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sábado, 21 de abril de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Aqui era o Quarteto.

Agora, é um estaleiro de obras onde irá nascer um bloco de cimento destinado a escritórios.

Inaugurado a 21 de Novembro de 1975, o Quarteto foi o primeiro cinema em lisboa com várias salas – 4 salas 4 filmes - que com o passar dos anos deixaram de reunir  condições de segurança: falta de saídas de emergência, de extintores de incêndio e de acesso para deficientes.

Não havia dinheiro para obras e a 16 de Novembro de 2007, Pedro Bandeira Freire fechou as portas a cadeado e entregou as chaves ao Município.

Cinco meses depois, Pedro Bandeira Freire morria no Hospital Santa Maria.

Tinha 68 anos.



O autor do projecto de construção do Quarteto foi o Arqt.º Nuno San-Payo, seguindo a ideia de Pedro Bandeira Freire. O edifício era constituído por quatro pequenas salas, com lotação de 716 lugares, distribuídas pela cave e 1º andar, aos quais se acedia através de uma escadaria decorada com dezenas de cartazes, depois de se ter franqueado o átrio ao nível do rés-do-chão, onde se situavam as bilheteiras e o bar. A fachada deste cinema era constituída por uma pala para anúncios, feita em estrutura metálica e revestida em material acrílico, que se iluminava e expunha os cartazes dos filmes em exibição.

Em 2012 a imobiliária admitia negociar os 1,5 milhões de euros pelo que restava do imóvel de três pisos, mas ninguém se interessou pelo negócio.


A 27 de Fevereiro de 2014 o Público noticiava que a Igreja Plenitude de Cristo, a estranha predilecção das seitas religiosas pelas salas de cinema, iria ocupar aquele espaço.

As obras chegaram a ter início, mas não mais se soube da concretização do projecto e o espaço voltou ao abandono.

Agora será mesmo um bloco de escritórios.

Restam as memórias de quem frequentou aquelas quatro salas.



É certo que nos últimos tempos tinham piorado as condições de projecção dos filmes e amiúde se ouvia a acção do filme que corria na sala ao lado.

Mas era um cinema.

Lembrando ainda o Pedro Bandeira Freire: «Há filmes bons e maus; os bons são os melhores».

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há longos anos de portas entaipadas, o espaço que foi o Quarteto - «Quatro salas, Quatro filmes», vai ser ocupado para um espaço de escritórios, não importa de quê.

A notícia, via Lusa, foi conhecida nos primeiros meses do ano que findou.

Ontem, passei por lá, ali na Rua Flores do Lima nº 16.

Estão mesmo a decorrer obras.

Um cinema que marcou uma época.

Restam as memórias.

O Quarteto abriu portas no dia 21 de Novembro de 1975, faltavam escassos dias para acontecer a data que marca a história recente do país, houve alguém que se enganou, um sonho lindo que acabou, uma história, ainda, muito mal contada.

Taxi Driver de Martin Scorcese, A Religiosa de Jacques Rivette, All That Jazz de Bob Fosse, exibido em simultâneo nas 4 salas, e tantos, tantos outros filmes.

O último filme que vi no Quarteto, já em condições deploráveis de projecção, as alcatifas cheias de peladas, um silêncio triste, foi Às Segundas ao Sol de Fernando Léon Aranoa, que toma como ponto de partida  um despedimento colectivo ocorrido nos estaleiros de Gijón, no principio da década de 90, e conta a história de um grupo de desempregados desse estaleiro naval, uma história de desempregados, homens condenados à clandestinidade, a amargura muda remoída em cada dia, solidariedades, «como siameses: um cai, o outro ri-se, antes de perceber que caiu também»., de casa para a taberna, da taberna para casa, segundas ao sol, à espera de um golpe de asa que nunca vem.

«A questão não está se nós acreditamos em Deus. A questão é se Deus acredita em nós. Em mim, estou certo que Ele não acredita. Em ti tão pouco, Santa.»

O Quarteto foi a possibilidade de ver cinema, cinema mesmo, para além da parva ditadura das distribuidoras portuguesas de então.

Uma ideia feliz de Pedro Bandeira Freire que entregou o projecto de construção ao Arqt.º Nuno San-Payo.

O edifício era constituído por quatro salas, com lotação de 716 lugares, distribuídas pela cave e 1º andar, à entrada do lado esquerdo ficava a bilheteira, no lado direito o Bar.

O aparecimento das salas pipocas nos Centros Comerciais ditou a decadência do Quarteto.

A 16 de Novembro de 2007, o espaço foi encerrado no seguimento de uma vistoria da Inspecção-Geral das Actividades Culturais.

Não reunia as condições de segurança exigida.

Pedro Bandeira Freire morreu a 16 de Abril de 2008.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

QUOTIDIANOS


Em vão D. Susana o convidava para algum programa de televisão que lhe parecia mais interessante, por delicadeza ele ia uma vez ou outra, raramente a ver algum filme achando tudo o resto era menos que nulo. Ao cinema deixara de ir, porque tinham fechado todas as salas que conhecia, de velhos hábitos. D. Susana queixava-se também do tempo do Europa ou do Paris. Porque já vivia em Campo de Ourique há mais de vinte anos. Via-se gente, caras conhecidas, lamentava ela: agora…
Agora tinha dois gatos siameses que Sebastião detestava, mas ela apaparicava com cuidados sentimentais da idade. Coitadinhos, os inocentes que mal lhe faziam? Eles ficavam a olhá-lo fixamente, quando vinha ver televisão, e não se mexiam do maple rapado da casa de jantar. Vê? dizia-lhe D. Susana. Já se habituaram a si…

José-Augusto França em Buridan

sábado, 6 de maio de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Tinha em mãos Alentejo Não tem Sombra, uma antologia de poesia contemporânea sobre o Alentejo, organizada por Eugénio de Andrade.

Encontrei agora um outro: «40 Anos de Servidão» do Jorge de Sena.

Invariavelmente, cada ida a um cinema, que tivesse livraria contígua, tinha direito a visita e estou para garantir que não terá existido nenhuma ida que não tivesse saído com livro debaixo do braço.

No Apolo 70, havia uma estupenda sala de cinema e sobrava um problema: para além de livraria, tinha discoteca, que era um sítio onde se compravam discos, na altura, de vinil.

Dado o apertadíssimo orçamento caseiro existia pormenores ginásticos.

No canto superior direito, o livreiro, a lápis, colocou o preço do livro: 400$00.
Hoje, qualquer coisa como 2 euros.

Tempos bons, apesar do resto.

Uma noite, não tenho o registo da data, a Simone de Oliveira disse num programa de televisão que Lisboa, nos anos sessenta era mais bela do que nos tempos que então corriam.

Mário Castrim, na sua coluna de crítica no semanário Tal & Qual, disse-lhe que estava enganada.

«Era uma cidade medonha. Monstruosa. Os embarques dos soldados para África.

Uma cidade paranóica.

Calada. Amordaçada. Sitiada, Vigiada.

Um gatilho esperava a luz a cada esquina. E não só a luz.

O medo toldava todos os mirantes sobre o Tejo.

Está enganada, Simone. Nos anos sessenta, Lisboa era uma cidade muito feia.

Não vá em cantigas».

domingo, 16 de abril de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Um recorte da página de espectáculos do Diário de Notícias de 4 de Dezembro de 1968.
Cinco cinemas de bairro onde em cada sessão se viam dois filmes.
Filmes inesquecíveis com actores fabulosos.
Estão por ali o Jean-Paul Belmondo, Jean Servais, Ernest Borgnine, Elizabeth Taylor, Van Johnson, Walter Pidgeon, a esplendorosa Sara Montiel, Henry Fonda, a beleza ruiva de Maureen O'Hara, Marilyn Monroe, Rock Hudson, Elvis Presley, Dolores del Rio, Rossana Podesta.
Cinemas que, juntamente com outros, cumpriram o seu papel de arregimentar gerações de cinéfilos. Falo por mim, que nasci em 1945.
Era no tempo em que só havia domingos.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


João Bénard da Costa, abria assim uma das suas crónicas:

Nos nossos cinemas, ou no que resta dos nossos cinemas, se me quiser fazer entender.

Os velhos cinemas estão quase todos liquidados, ou em vias de…

Uma sala de cinema era um local de liturgia.

Hoje, já não se vai ao cinema como um acto relevante do nosso quotidiano, mesmo uma festa.

Eduarda Dionísio escreve no seu Retrato Dum Amigo EnquantoFalo:

Ir ao cinema tinha deixado de ser há muito tempo o filme – nunca se lembrariam de ver o mesmo filme na televisão, em casa de alguém.
Ir ao cinema era a compra do bilhete, a entrada, as conversas do foyer porque encontravam sempre gente conhecida, era o escuro da sala e sobretudo as primeiras imagens depois da cortina abrir ou subir até aparecerem nomes conhecidos por cima, a encarnado por exemplo, abarcando a amplidão toda duma rua ou duma cidade e finalmente vendo-se as primeiras pessoas, ouvindo-se as primeiras frases.
Aí ficavam no escuro muito fresco esperando o fim, começando a construir paralelamente ao filme que viam numa grande solidão aglomerada as primeiras teorias sobre a obra, a estrutura, o ritmo as imagens, o som, esperando, a partir de certo momento o intervalo, voltando a entrar na fila já no escuro, pedindo licença, e cada um tendo a certeza que aquele filme lhe pertencia e ninguém podia entendê-lo, nem melhor, nem mais profundamente. Não queres ir amanhã ao cinema?

Hoje, os jovens vão ao cinema com todos os intuitos, menos o de ver cinema.
Compram baldes de pipocas e, durante a exibição do filme, dirigem, uns aos outros, em alta gritaria, graçolas e ordinarices, gargalham estupidamente.

Há uns anos, um pacato cidadão, mandou calar uns jovens, recebeu como resposta:

Queres que eu esteja calado? Oh man! queres ver um filme nas calmas, aluga um no clube de video e fica em casa, não venhas ao cinema, isto é para curtir, meu!.

O cinema dado e arrumado como produto descartavel.

Nos nossos cinemas, ou no que resta dos nossos cinemas, se me quiser fazer entender.


Legenda: um dos foyers do Cinema Império. Fotografia tirada do blogue Restos de Colecção.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

OLHARES


Há 70 anos, no nº 30 da Avenida Guerra Junqueiro, a Mexicana abriu portas.

Um dos símbolos das Avenidas Novas, zona-menina-bonita dos olhos do salazarismo.

Uma lindíssima casa, concebida e decorada com gosto, o charme dos anos 50/60, mas que nos últimos tempos tem sofrido diversas alterações que não a beneficiaram, bem pelo contrário.
  
Não houvesse a circunstãncia de estar considerada com imóvel de utilidade pública, e o crime seria bem mais desastroso.

A Praça de Londres, a Avenida de Roma, chegaram a constituir uma respeitável concentração de cafés e pastelarias.

Desse conjunto resta a Mexicana e, já perto da Avenida dos Estados Unidos, o Vá-Vá e a Luanda.

Tudo o resto, pelos motivos mais diversos, fechou portas.

É assim que se envelhece…

Não havia ida ao Cinema Star ou ao Cinema Londres sem uma paragem, antes ou depois, na esplanada da Mexicana.

A efeméride é motivo para ir buscar um velhinho texto do Jorge Listopad:

Não sei porquê, mas habitualmente em Dezembro, a alguns dias ou semanas antes da ditadura directa do Natal, regresso, se possível, num dia solarengo, à Mexicana. Matar saudades? Saudades de quê? O repouso anual do guerreiro, nesse café arquitectonicamente, na sua época bem pensado (este ano um tanto restaurado e limpo), hoje o ninho da terceira idade com o passado modernista das Avenidas Novas. Portanto, acomodo-me, tomo a bica e “croissant perfeito, para depois continuar nesta balbúrdia entre Marks &Spencer e os livros da Barata. Muito a observar: a cidade.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

OLHARES





Lisboa.
Na parte norte do Jardim da Praça de Londres podem ver-se estas estátuas.
Faziam parte da fachada do Cine-Teatro Monumental.
A destruição do Monumental foi um dos muitos crimes de que a nossa cidade tem sido alvo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

RECADOS


A crítica de cinema é sempre maçadora e repetitivamente sobre os filmes, nunca sobre ir ao cinema. Ora, as cadeiras do Londres são o que me faz sair de casa para ir ao cinema. Que eu me recorde, Luís Miguel Oliveira nunca escreveu sobre as cadeiras do Londres. As cadeiras do Londres são a razão pela qual, não fosse o estúpido do KingKard, iria ao cinema sempre ao Londres, independentemente do filme. Sim, a qualquer filme, a todos os filmes. Acho que não ir ao cinema só porque não está em cartaz nenhum filme de jeito é uma estupidez. João Lopes, que uma gloriosa vez deu, acertadamente, cinco estrelas ao «In bed with Madonna», nunca abordou a temática do frio no Quarteto. O som do Quarteto justifica volumes. O Quarteto, em si, justifica um acordo com a Médis. António Cabrita nunca falou das pipocas que mais gosta. O cinema não é para comer pipocas, nem para beber refrigerantes. Se é para isso, se é para estar à vontade, então, como uma vez disse o Esteves Cardoso, que se possa fumar e beber um uísque. Cerveja, não. Por que razão Augusto M. Seabra não faz recensão de trailers? Senhores críticos, digam coisas sobre o que sentiram ao ver o filme. Falem-nos por metáforas. Digam-me que um filme vos fez sentir como quando, no final da sessão, se saía do Condes para o lado, para a rua, através das portas abertas de par em par, para a luz da rua, que eu dispenso as estrelas e o google.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O segundo número do, excelente, Cinéfilo, saíra no dia 11 de Outubro de 1973.

Caramba!... já lá vão 43 anos!

Não hei-de estar velho!...

Na secção Sete Dias da Semana, depois de para quinta-feira dia 11 aconselharem o Anjo Exterminado, LP de Maria Bethânia, rematavam, para sexta-feira, com o CéuAberto, filme de Howard Hawks, não esquecendo o pormenor:

…é neste filme que Hawks consegue filmar com Kirk Douglas a cena do dedo cortado que Wayne se recusara a filmar em Rio Vermelho.


Mas fica aqui a reprodução da escolha cinéfila:

Acontece que, por aqueles dias de trevas, ir às sessões da meia-noite era uma festa.

Não só pelos filmes, mas por aquilo que entendíamos como aperitivo para os ditos.

E havia sempre petisco antes do raio das meias-noites.

Pare este céu aberto, o destino foi um tasco que havia frente ao Cinema Londres.

O espaço ainda lá está, mas apenas o espaço.

O resto foi a outras vidas.

Ao tempo, parece que se chamava Sobreiro, passou depois a Nova Capri, talvez tenha tido outros nomes mais, e agora é algo que dá pelo nome de Italian Burger House, que deve ser uma daquelas coisas que para aí existem, destinadas a gente que não gosta de comidinha a saber comida.

Uma equipa constituída por quem assina a prosa, mais a Aida, o Miguel, a Josefina, o Benardino e a Lena,, entrou portas dentro para umas cadelinhas, uns preguinhos com muito alho e algumas garrafas – uma por cabeça…sim, mas a Lena e a Josefina ficaram-se por duas tacinhas, o resto ficou para a outra rapaziada -  de Ponte de Lima branco, estupidamente gelado.

E foi assim, com o olho brilhante pelo Ponte de Lima, que ainda mais ressaltou toda a carga erótica de o Céu Aberto.

Ah! e aquelas cadeiras do Londres, senhores.

Saudades, só do Futuro, reclama o José Gomes Ferreira.

Uma ova, Zé Gomes, uma ova.

OLHARES


Foi nisto que deu o Cinema Londres.

Shopping Fashion  & Home.

Venda de vestuário, calçado, acessórios, papelaria, ferramentas, brinquedos, artigos para animais, jardim, decoração.

Chinesices.

Andava a fugir de passar por isto, mas no sábado aconteceu.

Quando em Fevereiro de 2013, a Socorama, empresa ligada à família Castello Lopes, pediu insolvência, o Londres ficou com os dias contados.

Um grupo de comerciantes e habitantes das Avenidas Novas, ainda fizeram umas reuniões na Mexicana para que o Cinema Londres não acabasse nisto e antes fosse espaço de um polo cultural.

Ideias havia, mas faltaram apoios… dinheiro… o costume…

Margarida Acciaiuoli, no seu livro Os Cinemas de Lisboa, escreve sobre o Cinema Londres:

O projecto previa uma sala co a lotação de 440 lugares, à qual se anexava um snack-bar e um pub que elucidavam o que se pretendia do lugar e das funções que se lhe atribuíam. O resultado foi que não só se construíu a «mais luxuosa sala-estúdio de Lisboa, como se completou a sua actividade com outras que com ele se combinavam. Como a imprensa logo sublinhou, o Cinema Londres, longe de constituir mais uma sala, era uma «ideia nova numa cidade que crescia». Adoptando a célebre fórmula com que se anunciara, e que se traduzia na possibilidade de oferecer «3 coisas no mesmo sítio», ou seja, «ver cinema na sala», «jantar no snack-bar» e «conversar no ‘Pub the Flag’».

O cinema Londres tinha as mais cómodas e originais cadeiras de todas as salas de Lisboa.

Um luxo!

São tantos e tantos os filmes que vi no Londres.

Jean-Luc Godard não é santo do meu panteão cinematográfico, mas assinou uns quantos de que não prescindo.

Um deles é Vivre Sa Vie com a fabulosa Anna Karina.

João Bénard da Costa chama-lhe mágica.

Como há uns dias escrevi, gosto de recordar o Eduardo Guerra Carneiro.

E por Godard, lembro os fragmentos de uma carta do Eduardo:

Falavas, claro, de Obaldia, Boris Vian e, sempre, de Godard, Et maintenant, le cinéma c’est Jean-Luc Godard, dizia Aragon. Tu comentavas: foi a coisa mais acertada que disse até hoje. Mas o tempo era de escuridão total: as trevas.

Sei agora, que quando falei do Cinema Londres, prometera uma história.

Já me tinha esquecido.

Segue em posta à parte.

sábado, 1 de outubro de 2016

PANCADAS DE MOLIÉRE


A demolição do Cine-Teatro Monumental, a ocupação do Cinema Império por  uma seita, dita religiosa, são dois crimes que marcam a vida de Lisboa.

O CinemaImpério tinha uma capacidade para 908 espectadores na plateia e 1418 espectadores nos seus dois balcões.

A sala do Estúdio tinha uma capacidade para 250 espectadores.

Para além das fitas e espectáculos de music-hall, Cliff Richard e os Shadows por ali actuaram, e não só, de 1961 a 1965 albergou uma das mais importantes experiências teatrais de antes do 25 de Abril : o Teatro Moderno de Lisboa, fundado por um grupo de actores de que faziam parte Carmen Dolores, Fernando Gusmão e Rogério Paulo.

O Teatro Moderno de Lisboa estreou em 13 de Novembro de 1961, com a peça de Carlos Muñiz “O Tinteiro”, encenação de Rogério Paulo, peça que em Abril de 1962 representou Portugal no Festival Internacional de Le Theatre de Lutece em Paris.

Dada a programação cinematográfica do Império, apenas foi possível enconrtar disponíveis as sessões das 18,30 horas às segundas, terças, quintas e sextas, para além de uma sessão nas manhãs de domingo.


Segundo José Carlos Alvarez de José Carlos Alvarez, o Teatro Moderno de Lisboa, foi responsável pela formação de um novo público e de um novo gosto teatral, num tempo de grande agitação social e política.

Por motivos referidos na História Breve do Teatro Moderno de Lisboa, atrás reproduzida, os seus responsáveis resolveram interromper a actividade da companhia na época de 1963-64.

Receou-se que seria o fim do Teatro Moderno de Lisboa mas, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, ainda houve a possibilidade de fazerem a temporada de 1964-65, em que tiveram a oportunidade de representar O Render dos Heróis, peça de José Cardoso Pires.

Reproduz-se a seguir um texto de João Antunes Tunes, que deveria ser publicado no Diário de Lisboa-Juvenil caso a Comissão de Censura salazarista não lhe tivesse colocado a indicação de CORTADO.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Aqui, eram os Alfas situados na Avª Almirante Gago Coutinho, ao Areeiro.

Agora é um condomínio de habitação.

Começou por ser três salas, daí o nome Alfas Triplex, e quando as fechou, passados dez anos sobre a abertura, já eram cinco as salas.

Inaugurado em 1985 não chegou a durar uma década.

Fechou portas em 1997.

Quando os centros comerciais criaram as suas salas, os Alfas ficaram às moscas.

Tinha uma livraria, chamava-se Alfarrábio.

Comprei muitos livros na Alfarrábio e um sei de certeza: Alentejo Não temSombra, uma antologia de poesia contemporânea sobre o Alentejo, organizada por Eugénio de Andrade.


Está aí a etiqueta e, no canto superior direito, escrito a lápis pelo livreiro o respectivo preço: 250 escudos.

Hoje, um euro e cinquenta cêntimos.

Estava longe o código de barras.

Estava longe tanta coisa.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O 25 de Abril de 1974 apanhou o nº 30 do Cinéfilo, referente a 27 de Abril de 1974, já fechado, razão porque não há qualquer referência à data histórica.
Apenas no nº seguinte, referente a 4 de Maio, a revista não teve intervenção da sinistra censura.
Finalmente!
Nos recados livres, ressalta a notícia da exibição do Couraçado Potemkine de cujo cartaz nafachada do Cinema Império, aqui, se fez referência.

São estes os recortes, onde se destaca um alerta contra os especuladores e os mixordeiros:




terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Nasci na Mestre António Martins, uma rua situada entre a Avenida General Roçadas e a Rua da Penha de França.

Num espaço abrangente,havia uma larga mão cheia de cinemas: o Royal, o Cine-Oriente, o Max, o Imperial, o Lys, o Rex,

Todos cinemas de reprise, salas populares, com preços acessíveis, direito a ver dois filmes.

O Império era um outro luxo perto das tais avenidas que Salazar pretendia novas para esconder as misérias de outras ruas da cidade.

Cinema de estreia praticava preços acima das posses da malta do bairro.

Só em dias de festa se ia ao Império.

E os dias de festa eram escassissimos.

Mais tarde frequentei-o assiduamente.


Não só pelas estreias que iam acontecendo, também pelas Terças-Feiras Clássicas, e para ver as peças de Teatro que ali foram representadas pelo Teatro Moderno de Lisboa.

Já não falo dos filmes vistos no Estúdio, sala situada no último piso do edifício, com uma soberba vista para a Alameda D. Afonso Henriques, e inaugurada a 29 de Outubro de 1964 com o belíssimo Os Chapéus de Cherburgo.

Do Teatro Moderno de Lisboa, como do Estúdio, haverá, por um destes dias, outras conversas.


Ainda do Cinema Império recordo: juntava-me à concentração na Alameda, para o festejar do primeiro 1º de Maio, quando olho a fachada do Império e vejo cartaz de  O Couraçado de Potemkin.

Jorge Silva Melo, também, cita o pormenor no seu Século Passado:

…é um passeio vazio, sem gente nenhuma a estas horas, nem a sombra da multidão que naquele distante 1º de Maio de 1974 ali descia, pelas três da tarde, e via içarem no Império o cartaz d’ O Couraçado de Potemkin, imagem que não esqueço, vitória, dia de sol e voz clara, tanta gente sem medo e tão feliz.

 O Cinema Império começou a ser construído em 1947, concluído em 1952 e inaugurado em 1955, sendo um projecto de Cassiano Branco.

À entrada, um painel de azulejos de João Fragoso e nos foyer do 1º e 2º Balcão um mural de Luís Dourdil (1º balcão) e pinturas de Frederico George.

Como os cinemas também se abatem, fecharam portas os cinemas de bairro, os velhos «piolhos», onde tanta gente agarrou o gosto pelo cinema.

O mesmo aconteceu ao Império.

As salas de cinema que começaram a surgir nos Centros Comerciais desviaram espectadores e salas, como o Império, passaram a ter os dias contados.

Fechou portas no dia 31 de Dezembro de 1983 e em 1992 o Império passou a ser palco e circo de uma seita-dita-religiosa.

Ainda por lá se encontram.


A seita tentou encerrar o Café Império, de que são proprietários porque compraram todo o edifício, mas movimentações dos trabalhadores e clientes, com o forte apoio da Câmara Municipal, impediram mais um crime-de-lesa-pátria.

O Cinema Império foi inaugurado a 24 de Maio de 1952.

Margarida Acciaiuoli, no seu livro Cinemas de Lisboa, coloca o Império, juntamente com o São Jorge e o Monumental, no capítulo: As Grandes Catedrais.

O filme de estreia foi O Preço da Juventude.

No programa de estreia, as sessões começavam com a exibição de um Jornal de Actualidades, o documentário Madrid eseguia-se um intervalo.

 Um outro intervalo acontecia a meio da exibição do filme.

Os intervalos eram local de encontro e convívio no agradável conforto dos foyers do Cinema.

No topo, reproduz-se a capa do 1º Programa do Cinema Império.

E esta é a apresentação pública:


Legenda:
O programa da inauguração do Cinema Império pertence ao acervo cinematográfico de Luís Miguel Mira.
A fotografia do cartaz do Couraçado Potemkim, na fachada do Império, foi tirada do blogue  À Pala de Walsh.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Disse o Sr. Joseph L. Mankiewickz que a única diferença entre um filme e a vida real é que um filme tem que fazer sentido.

Aprender a olhar.

Gostar de ver, mesmo que não se entenda o que se olha.

Guarda-se e descobre-se, num qualquer dia, lá muito para a frente, o porquê.

O amargo Sr. Jean-Luc Godard tinha (ainda tem?) a ideia de que o cinema é a mais bela fraude do mundo.

O privilégio de ter um mundo de cinemas em redor da rua onde se nasce, na rua em que a adolescência aconteceu.

Os cinemas chamavam-se Royal, Cine-Oriente, Imperial, Max, Lys, Rex.

Já não existem.

O Royal é um supermercado, o Cine-Oriente deu lugar a um edifício onde se situa a estação de Correios da Graça, o Imperial há longos anos que está fechado sem qualquer tipo de destino, o Max é uma igreja, o Lys é um complexo de escritórios abandonados e uma loja do Calçado Guimarães, o Rex é uma loja de chineses, ou muçulmanos, vai alternando.

Passavam duas fitas por sessão. Uma boa e outra para completar o programa.

Muitas vezes eram as duas más, mas o fascínio acontecia.

Quem andou pelos cinemas de bairro, necessariamente, tem de gostar do cinema para sempre e ter uma enorme relutância em ver um filme fora de uma sala escura.

Legenda: a fachada do Imperial nos dias de hoje. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


A des(arrumar) papelada, encontrei mais um recorte de jornal, de muitos tempos idos, com filmes em exibição em cinemas de Lisboa, cinemas que já não existem.

Este diz apenas respeito ao velho e saudoso Monumental, mais o seu companheiro Satélite.

E mostram as Quinzenas de Cinema que aconteciam, particularmente, no Monumental, no Tivoli, no Império.

Naquela quinzena, o dia dos anos 60 que não consegui apurar, exibia-se Esplendor naRelva.

É simples o argumento do filme de Elia Kazan:

A relação amorosa entre dois jovens, do interior do Texas, a que os pais põem um dramático ponto final.

Ele é colocado numa universidade, ela tem que ir tratar-se para um manicómio.

Diálogo final:

Bud – Casei com a Angelina. Sabes que nem ao fim do 1º ano cheguei? 

Deanie – Ela é muito simpática.

Bud – Foi maravilhosa quando as coisas se complicaram.

Deanie – És feliz, Bud? 

Bud – Acho que sou. É pergunta que não costumo fazer a mim mesmo. E tu?

Deanie – Caso para o mês que vem com um rapaz de Cincinatti. Acho que ias gostar dele.

Bud – A vida às vezes leva cada rumo, não é, Deanie?

Deanie – Lá isso!... 

Bud – Espero que sejas muito feliz.

Deanie – Também eu não penso muito na felicidade. Como tu.

Bud – Para quê? Temos de aceitar a vida como ela é. 

Deanie – Gostei muito de te ver.
Bud – Obrigada, Bud

Deanie – Adeus.

Uma amiga, espera Deanie no carro e pergunta-lhe:

 - Achas que ainda o amas?

Não há qualquer resposta, apenas um grande e maravilhosos plano do seu rosto, enquanto em off começam a ouvir versos da Ode of Imitation to Immortality de William Worsworth:

Aquele brilho outrora tão resplandecente
Dos meus olhos se ausentou para sempre
E agora, apesar de perdido o esplendor na relva
E o tempo de glória em flor,
Em vez de chorarmos, buscaremos força

No que para trás deixamos.


Por mais que se queira colocar de lado, há sempre uma faceta a ensombrar a vida e a obra de Elia Kazan, um dos maiores nomes do cinema.

Em causa o seu colaboracionismo com o senador McCarthy, no triste e dramático episódio da caça às bruxas em que se tornou um delator de amigos e colegas de profissão.

Pergunta-se: como é que um homem que faz Há Lodo no Cais pode ter uma atitude como esta?

Disse ao comité de actividades anti-americanas que fôra membro do Partido Comunista entre 1934 e 1936 e aproveitou para denunciar outros membros do Partido. A esses actores, realizadores, argumentistas, denunciados por Kazan, e também por outros,  foi-lhes, depois recusado qualquer tipo de trabalho e passaram a viver com enormes dificuldades. Uns abandonaram o país, outros refugiaram-se em pseudónimos, de alguns nada se sabe enquanto outros escolheram o suicido.

Arthur Miller contou que, nos anos 50,  Kazan lhe dissera: Não gosto de comunistas e não acho justo abandonar a minha carreira para os defender.

O propósito da Academia lhe atribuir um Óscar de Carreira foi rejeitada inúmeras vezes, até que em 1999 o homenagearam.

Foi uma cerimónia repleta de ausências, fria, sem o brilho e o fulgor que o seu talento merecia.

Sabe-se que morreu sem que a maior parte dos seus colegas de profissão e amigos lhe tivessem perdoado.

Tão pouco conheço, da parte de Kazan, qualquer reacção a todo este triste e deplorável episódio.

A memória do cinema também se faz disto.

Como seria imperdoável falar deste filme, não ir buscar àquele maravilhosos livro de capa azul de Ruy Belo, Homem de Palavta(s) e não transcrever o poema Esplendor na Relva que não se sabe muito bem se é sobre o filme, ou sobre Deannie Loomis, ou sobre Natalie Wood.

Pouco importa.

Eu sei que Deanie Loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de Deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquele que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado ver o que ela era)
Mas em Deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais


segunda-feira, 4 de maio de 2015

MARILYN



de Manuel Machado da Luz, ao filme Marilyn, publicada na Seara Nova nº 1427, Setembro de 1964.
Em cima um anúncio ao filme, em exibição no Max, e tirado do Diário de Notícias de 4 de Dezembro de 1968.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


No dia 21 de Maio as salas de cinema do Centro Comercial Fonte Nova, fecham portas.

Há 20 anos que a Medeia Filmes explorava estas salas.

Oito ao todo,

Foram inauguradas em 1997,

Sobre o encerramento das salas, Paulo Branco disse que as frequências de espectadores já eram muito reduzidas e nem se justificava a existência daquelas salas ali, sobretudo porque a não muita distância se situa o Centro Comercial Colombo, também com exibição cinematográfica, em nove salas comerciais e modernas.
Paulo Branco fica agora com apenas dois espaços em Lisboa: o Monumental, com programação regular, e o Nimas destinado a ciclos temáticos.

O cinema King, também da Medeia, encerrou em Novembro de 2013.

Os quatro trabalhadores dos cinemas do Fonte Nova vão ser transferidos para as outras duas salas.

Ainda hoje não consegui escrever sobre o encerramento do King, de que fui um dos últimos espectadores e dos cinemas que, nos últimos tempos, mais frequentava.

Há por aí uns alinhavos sobre esse dia em que vi o lindíssimo, Viagem a Tóquio, de Yasujiro Ozu, mas há coisas que doem muito.

Não é esquecê-las… é apenas arranjar, um tempo, uma disposição.

Mas que tempo? 

Que disposição?

terça-feira, 3 de março de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Um livro organizado, por Manuel Costa Silva, para Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura.

Das palavras introdutórias

Graças às histórias e aos mitos do cinema, os filmes deram-nos a conhecer inúmeras cidades, a sua geografia, a sua arquitectura, o seu retrato imaginário o o seu verdadeiro rosto.

O binómio cidade/Cinema tem muitas leituras. Essa relação consegue transformar a cidade em protagonista, quer dizer incorporando a ventura humana, as personagens e os seus estados de alma.

A cidade pode ser cenário activo ou pode existir como um elemento passivo que favorece no mistério de uma história.

Lisboa a 24 Imagens é uma recolha de textos inéditos que pretende dar a ver a inscrição desta cidade nas histórias que os filmes contaram.


Textos de gente vária como João Bénard da Costa, Mário Castrim, Álvaro Guerra, Antonio Tabucchi, David Mourão-Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Zambujal, Urbano tavares Rodrigues, Fernando Lopes, Jorge Silva Melo, José Fonseca e Costa, Lauro António, Monique Rutler, Joaquim leitão, Paulo Rocha, outros mais.

Pelo livro encontramos memórias dispersas, cartazes, revistas e folhetos que fizeram a história da cidade no cinema.

Cento e quatorze filmes nacionais e estrangeiros tiveram Lisboa como cenário ou apenas como nome mencionado, ou fonte de inspiração.


O último, e doloroso, capítulo do livro fala-nos dos cinemas desaparecidos, mortos e moribundos.

Estão lá o Eden, o Salão Lisboa, o Paris, o Jardim Cinema, o Royal, o Politeama, o Cinearte, o Tivoli, o Odeon, o Capitólio, o Berna, o Olympia, o Cine Pátria.

De 1994 até aos dias hoje quantos mais cinemas, tragicamente abatidos, outros a exercerem outras funções, outros, inexplicavelmente, abandonados, degradando-se em cada dia que passa?

O nosso adeus aos Cinemas Paraíso de tantas infâncias e adolescências.


Joaquim Leitão, no capítulo das Visões da Cidade, conta esta Pequena História Inspirada em Factos Verídicos:

Lembro-me, como se fosse hoje, da última vez em que me senti completamente feliz.

Foi em Lisboa. Num domingo ao fim da manhã, em maio. Ia a descer a Rua Morais Soares, pelo passeio onde dava o sol.

Lembro-me perfeitamente. Não aconteceu nada de especial.