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quinta-feira, 26 de abril de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


As realizadoras Catherine Gund e Daresha Kyi reuniram uma série de testemunhos e documentos, mais as canções e fizeram um documentário de Chavela a cantora da voz rouca e sofrida, voz única, e ninguém como ela cantou a solidão.

Este género de filmes costuma estar muito tempo em exibição.

O lixo cinematográfico, esse, prolonga-se por meses em qualquer sala da cidade.
É como os livros que interessam: alguns nem chegam às livrarias, outros estão um ou dois dias nos escaparates. Os Josés Rodrigues dos Santos eternizam-se nos diversos espaços das livrarias.

Chavela, é um filme biográfico a não perder.


De um texto publicado no suplemento Mais Artes da edição do Diário de Notícias de 7 de Abril:

Cantava como quem morre e punha a vida na voz. Chavela Vargas (1919--2012) nasceu na Costa Rica mas fugiu para o México ainda jovem e integrou a tradição musical ranchera do país, fazendo-se respeitar numa sociedade patriarcal. Usava calças e bebia tequila como os homens. Não se assumiu publicamente como lésbica até aos 81 anos, mas entre as suas muitas amantes conta-se Frida Khalo. Depois de uma fase marcada pelo alcoolismo, regressou aos palcos, desta vez do mundo, pela mão de Almodóvar, que a eternizou nas bandas sonoras dos seus filmes.
Foi antes desse retorno aos palcos que Catherine Gund a entrevistou, em 1992, como relata: "Quando conheci Chavela Vargas, e filmei a nossa interação, ela tinha 72 anos e toda uma vida de canto, tendo sofrido com a bebida durante muito tempo. Tornou-se uma espécie de reclusa. Filmá-la naquele momento significou realmente preservar algo da sua memória para a posteridade. Eu estava convencida de que a carreira dela estava completa." São essas filmagens que abrem o filme, mostrando uma mulher sem medo. "Quem é que faz um comeback com aquela idade?", espanta-se Daresha Kyi.
Quando lhes perguntamos como definem Chavela e o seu canto rouco e abismal, as respostas são poéticas. "Era uma sereia cantando das profundezas de um mar de emoção", diz Daresha. Já Catherine descreve a sensação: "Quando a música acaba ainda estou completamente imersa no seu crepúsculo. Não tenho a certeza se isso equivale a absolvição, sobrevivência, transformação ou tudo ao mesmo tempo, mas sei que a sua música me deixa transformada.


sábado, 5 de agosto de 2017

MUITO MAIS HOMEM QUE MULHER


Gosto de charutos e de boleros.

Alguém disse que, enquanto houver quem ouça boleros e fume charutos, continuará a ser nula a taxa de suicídio entre essas gentes.

Fiz apontamento.

Devo muitas coisas às bandas sonoras dos filmes de Pedro Almodovar.

Lembro Luz Casal e Chavela Vargas.

Chavela Vargas morreu no dia 5 de Agosto de 2012.

Lembrei-me de um excelente texto publicado por Manuel S. Fonseca:

A voz de Chavela era mais do que flores. Não sei se diga rouca se diga transgressora. Por muito que goste dela, e gosto, Chavela não é a minha cantora de boleros favorita, mas é a que tem a biografia mais excitante. Muito mais homem do que mulher, Chavela vestia calças, poncho vermelho e pistola à cinta. Charuto na boca, saía, num tempo em que as mulheres não conjugavam o verbo, com o alcalde de su ciudad y otros amigos pelas mais nocturnas das ruas, emborrachava-se tanto como ele e os outros e disparava, antes ou depois, sobre o que eles disparassem. Terá dormido com mais mulheres do que eles todos juntos o que, mesmo que não seja verdade, também não é uma rematada mentira. Womanizer sem desculpa, foi o que foi.
Fez um tremendo sucesso com as suas rancheras, mas o que a ela me faz voltar e tantas vezes, é a sensibilidade dos boleros. O êxito fê-la saltar da ciudad para o mundo, Europas e Hollywood. Não deixou, por isso, de ser o homem que era, mulher portanto, roubando dos outros homens belas mulheres que nunca quiseram ser homens – logo ela que em pequena nunca tinha brincado com bonecas. Dizem que beijou a boca fresca de Ava Gardner que a ela (ou ele?) se terá rendido de tiro e queda. Boa pontaria, digo eu. Agora, apareceu uma carta de Frida Kahlo a confessar tremores e olhar nublado: “…es erótica. Acaso es un regalo que el cielo me envia” escreveu a pintora em carta descoberta há pouco e que acusam de apócrifa.
Será, mas apócrifa é tudo o que não é a estarrecedora interpretação da canção que a Frida sempre La Chabela dedicou. La llorona que se pode ver e ouvir abaixo.
Chavela tinha 93 anos. Continuava a gostar de armas e a dizer que quando se faz o que se gosta se deve fazê-lo a noite inteira.