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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica
(dos Cancioneiros Medievais à Actualidade)

Selecção, Prefácio e Notas de Natália Correia
Ilustrações de Cruzeiro Seixas
Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa, 1966

Re(li)gata

Quando em lugar de feltro é de barro de Outubro
o calor interior das coxas habitadas
Quando a língua é um barco avançando no escuro
de um canal de Corinto entre pardas escarpas
Quando o cheiro do Mar se desdobra em veludo
Quando rompe na boca o mistério das algas
Quando em baixo o teu pé a triturar-me o surdo
perímetro do sexo encontra a madrugada
Quando mais se aproxima a náutica do culto
Quando mais o altar se mostra navegável
Quando mais eu descubro e    restauro    e misturo
na crista litoral de súbito ampliada
o ritual do grito o ritual do cuspo
e vês que ninguém mais merece esta homenagem
é que enfim te possuo    é que enfim te reduzo
a uma luva    uma esponja    uma deusa    uma nave


David Mourão-Ferreira

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

RECADOS


Na revista Ler nº 38 Primavera/Verão 1997 abordava meio século do movimento do surrealismo em Portugal, mais concretamente em Lisboa.

«Foi uma explosão de Liberdade. Isso não é coisa que se esqueça, irmãos! E eles, digo: o Cesariny, o Lisboa, o Seixas, o António Domingues, noutra banda o António Pedro, o França, o O’Neill, Moniz Pereira, tinham que lutar em duas frentes: a do regime e seus acólitos (pide, fachos) e a dos neo-relaistões e seus próceres, já lançados na correria para o sucesso e as coroas, as massinhas.»

Mas, neste artigo, Luiz Pacheco fala particularmente do Mário-Henrique Leiria:

«Não referi atrás um nome principal: Mário-Henrique Leiria. Propositadamente, deixei-o esquecido. Mas a fingir. O Mário morreu em 1980. Não sei quem, nem como, nem para quê, teceram-lhe uma legenda de morte na miséria, no abandono. Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito. E com obra feita e com obra por publicar. O Mário-Henrique Leiria, em matéria escrita, é o único surreal que resistiu e ganhou público. As várias, sucessivas edições dos seus livros na editorial estampa, os Contos do Gin-Tonic e os Novos Contos do Gin, será a melhor prova de que ele atingiu uma massa de leitores muito mais novos, aos quais o Surreal e surrealismo lisboeta ou estranja, é mera etiqueta a desprezar. Mas não já o feroz humor, o total non-sense das historinhas que o Mário foi colhendo numa vivência de trota-mundos e Aventura sem igual nos companheiros de 1947. E uma turbulência revolucionária – quem, agora, o poderá capazmente recordar? Viajou, lutou, terá andado metido em múltiplas causas perdidas, pois tal era o seu feitio e o seu destino. Há dois livros dele que prefiro e, até, pensei em reeditar. São obras únicas: Conto de Natal e Lisboa ao Voo do PássaroOra, por mão do Artur Manuel do Cruzeiro Seixas recebi há pouco uma edição espanhola, bilingue, e lindíssima, do poema Claridade Dada pelo Tempo. A ser editada como convinha, era mister, o Leiria e nós merecíamos, custava uma fortuna. Mesmo assim, é livro a ler, a ter no recanto dos reservados preciosos. O Mário-Henrique, com uma personalidade vincada e nada disposto a grupelhos e mentores, em 1947 e nos anos seguintes, ficou Bastante isolado. Que se fale nele, portanto. E noutro morto, também votado ao silêncio: o suicida João Rodrigues que tem, segundo suponho, por aí família e ninguém lhe liga nenhuma.»

quinta-feira, 2 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Imagem Devolvida

Mário-Henrique Leiria
Nota: Mário Cesariny de Vasconcelos
Capa: Júlio Navarro
Ilustrações: Cruzeiro Seixas
Plátano Editora, Lisboa Maio de 1974

Síntese

estrada  garganta  carta  asa;  navio  esfera  engano
talvez  relógio-de-sol  cogumelo  estação  árvore
nuvem; recordação  acaso  anel  sapatos  fumo-cara;
elefante  estômago  caneta  pássaro; vela  vara  cír-
culo  chuva  sempre  pêndulo  sol  comboio  ramo-lápis
cama; negação  permanência  cabelos  rua  crocodilo


                                      a  bala  volta  SEMPRE  à  origem

                                      o  teu  braço
                                      mais  afastado
                                      cada  vez  mais  afastado



A BALA    e   o teu braço

sexta-feira, 27 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Do General ao Cabo Mais Ocidental

Álvaro Guerra
Capa e ilustrações: Cruzeiro Seixas
Edições Afrodite, Lisboa, Março de 1976

o poder é só um
o de quem pode e mais nenhum
a verdade rafeira e envergonhada esconse-se num verso atraiçoado abanando o rabo e ladrando à lua a vida de cão que lhe trouxe a camuflada revolução
o absoluto gesticula na continência mudada em punho erguido por obra e graça da fulminante leninina matéria de formação acelerada de coronéis e ainda mais de capitães-generais em mea culpa de massacres coloniais.
Saiba
porém
o inimigo que também viver é comigo
de cravo na mão o digo
nesta luta sem luto que o projecto esgrime com a herança
a mor das coisas idas
ledas
desejo libertação
amor também cama comum
e pão
em verde lida pela liberdade e vida

sábado, 21 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Casos de Direito Galático
O Mundo Inquietante de Josela (Fragmentos)

Mário-Henrique Leiria
Capa: Cruzeiro Seixas, Mário-Henrique Leiria, Carlos Rocha
Ilustrações: Cruzeiro Seixas
Editorial República, Lisboa, Abril de 1975

Ternura

Cheguei a casa um pouco mais cedo do que o costume. Tirei a ventoinha da cabeça, pus-me à vontade, fui ver se os mamutes estavam a fazer disparates e sentei-me na sala, no velho e confortável sofá que a tia Mizé nos oferecera pelo casamento. Querida tia Mizé! Preparei um gin.
Josela ainda não chegara. Estava atrasada, talvez as compras, quem sabe.
Foi quando ouvi abrir a porta. Fui ver. Josela chegava, empurrando o carrinho antigo que servira para o nosso filho agora com dezoito anos como sabem, e com um bom lugar de Viet qualquer coisa, lá não estou bem certo onde; lugar seguro e de futuro, foi o que me disseram. Bom rapaz, o nosso garoto.
Olhei o carrinho. Trazia um bebé dentro. Josela sorria. Vi o preço. Razoável. Do talho do senhor Esteves. Manias da Josela.
Olhei Josela.
Tinha os olhos brilhantes, havia uma ternura inesperada que a envolvia, uma tristeza distante nas mãos.
- Achas que podemos ficar com ele? – perguntou-me, afirmando.
Concordei. Josela manda.
Arrumei o carrinho.
Era um bebé ainda em muito bom estado. Durou cinco dias até apodrecer, calculem!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

SONETO


A carnal tentação desenfreada
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede
Subisse de uma puta a infame escada.

Ligeiras pulgas saltam de emboscada
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela pregada na parede,
Já de antigos morrões afogueada.

Saiu da alcova a desgrenhada fúria
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, sórdida penúria:

Muito pode a pobreza e a porquidade;
Abati as bandeiras à luxúria
Jurei no altar de Vénus castidade. 

Nicolau Tolentino em Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa s/d

Legenda; ilustração de Cruzeiro Seixas.

domingo, 25 de janeiro de 2015

PROJECTO DE SUCESSÃO


Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

António Maria Lisboa, poema dedicado a Mário-Henrique Leiria

Legenda: Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita : Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos. I Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949.

Imagem retirada de Citizen Grave

domingo, 13 de junho de 2010

OLHAR AS CAPAS

A Intervenção Surrealista

Organização de Mário Cesariny de Vasconcelos
Capa de Cruzeiro Seixas
Colecção “Documentos do Tempo Presente” nº 35
Editora Ulisseia, Lisboa Julho 1966

Contra o aniquilamento total do indivíduo que é frequentemente proposto por sistemas regenerativos só revolucionários na aparência, propomos o aparecimento súbito e violento do Homem e da Mulher integralmente livres dentro da sua própria necessidade dialéctica de transformação. Só no Homem acreditamos e só das suas própria mãos “Como indivíduo” cremos que saia a grande transformação das coisas.

Mário-Henrique Leiria, 1952