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terça-feira, 29 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Lugar das Fitas

Dinis Machado
Edição: Marta Navarro
Capa e vinhetas: Rui Rodrigues
Quetzal, Lisboa, Fevereiro de 2016

Dirá o leitor que o diálogo acciona uma certa linguagem motora exagerada. Mas não andamos longe da nevralgia, se me permite alguma caricatura. Esta questão do tabaco sempre me deu que pensar, incluindo a radical filosofia do Neco Primavera, que ostentava no seu curriculum (além do facto de ter ganhado a aposta de beber a água de dez igrejas de Lisboa num só dia, percorrendo a cidade de púcaro na mão) a habilidade e o método de fumar seis maços de cigarros em cada vinte e quatro horas, batendo o recorde olímpico que ia do Largo de São Roque à Rua dos Correeiros. Quando lhe perguntei porque fumava tanto, o Neco fez olhos espantados:
- Fazes o favor, dizes-me o que é que eu faço às mãos e à boca, quando não estou a mexer na Conceição, a comer bacalhau com batatas ou a chupar rebuçados do Dr. Centazzi? Fazes favor, dizes-me?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Gráfico de Vendas com Orquídea

Dinis Machado
Capa: João Botelho
Edições Cotovia, Lisboa, Outubro de 1999

O que representa o Cais do Sodré? Limite da cidade, rasgo de horizonte, caterva de batelões, negócio de peixe, pintura com água, um desejo de tocar Cacilhas com as pontas dos dedos e uma estação de comboios? E também a saudade de pedra de Pessoa como suporte de lonjura? Tudo se resolve, afina, em movimento de partir e de chegar, com a iconografia do verbo, da imaginação do verbo e do ranger das cordas molhadas do quotidiano. O Cais do Sodré inaugurou um destino de distâncias e uma forma de formigueiro humano, é página de abertura de roteiro atlântico e é uma fuga de trilhos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


A Liberdade do Drible

Dinis Machado
Prefácio: Marta Navarro
Capa; Rui Rodrigues
Quetzal Editores, Lisboa, Junho de 2015

A grande euforia de qualquer arte espontânea (chamemos-lhe assim por razões de abertura), como o futebol, é que está a fazer-se no movimento, ainda não é sinfonia, o guache, o livre, o filme, a peça que se fez a seu tempo. É efémero como o bailado, decide-se no apuro e na linguagem do corpo, mas tem uma carga quase infinita de rumos imprevisíveis e ocasionais. A Margot Fonteyn, de um modo geral não falhava o movimento – mas o Eusébio, às vezes, a dois metros da rede, chutava sobre a barra. Impossivelmente. O futebol é impreciso e inesperado, cheio de mortalidade – embora já seja, hoje, também espectáculo de rever, cassete eterna, golo que nunca mais se apaga, de mostrar aos amigos e perdurar na memória. A televisão trata disso.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

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Mulher E Arma Com Guitarra Espanhola

Dennis McShade
Capa: Antunes
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1987

- O homem da navalha continua a estar a mais.
- As histórias, às vezes, são assim – disse eu, com ar pensativo. – Aparece gente que não sabemos onde meter. Ou estão a mais ou enganaram-se na história. Ou então, estão certos, nós é que estamos cegos.
- É isso – disse Johnny.
- Tenho que tirar a isto o ar de sonho, pois enquanto não souber quem era aquele tipo, tudo adquire uma expressão irreal, como no mundo de Salvador Dali.

-Lá estás tu – disse Johnny.

terça-feira, 21 de julho de 2015

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Requiem para D. Quixote

Dennis McShade
Editorial Ibis, Amadora, Agosto de 1967

Agora, diga-me; há motivo realmente fortes para você proceder escrupulosamente, cumprindo um contrato feito com quem apenas quis utilizá-lo? Não acha isto despropositado? Que espécie de honra pode haver na selva em que estamos metidos? Ou você julga que anda a endireitar o mundo apontando uma pistola a pessoas e falando de contratos que não têm qualquer significado moral?
Não sei se foi esta última frase que me desagradou. Disse-lhe:
-Adeus, Porter.
E matei-o.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

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Mão Direita do Diabo

Dennis McShade
Capa: Abreu Teixeira
Editorial Ibis, Amadora, Janeiro de 1967

Chatices, toda a gente tem, Maynard. Não é pior estar aqui, num esquecido quarto de hotel de Chicago, com uma úlcera que é uma broca, do que ter um cancro na garganta ou uma perna gangrenada. Não é pior andar a monte, sozinho entre as pessoas, escondendo o rosto dos espelhos, fugindo com o corpo a balas que têm um nome inscrito, do que morrer de sede no deserto do Saara ou de fome num campo de concentração. Maynard, viver é pagar um preço. Viver é acumular horas que depois se sabe terem sido desperdiçadas, porque não são mesmo para outra coisa. Isto que se chama experiência, pegar nas coisas com os dedos e vê-las com os olhos, que deixa na boca um sabor a fel, é mesmo assim, porque não pode ser de outra maneira. Chorar no próprio ombro é, além de esteticamente desaconselhável, um preciosismo humano quase odioso, se há razão, e tem que haver, para falar em nome de uma certa virilidade que é a tua tão antiga e dolorosa máscara. Surpresa, Maynard, surpresa? O homem que se surpreende não é adulto.

terça-feira, 14 de julho de 2015

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Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Marquez

Dinis Machado
Capa e ilustrações de Fátima Vaz
Livraria Bertrand, Lisboa, Novembro de 1984

O Chacha desdobrou o bilhete e foi à ópera no dia seguinte, o que tem a sua importância porque era surdo, os surdos e a ópera têm contas antigas a ajustar.

sábado, 11 de abril de 2015

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Reduto Quase Final

Dinis Machado
Capa: Helena Justino
Bertrand Editora, Lisboa Março de 1989

Abertura com a mais velha estação de comboios do mundo.
Qualquer maneira de começar é uma boa maneira de começar. (De um manual arcaico de contadores de histórias).
Tenho cinquenta e oito anos, um clássico da literatura à minha esquerda, sobre a mesa, fumo uma cigarrilha, estou forrado de roupão, de tranquilidade – e do silêncio um pouco embaciado pelo fumo, raspado lá fora por pneus que rangem. O som dos taipais corridos de repente, uma buzina estridente e ilegal, e a voz, feita de arranques e de paragens, do meu irmão, com movimentos de mãos e surpresas na cara, como fazia o Mickey Rooney, isso foi ontem: quando este livro já andava no ar, como pássaro de papel, no espaço escolhido e geométrico de uma casa instalada na solidão da noite. Sinto-me só e decidido a apresentar, na travessia dos anos, as poucas artes fundamentais do meu papel em palcos do embaraço, do desembaraço, do alvoroço e do medo. Aceite o leitor: há privilégios habitualmente pequenos e duráveis, no reino dos olhos quietos e das horas de espanto, da música, da prata que mora nas salinas, ou que cintila em mares surpreendentes, nas árvores outonais, com folhas que voam na direcção do Inverno, ficando naturalmente pelo caminho, o frio e a lareira dos antepassados, parados numa gravura de parede, os dedos nos cabelos, a palavra no ouvido, a água pesada da mágoa do mundo, depois a dos teus olhos – inocente.
(Duas horas da manhã. As palavras procuram-se. A Dulce dorme lá dentro. Sossegadamente, espero.)

sábado, 21 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Que Diz Molero

Dinis Machado
Capa: Saldanha Coutinho
Livraria Bertrand, Lisboa, Setembro de 1977

«Último cliché do bairro, enquadrado na cidade, e esta no rio, envolvendo o segundo amor da sua vida, que o primeiro, esse terá sido, segundo apurou Molero, a Greta Garbo, temos um poema dedicado à menina Mariana, formosa e intangível, a mais fugaz e pudica das aparições lá numa janela alta, o seu Amor de Perdição, caiu nas mãos dele, certa noite, o romance de Camilo, leu-o de um fôlego, enfeitiçado pela maneira como uma simples história de amor pode assumir a grandeza, estava repleto de febre e de Simão quando rompeu a aurora», disse Austin, e fez uma pausa. «O poema diz: Há pombos esquecidos nas estátuas desta cidade naufragada. Mastros de sombra escrevem o teu nome e em cada letra reconheço a madrugada. Mulheres e homens, enlaçados de cansaço, dormem um sono fundo, com raízes. Das margens desse sono se levantam as pedras das palavras que não dizes. Foge o mar dos meus dedos entre a noite, e a noite é uma canção que te procura. Nos meus olhos ardem estrelas encharcadas que rodeiam de azul a tua altura. Cada esquina é um cais à tua espera. Faróis e candeeiros chamam por ti. Como um sonho deslizo e permaneço na rua da janela onde te vi. Finalmente os pombos largados, partindo desta estátua que tu és». Houve outra pausa. «Este poema», disse Austin, «intitula-se The High Window, germinou muito tempo dentro dele e foi escrito anos depois, quando começou a ler e a amar os livros de outro escritor, Raymond Chandler, homem triste cheio de humor, que criou uma espécie de herói de aluguer, labiríntico e algo macerado, a quem os outros serviam logo ao pequeno-almoço, e sem direito a notícia nos jornais, pontapés na boca do estômago misturados com traição».

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Blackpot

Dennis McShade
Colecção A Phala nº 39
Assírio &Alvim, Lisboa Outubro de 2009

Victor foi com a mão, maquinalmente, à estante, e retirou de lá La Chute, de Camus. Abriu o livro e leu pela milésima vez a frase que mais odiava «Quando todos formos culpados então será a democracia». Atirou o livro para a lareira acesa e ficou a vê-lo arder durante cinco minutos. Depois, acendeu um charuto, entrou no grande salão e falou para centenas de convidados
- Espero que se sintam aqui como se estivessem nas vossas próprias casas. Dá-me grande felicidade saber que estais aqui no meu aniversário apenas porque partilhais todos de um mesmo sentimento comum: a amizade. Brindo à vossa amizade e à vossa presença.
Os candelabros e as jóias cintilaram.