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quarta-feira, 31 de julho de 2019

A CASA É A SOMBRA DO VIAJANTE


Talvez as viagens, todas as viagens, se façam principalmente pelo lado de dentro. Talvez, quem sabe?, o viajante, procurando um mundo, caminhe sempre de regresso a casa.
Porque tudo o que o viajante deixou atrás de si o segue. A casa é a sombra do viajante. Ele próprio é, provavelmente, apenas a sua sombra.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

Legenda: pintura de Claude Monet

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O REGRESSO


Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Manuel António Pina em Comose Desenha Uma Casa

terça-feira, 21 de maio de 2019

A CASA


Entre o empedrado e a casa
não existe jardim
e tens de descer dois degraus
antes de encontrares a porta.
Cerrada e com dois batentes.
Aproxima a mão da gárgula esquerda.
O tempo passará sem que nada aconteça.
Debaixo de um vaso de begónias,
a chave.
Ainda assim terás de fazer força
com o ombro esquerdo
contra a madeira de carvalho.
Não esperes, porém que esse ruído
desperte qualquer lembrança,
em ti ou na casa.
Há mais de trinta anos que ninguém
aqui entra.
Apenas tu guardavas a memória,
sem o saber, este caminho.
Depois de teres atravessado escarpas,
florestas de enganos, desertos,
hoje o regresso?
Com palavras e prolongados silêncios
talvez o descubras.
Um conselho de amigo: ao entrares
não chames, não perguntes
ou digas o nome
de alguém.
Esta é a casa
que nalgum lugar da terra
te está destinada.
Senta-te à mesa com os mortos e escreve.

Jorge Gomes Miranda

Legenda: ilustração de Morten Morland

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

NA CASA DEFRONTE DE MIM


Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.

Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.


Nada! Não sei...
Um nada que dói...

Álvaro  de Campos em Poesias

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A MULHER E A CASA


Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

NÃO SERÁ MANHÃ NUNCA


Começamos por uma casa, pelo sentimento uma força em exercício, um poder que vem de há muito tempo, quando essa casa era igual mas era uma herdade, um latifúndio, quando nada faltava - a família, as empregadas na cozinha, o feitor, os campos, a vila ao fundo, e a voz do avô a comandar o mundo. Agora há fotografias no Alentejo em vez de pessoas, e há objectos, cientes que também acabarão sem ninguém, há memórias de quem dorme, ou morreu, mortos que não sabem se a vida foi vida, há os irmãos, um é autista, e a imagem da mãe muito nítida, sempre de costas (alguma vez a vi sem ser de costas para mim?). Nessa altura já não se sabia a que cheira o vento, como não se sabe para onde foi a Maria Adelaide, morta também, foi para Lisboa? A herdade foi tirada ao autista, e a doença (de quem?) é um arquipélago branco nas radiografias dos outros, um arquipélago normal, inocente. Estão todos mortos ou estão todos a sonhar e trocaram de sonhos, como se pudessemos trocar de sonhos. De qualquer forma, sabemos que daqui a nada será manhã - mas aquilo que se disse ainda se ouve lá dentro: (- Não precisa de se casar comigo menino o seu pai nunca casou comigo). E então vamos sabendo que não será manhã nunca.

António Lobo Antunes



Legenda: fotografia de Arthur Rothstein

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

AS CASAS


Há sempre um deus fantástico nas casas
Em que eu vivo. E em volta dos meus passos
Eu sinto os grandes anjos cujas asas
Contêm todo o vento dos espaços.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 10 de maio de 2018

LER, NÃO CHEGA...


Fabriquei eu todo o vidro preciso nas janelas de uma casa à minha medida. Uma parte-de-casa, digo, algures, ou de alguém. Importava ficar-se ao abrigo de ventos de granizo, ter uma referência nascida do empreendimento destas mãos. O que me imiscuiu em tantas e perdulárias moradas. Logo em muito miúdo habituara-me a pequenos domínios como o cantinho de uma marquise solarega, clara, onde o vão entre quatro pés do tanque em cimento me bastava para tecer cobiçosas intrigas. Jamais me atrevia a espiar o território adulto, verdadeiro campo de treino para a desconfiança e o desatino. Era como escolher encosta íngreme da ravina o mergulho directo num casulo.
Vivi, pois, durante uma época, ainda que muito brevemente, numa casa cujas janelas me inclinavam para as traseiras de um poeta: Raul de Carvalho. Cantava; ouvia-se-lo cantarolar sobre quintais e saguões, à luz de ouro no Outono lisboeta. E ia pondo a sua roupa lavada no estendal, na alegria doce de quem vive, não sozinho: na companhia de versos em louvor dos nadas do dia-a-dia. E o seu vidro saía cortado à medida da sua casa. Algo de que nunca eu me cansei, repetindo, repetindo iguais gestos, decerto, na minha própria construção. Ler, não chega; há que ver e ouvir pela abertura do coração, comovidamente. 

Paulo da Costa Domingos em Narrativa

quarta-feira, 11 de abril de 2018

CASA


A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

Carlos de Oliveira em Sobre o Lado Esquerdo

Legenda: pintura de Tony D’Amico

terça-feira, 20 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS



Paiol de Pólen

Joaquim Pessoa
Círculo de Leitores, Lisboa, Agosto de 1983

As casas

Oh as casas as casas as casas suspirou Ruy Belo

Quando olhamos para as casas alguma coisa estremece
alguma coisa chama alguma coisa espera

Olho-te com os olhos das casas respiro-te ao abrir cada janela
e atravesso as portas como se penetrasse o teu corpo
angustiado e nu
conquistando o interior da casa o ventre do teu ventre
soltando meu grito quando o coração em vértice
desce para as mesas
e um fino pó se ouve cair das lâmpadas

Dentro da casa agitam-se as bandeiras do ar
quando os teus passos se moldam ao silêncio
e tudo é escuro espesso e escuro
e nada se passa no meu peito nada em festa corre para as tuas mãos

Se nos olhamos nos olhos olhamos para as casas
porque as casas têm um sol bancos de jardim e lâmpadas
que se acendem apenas com os beijos

Esquecemo-nos de tudo e olhando
construímos as casas
habitamos as casas
amamos as casas
pertencemos às casas
e morremos nas casas procurando conhecer o seu último segredo
sua voz
suas ruínas

As casas vestem o silêncio com uma roupa dura
entregam-no depois em nossas mãos
e permitem-nos palavras boca a boca
e gestos quase puros
porque nenhuma dor magoa a sua própria morte

Todas as casas são
o interior da noite

sábado, 28 de outubro de 2017

O PESO DA VELHA CASA DESERTA


Olhou para onde há pouco havia sol e já não o viu. E um silêncio definido (definitivo) veio cair sobre ele, o peso da velha casa deserta, e obrigou-o a ficar ali, quieto e calado, com medo de olhar para trás, quieto e calado, como coisa morta.

Luiz Pacheco em Exercícios de Estilo

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

AS CASAS


As casas pertencem as quem as torna melhores.

Bertolt Brecht

terça-feira, 27 de junho de 2017

POSTAIS SEM SELO


As casas também têm vida. É uma vida de trabalho.

Paula Nunes, habitante de Derreada Cimeira, aldeia de Pedrógão Grande.

Legenda: imagem do Jornal de Notícias

sábado, 20 de maio de 2017

AS CASAS


As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa


José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 21 de abril de 2017

BASTA UMA JANELA PARA ME FAZER FELIZ


Verdade seja dita: não tenho muitas queixas a fazer do Destino. E aqui no estágio, além do mais, encontrei uma varanda linda: Linda porque Lisboa é linda e vê-se metade dela da varanda da sala 19. Uma vez subi a um quarto andar onde mora um tipógrafo; ia com ganas de lhe comer os fígados, porque me andava a enganar desde que o livro entrara na oficina. Pois recebeu-me, lá no alto, um sol magnífico a cair sobre Lisboa: isto tudo visto por uma pequena janela. Adeus, fúrias, adeus palavras como punhais! Basta uma janela para me fazer feliz e foi o que me aconteceu, quando cheguei à sala 19. Era o castelo, era o Tejo, era a cidade de mármore e granito (como dizem) a espreitar para dentro da aula. Vai, que fiz eu? Como queria tomar o pulso aos rapazes em matéria de escrita, propus-lhes aquele tema. «Da varanda da nossa aula» podia muito bem ser o título da redacção; mas também podia ser outro, à escolha do freguês. O que eles escrevessem servia para eu ver como escreviam, como viam e como imaginavam.

Sebastião da Gama em Diário

segunda-feira, 17 de abril de 2017

QUOTIDIANOS


A electricidade não é cara, as casas é que estão mal construídas.

António Mexia, presidente da EDP

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 2 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


... uma casa aberta para o sol.


Legenda: fotografia de Yves Bottineau.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O SOL DA CASA


Sou o que veio por um momento
de sol.

Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.

Venho até ver com o sol
 ouro do campo
da casa.

Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.

Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.

António Ramos Rosa em Respirar a Sombra Viva

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

AURORA BOREAL



Tenho quarenta janelas,
nas paredes do meu quarto,
sem vidros nem bambinelas,
posso ver através delas,
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea,
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza,
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança,
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa.
E o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio,
a que se chama poesia.
E a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade.
E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro,
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.
Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra,
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta,
falta-me a luz e o ar.

António Gedeão em Poesias Completas

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


“Vi uma bela casa de tijolos vermelhos, com gerânios nas janelas e pombas no telhado...” elas não conseguem imaginar uma casa. É preciso dizer-lhes: “vi uma casa de quinhentos contos...”. Então exclamam: “Ai que bonita!”

Antoine Saint-Exupéry em O Pricipezinho