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sexta-feira, 27 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Livro de Cesário Verde
Seguido de Algumas Poesias Dispersas

Cesário Verde
Edição revista por Cabral do Nascimento
Editorial Minerv, Lisboa s/d

Arrojos

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos «mignonnes» e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.

E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

LEITE-CREME


Nós podemos viver alegremente,
sem que venham, com fórmulas legais,
unir as nossas mãos eternamente,
as mãos sacerdotais.

Eu posso ver teus ombros desnudos,
palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
e até beijar teus olhos tão ramudos,
cor de azeitona escura.

Eu posso, se quiser, cheio de manha,
sondar, quando vestida, p’ra dar fé,
a tua camisinha de bretanha,
ornada de crochet.

Posso sentir-te em fogo, escandecida,
de faces cor-de-rosa e vermelhão,
junto a mim, com langor, entredormida,
nas noites de Verão.

Eu posso, com valor que nada teme,
contigo preparar lautos festins,
e ajudar-te a fazer leite-creme,
e os mélicos pudins.

Cesário Verde