Mostrar mensagens com a etiqueta David Morão-Ferreira Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta David Morão-Ferreira Livros. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


Gaivotas em Terra

David Mourão-Ferreira
Capa: Vespeira
Colecção Atlântida nº 10
Editora Ulisseia, Lisboa 1959

Ainda não era meia-noite e já o tenente Sanches ressonava. Através da porta, que ele tinha deixado entreaberta, vislumbrava-se apenas a outra cama – onde, só lá pelas cinco ou seis horas da manhã, me seria permitido descansar um pouco. Velha raposa, o tenente Sanches lançara-me, sobre os ombros novatos, todas as maçadas do serviço da noite: a vigilância do recolher, as rondas, o preenchimento de uma infinidade de papéis.
Era um dos meus primeiros serviços na unidade. Naquele tempo (não sei se ainda acontece o mesmo), nós, os milicianos, só podíamos desempenhar funções de «oficial de prevenção»: o «oficial de dia» tinha de ser um tipo do quadro. E quem logo me fora calhar: o tenente Sanches! Tarimbeiro, desconfiado, muito sorna, corriam acerca dele as piores histórias. Dizia-se mesmo que estivera vagamente envolvido num crime: e que, por isso, não era promovido e tenente haveria de morrer.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS



Obra Poética

David Mourão-Ferreira
Introdução de Eduardo Prado Coelho
Capa: escultura em mármore de Cascais de Francisco Simões
Editorial Presença, Lisboa, Julho de 1996

Soneto Amargo de Convívio Humano

A pouco se reduz esta aventura:
rio  sombrio de palavras feito,
onde cada garganta é um parapeito
sobre o líquido engano que murmura...

 De pedra, de silêncio, e hostilidade,
somos estátuas verdes mas esquivas.
Odiar? Amar? - Apenas tentativas
falhadas nas esquinas da saudade.

E já nenhuma esp'rança nos consegue
manter o morto corpo desatento:
somente partilhamos o tormento
a que vai cada um de nós entregue.

Que no entanto o rio nos iluda,

com sua eterna melopeia aguda.