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quarta-feira, 2 de maio de 2018

TESTAMENTO


                                   Have you built your ship of
                                   dead. O have you?
                                   O built your ship of dead, for
                                   you will need it.

                                                    D. H. LAURENCE


Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata Nem de cinza
Antes de lava Antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
Ou quando a vida nos agarra
Adeus ó pombas
todas iguais ante as muralhas
Adeus veredas invisíveis
que na floresta nos aguardam
Adeus ó barcos à deriva
Adeus canais Adeus guitarras
Adeus ó sílabas da brisa
Adeus sibilas ningas cabras
tantas que a Deus se prometiam
mas só adeuses encontravam
Adeus ó deusas de partida
no meu minuto de chegada
Adeus ardentes evasivas
a ver se um pouco as demorava
Se as demorava ou demovia
de tão depressa me deixarem
Adeus ó portas clandestinas
que ao fim da tarde se entreabrem
Adeus adeus íntimas vítimas
das cerimónias implacáveis
Como deixar-vos todavia
se as vossas mãos as vossas faces
ora parecem despedir-me
ora conseguem renovar-me
E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo. E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembras liras
mas entre as ondas só navalhas
É quando o poeta menos grita
que mais se crê nas suas lágrimas
Fique porém de quanto sinta
um monumento de palavras
Mas não de bronze Nem de argila
E nem de cinza nem de mármore
De fumo sim Do que se infiltra
no coração das velhas máquinas
no estertor dos suicidas
no riso triste dos apátridas
no ondular das gelosias
de onde se espia a madrugada
Do fumo enfim que se eterniza
na longa insónia das estátuas
E que de nós a alma extirpa
não nos deixando nem a máscara
quando é só corpo o que nos fica
para morrer às mãos dos bárbaros
E que nos conta só mentiras
E nos aceita só verdades
Múltiplas ágeis infinitas
sejam as linhas que ele trace
como as que traça a própria vida
sem liberdade em liberdade
Adeus ó fogo Adeus raízes
que todo o fumo alimentavam
E adeus o mel Adeus urtigas
da minha terra calcinada
Adeus cortiço Adeus cortiça
Ó madrugadas inflamáveis
Já se nem sabe a que sevícias
é que por fim a boca sabe
Nem qual a sombra que improvisa
esta sonâmbula sonata
que apazigua que arrepia
que nos destói que nos exalta
Nem qual o crime inda mais crime
se acaso chega a desvendar-se
Adeus adeus eterna esfinge
Adeus Não penses que me ultrajas
E lembro tudo o que era simples
antes do nada inevitável
Mas que do nada ao menos fique
um monumento de palavras

David Mourão-Ferreira em Obra Poética

Legenda: fotografia da revista Colóquio-Letras da Fundação Gulbenkian

domingo, 4 de fevereiro de 2018

E POR VEZES


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos    E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites      não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos 

David Mourão-Ferreira em Obra Poética

Legenda. Não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 6 de janeiro de 2018

PRELÚDIO DE NATAL


Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas.


David Mourão-Ferreira em Antologia Poética

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica
(dos Cancioneiros Medievais à Actualidade)

Selecção, Prefácio e Notas de Natália Correia
Ilustrações de Cruzeiro Seixas
Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa, 1966

Re(li)gata

Quando em lugar de feltro é de barro de Outubro
o calor interior das coxas habitadas
Quando a língua é um barco avançando no escuro
de um canal de Corinto entre pardas escarpas
Quando o cheiro do Mar se desdobra em veludo
Quando rompe na boca o mistério das algas
Quando em baixo o teu pé a triturar-me o surdo
perímetro do sexo encontra a madrugada
Quando mais se aproxima a náutica do culto
Quando mais o altar se mostra navegável
Quando mais eu descubro e    restauro    e misturo
na crista litoral de súbito ampliada
o ritual do grito o ritual do cuspo
e vês que ninguém mais merece esta homenagem
é que enfim te possuo    é que enfim te reduzo
a uma luva    uma esponja    uma deusa    uma nave


David Mourão-Ferreira

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

RETRATO DE RAPARIGA


Muito hirta  de pé  no patamar do sono
Contornando sem pressa a curva de uma artéria
Por mais ocasional que fosse o nosso encontro
dava-me a entender que estava à minha espera
Com um livro na mão  com um lenço ao pescoço
uma expressão cansada   a palidez inquieta
de quem andasse ao vento ou trouxesse no rosto
em vez de pó de arroz um pó de biblioteca
surgia de repente onde sempre estivera
em Zurique  em Paris  em Liège  em Colónia
Por único endereço uma carreira aérea
Mas não sei se era louca  ou apenas mitómana
Onde quer que eu a visse uma coisa era certa
Numa rua  num bar  num museu  numa doca
dava-me a entender que estava à minha espera
dava-me a entender que se chamava Europa

David Mourão-Ferreira de Do Tempo ao Coração em Obra Poética

Legenda: fotografia de David Solomons

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

LADAÍNHA DOS PRÓXIMOS NATAIS


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

domingo, 1 de novembro de 2015

NUMA LISBOA ASSASSINADA

          
           I

Porquê o sono
que nunca durmo
De que me escondo
Com que me cruzo
Sob que escombros
de que futuro
me reencontro
ou me sepulto
Que mar ao longe
Que ruas sulco
Por onde rondo
Que céu Que burgo
este que em sonhos
em vão procuro

            II

Sou o que somos
e o que descubro
cosido ao longo
de tantos muros
Corvos e lobos
mais do que surdos
cegos ao fogo
de outros minutos
E desde que ombros
até que pulsos
morrem de um polvo
braços inúmeros
Ai destes troncos
que já são túmulos

           III

Rondam em torno
carros soturnos
Corpos sem ombros
prendem-se ao fundo
feito de lodo
de um rio sujo
E o mar ao longe
E o céu do burgo
só o componho
se o reconstruo
Ah que malogro
ah que absurdo
viver no sono
deste aqueduto.

David Mourão Ferreira de  Os Ramos  Os Remos em Obra Poética.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

BARCO NEGRO





Quando aqui  falei do Barco Negro cantado pela Amália, arrastei o pé para dizer que a versão do Ney Matogrosso, que faz parte dum bonito disco que comprei na Discoteca Melodia, é um assombro.

Sempre fui fã de Ney e as coisas passaram a ter outra dimensão quando o vi, ao vivo, no Coliseu.

Barco Negro tem letra de David Mourão Ferreira e música do brasileiro Caco Velho.

Barco Negro

De manhã, que medo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia.
Mas logo os teus olhos disseram que não!
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois numa rocha uma cruz
e o teu barco negro dançava na luz...
Vi teu braço acenando entre as velas já soltas...
Dizem as velhas da praia que não voltas.

São loucas... são loucas!

Eu sei, meu amor, que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros,
na água que canta no fogo mortiço,
no calor do leito dos bancos vazios,
dentro do meu peito estás sempre comigo.

Eu sei, meu amor, que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo.



A música de Caco Velho foi composta para um poema de Piratini com o título Mãe Preta, uma canção de denúncia da escravatura que, tanto quanto me disseram, Salazar proibiu que passasse na rádio.

Fica aqui a letra original de Piratini e a interpretação de Dulce Pontes:



 Mãe Preta

Pele encarquilhada carapinha branca
Gandôla de renda caindo na anca
Embalando o berço do filho do sinhô
Que há pouco tempo a sinhá ganhou

Era assim que mãe preta fazia
criava todo o branco com muita alegria
Porém lá na sanzala o seu pretinho apanhava
Mãe preta mais uma lágrima enxugava

Mãe preta, mãe preta

Enquanto a chibata batia no seu amor
Mãe preta embalava o filho branco do sinhô.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

BARCO NEGRO


Barco Negro.
Há muitos e muitos anos que conheço este fado de Amália Rodrigues.
Gosto muito de o ouvir.
Só mais tarde vim a saber, que o bonito poema é da autoria de David-Mourão Ferreira.
Vim depois a encontrar a versão de Ney Matogrosso num disco LP que dá pelo nome de Sujeito Estranho.
A capa desse disco encontram-na no post seguinte.
Gosto muito de Amália, mas, permitam-me o desplante: a versão de Ney é um assombro.
Tentei encontrar essa interpretação, para a colocar aqui, mas das que estão pelo You Tube, nenhuma é a disco.
As que ouvi não me parecem nada felizes razão porque vos deixo a da Amália.
Por isso escolhi Amália.

Barco Negro

Poema: David-Mourão Ferreira
Música: Caco Velho

De manhã temendo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia,
mas logo os teus olhos disseram que não
e o sol penetrou no meu coração. 
 
Vi depois, numa rocha, uma cruz,
e o teu barco negro dançava na luz;
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia que não voltas...
São loucas! São loucas!  -  
 
Eu sei, meu amor,
que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor
me diz que estás sempre comigo. 
 
No vento que lança
areia nos vidros,
na água que canta,
no fogo mortiço,
no calor do leito,
nos bancos vazios,
dentro do meu peito
estás sempre comigo.

sábado, 24 de dezembro de 2011

LADAINHA DOS PRÓXIMOS NATAIS



“Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito”

David Mourão-Ferreira em “Obra Poética”, Editorial Presença, Julho 1996

domingo, 30 de outubro de 2011

CASA


Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David Mourão-Ferreira de Infinito Pessoal em Obra Poética

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

POSTAIS SEM SELO


A Isadora Duncan

Nasci quando morreste.
Por isso trago a nostalgia
Dos movimentos puros que fizeste.

David Mourão-Ferreira do livro “Tempestade de Verão” em “Obra Poética”, Editorial Presença”, Lisboa, Julho 1988

domingo, 17 de outubro de 2010

EQUINÓCIO


Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro   o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gim enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto    Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela    Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão    Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

David Mourão-Ferreira do livro Do Tempo do Coração em Obra Poética 

Legenda: Não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.