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sábado, 3 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Camarada

Cesare Pavese
Tradução: Adelino dos Santos Rodrigues
Capa: Manuel Dias
Editorial Minerva, Lisboa, Maio de 1974

Nesse tempo eu pressentia que ele não se fiava muito em mim, por mais que lhe dissesse ter lido certo jornal ou que discorresse sobre determinados temas. Todas estas coisas me vieram à ideia ali, em Roma, de desejei mais do que nunca tê-lo a meu lado.
Carletto exprimia-se como ele e achava que eu também tinha a minha quota-parte de responsabilidade nos acontecimentos. Em seu entender, era um dos muitos que de deixavam ficar de braços cruzados a ver em que paravam as modas. Como é que os fascistas tinham procedido? De um modo muito simples: deram-se as mãos, marchavam sobre Roma e tomaram-na. Nós também precisávamos de formar u bloco e resistir.
- Em que estás a pensar? – perguntei-lhe. – Queres conquistar Roma?...
Naquela tarde passeámos nas pontes até as luzes se acenderem. De vez em quando encostávamo-nos ao parapeito e conversávamos. Contou-me que todos os velhos estavam ainda vivos, tudo gente doutros tempos, disposta a arriscar-se. Era certo que alguns estavam no estrangeiro, exilados, e outros na cadeia, mas todos se mantinham firmes e não perdiam o contacto
- Os fascistas andam inquietos – disse-me – e as prisões estão a abarrotar. Há pessoas detidas em casa, com polícia à porta. Sabes que te digo? Nós, os novos, devíamos trabalhar junto das massas, auscultá-las e ajudá-las. Podíamos reunir fundos, distribuir imprensa clandestina e fazer propaganda junto das massas…
- Organizar mesmo uma greve – sugeri.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS


Noites de Festa

Cesare Pavese
Tradução: Rosália Braamcamp
Colecção Catavento nº 10
Editorial Minerva, Lisboa, 1964

Subia o caminho da colina e os antigos cenário de verde e de pequenos muros, à medida que surgiam nas curvas, pareciam fingidos.
Tanto tempo que tinha vivido longe, pensando nesta paisagem apenas em certos instantes de distracção, que a sua actualidade material me fazia agora o efeito de um símbolo do passado.
Mas não eram símbolos a brisa da tarde e o cheiro daquela terra. Voltava a encontrara aqui, corporalmente, a atmosfera da minha juventude, porque estas coisas nunca as tinha esquecido, e em longínquas províncias ou nas avenidas das cidades, muitas vezes tinha farejado o ar, como saboreando outros tempos.
Também a voz ao telefone não tinha sido um símbolo. Tinha-me feito estremecer, tanto me soara ao ouvido nítida e fiel à recordação. Provavelmente, Ginia não estaria conservada como a sua voz. A voz, é como o cheiro do nosso corpo, tudo quanto temos de mais inalterável. Mas não teria reconhecido Ginia, julgo, nem pelo cheiro nem tão-pouco pelo perfume.

sábado, 10 de setembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Praia

Cesare Pavese
Tradução: Alfredo Margarido
Capa: António Charrua
Colecção de Bolso nº 65
Portugália Editora, Lisboa s/d

Então voltou a calar-se outra vez. Eu pensava na estranheza do caso: tinha o dinheiro da viagem e não lho emprestava. Entretanto entrámos na ruazita, e a vista da oliveira irritou-me. Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz. 

sábado, 27 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


 O Verão

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Gil
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso nº 77
Portugália Editora, Lisboa Abril de 1965

Naquele tempo tudo era festa. Bastava sair de casa e atravessar a estrada para ficarem como loucas; e era tudo tão belo, especialmente de noite quando, ao regressarem mortas de cansaço, esperavam ainda que qualquer coisa acontecesse, que um incêndio estalasse, uma criança nascesse em casa ou até que subitamente viesse a manhã e toda a gente saísse para a rua e pudessem continuar a caminhar, caminhar até aos prados e para lá das colinas.

quarta-feira, 9 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS


Terras do Meu País

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Lopes Cipriano
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea
Portugália Editora, Lisboa, Março de 1969

- Sempre estás de acordo, Gisela? – murmurei.
- Mas tu, de um dia para o outro regressas a Turim. Não é esta a tua terra.
- Onde estiver uma rapariga bonita é sempre a minha terra. Podes estar descansada.
Noto que ficou satisfeita com a minha resposta.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


O Diabo Sobre as Colinas

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Gil
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Livro de Bolso nº 23
Portugália Editora, Lisboa s/d

- É inacreditável – disse - , mas a alma mais antiga que temos dentro de nós é a de crianças. Parece-me que continuo a ser uma criança. É o mais velho hábito que possuímos…

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

OLHAR AS CAPAS


A Lua e as Fogueiras

Cesare Pavese
Tradução e prefácio: Manuel de Seabra
Editora Arcádia, Lisboa s/d

Descemos pela ribeira sob a cúpula fria das árvores. Bastava passar junto àqueles charcos descobertos, para sentir o mormaço e o suor. Eu refletia acerca daquele mormaço, que aparecia diante do nosso prado, como sustento da vinha de Morone. Via-se, por cima, sobre os carvalhos, surgir as primeiras vinhas claras e um belo pessegueiro com algumas folhas vermelhaças, como as que havia no meu tempo, e alguma fruta caída na ribeira que parecia melhor que nenhuma. Estas macieiras e pessegueiros que no Verão têm folhas vermelhas ou amarelas, fazem-me água na boca, pois a folha assemelha-se à fruta madura e nós, por baixo, sentimo-nos felizes. Para mim, todas as plantas deviam dar frutos; como acontece na vinha.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Ofício de Viver

Cesare Pavese
Tradução de Alfredo Amorim
Capa de João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa Junho 1968

Os intelectuais que não estão de acordo com o P.C. quanto à questão da liberdade deveriam perguntar a si próprios o que fariam dessa liberdade com que tanto de preocupam. E então veriam – afastadas as preguiças, os interesses inconfessados de cada um (vida cómoda, devaneio, sadismos elegantes) – que não existe caso em que dêem uma resposta diferente da resposta colectiva do P.C.

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.