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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

UM IMENSO FASTIO DE TUDO


O fim.
O Futuro foi algo que Pavese nunca quis alcançar.
Terá sido?
18 de Agosto de 1950.
Lança para o seu Diário:

A coisa mais secretamente temida acaba sempre por acontecer.
Escrevo: ó Tu, tem piedade. E depois?

Basta um pouco de coragem.

Quanto mais a dor é determinada e exacta, tanto mais o instinto de vida se revolta e a ideia de suicídio tomba.

Quando em tal pensava, parecia fácil fazê-lo. No entanto, há pobres mulheres que o fizeram. O que se requer é humildade, não orgulho.

Um imenso fastio de tudo.
Basta de palavras. Um gesto. Não escreverei mais.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

BALANÇO DESTE ANO QUE NÃO TERMINAREI


17 de Agosto de 1949

Os suicidas são homicidas tímidos. Masoquismo em vez de sadismo.

O prazer de fazer a barba depois de dois meses de reclusão –de me barbear a mim próprio. Diante de um espelho, num quarto de hotel, lá fora o mar.

É a primeira vez que faço o balanço de um ano por concluir.
No meu ofício, portanto, sou rei.
Em dez anos consegui tudo. Quando penso nas hesitações de outrora.
Na minha vida, sinto-me desesperado e perdido como não me sentia então. Que acrescentei? Nada. Ignorei durante alguns as minhas taras, vivi como se elas não existissem. Fui estóico. Era heroísmo? Não, não me custou. E depois, ao primeiro assalto da «inquietação angustiosa», caí de novo nas areias movediças. Debato-me desde Março nelas. Não têm importância os nomes. Serão por acaso mais que nomes dados pela sorte, nomes fortuitos – esses, ou outros? Resta que sei agora qual é o meu maior trunfo – e a tal triunfo falta a carne, falta o sangue e falta a vida.
Nada tenho a desejar nesta terra, excepto aquilo que quinze anos de insucesso excluem a partir deste momento.
Eis o balanço deste ano por terminar e que não terminarei.

Espantas-te de que os outros passem a teu lado e não saibam, quando tu p+roprio passas ao lado de tanta gente sem saber: Não te interessa qual o pesar de cada um, o seu cancro secreto?

Cesare Pavese em Ofício de Viver

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

UMA FLOR DO APRAZÍVEL VALE DO PÓ


16 de Agosto de 1949

Querida, és tua talvez a melhor – a verdadeira. Não tenho, porém, tempo de to dizer, de to comunicar – e depois, mesmo se pudesse fazê-lo, ficará sempre o sinal, o sinal, o fracasso.
Vejo claramente, hoje, que dos vinte anos até agora vivi sempre sob esta sombra – alguns diriam que é um complexo. Que o digam então: é algo muito mais simples.
Tu, tu também és a Primavera harmoniosa, inacreditavelmente suave e flexível, suave, fresca, fugaz – corrompida e boa - «uma flor do aprazível vale do Pó». Diria alguém que conheço.
E no entanto, tu és, tu também, um pretexto apenas. A culpa além de ser minha, é apenas da «inquietação angustiosa, que sorri solitária».

Morrer porquê? Nunca me senti com tanta vida como agora, nunca tão adolescente.

Nada se acrescenta ao que ficou para trás, ao passado. Recomeçamos sempre.

Um prego expulsa outro. Mas quatro pregos fazem uma cruz.

O meu papel no mundo cumpri-o – fiz o que podia. Trabalhei, dei poesia aos homens, tomei parte no sofrimento de muitos seres.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A ESCURIDÃO TOTAL


8 de Maio de 1950

A cadência do sofrimento começou. Ao fim da tarde, ao cair da noite, o coração aperta-se-me até chegar a escuridão total.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

domingo, 9 de dezembro de 2018

NO NOSSO NADA


25 de Março de 1950

Ninguém se mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmos na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

MANHÃ CLARA


Calcorreamos as últimas páginas do Ofício de Viver de Cesare Pavese.
A 28 de Novembro de 1949 perguntava: «Mas se um dia não volto a mim».

18 de Dezembro de 1949

Ontem à noite vento quente, leitura de mitos e lendas africanas. É manhã, manhã azul, fresca e calar de sol. As lendas são a história do que acontece pela primeira vez e têm um aspecto de simplicidade e um lado prodigioso. Mesmo se contam um facto não original, o tom é este: simples designação, nunca descrição, nem adjectivos; estrutura rítmica que constitui o drama, o suspense.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

domingo, 18 de novembro de 2018

CANSAÇO EXTREMO


28 de Novembro de 1949

Cansaço extremo – é uma palavra – mas que significa? É agradável, um leve sobressalto como que de embriaguez, e volto a mim com os dentes cerrados. Mas se um dia não volto a mim?

Cesare Pavese em Ofício de Viver

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

TRABALHO DE ESCRITOR


Porque é que o escritor não deve viver do seu trabalho de escritor? Porque então teria de fornecer uma determinada mercadoria. Deixa de ser livre perante si próprio. A todo o momento o escritor deve poder dizer: não, não escrevo isto. Isto é, ter outro ofício.
Haverá coisa mais arriscada do que sustentar uma família à custa dos romances que escrevemos ou, de uma maneira geral, à custa da pena?

Cesare Pavese em Ofício de Viver

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

EM BUSCA DE UM SUCEDÂNEO


10 de Fevereiro de 1948

Terça-feira (constipado e com febre), comecei outra vez a fumar há dois dias e senti novamente a irritação terrível, intolerável. Desisti-desistir. O mesmo jogo de há vinte anos, quando me engasguei com o fumo do cigarro e tive de desistir. Encontrarei um sucedâneo?

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: Cesare Pavese.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

INVERNO


20 de Janeiro de 1948

Sinto-me triste, inútil, como um deus.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: Cesare Pavese

sábado, 6 de outubro de 2018

O QUE NÃO RESOLVE NADA


18 de Agosto de 1947

Uma obra não resolve nada, assim como o trabalho de uma geração não resolve nada. Os filhos – o amanhã – recomeçam sempre e ignoram alegremente os pais, o já feito. É mais aceitável o ódio, a revolta contra o passado do que esta beata ignorância. O que havia de bom nas épocas antigas era a sua constituição graças à qual se olhava sempre para o passado.  Este o segredo da sua inesgotável plenitude. Porque a riqueza de uma obra – de uma geração - é sempre determinada pela quantidade de passado que contém.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

MASSACRES DE FOLHAS


A mais suave, pacata e mole das estações, o Outono, suplanta a anterior e instala-se com sobressaltos medrosos, temporais enormes, manhãs escuras, turbilhões e massacres de folhas que fazem compreender quanta violência custa a maturidade

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: Meg Ryan e Billy Cristal em When Harry Meet Sally de Rob Reiner (1989) 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

EXALTAÇÃO NA FÉ


23 de Junho de 1947

Um discurso de comício é da mesma natureza que o rito religioso. Escutamos para ouvir aquilo que já pensávamos, para nos exaltarmos na fé e confissão comuns.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

QUE SE PASSA?


4 de Março de 1947

Para ti, um amigo já não é um modo sintético de estar acompanhado, de viver, mas um passatempo, uma variante do cinema. Que se passa? Já não acredito no trabalho em comum. Trabalho sozinho e depois distraio-me. No tempo em que acreditava nos amigos, não trabalhava.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: imagem de Donald Fox

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

DUAS ATITUDES


26 de Janeiro de 1947

Há apenas duas atitudes – a cristã e a estóica. Provàvelmente a atitude comunista serve para as fundir – tem a caridade e o sentido da dureza, sabe afinal que tudo é duro e no entanto faz o bem.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

ESPERAR


15 de Setembro de 1946

Esperar ainda é uma ocupação. Não esperar nada é que é terrível.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

LIÇÕES


18 de Agosto de 1946

As lições não se dão, recebem-se.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

terça-feira, 14 de agosto de 2018

A PURA LEI DO MEU MITO


É ridículo procurar altruísmo numa paixão que é inteiramente feita de orgulho e volúpia.
Começo a fazer poemas quando a partida está perdida. Nunca se viu que um poema tenha modificado as coisas.
É o habitual marasmo de um fim de paixão – anárquico, estafado e cheio de veleidade. Mas desta vez, não houve paixão – melhor se vêem as componentes preguiçoso-voluptuosas do meu abandono. A pura lei do meu mito. Como conclusão da minha vida em Roma, não podia imaginar nada mais adequado.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O VERDADEIRO BEM QUOTIDIANO


Todas as noites, terminado o trabalho, terminado o restaurante, desaparecidos os amigos – regressa a alegria feroz, o refrigério de estar só. O único e verdadeiro bem quotidiano.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

segunda-feira, 30 de julho de 2018

UMA RESPOSTA DIFERENTE


Os intelectuais que não estão de acordo com o P.C. quanto à questão da liberdade deveriam perguntar a si próprios o que fariam dessa liberdade com que tanto se preocupam. E então veriam – afastadas as preguiças, os interesses confessados de cada um (vida cómoda, devaneio, sadismos elegantes) – que não existe caso em que dêem uma resposta diferente da resposta colectiva do P.C.

Cesare Pavese em Ofício de Viver