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quinta-feira, 22 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 3

Direcção literária: Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Xilogravuras: Altino Maia
Porto, Dezembro de 1957

Aos Homens Que Virão
Trad. M.D.E.

Nós, que haveis de entender, no futuro, o trabalho
como o doce sabor da desejada festa,
quando ele for para vós arte, paixão, vitória,
- quando o poeta vê no seu próprio poema –

pensai, então, em nós com carinhosa estima;
em nós que, trabalhando como bestas de carga,
entregues a tarefas monótonas, iguais,
deixamos que a tristeza marcasse o nosso olhar.

Ah!, como vós – sabei – nós amamos a vida
e, apesar disso, deste inferno, não quisemos
chorar lágrimas vãs, deixar morrer a esperança.

Ah, sim! Profundamente amamos a alegria,
como vós – as pequenas e grandes alegrias
de que a maior foi abrir-vos o caminho.

Poema de Guillevic

terça-feira, 2 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Porque, acreditava-o firmemente, não fora dita ainda a palavra derradeira: a selva ali estava, aliciante, misteriosa, traiçoeira mas prometedora. Como sempre a sonhara: difícil, grata, livre. Talvez fosse possível desvendá-la. Descobrir a ilha que vinha nos mapas. Encontrar a floresta sem árvores. Mandar o manuscrito na garrafa, à espera de que alguém, numa praia longínqua ou muito próxima, soubesse avaliar o seu peso de esperança.

Daniel Filipe em O Manuscrito na Garrafa

Legenda: não foi identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Que outra coisa pedira, senão poder voltar a ser aquele que dá o pontapé na pedra solta e ri por isso, o que larga papagaios no ar e corre pela verdura dos montes, o que toma o seu café nas tardes calmas, contente de si mesmo, o que ama sem outras consequências que não sejam o próprio amor?

Daniel Filipe em O Manuscrito na Garrafa

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 28 de abril de 2015

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


Série de nove "fascículos de poesia" publicados no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direção de Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro. Incluíam poesia empenhada, que se insurgia contra o mundo circundante (a violência, a injustiça, a falta de liberdade) e afirmava o valor da solidariedade com o próximo.
A designação da revista, retirada do título de um poema de Egito Gonçalves, publicado no 4.° fascículo de Árvore, remete para um programa de poesia de resistência, aludindo metaforicamente ao cerco a que estavam submetidos os intelectuais portugueses.
Sem apresentar texto programático, nem textos de crítica ou teoria poética, a publicação reúne criação poética de autores com opções estéticas diversas (além da direção, Jorge de Sena, Casais Monteiro, Miguel Torga, Afonso Duarte, António José Fernandes, Vasco Costa Marques, Mário Henrique Leiria, Maria Almira Medina, João Ribeiro Melo, Orlando da Costa, José Fernandes Fafe, António Reis, Daniel Filipe, Joaquim Namorado, João Rui de Sousa, Alexandre O'Neill, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz), mas que colaboram sistematicamente com composições subordinadas a um intuito de denúncia e combate. Cada fascículo incluía, ainda, nas últimas páginas, tradução de poetas estrangeiros (Brecht, Guillevic, Stephan Hermlin, Jorge Carreara Andrade, Jean Todrani, Nicolau Vaptzarov). Os fascículos 6 e 8 são dedicados a poetas moçambicanos e angolanos.

Da Infopédia, Porto Editora

Este é o poema Notícias do Bloqueio de Egito Gonçalves, do livro A Viagem com o Teu Rosto (1958) e reunido em Os Arquivos do Silêncio:

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
             e a esperança reproduz-se 


Esta é a canção Let My People Go cantada por Paul Robeson e referida no poema de Noémia de Sousa Deixa Passar o Meu povo

quarta-feira, 4 de março de 2015

QUOTIDIANOS


Aos domingos iam até à Outra Banda, às caldeiradas do Ginjal. Comiam na varanda debruçada sobre o rio, olhando em frente o pano de fundo da cidade colorida. Depois, de mãos dadas, como dois namorados adolescentes, seguiam a estrada que levava a Almada ou derivavam pela borda d’água, a ver os barcos e as gaivotas. Num desses devaneios de domingo, Carmo apeteceu a Costa da Caparica, a largueza do pinheiral bravio, a presença do mar a «sério, não este produto de substituição que aqui temos».

Daniel Filipe em O Manuscrito na Garrafa

Legenda: o Ginjal visto da Bica, numa tarde de nevoeiro.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

DANIEL FILIPE


Há 90 anos, na Ilha da Boavista em Cabo Verde, nascia Daniel Filipe.

Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares um cartaz denuncia o nosso amor.

É assim que começa o belíssimo poema a Invenção do Amor.

Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e inventaram o amor com caracter de urgência.

Apenas em alfarrabistas – e é necessário ter um grão de sorte – é que é possível os livros deste poeta de quotidianos de homens e mulheres que tinham olhos, coração e fome de ternura.

Foi tudo calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.

Escaparam.

Com dificuldades múltiplas até que chegou aquele dia inicial inteiro e limpo em que olhámos a cidade prometida e esperámos por ela tanto tempo.


Pátria, Lugar de Exílio

Neste ano de 1962
não como Nazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamerite
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

Neste ano de 1962
encostado a urna esquina da estação do Rossio
 esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo

aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude
e de enjoo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto do aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
apesar de tudo farto
eu
neste ano de 1 962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria

Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio

domingo, 2 de novembro de 2014

E É INÚTIL MANDAREM-NOS CALAR




Esta é a capa de um livreco, passado a stencil, com o título Eu Canto Para Que Os Desertos Fiquem à Sombra e publicado em tempos de ditadura.

Uma antologia que reúne poemas e canções, entre outros, de Manuel Alegre, José Saramago, Daniel Filipe, José Gomes Ferreira, José Afonso, Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cilia.

Curiosamente os autores incluíram a letra da canção Prá Não Dizer que Não falei das Flores.

A abrir, como epígrafe, palavras de Manuel Alegre tiradas da Canção Tão Simples cantada por Adriano Correia de Oliveira com música de António Portugal.

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

No interior há uma folha solta que diz:





E na contra capa pode ler-se:

Erguei-vos, levantai a cabeça porque a vossa libertação está próxima – Lucas 21-28. 


sexta-feira, 25 de abril de 2014

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe

quarta-feira, 18 de abril de 2012

POSTAIS SEM SELO


E digo-vos senhores é findo o vosso tempo, o jogo terminou ainda que não o pareça.

Daniel Filipe em Pátria Lugar de Exílio, Editorial Presença, Lisboa s/d

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PRIMUS INTER PARES


Há no Porto um café onde se pensa. Há no Porto um café onde se escreve. Há no Porto um café onde se discute. Há no Porto um café onde se é intelectual pelo preço acessível, a qualquer bolsa, de meia de leite e torrada bijou.
Tem um ar recatado, simples: o aspecto, doce e calmo, de um domingo de Novembro. Mas não se iludam, amigos: confesso que este café me preocupa e intimida. Que me suam as mãos, quando lá entro. Que me sinto mesquinho e sem valia, quando me atrevo a mergulhar na mansuetude quase líquida da sala.
Nesse
café do Porto, os intelectuais contam-se pelo número de clientes. Há-os verdadeiros e de pacotilha, circunspectos e irreverentes, académicos e revolucionários. Há-os de todas as escolas e matizes, novos, velhos, morenos, bexiguentos, altos, ínfimos, com rendosas conezias ou dificuldades de dinheiro. Escrevem, pintam, dissertam, analisam, definem. Sobretudo definem, quer dizer: classificam de acordo com a morfologia conveniente, etiquetam, intitulam, fossilizam. É um café virado do avesso, onde as janelas dão para o íntimo da pequenez das coisas: só por se estar olhando a rua através das cortinas ondulantes, a rua e o seu sentido hieroglífico tornam-se perigosamente inexistentes. Depois, quando se vem, de novo, para a alegria do sol, é indispensável e urgente reinventar a rua sem limites até ao mais inútil e inofensivo dos disfarces. E para quê, afinal?
Pois, senhores, é bem fácil a resposta: para que, à mesma hora do mesmo dia igual, qualquer cliente possa fechar os olhos à presença do mundo, pensando, discutindo, escrevendo. E registe-se, para uso dos iletrados irrecuperáveis, e nosso próprio conforto espiritual, que isto de latim é uma bela coisa.

Daniel Filipe em “Discurso Sobre a Cidade” Sagitário, Porto 1957


Legenda: são lindíssimos os cafés do Porto. Alguns ainda resistem.
Segundo o jornalista Germano Silva, o café que Daniel Filipe invoca nesta crónica, é o Café Rialto, que já não existe. Ficava na Praça D. João I  e uma das tertúlias reunia o Daniel Filipe, o Egito Gonçalves, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão, o António Rebordão Navarro, às vezes o José Augusto Seabra. Mantinham na altura uma colecção de poesia: Notícias do Bloqueio.
Andei à procura de uma fotografia do Rialto, mas não encontrei.
A que ilustra o texto é do Café Majestic, um ex-libris da cidade.

sábado, 30 de julho de 2011

JANELA DO DIA


 1.

Anos idos, quando ficar significava perecer, o saltar fronteiras na busca de qualquer coisa diferente, deixada, por exemplo, num poema de “Pátria Lugar de Exílio” de Daniele Filipe: “onde os trigais amadurecem, está tua saudade da cena familiar –  pais, irmãos, campos, casa, noiva. Lá, falam de ti, serenos, sem chorar…” ou Miguel Torga, no seu “Diário” dizendo até onde podia chegar o aviltamento humano:

“- Entegas-me as peles em Moiros?

- A que horas?

- Às onze.

As peles eram emigrantes clandestinos.”

Milhares de emigrantes começaram a chegar a casa para as tais férias do querido mês de Agosto e  afirmam saber, como disse um emigrante à reportagem do “Jornal de Notícias”: “que a crise está instalada em Portugal", mas alguns reconhecem, sem rodeios, que nos países onde trabalham a situação "não vai melhor". "Lá pode não se sentir tanto, porque os salários são maiores, mas também se sentem os problemas",  

2.

De Acordo com dados do governo As pensões mínimas, que abrangem cerca de um milhão de idosos em Portugal, devem subir entre seis e 13 euros por mês no próximo ano.

No debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, prometeu "proceder ao desbloqueamento, isto é, à actualização das pensões mínimas para o ano de 2012". "Isto corresponderá a um esforço financeiro considerável, mas é a única maneira que nós temos de mostrar aos portugueses que fazemos aquilo que dizemos".

3.

Sérgio Lavos no “Arrastão”:

“Quanto maiores forem as desigualdades sociais de uma nação, menos democrática ela é. Em 2011, Portugal é um país que caminha em direcção ao Terceiro Mundo. As classes média e baixa vão perdendo cada vez mais poder de compra; as classes mais altas vão acumulando mais riqueza. O capitalismo é isto, e é isto que troika quer, que a União Europeia prefere, que o Governo PSD/CDS vai incentivar. A velha história do Robin dos Bosques invertida. Roubar aos pobres para dar aos ricos. Até quando poderemos tolerar a situação?”

sexta-feira, 9 de abril de 2010

NÃO HÁ MACHADO QUE CORTE

TAGUS TG 112
Acompanhamento viola: Fernando Alvim

Dedicatória - Fernando Miguel Bernardes/Manuel Freire
Livre - Carlos Oliveira - Manuel Freire
Eles - Manuel Freire
Pedro O Soldado - Manuel Alegre/Manuel Freire

TAGUS TG 121
Acompanhamento viola: Fernando Alvim

Lutaremos Meu Amor - Daniel Filipe/Manuel Freire

Trova do Emigrante - Manuel Alegre/Manuel Freire
Trova - Manuel Alegre/Manuel Freire
O Sangue Não Dá Flor - Manuel Freire


ZIP ZIP  30.001/S
Arranjos e Supervisão - Thilo Krasmann

Pedra Filosofal - António Gedeão/Manuel Freire
Menina dos Olhos Tristes - Reynaldo Ferreira/Manuel Freire

Quando, em 1969, Manuel Freire aparece noZip-Zip”, a cantar Pedra Filosofal” de António Gedeão, não era totalmente um desconhecido. Era um companheiro de viagem, dos que, país fora, andavam por sociedades recreativas a dizer, a quem os quisesse ouvir, que haveria de chegar o dia das surpresas.
Em 1969 publicara o EP “Manuel Freire Canta Manuel Freire”, que inclui “Livre”, poema de Carlos de Oliveira, que passámos a saber de cor e que, por aqueles dias, em qualquer circunstância, se cantava ou murmurava.
Depois um outro EP, “Trovas,Trovas,Trovas”, que inclui o belíssimo poema de Daniel Filipe, "Lutaremos Meu Amor" disco que, de imediato, foi apreendido pela PIDE.
Uma simples mensagem: “na aparência sozinhos multidão na verdade, lutaremos meu amor", punha o regime a tremer.
Claro que a passagem pelo “Zip-Zip” projecta Manuel Freire para um outro tipo de público, e muito mais gente ficará, então, a saber que o sonho comanda a vida, que o mundo pula e avança.
Uma mera curiosidade: Manuel Freire nasceu a 25 de Abril de 1942.

“Livre”

“Não há machado que corte
a raíz ao pensamento:
não há morte para o vento,
não há morte.

Se ao morrer o coração

morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida
sem razão.

Nada apaga a luz que vive

num amor num pensamento,
porque é livre como o vento
porque é livre”.



sábado, 3 de abril de 2010

EI-LA A CIDADE PROMETIDA



Muito cedo se calou a voz de Daniel Filipe.

Morreu em 1964. Tinha 39 anos.

Deixou uma obra poética construída, essencialmente a pensar nos outros, a pensar na imediata necessidade política mais do que poética. Uma voz que nunca se calou ante uma ditadura que asfixiava todo um povo, um testemunho vigoroso mesmo que alguns poemas se mostrem irremediavelmente datados, mas sem deixarem de ser belos poemas.

Daniel Filipe conseguiu ser nesta “Pátria Lugar de Exílio "um grito de revolta e ao mesmo tempo de esperança.

Foi com um poema de Daniel Filipe que o programa “Limite”, que na madrugada de 25 de Abril transmitira “Grândola Vila Morena”, umas das senhas do Movimento dos Capitães., iniciou a sua primeira emissão em liberdade.

O 1º poema de “Canto e Lamentação na Cidade Ocupada”, incluído em “A Invenção do Amor e IOutros Poemas”, Editorial Presença, Lisboa s/d

“Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos


Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote


Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone


Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor”

Em 1965, o cineasta António Campos realizou “A Invenção do Amor”, um filme planificado a partir do poema de Daniel Filipe.

Este é o diálogo que precede o filme:

“Homem- Seria tão belo um mundo de amor.
Mulher – Duvido muito da capacidade de amar, vinda dos outros…
Homem – Todos a temos dentro de nós. É preciso utilizá-la… e saber utilizá-la. Mostrar-lha-emos estou certo.
Mulher Não nos compreenderão, rir-se-ão de nós. E depois a vida é curta de mais, para jornada tão longa!
Homem – Alguém disse há muitos anos: transporta todos os dias um punhado de terra e terás uma montanha.
Mulher – É verdade! E não disse: transporta todos os dias um punhado de água e terás um mar!
Homem – Bravo! É urgente começar… Os outros farão o cum
e da montanha!”

A INVENÇÃO DO AMOR


ORFEU STAT 016
Som: Moreno Pinto
Arranjo gráfico - José Santa-Bárbara
Direcção de gravação e produção - José Niza
Editado em 1973

Lado A
"A Invenção do Amor" - voz de Daniel Filipe
Piano electrónico e piano - Marcos Resende
Flauta, sax-alto, Sax-soprano - Rui Cardoso

Lado B
Outros poemas de Daniel Filipe
Voz - Mário Viegas
Canção da autoria de José Niza
Os poemas ditos por Mário Viegas são retirados dos livros de Daniel Filipe "A Invenção do Amor" e "Pátria, Lugar de Exílio".

"Um cartaz na cidade denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num hotel numa tarde de chuva e inventaram o amor com carácter de urgência souberam entender-se sem palavras inúteis apenas o silêncio a policia de costumes avisada procura os dois amantes antes que a invenção do amor se processe em cadeia há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos o perigo justifica-o não precisam de dar o nome e a morada e garante-se que nenhuma perseguição será movida nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa é preciso encontrá-los antes que seja tarde importa descobri-los onde quer que se escondam antes que seja demasiado tarde e o amor como um rio inunda as alamedas praças becos calçadas."

Palavras soltas retiradas de "A Invenção do Amor".