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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Brasil é longe – tanto mar! – tão grande, que dele quase nada sabemos.

O que os meios de comunicação social nos dão a ver, a ler, chega-nos deficiente, truncado.

Mas lemos Jorge Amado e outros, ouvimos Chico Buarque e outros.

Temos a nossa ideia.

Erros terão existido, mas a destituição de Dilma Rousseff da presidência do país, é um golpe.

Custa, mas custa mesmo, saber que Portugal tomou o partido dos golpistas:

O Governo português vem reiterar a sua vontade de continuar a aprofundar as relações bilaterais de excelência que ligam Portugal e o Brasil, alicerçadas num elo único e fraterno entre os dois povos", refere um comunicado do gabinete do ministro Augusto Santos Silva enviado às redacções. O comunicado é justificado pela "tomada de posse do Presidente Michel Temer" que se fez "no cumprimento das disposições constitucionais brasileiras", precisam os Negócios Estrangeiros,  rejeitando a tese de "golpe".

sexta-feira, 13 de maio de 2016

E AGORA, BRASIL?


Dilma Rousseff, a presidente do Brasil com mandato suspenso depois de ter sido afastada temporariamente do cargo pelo Senado, disse aos brasileiros:

Não cometi crime de responsabilidade, não há razão para um processo de impeachment, não tenho contas no exterior, nunca recebi propinas, jamais compactuei com a corrupção. Este processo é frágil, juridicamente inconsistente, um processo injusto, desencadeado contra uma pessoa honesta e inocente.
Posso ter cometido erros, mas não cometi crimes. Estou a ser julgada injustamente por ter feito tudo o que a lei me autorizava a fazer. Foram actos legais, correctos, necessários, de governo, actos idênticos foram executados pelos presidentes que me antecederam. Não era crime na época deles e também não é agora.
O risco, o maior para o país neste momento, é ser dirigido por um governo que não teve votos, que não foi eleito pelo voto directo, que não terá a legitimidade para propor e implementar soluções para os desafios do Brasil.

Michel Temer é agora Presidente interino do Brasil por um prazo máximo de 180 dias.

Durante este período, o Senado irá julgar Dilma Rousseff num processo presidido por um juiz do Supremo Tribunal de Justiça.


Dilma só será afastada definitivamente se for condenada por uma maioria de dois terços dos eleitos naquele órgão.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES


Mais de uma centena de deputados, a contas com processos vários, devido a actos de corrupção, ajudaram à abertura do processo de destituição da Presidente Dilma.

O processo está agora no Senado.

O Brasil vive dias muito difíceis.

Que futuro?

Corria o ano de 1968 quando Geraldo Vandré, apresentou-se no III Festival Internacional da Canção  com Pra não Dizer que não Falei das Flores, canção que se tornou um hino de resistência contra a ditadura militar.

É essa canção que recordamos nestes momentos difíceis da vida brasileira.

Também se reproduz a versão, ao vivo, do Festival em que o público vaiou  a canção de António Carlos Jobim e Chico Buarque Buarque que ficara em primeiro lugar.

Geraldo Vandré, muito bem, lembrava ao público que cabia aos cantores fazer o seu trabalho e o júri de julgar. 

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.


Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.






segunda-feira, 18 de abril de 2016

E AGORA, JOSÉ?


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade