pode ser e eu sou ajuizado, escrevo-te. Não sei até que ponto te aborrecerei ou te darei prazer. Não faz mal, um dia saberei.
Isabel, querida menina sorridente tão suavemente feminina, como eu gostava agora que fosses tu quem me sorrisse quando eu fosse até lá dentro, como eu desejaria passar um braço pelos teus ombros, esfregar a cara nos teus doces cabelos, beijar-te com carinho e proteger-te com a força que sinto no meu corpo e que queria poder dar-te! Isabel, Isabel, estou agora, nesta idade e nesta solidão, a dizer-te o que até hoje tive guardado e que não pude dar a ninguém, nem sequer à Dietlinde porque ela recusou sempre perceber e aceitar. Querida, creio que em certa altura começo a ser ridículo, com isto de te querer dizer tudo o que está em mim. Olha, se assim for, afinal nada mais peço do que cumprir o vaticínio do nosso estimado Fernando Pessoa:

Todas as cartas de amor
são ridículas.
Se não fossem ridículas,
não eram cartas de amor,
ridículas.

E pronto, aqui estou eu justificado à custa do ilustre vate. Além disso, escrever uma carta de amor é bom, é um aviso de que ainda estamos vivos e continuamos a acreditar que vale a pena está-lo.

Pelo (não) ridículo das cartas de amor, fica aqui uma nota de rodapé tirada do Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago, publicado em 1984, que Mário-Henrique Leiria não leu, pois deixou-nos em Janeiro de 1980:

«… não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de amor.»

Legenda: pintura de François Clouet

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Partido Comunista Português entregou na Assembleia da República um projecto de resolução que recomenda ao governo que inicie o processo de recuperação do controlo e gestão do serviço postal universal por parte do Estado, através da reversão da privatização dos CTT.

Segundo o projecto dos comunistas, mais do que uma empresa que garanta lucros e dividendos, «os Correios devem ser o garante de um serviço público efectivamente ao serviço do País e das populações, ao serviço da economia nacional e do desenvolvimento, com uma gestão que vise o equilíbrio económico-financeiro e o investimento na melhoria da qualidade».

Para o PCP, existiram na última década políticas que colocam em causa o serviço público postal, como a «redução de balcões», a «degradação do serviço», o «agravamento dos preços», praticadas por «sucessivas administrações, impostas pela política de direita» e que se associam à privatização e liberalização dos serviços postais, preconizada pela União Europeia, «com a cumplicidade activa dos sucessivos governos nacionais».

Os CTT foram totalmente privatizados pelo governo de direita do PSD e CDS em 2014.

Nicolau Santos escrevia no Expresso de 17 de Junho de 2017:

«O Governo PSD/CDS decidiu privatizar os CTT não porque dessem prejuízos (davam bons lucros) ou por causa do quadro europeu (em 2013, 80% dos correios na UE a 28 eram públicos) ou porque os privados fossem mais competentes (se a missão dos correios for entregar cartas e encomendas, não há nenhum privado que disponha de uma rede melhor). Ou seja, as razões para a venda dos CTT foram sobretudo ideológicas. Mais nada justifica um negócio tão estúpido para o Estado e para os utilizadores dos CTT. Com efeito, os primeiros prejudicados pela privatização têm sido os clientes tradicionais dos CTT, sobretudo as pessoas idosas que se deslocam aos seus balcões para receber pensões ou enviar/levantar encomendas. Desde 2015, quando a empresa foi privatizada, fecharam 133 estações de correios e 90 postos de correios, foi reduzido em 1018 o número de trabalhadores e deixou de haver distribuição diária de correio.
(…)
A ideia que dá é que os CTT estão a deixar de saber fazer o que sabiam e a meter-se por caminhos que não dominam. Por Outras palavras, tem tudo para correr mal. A não ser para o presidente dos CTT, que ao passar de gestor público em 2014 para gestor privado, passou a ganhar mais 110% (943.700 euros), aumentando exponencialmente a disparidade salarial entre o CEO e os trabalhadores de 21,8 vezes para 45,3, o segundo maior agravamento entre todas as cotadas naquele período. Ou seja, os utentes dos correios estão pior mas o presidente está melhor. Já é um sinal de sucesso desta excelente estratégia.»

sexta-feira, 16 de junho de 2017

É MELHOR NÃO RECEBER CARTA


!5-2-1967
Recebi carta da K. Faltam de 283 a 320 (*) e o dinheiro que me enviou. Como penso, é melhor não receber carta – a minha boa disposição para escrever, fugiu! E a K. tem um pouco a culpa! É pena não poder ter nem por escrito, uma boa jardinagem – ela pensa que tudo é à medida de nossos desejos e não reflecte um pouco senão não mandava cartas volumosas nem dinheiro como ela aliás, bem sabe, e diz! Vai-me ser difícil escrever a carta de resposta. De tudo isto fuca-me o amargo de a irritação se voltar contra quem não devo. A propósito de Eusébios, Duo Ouro Negro etc… a mentalidade geral é a de saber qto ganham, como empregam as massas, se estão a gastar em vez de guardar para o «futuro» criticando os que gastam as massas com a sua vida bem vivida.

(*) José Luandino Vieira e L. numeravam todas as cartas que trocavam com o objectivo de controlar as que não eram entregues. Aqui o autor refere-se à não entrega das cartas de L. respeitantes ao intervalo de páginas 283-320.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

CORREIO DE LIXO


O Sarzedas abria com vagares de velho a porta do seu gabinete no rés-do-chão e recolhia uma ou outra carta que ainda lhe iam metendo na caixa do correio. Contas, circulares da Ordem dos Advogados. Correio de lixo. Sentava-se na cadeira de espaldar depois de correr um pouco as persianas. Parava. Estava cansado. E punha-se a escutar o tropel das mulheres eternamente despenteadas mesmo que de cabelos demasiado curtos.

Alexandre Pinheiro Torres em Vai Alta a Noite

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo.

Luiz Pacheco

AS CARTAS DO PACHECO


Se existiu alguém que deu trabalho aos Correios de Portugal, Luiz Pacheco está no pelotão da frente.

Através do seu ficheiro pessoal enviava aos leitores, à cobrança, os livros da Contraponto,

Por tudo e por nada, enviava, cartas e bilhetes-postais, a meio mundo e parte do outro.

Numa entrevista chegou a observar:

«As pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira», mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.»

Para os livros da Contraponto Pacheco não invocava nada.

Lessem ou não lessem, o importante é que mandassem o guito,  para ajudar à sobrevivênciazinha.

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Já em Maio de 1974, Pacheco lança, na Estampa, Pacheco Versus Cesariny, um folhetim inventado e montado.

Entre a muita correspondência que por lá abunda, há uma carta do crítico e escritor Manuel de Lima, que começa assim:

«Acabo de saber, com grande surpresa e algum alarme que, todas as vezes, que lhe escrevia por uma simples necessidade de comunicar consigo, estava inadvertidamente a escrever para a história.»

Na conversa que Rui Zink e Carlos Quevedo mantiveram com Luiz Pacheco, foi-lhe perguntado como tinha surgido a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas.

Pacheco respondeu:

«No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco versus Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só.»

Os jornalistas lembram-lhe que as pessoas podiam ficar chateadas com a publicação das cartas.

Pacheco não desarma:

«Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois, um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca maus me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca era mais de 100 ou 200 paus…»

Em Fevereiro de 2002, Bernardo de Sá Nogueira, edição Alexandria, transcreve treze cartas e quatro postais de Luiz Pacheco para o poeta António José Forte. 

O livro chama-se Mano Forte.

Pacheco não gostou.

Na entrevista a João Pedro George, publicada em O Crocodilo que Voa, explicou:

«Um tipo sabe que fulano António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais. Guardou, morreu, foi para às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… Depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial, e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra…»

Luiz Pacheco no seu Memorando, Mirabolando, Setembro de 1995 para além de outros textos, publica cartas enviadas a Mário Cesariny de Vasconcelos, Pepe Blanco, Jaime Aires Pereira, Jaime Salazar Sampaio, Vitor Silva Tavares e Maria Manuela Ferreira.

Muito mais postais e cartas existirão por aí espalhados em jornais, jornalecos, revistas, revistecas.

Talvez algum dia se faça a necessária divulgação de toda essa correspondência.

Talvez…

Legenda: pintura de William Albanese

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

ENTÃO, É NATAL!


Finalizei, há pouco,uma das tarefas natalícias que mais gosto me dá: o envio de cartões de Boas-Festas aos filhos, aos netos, aos sobrinhos, aos amigos.
Serei sempre uma incondicional de mandar postais pelo correio.
Nem telefonemas, nem s.m.s., nem mails.
Comigo, a tradição é sempre tradição.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

CORRESPONDÊNCIA


Santarém, 22 de outubro de 1795.

«Exmo. Sr. Duque de Cadaval:

Se meu nascimento, embora humilde, mas tão digno e honrado como o da mais alta nobreza, me coloca em circunstância de V. Excia. me tratar por tu, caguei para mim que nada valho. Se o alto cargo que exerço, de Corregedor da Justiça do Reino em Santarém, permite a V. Excia., Corregedor Mor da Justiça do Reino, tratar-me acintosamente por tu,caguei para o cargo. Mas, se nem uma nem outra coisa consente semelhante linguagem, peço a V. Excia. que me informe com brevidade sobre estas particularidades, pois quero saber ao certo se devo ou não cagar para V. Excia. 

Intendente Pina Manique

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

OLHARES


Em algumas terras da província, ainda é assim.
O importante é que as cartas, os postais, chegam ao destino.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

CORREIO


Tempo houve em que a chegada do correio era o ponto alto de qualquer aldeia, em qualquer parte do mundo, a grande hora.

Da importância da chegada do carteiro fala este poema de Carlos Drummomd de Andrade.

Tirei-o de uma colecção, de periodicidade quinzenal, editada em Portugal em 1980, que dava pelo nome de Literatura Comentada.

A grande hora da chegada
do Correio.
Ninguém te escreve, mas que importa?
Correio é belo de chegar.
Surge no alto da ladeira
a mula portadora de malas,
trazendo o mundo inteiro no jornal.
O Agente do Correio está a postos
com os filhos funcionários a seu lado.
É família postal há muitos anos
consagrada a esse ofício religioso.
As malas borradas de lama
com registrados e impressos
que a chuva penetrante amoleceu
abrem-se perante os destinatários
como flores de lona
vindas de muito longe.
Cada família ou firma tem sua caixa aberta
onde se deposita a correspondência
mas bom é recebê-la fresquinha das mãos
de Sô Fernando, que negaceia,
brinca de sonegar a carta urgente:
-- Hoje não tem nada pra você.
-- Mas eu vi, eu vi na sua mão.
-- Engano seu. Quer um conselho?
Vai apanhar tiziu, que está voando
lá fora.
Ver abrir a mala é coisa prima.
Traz as revistas de sábado
com três dias de viagem morro acima
abaixo acima, e o cheiro liso do papel
invadindo gravuras: Duque dança
as barbas de Irineu bolem na brisa
do Senado, e  na Rússia
o czar Nicolau tem o olhar vago
de quem vai ser fuzilado e ainda não sabe.

Tudo chega na hora
 do Correio. a mula é mensageira
do Fato, e sabe
antes de nós toda a terrestre
 aventura. Mal comeu
 sua cota de milho, já prossegue
 rumo do Itambé, levando o mundo.

Legenda: pintura de William Albanese

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Os CTT, como muitos portugueses conheceram, já não existem.

O nome é o mesmo mas não tem nada a ver com os velhos CTT.

Este é um anúncio que incentivava as crianças das escolas a escrever cartas, ir à estação, comprar um selo e colocá-las no marco do correio.

Sim, porque uma carta começa pelo envelope e pelo selo.

Quase deixamos de conseguir escrever à mão.

Lembro-me das Cartas ao Director do Diário Popular.

Alguns jornais ainda mantêm a secção, mas as cartas são enviados por mail.

Um número que tenho por aqui:

No Natal de 2005 os portugueses trocaram 320 milhões de SMS com votos de Boas Festas.

Números completamente desactualizados, mas não tenho outros.

Hoje serão muitos e muitos mais.

É brutal o número de pessoas que se tornaram adeptos das Boas Festas digitais.

As cartas que ainda circulam, propaganda, contas para pagar, a esmagadora maioria não trazem selo, apenas uma vinheta, ou a frase: porte pago.

De cada emissão de selos os CTT produzem 250 mil selos mas apenas 50 mil são para consumo, o resto vão para os coleccionadores.

Hoje já ninguém escreve cartas.

Espero que esta minha carta te vá encontrar…

Lembram-se do Carteiro do Conjunto António Mafra?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Desde longos anos, tantos que já não sei quantos são, voltei hoje a cumprir a grata tarefa de me deslocar à Estação de Correios para colocar os cartões de Boas-Festas para os meus netos e filhos, outros familiares e os meus amigos.
É com imensa alegria que o faço.
Faz-me sentir bem.
Comigo, não funcionam nem SMS, nem Mails, nem Facebook.
E assim continuarei.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

POSTAIS EM SELO


A utilização compulsiva e acrítica das novas tecnologias de informação e comunicação está, progressivamente, por mais absurdo que possa parecer, a isolar-nos uns dos outros e a imbecilizar-nos. Cada vez se pensa pior e se comunica pior, pelos olhos, pelos gestos, pelas palavras. Estamos num processo de dessocialização da sociedade. Não sei se queremos isso e se temos consciência disso...

Ademar Santos