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sábado, 26 de janeiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


É demasiado o que há para contar. E o que é demais torna-se exíguo.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas

Legenda: pintura de  Massimo Marchetti 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

DESCOBRI UM LIVRO GIRO...


Ainda a entrevista de Luiz Pacheco a João Pedro George:

O Luiz foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso de O Que Diz Molero. Como é que isso se passou?

Eu estava em Massamá e tive a informação de que a Bertrand me queria editar a Obra Completa. Um dia fui à Bertrand, na Venda Nova, e encontrei o Dinis Machado, que foi gentilíssimo comigo e com o Paulo... encheu-o de álbuns, papel, livros... e deu-me as provas do Molero – portanto a minha crítica saiu no Diário Popular antes de o livro estar à venda. No dia seguinte comecei a ler aquela merda, aquilo são dois gajos a discutir, e eu disse ao gajo onde estava o meu filho Paulo, o Henrique Garcia Pereira: «O pá, eu estou fodido com este gajo, este gajo foi tão simpático comigo e com o meu filho, deu-me tanta merda, e agora isto é uma porcaria, não se percebe nada». Até que de repente entrei na cegada da cena de porrada com os camones no Bairro Alto... aquilo tinha uma coisa, é que era um livro que já não era escrito com medo da censura, via-se que havia ali... o gajo não era nenhum novato, já tinha escrito 3 romances policiais... havia ali de repente uma força, porque estes gajos se tivessem um bocadinho de vergonha não publicavam os livros que publicaram durante o fascismo… bom, então escrevi o artigo «Descobri um Autor». Só na semana seguinte é que o Molero saiu à venda. Estava na feira do livro e apareceu-me o Afonso Praça: «Olha, comprei aquela coisa do Molero por causa da tua crítica, opá julguei que estavas a gozar, mas tinhas razão, aquilo é muito giro…» Depois disse muito mal do Reduto Quase Final, numa entrevista ao B-B. Um gajo também não escreve só obras-primas, há altos e baixos... Se um gajo vai  facilitar, a não pensar, se o gajo não é o leitor mais exigente de si mesmo, está fodido, tem a classificação que merece. Eu de facto não descobri autor nenhum, descobri um livro giro…

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

OS CÉLEBRES ORIGINAIS NA GAVETA


Carta de António José Saraiva, datada de Maio de 1980, para Óscar Lopes:

Mas do ponto de vista científico devo prevenir-te contra os efeitos nefastos do fanatismo. Por exemplo, na p. 1139 da 11ª edição da História da Literatura ligas os romances do Nuno de Bragança e de Dinis Machado ao 25 de Abril. Ora o livro principal do Nuno Bragança foi publicado em 1969, e o do Dinis Molero (que na minha opinião está longe de ser um grande livro) podia perfeitamente ter sido publicado antes, pois nada tem que ver com a problemática do 25 de Abril. Claro que tomas preocupações de estilo: falas de «uma carreira recente» e do «fulminante êxito de um livro ambos marcados pela problemática e pelo degelo trazidos pelo 25 de Abril.» A «carreira» é a do Nuno de Bragança, o que te permite meter no mesmo saco A Noite e o Riso (que é um grande livro) e a Directa (1977) que está longe de atingir o mesmo nível. Mas quem ler desprevenidamente julga que o 25 de Abril teve algum efeito na literatura, o que sabes perfeitamente que é falso. Já lá vão seis anos e não se viu nada, nem sequer os célebres originais «na gaveta». O que prova afinal que a literatura tem muito pouco a ver com as peripécias da política, como alíás já sabíamos. É lamentável que tenhas deixado passar para um livro científico um slogan ideológico, ou melhor partidário.


Legenda: Nuno Bragança

terça-feira, 18 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Há homens que não são fáceis de adjectivar.

Dinis Machado na morte do seu camarada de profissão e amigo Roussado Pinto, vulgo Ross Pynn, em Gráfico de Vendas Com Orquídea 

segunda-feira, 16 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


O Cerdan morreu num desastre de avião, se a memória não me trai. Ia discutir com o Graziano essa velha questão de saber qual é o melhor do mundo. Paris chorou. Os cegos musicais de Lisboa, esse tão magoado lirismo das sargetas, que tantas vezes me surpreendeu de ternura ao virar da esquina, tocaram alguns dias, a troco de tostões, castanhos e avaros, em fins de tarde cansadas, «La Vie en Rose». E havia uma letra que falava de Cerdan. Rimava com titã.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas 

Legenda: Marcel Cerdan

sexta-feira, 20 de abril de 2018

TENHO O LIVRO À MINHA FRENTE


Chandler, Lettres.
Tenho o livro à minha frente. Releio, às vezes, uma ou outra carta. São cartas serenas, inquietas, tímidas, polémicas, orvalhadas de pudor. E de magia. A magia da escrita que ele confessa perseguir. Chandler fala dele, dos outros, de gatos, do seu trabalho. A arquitectura, a atmosfera, o tricot do romance policial. Philip Marlowe aberto de alto abaixo, como um boneco, exposto, depositado, transmitido. Mais um adjectivo: quotidiano. Saem das suas entranhas as vítimas de Sammy Glick, Sammy Glick ele próprio, seus compostos e derivados, a maratona incansável do sucesso, a Black Mask toda inteirinha, dinâmica, estereotipada, esquizofrénica, consumível, e que em Chandler atinge, através dos seus filtros verbais, aquele estádio superior que é o exercício equilibrado de uma paixão: o plano sólido da história, o encaixe de situações desencaixadas, o relance certeiro, o descritivo absurdamente minuciosos, o diálogo coruscante, os factos, a névoa dos factos, a rarefacção do conjunto, a elipse, a tecla silábica, the-la-dy-in-the-la-ke, a estúpida brutalidade, a humidade do beijo, a bala na têmpora, o enlace das aquisições, o desenlace, essa quase geométrica flor de papel pintada a sangue que é cada um dos seus livros.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Não acredito, mas também não me oponho. Sempre tive de Deus uma noção um pouco infantil: um irmão mais velho, mais sabedor, que não sei onde está, que não sei se chegou a nascer. Tenho com Deus (que não tenho) uma relação epidérmica, saudável, que até me permite lançar-lhe uma pida. Saúdo assim o seu mais provável sentido de humor, essa omnipotência sorridente. Talvez mais do que irmão: avô. Nas horas piores, fico-me. Falta-me a fé, faltam-me as regras teológicas, tudo se complica.

Dinis Machado em Reduto Quase Final

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

sábado, 4 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO



Não há dúvida, cresci. O casaco rebentava nas costuras, as calças deixavam as peúgas à vista. Era uma vez um miúdo que abriu um livro, entrou no livro e começou a andar pela vida fora. E saiu do livro quando a história acabou.

 Dinis Machado em Reduto Quase Final

Legenda: pintura de Winslow Homer

domingo, 8 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Cada leitor é soberano na sua opinião.

Dinis Machado em Reduto Quase Final

sábado, 29 de abril de 2017

ENTÃO REGRESSO



Estávamos em Maio, o mês das flores. Mas em Nova Iorque não há fragrância de flores, há o cheiro dos homens que correm atrás da vida e há o cheiro do cimento que lhes absorve as horas e as ideias, por causa do dinheiro. Naquele momento, eu era um dos poucos novaiorquinos que não corria atrás de coisa alguma: dinheiro, poder, mulheres ou a juventude perdida. E se não fosse a circunstância de ter contra mim o Sindicato do Crime e a Mafia, podia considerar-me do lado de fora da maior competição fratricida do mundo, uma espécie de Jogos Olímpicos do Dólar. Ou uma peça chamada Estados Unidos da América, com milhões de figurantes seguindo a bandeira do Dólar, com dólares desenhados nos olhos, com dólares escondidos no coração, com dólares atravessados na garganta, dias muito dinâmicos e noites muito cansadas, publicidade, bairros de lata e arranha-céus, publicidade, combates de boxe e avenidas a «néon», publicidade, o eterno problema dos negros e «compre hoje mesmo o seu frigorífico», publicidade, mais material de guerra e «sorria como William Holden», publicidade, comprimidos para lembrar e comprimidos para esquecer, publicidade, e a manhã que nasce e tudo recomeça.
O meu último contrato rendera-me bom dinheiro. Partira para Roma seis meses antes. Parto sempre para Roma quando não me sinto seguro. Revejo a Capela Sistina, as garotas da Praça de Espanha, vejo o último Fellini ou o último Rosselini, compro livros que dificilmente encontro nos Estados Unidos, e espero que Johnny Arteleso, meu companheiro de infância e meu único verdadeiro amigo, me diga de Nova Iorque que o tempo está sereno. Então regresso.


Legenda: pormenor da capa feita por Antunes para a edição do Círculo de Leitores de Mulhere Arma Com Guitarra Espanhola.

terça-feira, 4 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


«O poema diz: Há pombos esquecidos nas estátuas desta cidade naufragada. Mastros de sombra escrevem o teu nome e em cada letra reconheço a madrugada. Mulheres e homens, enlaçados de cansaço, dormem um sono fundo, com raízes. Das margens desse sono se levantam as pedras das palavras que não dizes. Foge o mar dos meus dedos entre a noite, e a noite é uma canção que te procura. Nos meus olhos ardem estrelas encharcadas que rodeiam de azul a tua altura. Cada esquina é um cais à tua espera. Faróis e candeeiros chamam por ti. Como um sonho deslizo e permaneço na rua da janela onde te vi. Finalmente os pombos largados, partindo desta estátua que tu és».

Dinis Machado em O Que Diz Molero

Legenda; não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


O real já se sabe o que é: tropeça-se nele; o imaginário é o resto onde cabe tudo.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas

Legenda: fotograma de Tree of Life de Terence Malik

domingo, 25 de dezembro de 2016

O QUE RESTA DO MEU SONHO AMERICANO


Hoje, dia de Natal (que notícia mais estranha, ouvida a olhar para o pinheiro), morreu a alegria ela mesmo, a melancolia ela mesmo, a esperança ela mesmo, a geometria exacta do lirismo: morreu Charlie Chaplin. Realmente, só faltava esta: morrer o Chaplin. Não era possível, realmente, descobrir notícia mais interessante, realmente, para dar no dia de Natal, do que nos virem dizer que morreu o Chaplin. O que vale, menino, é que já nada nos surpreende.
Cá por mim, íntimo de Charlot até à última costela, que passei com ele as passas do Algarve, já nem ligo. O meu amigo Charlie, ninguém o mata. É o matas. Seria matar esta gargalhada que ainda hoje dou, esta fraternidade de estar de pé, para estar de pé. Nisso, sou intransigente. Ninguém mata o Charlot porque não quero. Ninguém mata as luzes da cidade, ninguém mata as quimeras de oiro.
Estou aqui para defender esta ideia, defendê-la contra a morte. Nem que tenha de pedir a pistola emprestada ao Bogart, nem que tenha de não sei quê.
Porque é isto que resta do meu sonho americano.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


«Faço um filme só com uma ruga de Bogart» - citou John Huston.

Dinis Machado  em O Lugar das Fitas.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

QUOTIDIANOS


E o tempo é:
esta criança que olha para mim, que transmite o mistério que a perturba, e que reflecte o meu próprio mistério. O tempo é esta criança, esta criança fui eu;
este homem velho sentado no banco de jardim, que tem nos olhos a luz de outrora (a da criança, no outro lado do jardim) e que, afinal, começa  a despedir-se de tudo o que acriança está a descobrir. O tempo é este homem velho, este homem velho serei eu.


Legenda: pintura de Mihai Criste

quinta-feira, 17 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Tive sempre uma pequena bússola – para me levar aos pais, aos amigos, aos trabalhos de que gostava. E guiou-me para as auroras boreais dos livros e dos filmes.
A imaginação é um barco.
E se fomos inúteis, de modo nenhum o fomos completamente.


Legenda: pintura de Mihai Criste

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Um dia, a long time ago, como dizia o Ed. G. Robinson mascarado de gangster nostálgico já não me lembro em que fita, abri os olhos. Fiquei espectador.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Estou naquele capítulo do Reduto Final a que Dinis Machado chamou Os rapazes dos livros, das fitas e da bola.

Futeboladas aos domingos na praia da Caparica

Dinis Machado menciona os nomes dos barcos que do Cais do Sodré iam para a Trafaria: o Flecha, o Zagaia, o Norte-Expresso.

Na Trafaria, apanhavam a camioneta para a Caparica.


Antes, já Dinis Machado perguntara:

A propósito: quem é que tem a bola? Estive a ver as marés, temos terreno duro no domingo, na praia, da parte da manhã. Podemos estar a dar uns toques umas seis horas seguidas, mas é preciso apanhar o barco aí pelas oito horas. E com isto fecho a secção de informações. Quem é que tem a bola? Quem é que a levou para casa no domingo?

A Costa da Caparica, naqueles tempos, tinha dunas que se estendiam da Cova do Vapor, frente ao Bico da Areia, até às rochas já a caminho do Cabo Espichel.

Outra vez o Dinis Machado:

- O pebre não tem nada que ir buscar a bola às dunas. A areia queima e aqui não há criados.

- Fica assim: quem rematar é que vai buscar a bola às dunas.

Mas, hoje, não venho aqui, com o Dinis Machado, por causa da bola.

Venho pelo nimas.

A páginas 49 escreve:

- Então ninguém sabe qual é a fita?
- É pá, já temos ido uma data de vezes ao cinema sem sabermos qual é a fita. Só sabemos quando lá chegamos.

Era assim.

As vezes que a malta do bairro, arrancava para o «piolho» sem saber quais eram as fitas.

Sim, eram sempre exibidas duas fitas.

Tantos filmes que vimos mais de uma vez.

Pouco interessava.

O importante era o cinema.

A propósito:

Quem é que tem a bola?

Legenda: cartaz de Veneno de Cobra, um delicioso filme de Michael Curtiz com Humphrey Bogart, Peter Ustinov e Aldo Ray. Lembro-me que o vi pela primeira vez no Cine-Oriente, para aí no findar dos anos 50.

sábado, 2 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Os pais eram chamados à esquadra, com multa e sermão. Nunca entendi a sanha das autoridades contra as nossas bolas de trapos. Vigiavam-nos como se fôssemos a quadrilha Al Capone. Tínhamos sempre uma sentinela à esquina para avisar quando vinha o polícia. Uma espécie de estado de terror que nos levava a jogar com o coração aos saltos. Percebíamos que a actividade era um pouco ilegal, mas não nos entrava na cachimónia que fôssemos considerados inimigos públicos. Com o tempo, felizmente, a ofensiva assanhada foi diminuindo. Alguém se terá lembrado de que as bolas de trapos não eram instrumentos de revolução. Por aí, o Poder podia dormir descansado.

Dinis Machado em A Liberdade do Drible

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Um Natal

Truman Capote
Tradução: Rita Alves Machado e Dinis Machado
Capa: Rogério Petinga
Difel, Lisboa s/d

Doze horas mais tarde estava eu em casa, na cama. O quarto estava escuro. Sook estava sentada a meu lado, oscilando na cadeira de baloiço, um som tão calmante como as ondas do oceano. Tentei contar-lhe tudo o que tinha acontecido, e só parei quando fiquei rouco como um cão cansado de uivar. Ela passou os dedos pelo meu cabelo e disse: - Claro que o Pai Natal existe. Só que ninguém consegue fazer sozinho tudo o que ele tem para fazer. Por isso o senhor distribuiu a tarefa por todos nós. Por isso toda a gente é Pai Natal. Eu sou. Tu és. Até o teu primo Billy Bob. Agora vai dormir. Conta as estrelas. Pensa na coisa mais tranquila que conheças. Como a neve. Lamento que a não tenhas podido ver. Mas agora a neve cai das estrelas. Estrelas brilhando, neve rodopiando dentro da minha cabeça; a última coisa de que me lembrei foi da voz calma do Senhor dizendo-me aquilo que eu tinha de fazer. E no dia seguinte fi-lo. Fui com o Sook aos Correios e comprei um postal. Esse mesmo postal existe hoje. Foi encontrado no cofre-forte do meu pai quando ele morreu o ano passado. Eis o que tinha escrito: Olá papá espero que estejas bem eu tou e tou a aprender a pedalar o meu avião tão depressa que daqui a pouco tou no céu por isso fica de olhos abertos e sim eu gosto muito de ti Buddy.