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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


A Reliquia

Eça de Queiroz
Livraria Chardon de Lélo & Irmão. Lda
Porto, 1929


Mas de repente assaltou-me uma áspera inquietação… E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras d’aquelle tronco? E se a titi começasse a melhorara do fígado, a reverdecer, mal eu instalasse no seu oratório, entre lumes e flôres, um d’esses galhos  erriçados de espinhos? Ó misero logro! Era eu pois que lhe levava nesciamente o principio milagrosos da Saude, e a tornava rija, indestructivel, ininterravel, com os contos de G. Godinho firmes na mão avara! Eu! Eu que só começaria a viver – quando ella começasse a morrer!

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Cartas de Inglaterra

Eça de Queiroz
Lello & Irmão Editores, Porto s/d

O Natal, a grande festa doméstica da Inglaterra, foi este ano triste – dessa tristeza particular que oferece, por um dia de calma ardente, a praça deserta de uma vila pobre, ou dessa melancolia que infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um fogão apagado, numa sala a que se não voltará mais…
O que nos estragou o Natal, não foram decerto as preocupações políticas, apesar da negrura de borrasca, nem a situação da Irlanda, que já não é governada pela Inglaterra, mas pelo comité revolucionário da Liga Agrária – seriam inquietações suficientes para tirar o sabor tradicional ao “plum-pudding do Natal. As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite; e misérias da pátria.
Não; o que estragou o Natal, foi simplesmente a falta de neve. Um Natal como este que passámos, com um sol de uma palidez de convalescente, um Natal sem neve, um Natal sem casacos de peles, parece tão insípido e tão desconsolado como seria em Portugal a noite de S. João, noite de fogueiras e descantes, se houvesse no chão três palmos de neve e caísse por cima o granizo até de madrugada! Um desapontamento nacional!

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


A Ilustre Casa de Ramires

Eça de Queiroz
Lello & Irmão – Editores, Porto s/d

Tenho horror à África. Só serve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A África é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda duma tia velha, numa terra muito bruta, muito distante, onde não se conhece ninguém, onde não se encontra sequer um estanco; só habitada por cabreiros, e com sezões todo o ano. Boa para vender.
Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:
- O quê! Vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no mar, tanta perda de vida e fazenda?!
- Quais trabalhos, minha senhora? Era desembarcar ali na areia, plantar umas cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos… Essas glórias de África são balelas.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Prosas Esquecidas III

Eça de Queiroz
Edição organizada por Alberto Machado da Rosa
Capa de O. Pinto
Editorial Presença, Lisboa, 1965

Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.
Estes homens são o povo.
Estes homens estão sob o peso do calor e do Sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o povo, e são os que nos alimentam.
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o povo, e são os que nos vestem.
Estes homens vivem debaixo das minas, sem o Sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o povo, e são os que nos enriquecem.
Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.
Estes homens são o povo, e são os que nos defendem.
Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.
Estes homens são os que nos servem.
E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem?
Primeiro, despreza-os; não pensa neles, não vela por eles, trata-os come se tratam os bois, deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades; forma-lhes ao redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá protecção, e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.
É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo povo.
E ainda que não sejam escutados, tem na amizade dele uma consolação suprema.

(Distrito de Évora nº 2, 10 de Janeiro de 1867)