O Brasil é longe – tanto mar! – tão grande,
que dele quase nada sabemos.
O que os
meios de comunicação social nos dão a ver, a ler, chega-nos deficiente,
truncado.
Mas lemos
Jorge Amado e outros, ouvimos Chico Buarque e outros.
Temos a
nossa ideia.
Erros terão
existido, mas a destituição de Dilma Rousseff da presidência do país, é um
golpe.
Custa, mas
custa mesmo, saber que Portugal tomou o partido dos golpistas:
O Governo português vem reiterar a sua
vontade de continuar a aprofundar as relações bilaterais de excelência que
ligam Portugal e o Brasil, alicerçadas num elo único e fraterno entre os dois
povos", refere um comunicado do gabinete do ministro Augusto Santos Silva
enviado às redacções. O comunicado é justificado pela "tomada de posse do
Presidente Michel Temer" que se fez "no cumprimento das disposições
constitucionais brasileiras", precisam os Negócios Estrangeiros, rejeitando
a tese de "golpe".
Dilma
Rousseff, a presidente do Brasil com mandato suspenso depois de ter sido
afastada temporariamente do cargo pelo Senado, disse aos brasileiros:
Não cometi crime de responsabilidade, não há
razão para um processo de impeachment, não tenho contas no exterior, nunca
recebi propinas, jamais compactuei com a corrupção. Este processo é frágil,
juridicamente inconsistente, um processo injusto, desencadeado contra uma
pessoa honesta e inocente.
Posso ter cometido erros, mas não cometi
crimes. Estou a ser julgada injustamente por ter feito tudo o que a lei me
autorizava a fazer. Foram actos legais, correctos, necessários, de governo, actos
idênticos foram executados pelos presidentes que me antecederam. Não era crime
na época deles e também não é agora.
O risco, o maior para o país neste momento,
é ser dirigido por um governo que não teve votos, que não foi eleito pelo voto
directo, que não terá a legitimidade para propor e implementar soluções para os
desafios do Brasil.
Michel Temer
é agora Presidente interino do Brasil por um prazo máximo de 180 dias.
Durante este
período, o Senado irá julgar Dilma Rousseff num processo presidido por um juiz
do Supremo Tribunal de Justiça.
Dilma só
será afastada definitivamente se for condenada por uma maioria de dois terços
dos eleitos naquele órgão.
Mais de uma
centena de deputados, a contas com processos vários, devido a actos de
corrupção, ajudaram à abertura do processo de destituição da Presidente Dilma.
O processo está
agora no Senado.
O Brasil vive
dias muito difíceis.
Que futuro?
Corria o ano de
1968 quando Geraldo Vandré, apresentou-se no III Festival Internacional da
Canção com Pra não Dizer que não Falei das Flores, canção que se tornou um hino de resistência contra a
ditadura militar.
É essa canção
que recordamos nestes momentos difíceis da vida brasileira.
Também se reproduz a versão, ao vivo, do Festival em que o público vaiou a canção de António Carlos Jobim e Chico Buarque Buarque que ficara em primeiro lugar.
Geraldo Vandré, muito bem, lembrava ao público que cabia aos cantores fazer o seu trabalho e o júri de julgar.
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?