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domingo, 27 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Era Porto e Entardecia
De Absinto a Zurrapa
Dicionário de vinhos e bebidas alcoólicas em geral na obra de Eça de Queiroz

Dário de Castro Alves
Capa: Rogério Petinga sobre aguarela de Júlio Resende
Pandora, Lisboa, 1995

- My dear, está visível? – perguntou Miss Sarah, à porta.
- Ah sim! Podia entrar. Uma gotinha de gin, Miss Sarah?
O rosto da inglesa clareou-se de prazer: Uma gotinha. Um quase nada. Bastava! Com água. Era Old Tom, não? Só mais uma gotazinha. Just a little drop! That will do. Thanks.
Sentara-se, bebia o seu gin, devagar, com concentração. E repetia com devoção a sua máxima muito inglesa:
- Um estimulantezinho é a saúde da alma.

Em A Tragédia da Rua das Flores

sábado, 26 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Era Tormes e Amanhecia
Dicionário Gastronómico cultural de Eça de Queiroz
2º Volume

Dário de Castro Alves
Capa: A. Pedro
Livros do Brasil. Lisboa, 1982

- Ai, filha! As mulheres querem-se como as peras, maduras e de sete cotovelos. Então é que é chupá-las!
Os padres gargalharam; e, alegremente, acomodaram-se à mesa.

Em O Crime do Padre Amaro

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Era Tormes e Amanhecia
Dicionário Gastronómico cultural de Eça de Queiroz
1º Volume

Dário de Castro Alves
Prefácio: Jorge Amado
Capa de A. Pedro
Livros do Brasil

Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: ”É divino!”.

De A Cidade e as Serras

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

RELACIONADOS


Gostar de começos de livros, gostar de finais, gostar de conteúdos, em suma, gostar de livros.

Pode-se viver sem ler? Pode, mas vive-se pior.

O final de Os Maias de Eça de Queiroz está no top mais da minha lista de finais de livros.

Aqui vai:

E ambos retardaram o passo, descendo para a Rampa de Santos, como se aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrarem ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar senão com lentidão e desdém. Já avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes.
De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade:
- Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este apetite! Esqueci-me de mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas.
E agora já era tarde, lembrou Ega. Então Carlos, até ai esquecido em memórias do passado e sínteses da existência, pareceu ter inesperadamente consciência da noite que caíra, dos candeeiros acesos. A um bico de gás tirou o relógio. Eram seis e um quarto!
- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança pontualmente às seis! Não aparecer por ai uma tipóia!...
- Espera! - exclamou Ega - Lá vem um «americano», ainda o apanhamos.
- Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
- Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma...
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o «americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.

José-Augusto França, para final das suas Memórias Para o Ano 2000, foi buscar o aceno do «Americano» do Eça.

Está em Paris, com sua mulher Mahité, descreram na estação de metro de George V, a meio dos Champs. A noite foi longa, a manhã está fria. A vontade, o gosto de um café bem quente e um «croissant»;

… Agora, ao frio real oponho a esperança modesta de um café bem quente . atravessamos, a Mahité e eu para o Fourquet’s. Haverá, restará algum «croissant» crustilhante e lunar, neste deserto de gente? Corramos então para ele: ainda o apanhamos, ainda o apanhamos!...

Legenda: fotografia de um «Americano» tirada do blogue Restosde Colecção.

OLHAR AS CAPAS


Os Maias de Eça de Queiroz e de Todas as Comidas e Bebidas no Romance

Dário Castro Alves
Prefácio: António Valdemar
Capa: Álvaro Carrilho
Hugin Editores, Lisboa, Novembro de 2001

Dário Castro Alves tem sido, quer em Portugal, quer no Brasil, um dos mais operosos querosianistas nas últimas décadas do século XX. Na colaboração assídua em jornais e revistas, e em vários livros que se tornaram referência obrigatória, tem demonstrado notável capacidade de penetração e sistematização temática resultantes do conhecimento próprio de quem, muitas vezes, percorreu e anotou linha a linha a obra de ficção, a correspondência e os textos de intervenção de Eça de Queiroz.

(Do prefácio de António Valdemar)

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

QUOTIDIANOS


Se as coisas corressem normalmente, mas já nada corre com normalidade!, teria, há dias, colocado uma frase que li, algures, em Agustina Bessa-Luís:

«Aquela chuva do fim do Verão, ríspida e quase alegre.»

Mas todo este Setembro, que deveria ser um doce Setembro, «está de ananases» como escreveu o Eça na «Correspondência de Fradique Mendes».

Neste momento os termómetros, em Lisboa, marcam 33 graus!

Legenda: pintura de Édouard Manet

sábado, 5 de maio de 2018

ETECETERA


Em 2018, passam 20 anos sobre a atribuição a José Saramago do Prémio Nobel da Literatura.

Maria do Rosário Pedreira lembra no seu blogue Horas Extraordinárias:

«Há uns anos, pediam aos membros do P.E.N. uma sugestão de um autor português que devesse ser candidato ao Prémio Nobel, e o nome do escritor que colhesse mais «votos» era depois encaminhado para o P.E.N. Internacional que, suponho, teria voto na matéria e poderia propor nomeações. Eu puxei sempre a brasa à minha sardinha (de poeta) e indiquei, enquanto foi viva, Sophia de Mello Breyner e, depois, embora soubesse que provavelmente o recusaria, Herberto.»

Miguel Torga será o escritor português que mais vezes foi, pelos seus pares, indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Passou despercebida a notícia de que a Academia Sueca pediu formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura:

«Em nome da Academia Sueca temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018.

Os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram os nomes de Manuel Alegre, o mais votado, e Agustina Bessa-Luís.

Provavelmente, António Lobo Antunes, o eterno candidato português, não terá apreciado o gesto dos membros da Academia.

Mas tudo foi em vão.

Soube-se, hoje, que este ano não haverá Nobel da Literatura.

A Academia Sueca ficou sem quórum depois da última demissão e, por esse motivo, o prémio não pode ser atribuído. O impasse resulta do facto de, embora demissionários, os membros da Academia não poderem ser substituídos enquanto forem vivos.

Tudo começou em Novembro do ano passado, com o escândalo que envolve o fotógrafo Jean-Claude Arnault, marido da poeta Katarina Frostenson, um dos membros mais proeminentes da Academia: Arnault é acusado de assédio sexual por dezoito mulheres, mas, indiferente à controvérsia, Katarina Frostenson só se demitiu há poucas semanas.

Trata-se da primeira vez que, em tempo de paz, o prémio não é atribuído.

O Nobel da Literatura foi, tal como os das restantes categorias, sete vezes não atribuído durante as guerras mundiais do século passado mas nunca por outros motivos.

Questionado pelo Diário de Notícias pela não atribuição do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes reagiu assim:

 «O assunto Nobel não me interessa.»

A PROCISÃO AINDA NÃO SAÍU DO ADRO

Depois das declarações de António Costa, Carlos César, Fernando Medina, António Arnaut e João Galamba, proferidas nas últimas horas, José Sócrates abandonou o Partido Socialista.

Em artigo, publicado no Jornal de Notícias esclarece:

«Durante quatro anos suportei todos os abusos: a encenação televisiva da detenção para interrogatório; a prisão para investigar; os prazos de inquérito violados sucessivamente como se estes não representassem um direito subjetivo que não está à disposição do Estado; a campanha de difamação urdida pelas próprias autoridades com sistemáticas violações do segredo de justiça; o juiz expondo na televisão a sua parcialidade com alusões velhacas; a divulgação na televisão de interrogatórios judiciais com a cumplicidade dos responsáveis do inquérito.
Na verdade, durante estes quatro anos não ouvi por parte da Direcção do PS uma palavra de condenação destes abusos, mas sou agora forçado a ouvir o que não posso deixar de interpretar como uma espécie de condenação sem julgamento.» 

O primeiro-ministro António Costa mostrou-se surpreendido porque «não há qualquer tipo de mudança da posição da direção do PS sobre aquilo que escrupulosamente temos dito desde o início: separação entre aquilo que é da justiça e aquilo que é da política.»

Mas respeita a decisão de José Sócrates.

A FECHAR

«Ordinariamente, todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações, e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal  são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?»

Eça de Queiroz no Distrito de Évora em 1917

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, que “teríamos sempre pobres entre nós”. Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.

Eça de Queiroz em Cartas de Inglaterra

Legenda; não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 7 de janeiro de 2017

LER PODE SER MELHOR QUE VIVER


Pode-se viver sem ler?

Pode, mas vive-se pior.

Há discursos sagrados em redor dos livros mas nada impede que Pepe Carvalho, o célebre detective de Manuel Vasquez Montalban, doente pelo Barcelona, bom garfo, amante de um bom cognac e um “puro” , também de boleros, admirador de mulheres nas “ramblas”, pusesse o detective de Manuel Vasquez Montalban, todas as noites acender a lareira com as páginas das suas leituras preferidas.

Num país de iletrados não é difícil encontrar ignorantes.

Pena é que sejam burros ao ponto de, orgulhosamente, afirmarem que nunca leram um livro, como se isso fosse uma prova de entrada no reino dos céus.

Números velhos, talvez de 2004, mostravam que 1 em cada 10 portugueses não sabe ler ou escrever. São os analfabetos absolutos. Depois há os alfabetizados (teoricamente) que não lêem (90% dos portugueses) e os que lêem, mas não sabem interpretar, nem assimilar o que lêem.

Conheço criaturas que frequentaram, ou tiraram um curso superior, sem ter um único livro em casa, mesmo do que andaram a cursar.

Como tudo isto acontece?

Diz quem andou por lá, que há estupendas “sebentas” nas nossas faculdades.

Cabe aqui a história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: “Evito!”
       
          Os nossos livros estão empoeirados
           canecas de cerveja ensinam melhor,
           a cerveja dá-nos  prazer,
           os livros só aborrecimentos.

Fia-te nos que gostam de ler, desconfia quando alguém te diz que não tem tempo para ler, dizia o meu avô, um leitor compulsivo.

Os pobres não lêem porque não têm meios e os ricos porque não querem.

É mais fácil passar o tempo a olhar para a televisão. Outros há que desviam o dinheiro que têm para outras prioridades: comprar um carro topo-de-gama, comprar uma casa na praia, férias em Punta Cana ou qualquer outro lugar exótico.

Lê-se porque sim, porque não se pode deixar de ler. 

A leitura é um hábito que, no entanto, necessita de constante exercício porque quando se perde o hábito de ler, a necessidade de ler, o prazer de ler, corre-se o risco de não se recuperar.

Não é bem como andar de bicicleta...

François Truffautt adaptou ao cinema um livro de Ray Bradbury: Farenheit  451.

Filme e livro perturbantes.

Ler é pecado, quem pensa é um fora da lei.

 Não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar, cantava o José Afonso,  Mao Tsé Tung  dizia que ler demasiado é prejudicial, Júlio César, na peça de Shakespeare, desconfiava de Cássio porque era magro e porque lia muito.

Escreveu Paul Valery que os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a humidade, os animais, o tempo, e o seu próprio conteúdo.

William Wrigley, milionário da pastilha elástica, ao mobilar o seu sumptuoso apartamento, em Chicago, deu ordens à secretária: Meça-me aquelas prateleiras e compre-me os livros suficientes para mas encher. Arranje-me uma data de livros de um verde e um encarnado vivos e com uma batelada de letras douradas. Quero uma vista catita.

Livros para completar a mobília, dizia o Eça de Queiroz.

Jorge Luis Borges afirmou que o paraíso, se existe, tem a forma de uma biblioteca e o poeta francês Stéphane Mallarmé sabia que tudo no mundo existe para se transformar em livro.

Nota do Editor: o título é uma frase do Jorge Silva Melo


Legenda: pintura de Di Cavalcanti

segunda-feira, 13 de julho de 2015

INFAME COMBOIO


O trem arquejava, rompendo o vasto vento da planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?... Não! Algum sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolegando, enquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em mantas, rondavam sob o telheiro do barracão, que as lanternas baças tornavam mais soturno. Jacinto esmurrava o joelho: - Mas porque pára este infame comboio? Não há tráfico, não há gente! Oh esta Espanha!... – a sineta badalava, moribunda. De novo fendíamos a noite e a borrasca.

Eça de Queiroz em A Cidade e as Serras

Legenda: fotografia dos Caminos de Hierro Ibericos

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

OPUS NIGHT


Opus Dei?
Antes Opus Night que, por sinal, é um personagem dos contos de A Cavalo no Diabo do José Cardoso Pires
Gente que, eternamente, não se enxerga.
Esta gente vive nas trevas seculares.
Nem o reino dos céus os aguarda!
O texto encontrei-o no Horas Extraordinárias de Maria Rosário Pedreira:

A Idade Média já foi, mas parece que deixou rasto até hoje. Leio num jornal que existe um novo Index, uma lista negra de livros e autores banidos pela Opus Dei, que proíbe terminantemente os seus membros de os ler. Entre eles, está, evidentemente, Saramago e os seus Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim; mas, se pensava que eram só os livros que de algum modo provocam a Igreja católica a estar no rol, desengane-se, porque são mais de 30 000 os títulos dele constantes – e alguns são de pasmar, como O Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge. A Sociedade Portuguesa de Autores já repudiou a lista, no que ela tem de atentado à liberdade de expressão, e o mesmo fizeram os autores visados que acharam que a Opus Dei devia ter vergonha de nomear livros para a fogueira no século XXI. Porém, os especialistas em Direito defendem que, do ponto de vista legal, a lista é inatacável e que, por isso, o Estado não pode aplicar sanções. Mas imagine-se que a organização proibia os seus membros de ler Os Maias, que faz parte das metas curriculares e é de leitura obrigatória pelos alunos. Os jovens filhos de membros da Opus Dei prefeririam chumbar a desobedecer aos pais? Está tudo louco, digo eu.

terça-feira, 22 de julho de 2014

AS SENHORAS TÊM NOJO!


E como Carlos lembrava a política, a ocupação dos inúteis, Ega trovejou. A política! Isso tornara-se moralmente e fisicamente nojento, desde que o negócio o constitucionalismo como uma filoxera! Os políticos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhe puxavam pelos cordéis… Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas qual! Aí é que estava o horror. Não tinham feitio, não tinham maneiras, não se lavavam, não limpavam as unhas… Coisa extraordinária, que em país algum sucedia, nem na Roménia, nem na Bulgária! Os três ou quatro salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem for, largamente, excluem a maioria dos políticos. E porquê? «Porque as senhoras têm nojo»!

Eça de Queiroz em Os Maias

terça-feira, 8 de abril de 2014

SERVIÇO MILITAR CUMPRIDO




8 de Abril de 1974

Corriam, tristes e cinzentos os dias de Abril de 1974

Para além da propaganda do regime, pouco mais se ia sabendo pelos jornais, rádio e televisão, porque a censura, cada vez mais, apertava o cerco a todas as notícias que informasse o povo de que não reinava a boa ordem em todo o país.

Assim, sabia-se que num torneio de atletismo realizado no Estádio Nacional, Fernando Mamede batia o record nacional e ibérico dos 2000 metros, Amália Rodrigues em digressão por Itália,  deslumbrava os italianos, a  revista Alba falava de uma intérprete tão excepcional, quanto simples e cordial, que, dada a crescente urbanização dos subúrbios, começa a estudar-se uma ampla remodelação da linha de Sintra, também a instalação do tráfego ferroviário na então chamada Ponte Salazar, a polícia visita as instalações do ABC Cine Clube porque o Governo Civil, simplesmente, pretendia um exemplar, dos respectivos estatutos, numa entrevista, publicada no Cinéfilo, o jornalista perguntava a Patxi em Andion, dera espectáculos com lotações esgotadas,  que dado o seu canto de intervenção qual o motivo por que gravava para a Phonogram, uma empresa capitalista, ao que, lucidamente, o cantor respondeu Não! Não estou a condescender. Para mim é muito importante… Se eu quero lutar contra tanques e posso conseguir um tanque, é muito melhor do que ir de mãos nuas. Se quero lutar contra o sistema, Isto implica uma utilização do sistema. Reparem que seu estou a vender á burguesia a sua própria crítica.
                                              
Cada vez mais violentamente, prosseguia a guerra colonial.

Neste nosso reino as colónias nunca foram uma questão pacífica.

Já em  A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queiroz, põe o economista Gouveia a dizer à srª D. Graça:

Tenho horror à África. Só serve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A África é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda duma tia velha, numa terra muito bruta, muito distante, onde não se conhece ninguém, onde não se encontra sequer um estanco; só habitada por cabreiros, e com sezões todo o ano. Boa para vender.

Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:

- O quê! Vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no mar, tanta perda de vida e fazenda?!

- Quais trabalhos, minha senhora? Era desembarcar ali na areia, plantar umas cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos… Essas glórias de África são balelas.

Os anúncios acima publicados, são exemplos das muitas ofertas de emprego que então se podiam encontrar nos jornais mas contém uma condição: serviço militar cumprido.

Os jovens saídos dos liceus das escolas industriais, comerciais, confrontavam-se com o drama: as empresas admitiam trabalhadores ,mas apenas os que tivessem cumprido o serviço militar.

As famílias que tantos sacrifícios faziam para dar um curso aos filhos ficavam perante mais um gritante problema: os jovens a aguardarem incorporação no serviço militar estavam proibidos de trabalhar.

Dramas de que, possivelmente, já poucos se lembram.

Assim como de outras coisas mais!...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

ARROZ DE FAVAS... PEITOS TREMENTES...


Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que Suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a sede ancestral- e durante momentos ( de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou- e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - Está bom!
Estava preciso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo
- Também lá volto! – exclamava Jacinto com uma convicção imensa. ~É que estou com uma fome… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominava favas!... Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram procura os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
-Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia!
E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…
- deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!

Eça de Queiroz em A Cidade e as Serras, Círculo de Leitores, Lisboa Setembro de 1984

Legenda: imagem tirada de Outras Comidas

sábado, 29 de junho de 2013

LIVROS & CARROS, LDA


Em 1990, em cada oito portugueses, um não sabia ler nem escrever.

Provavelmente, os números já não são assim.

Porém, criámos um outro tipo de analfabetismo: as escolas, as universidades, realce maior para as privadas, produziram um outro tipo de analfabetismo, um número incalculável de gente que, apesar de ter um obtido um canudo, alguns em condições que são puros casos de polícia, não ganharam o gosto pela leitura, nem têm curiosidade em continuara a aprender.

Refugiaram-se no mundo das plataformas informáticas – quem não sabe ler vê os bonecos, dizia o Dudu nos idos de 60.

Já José Saramago dizia que a leitura será sempre uma questão de minorias.

O senhor Rui Rio, tem a convicção que, no Porto, haverá quem goste mais de corridas de automóveis do que de livros.

Contou os euros, e viu que não tinha por onde ajudar a realização, este ano, da Feira do Livro.

Quem sou eu para desmentir a sumidade tripeira?

Em todos os seus mandatos evitou sempre investir em cultura, em artes.

Dar-lhe um livro para ler será um insulto.

Um carro é algo bem diferente.

Parece que foi o Eça quem disse que é impossível avaliar a espessura da ignorância lusitana.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

EM TUNES HÁ SEMPRE UM BEY



Das andanças e desandanças de Manuel António Pina, no encontro de temas para as suas crónicas, ocorre-me um texto de Eça de Queiroz, que consta das Notas Contemporâneas (1).

Numa publicação da época, Pinheiro Chagas, aparentemente sem razão, metera-se com Eça de Queiroz.
Para aplicar o seu espírito mordaz, a sua fina ironia, Eça não necessitava de ter razão. Mesmo que não tivesse, inventava-a.

Os pés sem cabeça do ataque de Chagas ao Eça só tinham uma razão de ser não ter tema para a crónica que prometera ao director do jornal.

É este o pedaço do texto do Eça, mantendo-se a ortografia da edição:

N’este momento, eu vejo d’aqui o leitor honesto, que vae percorrendo estas linhas, parar, pousar o jornal, o seu charuto, e dizer de si para si, ou às senhoras que costuram ao lado:
- Esta é singular! Caso lamentável e raro! O quê! é isto o que elle tinha escripto? Então, o procedimento do snr. Pinheiro Chagas não me parece regular. Pois o outro cita as palavras d’ um jornal inglêz, offensivas para Portugal, condemna-as como perversas e descortezes, e o autor da Morgadinha de Valflr atribui-lhas a ele e quer-lhe fazer suportar a responsabilidade d’ellas? Se isto são costumes e maneiras litterárias, bem faço eu em odiar os litteratos! Porque é que o snr. Pinheiro Chagas não citou o que o outro escrevera? Caso triste e antipáthico!...
Riamos, meu caro Chagas, riamos aqui a este canto, abraçados um no outro! Rebolemo-nos! Como se vê que aquelle honrado homem, que lê o Atlântico, ignora as amarguras, as necessidades formidaveis do jornalismo... A querer que você me citasse! O ingenuo! Se você me citasse, não podia fazer o artigo: e você tinha absolutamente de fazer o seu artigo!...
Eu conheço a situação: é medonha. Na véspera tem-se dito ao director do jornal, apertando-lhe ferventemente a mão, e com a voz a tremer:
- Palavra de honra, menino. Pela minha vida, que tens lá o artigo, além de ámanhã, às nove horas. Eu sou incapaz de te comprometter! Juro-to, pela alma de meus filhos... Boa noite. Lá o tens!
Depois, naturalmente, como você sabe, não se pensa mais no artigo. Mas, cruel destino! no dia aprazado, lá toca a campainha, lá chega, fatal, implacável, irrevogável — o moço da typografia!
É horroroso. Sobretudo quando elle usa botas que rangem! Fica à espera, passeando no pátio ou no corredor: e aquele lento gemer de solas tristes, cadenciado e accusador, allucina!

E cá no nosso gabinete, que pavorosa lucta! As cinco tiras de papel alli estão sobre a mesa, lividas, ironicas, vazias: e é necessario enchel-as todas, de alto a baixo, com coisas extrahidas do nosso interior.
É trágico. A parte da carcassa humana a que se recorre primeiro é naturalmente ao craneo, deposito de ideias, impressões, adjectivos e theorias; aperta-se o craneo nas mãos frementes; sacode-se o craneo como uma velha algibeira: — nada sai do craneo. E as botas ao longe, a ranger!
Maldição! Recorre-se então ao peito, asylo dos affectos, dos sentimentos generosos. Talvez de lá saia um canto, um grito, uma apóstrophe. Arranha-se convulsivamente o peito; bate-se desesperadamente no peito como n’uma porta fechada: — o peito fica mudo como o craneo. E as botas ao longe a ranger!
Inferno! E então os crentes rezam à Virgem Maria; os atheus invocam a morte, a dôce anniquilação da matéria; os mais violentos pensam em attrahir o moço da typographia com palavras dôces, cortal-o aos pedaços com uma navalha de barba, esconder os fragmentos na sarjeta domestica... E as botas, lá no fundo, ironicamente, rangem!
Ah, caro Chagas, é d’ahi que véem as cans precoces. Sabe você o que eu fiz n’uma d’estas agonias, sentindo o moço da typographia a tossir na escada, e não podendo arrancar uma só ideia util do craneo, do peito, ou do ventre? Agarrei ferozmente da penna e dei, meio louco, uma tunda desesperada no Bey de Tunes...
No Bey de Tunes? Sim, meu caro Chagas, n’esse veneravel chefe de Estado, que eu nunca vira, que nunca me fizera mal algum, e que creio mesmo a esse tempo tinha morrido. Não me importei. Em Tunes há sempre um Bey: arrasei-o.
Por isso eu comprehendo bem que você não me pudesse citar. Que diabo! se me citasse, adeus bellas phrases! adeus bello patriotismo! adeus bello artigo! — E você ouvia, no corredor, as solas malditas rangendo. Talvez eu, no seu caso, tivesse feito peor…


(1)   – Eça de Queiroz, Notas Contemporâneas, Lello & Irmãos Editores, Porto 1945

sábado, 26 de maio de 2012

DINHEIRO, MENINO, O OMNIPOTENTE DINHEIRO!


Mas Ega, justamente, achava uma desgraça incomparável para o país esse imoral desacordo entre a inteligência e o carácter. Assim, ali estava o amigo Gonçalo, como homem de inteligência, considerando o Gouvarinho um imbecil.
- Uma cavalgadura – corrigiu o outro.
- Perfeitamente! E todavia, como político, você quer essa cavalgadura para ministro, e vai apoiá-la com votos e com discursos sempre que ela relinche ou escoucinhe.
Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha, com a frase franzida:
-- É necessário, homem! Razões de disciplina e de solidariedade partidária. Há uns compromissos. O Paço quer, gosta dele.
Espreitou em roda, murmurou, colado ao Ega:
- Há aí umas questões de sindicatos, de banqueiros, de concessões em Moçambique. Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito – o outro, faiscando todo de finura e cinismo, atirou-lhe uma palmada ao ombro_
- Meu caro, a política hoje é uma coisa muito diferente! Nós fizemos como vocês, os literatos. Antigamente a literatura era a imaginação, a fantasia, o ideal. Hoje é a realidade, a experiência, o facto positivo, o documento. Pois cá a política em Portugal também se lançou na corrente realista. No tempo da Regeneração e dos Históricos, a política era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrório. Nós mugámos tudo isso. Hoje é o facto positivo – o dinheiro, o dinheiro! o bago! a massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro!

Eça de Queiroz em Os Maias, Livros do Brasil, Lisboa s/d


Legenda: imagem tirada de Life Photo Archive.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Sejam elas à espanhola, à portuguesa, ao que quer que sejam!...

À falta de outros assuntos importantes para embalar os dias da populaça, ressurgiu um a guerra de alecrim e manjerona, entre os que querem acabar com as touradas e aqueles que apoiam a sua manutenção.

O movimento pelo fim das touradas, garante que a maioria dos portugueses é contra as touradas e exige que se faça um referendo para se apurar da legitimidade da sua extinção.

Por seu lado, os defensores das touradas garantem que a proibição das corridas de toiros em Portugal seria uma catástrofe que arrastaria para o desemprego milhares de pessoas e aniquilaria a economia de vários conselhos, para além de ser uma machadada na cultura, identidade e liberdade dos portugueses e conduziria o país a um flagelo económico e ambiental.

Estamos neste patamar.

A trautear um fado, ouvido na infância,onde se conta que vi um touro em Salvaterra matar dois cavalos baios, vá eu cantei à guitarra e o boi caíu de joelhos, fui à estante buscar o 1º volume de “Os Mais”, na edição da Lello Editores do Porto:

 Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro toiros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nosso é o toiro: o toiro com muito sol, ar de dia santo, água fresca, e foguetes… Mas sabe o sr. Salcede qual é a vantagem da tourada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza… Em Portugal não há instituição que tenha uma importância igual à tourada de curiosos. E acredite uma coisa: é que se nesta triste geração moderna ainda há em Lisboa uns rapazes com certo músculo, espinha direita, e capazes de dar um bom soco, deve-se isso ao toiro e à tourada de curiosos…

O marquês, entusiasmado, bateu as palmas. Aquilo é que era falar! Aquilo é que era dar a filosofia do toiro! Está claro que a tourada era uma grande educação física. E havia imbecis que falavam em acabar com os toiros! Oh! estúpidos, acabais então com a coragem portuguesa!...

- Nós não temos os jogos de destreza das outras nações – exclamava ele, bracejando pela sala e esquecido dos seus males – Não temos o cricket, nem o foot-ball, nem o running, como os ingleses: não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos o serviço militar obrigatório que é o que torna o Alemão sólido… Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada… Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado! Pois você não acha, Craft?

Craft, do canto do sofá, onde Carlos se fora sentar e lhe falava baixo, respondeu convencido:

- O quê, o toiro? Está claro! O toiro devia ser neste país como o ensino é lá fora: gratuito e obrigatório.

Legenda: imagem do Jornal de Notícias.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

POSTAIS SEM SELO


Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, que teríamos sempre pobres entre nós. Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.

Eça de Queiroz, Cartas de Inglaterra, Lello &Irmão – Editores, Porto s/d

Legenda: fotografia de Gerald Bloncourt

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


 – Como é? Perguntou Luísa erguendo o copo.
   - Não é com o copo! Horror! Ninguém que se preze bebe champanhe por um copo. O     
     Copo é bom para o Colares…
Tomou um gole de champanhe, e num beijo passou-o para a boca dela. Luísa riu muito,  achou “divino”, quis beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.

Eça de Queiroz em O Primo Basílio