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quarta-feira, 22 de maio de 2019

CHICO BUARQUE ENSINOU O QUÊ?


Quando recebi no telemóvel o alerta "Chico Buarque ganha o Prémio Camões" senti-me no direito de comemorar uma vitória: "ganhei eu, caramba, ganhei eu!".
Fui ler a notícia. Os seis membros do júri explicavam a razão desta atribuição do galardão literário pela "contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa".
E o que é que este português, de 55 anos, que escreve estas linhas, aprendeu com Chico Buarque?
Aos cinco anos de idade o meu corpo saltitava sempre que no rádio grande do meu pai soava "A Banda", a música que, quando passava, diz o verso final do refrão, ia "cantando coisas de amor". Chico Buarque impulsionou-me a dança.
Aos 10 anos de idade percebi como um indivíduo sozinho nada pode contra o cerco violento da indiferença. Bastou-me ouvir a história circular do operário de "Construção", que "morreu na contramão atrapalhando o sábado". Chico Buarque ensinou-me a identificar a injustiça social.
Aos 11 anos de idade percebi a inutilidade da divindade quando o coro masculino MPB4 repetia, em Partido Alto, "Diz que Deus dará/ Não vou duvidar, ô nega/E se Deus não dá?/Como é que vai ficar, ô nega?". Chico Buarque deu-me razões para ser ateu.
Aos 12 anos de idade intui, com os versos de Fado Tropical, como a brutalidade da colonização sangrou a pele dos povos e como as cicatrizes prevalecentes demoram séculos a fechar: "E o rio Amazonas/Que corre Trás-os-montes/E numa pororoca/Desagua no Tejo/Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um Império Colonial". Chico Buarque ofereceu-me uma identidade, um medo e uma esperança na Lusofonia.
Aos 13 anos de idade percebi, pela letra do pseudónimo Julinho da Adelaide (um autor inventado, usado para ludibriar a censura da ditadura brasileira, que até falsas entrevistas deu aos jornais...), que confiar na polícia pode ser perigoso, como constata "Acorda amor": "Tem gente já no vão de escada/Fazendo confusão, que aflição/São os homens/E eu aqui parado de pijama/Eu não gosto de passar vexame/Chame, chame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão". Com Chico Buarque descobri que, às vezes, está tudo certo se se ficar do lado errado.
Aos 14 anos de idade conspirei o sentido da canção "O que será (à flor da pele)": "Será, que será?/O que não tem decência nem nunca terá/O que não tem censura nem nunca terá/O que não faz sentido..." Chico Buarque revelou-me o secreto significado da palavra "liberdade".
Aos 15 anos de idade compreendi, ao ouvir "Mulheres de Atenas", que a minha mãe, a minha irmã e a minha namorada viviam num mundo pior do que o meu: "Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas/Geram pro seus maridos os novos filhos de Atenas/Elas não têm gosto ou vontade/Nem defeito nem qualidade/Têm medo apenas". Chico Buarque justificou-me o feminismo.
Aos 16 anos de idade espantei-me com o atrevimento de "O Meu Amor". "Eu sou sua menina, viu?/E ele é o meu rapaz/Meu corpo é testemunha/Do bem que ele me faz". Chico Buarque fez-me entender como o sexo pode, ou não, fazer um par com a palavra afeto.
Aos 17 anos comovi-me com "Geni", a prostituta que salva a cidade mas que a cidade despreza: "Joga pedra na Geni!/Joga bosta na Geni!/Ela é feita pra apanhar!/Ela é boa de cuspir!/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni!". Chico Buarque confrontou-me com a dignidade dos indignos.
Aos 18 anos de idade a história de "O Malandro" exemplificou-me como é sempre o mexilhão que se lixa: um tipo que foge de um tasco sem pagar a cachaça que bebeu provoca uma crise mundial. Mas, no final das crises, há sempre um bode expiatório: "O garçom vê/Um malandro/Sai gritando/Pega ladrão/E o malandro/Autuado/É julgado e condenado culpado/Pela situação". Chico Buarque antecipou-me a globalização e fez de mim um comunista.
Aqueles anos foram os tempos do meu caminho até à chegada à idade adulta, uma época anterior aos romances que Chico Buarque escreveu e que completam, com a verdadeira poesia de muitas das suas canções, um currículo mais do que suficiente para a atribuição do mais importante prémio literário em Língua Portuguesa.
Aqueles anos foram os tempos que moldaram o meu carácter.
Aqueles foram os tempos que moldaram o carácter de tantos outros e de tantas outras que, como eu, cresceram a ouvir estas canções mas que entenderam nelas tantas coisas que eu não entendi, que compreenderam nelas tantas coisas que eu não percebi, que tiraram conclusões destes textos muito diferentes das que eu tirei.
Mas, tenho a certeza, apesar de pensarem e sentirem de maneiras tão diferentes da minha, ontem, milhões de vós, ao saberem da notícia do Prémio Camões atribuído a Chico Buarque, tiveram o mesmo impulso que eu e comemoram: "ganhei eu, caramba, ganhei eu!".

Pedro Tadeu no Diário de Notícais

SARAVÁ; CHICO!


Chico Buarque de Holanda venceu o Prémio Camões 2018.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

AMANHÃS...


Jair Bolsonaro tomou posse como o 38º presidente do Brasil.

«Uma das nossas metas para tirar o Brasil das piores posições nos 'rankings' internacionais sobre educação é lutar contra o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino».

O Brasil junta-se aos grandes países que são dirigidos por gente demasiado perigosa.

Como vais ser, Futuro?

Chega-te aí e canta, Chico.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

TEMPO APÓS UM CONTRATEMPO


No primeiro dia do ano que vem, Jair Bolsonaro será o 38º presidente do Brasil.

Quase onze milhões de votos separam Bolsonaro (57.797.466 = 55,2%)  de Haddad(47.040.859 = 44,8%).

O Brasil está dividido.

Muitos dos que votaram em Bolsonaro, votaram na mudança.

Que mudança?

Esperar para ver, como diz o cego do costume.

No discurso de vitória ,Bolsonaro, jurou defender a liberdade, a democracia e ser o presidente de todos independentemente de região, cor ou orientações.

Não podemos mais flirtar com o comunismo, o socialismo, o extremismo.
O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

Amen, foi dizendo a futura primeira-dama, Michele de seu nome, a cada frase se Bolsonaro.

O resto não poderá ser o silêncio.

Devagar não se vai longe, tal como disse o poeta.

sábado, 27 de outubro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Haverá um governo, disse o primeiro cego. Não creio, mas no caso de o haver, será um governo de cegos a quererem governar cegos, isto é, o nada a pretender organizar o nada, Então não há futuro, disse o velho da venda preta, Não sei se haverá futuro, do que agora se trata é de saber como poderemos viver neste presente, Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considera ainda tão humano como antes cria ser.»

José Saramago em Ensaio Sobre a Cegueira

No dizer de Baptista-Bastos, Ensaio Sobre a Cegueira é uma verdadeira descida aos infernos.

Maria Alzira Seixo, num artigo no JL, «considera-o um livro impressionante, de leitura muito incómoda, mas que nos mantém presos até à última linha, e ainda bem, porque os últimos capítulos são uma espécie de libertação para as personagens, mas muito especialmente para o leitor, que se sente reconciliado com os problemas que lhe foram sendo postos ao longo dos capítulos, numa reconciliação que não é apagamento, mas antes intensificação dos problemas e das perplexidades que o texto levanta e configura, em proposta de reflexão e advertência para um olhar mais atento sobre o quotidiano.»

A ideia do livro ocorreu a Saramago, no dia 6 de Setembro de 1991, enquanto esperava que lhe servissem o almoço no restaurante Varina da Madragoa:

A pergunta que faz a si mesmo: E se nós fôssemos todos cegos?

De imediato saiu-lhe a resposta: Mas nós estamos todos cegos.

Mais tarde escreverá:

Estamos cada vez mais cegos porque cada vez menos queremos ver.

Segundo se pode ler no 3º volume de Cadernos de Lanzarote, Saramago terminou o livro no dia 8 de Agosto de 1995 quase quatro anos após o surgimento da ideia.

«E lutei, lutei muito. Só eu sei quanto, contra as dúvidas, as perplexidades, os equívocos que a toda a hora me iam atravessando na história e me paralisavam. Como se isto não fosse bastante, desesperava-me o próprio horror do que ia narrando. Enfim, acabou, já não terei de sofrer mais.»

Um jornalista do Públic” perguntou-lhe como gostaria de ser recordado.

José Saramago respondeu:

«Como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas, no “Ensaio sobre a cegueira”. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje como escritor. Se no futuro puder ser recordado como “aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher” ficarei contente.»


É este o pedacinho de oiro: 

«Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele. Quando enfim levantou os olhos, mil vezes louvado seja o deus das encruzilhadas, viu que tinha diante de si um grande mapa, desses que os departamentos municipais de turismo espalham no centro das cidades, sobretudo para uso e tranquilidade dos visitantes, que tanto querem poder dizer aonde foram como precisam saber onde estão. Agora, estando toda a gente cega, parece fácil dar por mal empregado o dinheiro que se gastou, afinal há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte, só ele sabe o que lhe terá custado trazer aqui este mapa para dizer a esta mulher onde está. Não estava tão longe quanto cria, apenas se tinha desviado noutra direcção, só terás de seguir por esta rua até uma praça, aí contas duas ruas para a esquerda, depois viras na primeira à direita, é essa a que procuras, do número não te esqueceste. Os cães foram ficando para trás, alguma coisa os distraiu pelo caminho, ou então muito habituados ao bairro e não querem deixá-lo, só o cão que tinha bebido as lágrimas acompanhou quem as chorara, provavelmente este encontro da mulher e do mapa, tão bem preparado pelo destino, incluía também um cão».

Legenda: capa de  Ensaio Sobre a Cegueira publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Chico Buarque de Holanda.

sábado, 15 de outubro de 2016

LOUVOR E DECEPÇÃO À VOLTA DO NOBEL



A atribuição do Nobel de Literatura a Bob Dylan provocou em Portugal reacções tão desencontradas como significativas.

O Nobel é o principal prémio literário internacional. Mas nem por isso deixa de estar confinado ao horizonte da Academia Sueca, por mais que esta tente alargá-lo, encomendando traduções de autores das mais variadas línguas e geografias.

Além disso, se colocarmos num prato da balança os escritores que receberam o Nobel e resistiram à passagem dos anos, e no outro os grandes romancistas que nunca o receberam, de Conrad, Proust e Virginia Woolf a J. L. Borges, é bem provável que o equilíbrio se rompa a favor destes últimos.

E ainda claro que há uma ou duas dezenas de escritores que poderiam receber o prémio este ano, de Javier Marías a Cormac McCarthy, e que, mesmo entre os poetas de canções, haveria alternativas como Leonard Cohen e Chico Buarque.

Mas parece que a Academia Sueca está decidida a inovar, desiludida talvez com a inexistência de grandes romances na última década. Isso explica escolhas inesperadas como foram no seu tempo a de Churchill, a da primeira mulher a receber o Nobel (Selma Lagerlöf) ou os textos jornalísticos de Svetlana Alexievich.

Até por isso as reacções são significativas. Abstraindo do «paternalismo» e visão conspirativa do crítico e escritor Bruno Vieira Amaral, que afirma que a Academia atirou o prémio à cabeça e que Bob Dylan não merecia tal gesto, houve dois tipos de reacções.

A dos poetas e críticos ligados à música, de Miguel Esteves Cardoso a Pedro Mexia, que se mostraram favoráveis ou até entusiasmados.

E, no pólo oposto, a de alguns editores, críticos e escritores, que tinham na sua lista de expectativas nomes que iam de Philip Roth a Murakami, e tiveram reacções perplexas ou desfavoráveis.

Há editores que condicionam o seu catálogo à procura dos nobelizáveis e que estão cada vez mais condenados a uma desilusão anual em Outubro
.
E o mesmo sucede com certos autores que a meio da vida vão acomodando a escrita à procura de um prémio que afinal só traz uma fama anual, uma viagem invernosa a Estocolmo, vendas não muito acrescentadas e solicitações, capazes de perturbar a mais fecunda das imaginações.
Foi assim que tivemos Alice Vieira a acusar esta atribuição do Nobel de desvirtuamento e a indicar Murakami como alternativa, e os habituais defensores de Pynchon.

Recorde-se que, quando o Nobel foi atribuído em 2013 a Alice Munro, a escritora Inês Pedrosa «denunciou» o facto de o prémio ser atribuído a uma simples contista (o que não impede que o seu último livro seja de contos e que sublinhe agora a importância deste género literário).

Ou seja, há ainda muitos críticos e autores ligados ao perfil que durante décadas serviu de referência à Academia Sueca e que Javier Marías resumiu no seu artigo «Não tão Memoráveis»:

«O escritor “conhecido” e popular terá além disso de (…) proclamar que apoia os oprimidos do mundo; ser um pouco perseguido no seu país (ou, à falta disso, dizer que o é); clamar muito no deserto e ser voz estridente das consciências adormecidas; deverá ser solene ou um pouco sombrio, a amargura nunca é de mais; a sua obra deve reflectir a miséria do homem contemporâneo, ou a fragilidade do homem contemporâneo, ou o desconcerto do homem contemporâneo, ou o seu egoísmo, ou o seu sofrimento, ou a sua maldade, ou a sua desorientação (em qualquer caso, algo negativo do homem contemporâneo, ou melhor, um lugar-comum a todas as contemporaneidades); por último, não deve falar muito de literatura nem ter qualquer sentido de humor.»

De qualquer modo, em favor de Bob Dylan pode dizer-se que com a sua obra musical, literária e pictórica será um dos vencedores do Nobel a perdurar. Levou o melhor da poesia à música das suas canções, absorvendo influências que vão desde Walt Whitman a Ashbery, passando por Allen Ginsberg e outros autores da Beat Generation. Nas suas letras criou personagens que nada devem às de obras de narrativa ficcional. E as suas crónicas inacabadas constituem uma referência de literatura autobiográfica.

P. S. Declaração de interesses. A Relógio D’Água publicou em 2006 uma ampla antologia da poesia de Bob Dylan (Canções 1962-2001).

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Brasil é longe – tanto mar! – tão grande, que dele quase nada sabemos.

O que os meios de comunicação social nos dão a ver, a ler, chega-nos deficiente, truncado.

Mas lemos Jorge Amado e outros, ouvimos Chico Buarque e outros.

Temos a nossa ideia.

Erros terão existido, mas a destituição de Dilma Rousseff da presidência do país, é um golpe.

Custa, mas custa mesmo, saber que Portugal tomou o partido dos golpistas:

O Governo português vem reiterar a sua vontade de continuar a aprofundar as relações bilaterais de excelência que ligam Portugal e o Brasil, alicerçadas num elo único e fraterno entre os dois povos", refere um comunicado do gabinete do ministro Augusto Santos Silva enviado às redacções. O comunicado é justificado pela "tomada de posse do Presidente Michel Temer" que se fez "no cumprimento das disposições constitucionais brasileiras", precisam os Negócios Estrangeiros,  rejeitando a tese de "golpe".

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO



 A memória é uma vasta ferida.

Chico Buarque em Leite Derramado

Legenda, fotografia de Ernst Haas

quarta-feira, 27 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Estorvo

Chico Buarque de Holanda
Capa: António Jorge Gonçalves
Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2019

Depois de certa idade, acho que o acervo de sonhos se esgota, e eles começam a reprisar. Mas como nada é totalmente péssimo, a memória de um velho também enfraquece, e ele já não tem a certeza se sonhou aquele sonho ou não. Vai reconhecendo as passagens mais marcantes e diz é «mesmo», mas não sabe direito o que vem pela frente. E se pela frente vier um precipício, um incêndio, um desastre de avião, a morte de todos os parentes, uma perseguição no labirinto, um cataclismo que a gente acorda sobressaltado e com falta de ar e solta um grito, senta-se na cama e perde o sono, o velho diz «eu sabia», ou «eu não avisei?». E emenda noutro sonho sem grande expetativa, mas sem maior enfado, preferindo resonhar todos os sonhos a atender à campainha da porta.

domingo, 1 de maio de 2016

PRIMEIRO DE MAIO


Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã

Chico Buarque de Holanda e Milton Nascimento


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ESTRAGARAM TUA FESTA, PÁ!


Tanto Mar (Versão de 1978)
Letra e Música de Chico Buarque de Holanda:

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a Primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim




domingo, 22 de junho de 2014

PORQUE HOJE É DOMINGO


                                 

Hoje, seria o primeiro domingo de Verão mas está mais de Inverno.
Chico Buarque fez 70 anos na passada quinta-feira , mas como o blogue tem andado um pouco aos tropeções, a efeméride não foi assinalada.
Também sempre dissemos que nunca havia uma grande preocupação com datas redondas.
Quem aparece, aparece quando a gente quiser e é dentro desse princípio que fica aqui o Chico e o seu Apesar de Você.
Sim, porque apesar do governo Passos Coelho, da má figura que, futebolisticamente, andamos a fazer por terras brasileiras, é bom não esquecer que amanhã será sempre um outro dia.
Temos é que marrar por isso.!
Apesar de tudo, fica o habitual Bom Domingo!


Amanhã vai ser outro dia

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Esse samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
De "desinventar"
Você vai pagar, e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
Antes do que você pensa
Apesar de você
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente
Apesar de você
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Você vai se dar mal,

Etc e tal

segunda-feira, 12 de maio de 2014

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Diferente era a cidade antes de ser invadida pelo pechisbeque dos Centros Comerciais.

Este anúncio da Discoteca Melodia e foi publicado no jornal A Voz de 12 de Maio de 1967.

Antes do incêndio que destruiu o Chiado, contavam-se cinco discotecas.

Na Rua do Carmo, a Melodia, a Universal e a Discoteca do Carmo.

Na Rua Nova do Almada, a tradicional Valentim de Carvalho e mais tarde, um pouco mais abaixo surgiu a Strauss.

Pelo menos duas vezes por mês fazia uma visita a estes principados.

Nem sempre para comprar mas para ter o prazer de olhar os vinis e andar á cata de novidades, ou uma qualquer raridade.


 Pensando um pouco, a Melodia terá sido a loja onde comprei mais discos, mas foi na Discoteca do Carmo que fiz as melhores compras.

De uma lembro-me perfeitamente: o LP que regista a gravação de Morte e Vida Severina, auto de João Cabral de Mello Neto, música de Chico Buarque, comprado num qualquer tempo do Natal de 67.

E não foi pechincha, custou uma nota preta.

Depois do incêndio, a Melodia ainda abriu uma loja quase no mesmo local da anterior, se bem que em moldes diferentes, mas os tempos eram outros.

Um pouco mais acima o tubarão Fnac abria portas no Centro Comercial dos Grandes Armazéns do Chiado, a Valentim de Carvalho, em frente, abria uma megastore no Edifício Grandella e nem a velha senhora conseguiu competir com o tubarão.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

PRIMEIRO DE MAIO

.
Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã

Canção de Chico Buarque de Holanda e Milton Nascimento



Legenda: pintura de Vieira da Silva

quarta-feira, 2 de abril de 2014

DEVAGAR É QUE NÃO SE VAI LONGE!


2 de Abril de 1974

A agenda do Cinéfilo avisava os seus leitores de que nesta noite a RTP transmitia o filme Eva de Joseph L. Mankiewicz.

Morte do Presidente francês Georges Pompidou.

De visita oficial a Espanha, o Ministro das Corporações e Segurança Social, Dr. Pinto Silva Pinto, instado pelos jornalistas sobre os recentes acontecimentos verificados no país, respondeu:
Não sei se realmente se passou alguma coisa em Portugal.

digo dos dias da nossa luta, juntos
digo da raiva de estarmos aqui e de nada fazermos
digo do vinho que bebemos até, quase, perdermos a consciência, talvez para nada
digo do que amamos e da Esperança, de que um dia gritaremos sem medo
digo desta sede aguda, esta necessidade louca de acreditar, ter mesmo de acreditar
digo deste país, donde nunca passei a fronteira e talvez nunca chegue a passar.
digo de aprender a ver-me escravo para ser livre, olá José Gomes Ferreira
digo, como o Chico, que devagar é que não se vai longe
digo… qualquer dia…

terça-feira, 19 de março de 2013

QUOTIDIANOS



Estas palavras podem ler-se no Chiado, mesmo ao lado da estátua de Fernando Pessoa, à porta da Brasileira.
O Chico Buarque diz numa canção que devagar é que não se vai longe.
Num cartaz, na manifestação de 2 de Março, um cartaz dizia:
Quem adormece em democracia acorda em ditadura.
Portugal é governado por um bando de garotos incompetentes.
A Europa é governada por um bando de loucos incompetentes.
Um pesado enjoo que se chama inquietação
Como podemos sair disto?
Será que o futuro parece sempre impossível?
Neruda dizia que era azul, mas só se vê escuridão.
Culpa dos nossos olhos, ou da nossa inacção?
Culpa dos nossos olhos?
- A longo prazo tudo se resolverá.
- Mas aí estaremos todos mortos!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

OLHAR AS CAPAS


Leite Derramado

Chico Buarque de Holanda
Publicações Dom Quixote, Lisboa Junho 2009

Ele já não dizia coisa com coisa, se intitulava camareiro de dom Afonso VI e acreditava estar no palácio de Sintra, em mil seiscentos e lá vai pedra. Tive pena porque para o velar só havia mamãe e eu, me admirou que não comparecessem autoridades, marechais, nem um representante da família real. Eu só via gente estranha à sua volta, uns indivíduos de aparência bronca que se riam do velho. E juntou mais gente quando ele esbugalhou os olhos, ficou roxo e perdeu a voz, queria falar e não saía nada. Então abriu passagem uma jovem enfermeira, que se debruçou sobre meu tetravô, tomou suas mãos, soprou alguma coisa em seu ouvido e com isso o apaziguou. Depois passou de leve os dedos sobre as suas pálpebras, e cobriu com o lençol seu outrora belo rosto.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

POSTAIS SEM SELO


Corro atrás do tempo.
Vim de não sei onde.
Devagar é que não se vai longe.
Está provado: quem espera nunca alcança.
Chico Buarque de Holanda, na canção Bom Conselho.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

CHICO BUARQUE DE HOLANDA


Chico Buarque ganhou, com o seu romance Leite Derramado, o 8.º Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa.
Dos seus quatro romances, Chico já viu três serem premiados.
Deixou um quase lamento: que muitas pessoas se surpreendem quando ele diz que é escritor.

domingo, 30 de maio de 2010

CAMBADA DE MALANDROS!...



O País tem mais coisas mais importantes com se preocupar do que se ver enredado em “fait-divers” socratianos. Já nos basta o que já temos e ainda virá.

Durante a visita de José Sócrates ao Brasil, os seus assessores entenderam bichanar aos ouvidos dos jornalistas de que Chico Buarque de Holanda queria encontrar-se com o Primeiro-Ministro..

Os jornalistas nem pensaram duas vezes e escarrapacharam a notícia.

De imediato Chico Buarque de Holanda desmentiu a atoarda:

"Foi o vosso ministro quem pediu o encontro. Aliás, nem faria muito sentido eu pedir um encontro e o primeiro-ministro vir ter à minha casa", disse com aquele sorriso claro que lhe conhecemos.

O lamentável acontecimento espelha o nível de aldrabice, de incompetência, de falta de decência da trupe que rodeia José Sócrates´.

Alguma vez passa pela cabeça de quem que seja ter interesse em conhecer José Sócrates?

E havia de ser logo o Chico que deverá saber melhor quem é o David Luís do que alguma vez saber quem é o nosso primeiro.

Não quero abusar muito da linguagem, mas de há muito se sabe que estamos perante gente sem a mínima ponta de carácter.

Dizendo melhor: uma cambada de malandros!