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sábado, 27 de abril de 2019

OFÍCIO DE EDITOR


Há editores e há editores.

Por norma, são personagens malquistos, há excepçoes, muito poucas, diga-se.

A maior parte são comerciantes sem escrúpulos, enganando os seus autores, pagando miseravelmente, principalmente as traduções

Pela entrevista que Maria Ondina Braga deu à revista Ler, ficámos a saber dos maus tratos que os seus livros, ela própria, mereceram dos editores que lhe calharam em (des)sorte.

«O meu primeiro livro Eu Vim Para Ver a Terra foi um livro que me trouxe grande desgosto: saiu cheio de cortes e gralhas, o editor não me deu para revisão, os caracteres chineses apareceram até ao contrário!
Traduzi durante mais de dezanove anos, quase vinte, e hoje, ao lembrar-me disso, espanto-me. Traduções que me pagavam um ano e dois anos depois de as ter entregado, que, às vezes, uma editora (pelo menos) não me quis pagar. Isto já sem falar do pouquíssimo que pagavam todas. E não recebia nenhuma percentagem nas edições frequentemente sucessivas, nem quando o editor vendia o livro a uma organização editorial.
A minha sorte tem sido bem fraca: editores que não pagam os direitos de autor ou pagam apenas uma mínima parte, não dão à Sociedade Portuguesa de Autores a relação dos livros existentes, houve um que fez edições piratas a há depois os que abrem falência, o autor fica separado da sua obra, como aconteceu com a editora dos meus dois últimos livros, não pagou, o caso foi para contenciosos da SPA, que, por sua vez, também nada resolve. Nunca tive um editor que se empenhasse na promoção da minha obra».

Maria do Rosário Pedreira é editora na Leya:

«Tive de me habituar a outra coisa, essa bem mais difícil, que é a de ter acima de nós pessoas que não gostam de ler, pessoas que não percebem o que é um livro. Isso é dramático.»

Manuel Alberto Valente é responsável editorial no grupo Porto Editora:

«Há 30 anos, os editores procuravam autores. Com a criação dos grandes grupos editoriais e da chamada indústria editorial, a edição começou a procurar o que o leitor quer ler. E porque o que o leitor quer ler nem sempre é o melhor, o nível da edição baixou.»

Opinião do escritor chileno Luís Sepúlveda:

«Há cada vez menos editores de verdade e cada vez mais managers que vendem livros conmo se fossem batatas ou bananas. Eles não falam de livros mas de produtos. Não falam de letras mas de números. Não falam de leitores mas de compradores. Com “yuppies à frente das grandes editoras, geram-se situações canalhas. Oferecem menos dinheiro aos escritores e chantageiam-nos, dizendo-lhes que não faltam escritores que queiram publicar.»

Numa carta, datada de Paris, 5 de Julho de 1969, António José Saraiva, em carta para Óscar Lopes, referia os problemas que tinha com o editor Francisco Lyon de Castro das Publicações Europa-América:

«Em Outubro de 1965, carta minha de 31, lembrei ao Lyon de Castro que a 8ª edição da História da Literatura (Colecção Saber), então a imprimir, devia levar a minha chancela, segundo o contrato assinado. Respondeu em 4 de Novembro que o «o livro já estava à venda» e por isso não podia ser rubricado.
Em 4 de Abril de 66 o Lyon de Castro noticiava-me que a História da Literatura tinha sido proibida pela Censura.
Em 19 de Maio de 1967, os serviços de contabilidade da Europa-América comunicavam-me, incidentalmente, que a proibição tinha sido levantada, «encontrando-se de novo a obra à venda».

Segundo saraiva houve um longo silêncio de Lyon de Castro. Só volta a escrever em 26 de Agosto de 1968 e não falava da História da Literatura.

Entre esta data e 19 de Março de 1969 Saraiva recebeu 8 cartas do editor e em nenhuma era falada o que se passava com o livro.

«Intrigado com isto perguntei-lhe em carta de 24-3-69 notícias do livro (além de outros assuntos). Em carta de 10 de Abril respondeu quanto a este ponto: «História da Literatura portuguesa; responde-se à parte». Mas na carta não vinha qualquer aparte sobre o assunto.
Em carta de 29 de Abril dizia-me o seguinte: «A libertação do livro determinou um movimento de vendas que nos forçou a uma rápida reedição de 3000 exemplares em Dezembro/68. No Brasil também se sabia que a obra estava proibida e logo que ela foi libertada fizemos uma intensa propaganda o que determinou uma grande procura, a que tivemos de responder rapidamente.»

António José Saraiva conclui que Lyon de Castro não lidou com lisura com ele.

«Só vejo uma solução para o meu problema com o Lyon de Castro: é desligar-me dele. Até hoje foi o único editor intrujão que tive e já fui editado em cinco casas.»

Ainda sobre o editor Francisco Lyon de Castro, recorro ao 9º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira, numa  entrada datada de 22 de Junho de 1970:

«O Palma-Ferreira apareceu a certa altura do serão em casa do fafe, nervosíssimo, cheio de notícias e de escândalos imaginários.
- O Namora vai-se embora da Europa-América, o Lyon de Castro é um malandro, roubou-me cinquenta e tal contos. Não me quer pagar os direitos de autor do meu livro As Eleições de Outubro de 1969 com pretexto de que o compilei durante as horas de trabalho na Europa-América… Ora, tínhamos combinado que descontaríamos essas horas no meu ordenado… É um gatuno, etc., etc. »

Num interessante livro a que chamou Olhar de Editor, Serafim Ferreira ergue uma memória em honra e glória de alguns editores: Luiz de Montalvor (Ática), Delfim Guimarães (Guimarães Editores), António Pedro (Confluência), Figueiredo Magalhães, (Ulisseia), Manuel Rodrigues de Oliveira (Cosmos), Manuel Rodrigues (Minerva). Viriato Camilo (Prelo), Luiz Pacheco (Contraponto).

Acrescento Rogério Mendes de Moura, Vitor Silva Tavares, Nelson de Matos, Zeferino Coelho e Fernando Vale e um interessante número de pequenos editores que vão fazendo o seu trabalho de amor aos livro e não  cifrões

Em O Homem dos Comboios, Eric Lomax escreve a abrir:

«Este livro tem uma incomensurável dívida de gratidão com a criatividade e o talento de Neil Belton. O seu inestimável contributo para o texto final excedeu em muito a habitual relação entre autor e editor. Reconheço que sem sua ajuda eu não teria sido capaz de forma final a tudo aquilo sobre que reflecti ao longo dos últimos cinquenta anos.»

Na morte de André Jorge, fundador da Editora Cotovia, disse o escritor Pedro Paixão:

«Se não fosse meu editor eu não publicava nada.»

 Legenda: pintura de Vieira da Silva

sábado, 29 de setembro de 2018

AGRAVOS À MORAL


19 de Fevereiro de 1970

Está marcado para breve o julgamento dos organizadores e editores da Antologia Poética, a Natália Correia e um tal Melo, baixinho de pêra pendurada que dá pela alcunha de Idiotovich por usar um solene gorro de peles à russa.
O julgamento vem em péssima altura porque o nosso medievo Ministro do Interior publicou, há dois ou três dias, uma nota em que incita os cidadãos a denunciarem às autoridades puritanas do reino todos os agravos que considerem pornográficos e atentórios da moral pública e privada.
Também as Censuras Cinematográfica e Teatral voltaram, por ordem dele, à severa faina anterior de cortar a torto e a direito o torto e o direito.
Entretanto, a farsa da liberalização continua a fingir-se nos jornais e nos discursos transmitidos pela Emissora.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

domingo, 14 de fevereiro de 2016

À VOLTA DOS EDITORES


Podemos não concordar com as ideias políticas, e outras, de Marcelo Rebelo de Sousa, mas sabemos que é um homem culto, um académico que gosta de livros, que gosta de futebol.

Bem ao contrário da múmia que ainda se passeia por Belém.

O editor José Antunes Ribeiro, dono da Ulmeiro, a histórica livraria da Avenida do Uruguai em Benfica, atravessa momentos difíceis e, ontem, o futuro Presidente da República foi dar um abraço de solidariedade ao José Antunes Ribeiro.

A Ulmeiro, em tempos de ditadura, também depois do 25 de Abril, sempre cumpriu uma missão fundamental: publicar livros que outros editores, por medo-fosse-do-que-fosse, recusaram colocar nas mãos dos leitores.

Assim de repente, lembro-me de As Armas Estão Em Boas Mãos do Capitão Fernandes.

Como a situação financeira da livraria há muito se arrasta, o aumento da renda criou maiores dificuldades, o António Ribeiro, através do facebook, tem vindo a fazer leilão de livros, dos cerca de 200.000 que estão pelas prateleiras, pacientemente organizados por Lúcia, sua mulher.

Pela livraria também se passeia o gato Salvador, terna companhia do Zé Ribeiro e da mulher.

À agência Lusa, contou:

Sou de origem camponesa, não tenho muito esse feitio de estender a mão. Não gosto, não está no meu caráter. Há pessoal que me tem dito ‘fazemos isto e aquilo’. Eu jamais aceitaria qualquer coisa do estilo de esmola. A única coisa que estamos disponíveis é para vender barato. Isso não me importo, para ajudar a resolver o problema”, contou.
Um puto que nasceu numa aldeia onde não se lia, como era o meu caso, numa casa onde não havia livros, com pais analfabetos, que descobriu as bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian e uma professora primária, que teve uma influência enorme, optando por vir para Lisboa para ser livreiro-editor.

Às quintas-feiras almoçava com o António Lobo Antunes, tal como conta o escritor, no 3º volume das suas Crónicas, um pedacinho de história que há muito anda para ser Postal ou Quotidianos:

E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feia e eu acho lindo.

Numa visita à Ulmeiro, perguntei como iam os almoços.

Já quase não se realizam. O António está um chato levado do diabo.

A Ulmeiro fica no nº 13-A da Avenida do Uruguai, ex-libris do bairro de Benfica.

Estão por lá livros importantíssimos, que já não se encontram em parte alguma, a preços que são quase um escândalo de baixo custo.

Merece uma visita.

Passar por lá para ajudar a manter aquele espaço aberto.

É sempre tarde quando se chora.

Quando as livrarias fecham, os cinemas fecham, saltam as lágrimas de crocodilo.

E é sempre tarde, quando se chora.

Legenda: fotografia da Câmara Municipal de Lisboa

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

À VOLTA DOS EDITORES


Volto aos editores.

Mais concretamente a Rogério Mendes de Moura.

Quando morreu no dia 23 de Novembro de 2008, Rogério Mendes de Moura era o decano dos editores portugueses.

Em 1953, sem qualquer experiência no ramo, funda a editora Livros Horizonte que dirige durante mais de meio século.

Era um editor que fazia questão de ler de fio a pavio tudo o que editava.

Tendo feiro parte da Universidade Popular de Bento Jesus Caraça, do MUD Juvenil, da candidatura de Humberto Delgado, teve problemas com a Censura e a PIDE.

Mas nunca se deixou intimidar pelas visitas que a PIDE fazia às instalações da editora, tão pouco se inibia com a actuação da censura, publicando sempre os livros que julgava interessantes.
 Mas muitos projectos esbarraram nos serviços da censura.

Tendo publicado um livro sobre o parto sem dor, recebeu notificação da censura dizendo que ele estava errado porque a mulher foi feita para ter dor no parto.

E não permitiram uma segunda edição do livro.

Mas medo foi palavra fora do contexto de vida de Rogério Moura.

Em 1962 funda, com Viriato Camilo, a Editora Prelo que terá uma importante projecção cultural, publicando novos autores que se manifestavam contra o regime de Salazar e que outras editoras, com medo de represálias, se recusavam a publicar.

Em 1964 foi eleito, juntamente com António Alçada Baptista e Augusto Petrony, para a Direcção do Grémio dos Editores.

A direcção não foi homologada pelo Ministro das Corporações com o fundamento de os eleitos serem adversários do regime político, desde católicos progressistas a membros do Partido Comunista.

Outra das suas paixões foi o cinema, tendo sido um empenhado entusiasta do cine-clubismo e é de sua responsabilidade a edição de A História do Cinema de Georges Sadoul.

Em 1969 adquire a Editorial Confluência, fundada em 1945 e edita os maiores dicionários da Língua Portuguesa – o "Morais", o "Etimológico", o "Onomástico".

Voltarei um destes dias, para contar uma história sobre o Dicionário de Morais, que faz parte da biblioteca cá da casa.

Em 2003, foi condecorado pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio.

Em 2006, a União dos Editores Portugueses atribuiu-lhe o Prémio Carreira - Fahrenheit 451.  

Na brochura que assinalou os 50 anos de actividade da Livros Horizonte, o seu irmão, Mário Moura, também editor, escreveu:

Rogério Moura é um editor-artífice, talvez o único entre nós. Trabalha o livro como o ourives o ouro e o lapidador o diamante. Por outro lado, o tilintar ou não da caixa registadora não o comove.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

À VOLTA DOS EDITORES


Pela entrevista que Maria Ondina Braga deu à revista Ler, ficámos a saber dos maus tratos que os seus livros, ela própria, mereceram dos editores que lhe calharam em (des)sorte.

Traduções mal pagas, outras nem pagas foram e pelas reedições dos livros que traduziu (Erskine Caldwell, Herbert Marcuse, Pearl S. Buck, Graham Greene, Bertrand Russell, John Le Carré, Anais Nin, Tzvetan Todorov, entre outros) nem um tostão.

Lembremos Joaquim Figueiredo Magalhães, um editor exemplar.

Numa entrevista a Catarina Portas, Público, 1 de Dezembro de 2008, falou dos seus tradutores:

Escolhi escritores como tradutores porque eram homens que sabiam português. É que se eu quisesse alguém que soubesse línguas, entregava as traduções ao porteiro do Avenida Palace que sabia oito idiomas, só não sabia era português. Mas também preferia os escritores porque gostavam do que traduziam, traduziam por gosto.

Catarina Portas adianta que Figueiredo Magalhães pagava bem as traduções não se esquecendo de, em cada reedição, enviar um cheque, tanto a tradutores como capistas, no valor de um terço dos honorários iniciais.

Todos os escritores necessitam de um bom editor.

Razão de sobejo tinha Maria Ondina Braga para dizer que a sua sorte tinha sido bem fraca.

Entendem-se bem as razões por que alguns autores, José Saramago à cabeça, abandonaram a LEYA.

Eles não gostam de livros.

Adoram cifrões!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

ESCOLHEU A SOLIDÃO


Maria Ondina Braga faz parte do enorme lote de escritores caídos no quase (?) completo esquecimento.

Numa entrevista, de cortar o coração, dada à revista Ler (Outubro de 1990) lamentava-se o quanto era maltratada pelos editores.

Atente-se:

O meu primeiro livro Eu Vim Para Ver a Terra foi um livro que me trouxe grande desgosto: saiu cheio de cortes e gralhas, o editor não me deu para revisão, os caracteres chineses apareceram até ao contrário!
Traduzi durante mais de dezanove anos, quase vinte, e hoje, ao lembrar-me disso, espanto-me. Traduções que me pagavam um ano e dois anos depois de as ter entregado, que, às vezes, uma editora (pelo menos) não me quis pagar. Isto já sem falar do pouquíssimo que pagavam todas. E não recebia nenhuma percentagem nas edições frequentemente sucessivas, nem quando o editor vendia o livro a uma organização editorial.
A minha sorte tem sido bem fraca: editores que não pagam os direitos de autor ou pagam apenas uma mínima parte, não dão à Sociedade Portuguesa de Autores a relação dos livros existentes, houve um que fez edições piratas a há depois os que abrem falência, o autor fica separado da sua obra, como aconteceu com a editora dos meus dois últimos livros, não pagou, o caso foi para contenciosos da SPA, que, por sua vez, também nada resolve. Nunca tive um editor que se empenhasse na promoção da minha obra e, como me não dão prémios, espanto-me até se la se vender.

Depois desta triste e lamentável atitude dos editores para com os seus autores, perguntaram a Maria Ondina Braga das razões de escrever:

Difícil para mim dizer a razão por que escrevo. Talvez porque espiritualmente isso me compensa um pouco da absurdidade da vida. O certo é que, se no princípio da minha carreira me fosse possível avaliar o preço por que ela me ia ficar, outra eu não escolheria. Através da escrita tenho conhecido gente agradável e de valor e tenho tido bons momentos. Eu propriamente não escolhi ser escritora. Quando em 1963, em Macau, escrevi Estátua de Sal, pensava lá em publicar um dia esse livro! Nada comigo nunca foi premeditado ou programado. Escrevo como vivo, à mercê das horas e dos dias, à mercê de mim mesma. E isto já é compensador.

Maria Ondina Braga morreu a 14 de Março de 2003.

Legenda: Busto de Maria Ondina Braga, na Avenida Central em Braga.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CAPAS DA ULISSEIA


São muitos os livros da Ulisseia que fazem da parte da biblioteca da casa.
A maior parte a aguardar entrada na janela de Olhar as Capas.
Aqui ficam algumas das capas dos livros que Joaquim Figueiredo Magalhães fez publicar na Editora Ulisseia.
Muitos deles nunca traduzidos.
Tradução de Helder de Macedo, Prefácio sobre o autor de José Cardoso Pires, capa de Rocha de Sousa
No prefácio, Cardoso Pires, manifesta o seu fascínio pela escrita de Vailland e exalta a figura do libertino a que voltará em A Cartilha do Marialva também publicado pela Ulisseia.


Tradução de José Blanc de Portugal, Capa de António Garcia. 

                                                 


Tradução de Carlos Vieira, Capa de António Garcia


Tradução de Virgílio Martinho, Capa de Espiga Pinto


Tradução de Serafim Ferreira, Capa de Sebastião Rodrigues


Colecção Atlântida nº10, Capa de Vespeira

V.S.T. & ETC


Hoje, contam-se pelos dedos – devem sobrar dedos… - os editores que, no nosso país, amam verdadeiramente os livros que fazem.

Claro que sabem da importância do dinheiro, mas não é o vil metal que lhe faz mover os passos.

Muitos desbarataram fortunas nessa paixão.

Joaquim Figueiredo Magalhães foi um desses homens, um verdadeiro patriarca da edição.

Os editores falham ou porque são dedicadamente editores e não são administradores, ou porque são friamente administradores e não têm alma de editores, disse a Catarina Portas.

Aquando da sua morte, o insuspeito Vitor Silva Tavares disse que tinha sido um dos melhores editores do Século XX, desenvolvendo um trabalho notabilíssimo.

Catarina Portas escreveu no Público:

Sempre acreditei que a morte não teria coragem de se aproximar dele. Mas, afinal, também ela não lhe resistiu. Aos 92 anos, desapareceu Joaquim Figueiredo Magalhães, o primeiro grande editor moderno português. Ele era o homem mais vivo que jamais conheci. Maravilhosamente culto, espantosamente audaz, loucamente imaginativo e, para usar uma das suas expressões favoritas, altamente divertido, este homem era também, em igual medida, justo e generoso. Todos aqueles que gostam de livros lhe devem mais do que sabem.

Em 1950. Joaquim Figueiredo Magalhães, abre a sua primeira editora: a Empresa Editora Édipo, Ldª, sediada na Travessa do Noronha nº 30 e lança a Colecção Escaravelho d'Ouro com periodicidade mensal.


Os nossos intelectuais, na altura, entendiam que a literatura policial era secundária, de fancaria. Mas há livros notáveis: o Chandler, o Dashiel Hammet, a Agatha Christie, o Simenon, o Maurice Leblanc, fui eu que os editei.


Este é o único exemplar da Colecção Escaravelho d'Ouro que tenho, um livro de Raymond Chandler, À Beira do Abismo, editado em Abril de 1951, com tradução de Baptista de Carvalho e capa de Rosa Duarte.

Para garantir o sucesso da colecção, Figueiredo Magalhães, elaborou um plano de lançamento que culminava com a oferta de viagens aos locais que serviam à trama policial de cada história, ou o chamado «local do crime».

Estes são os livros com a indicação das respectivas viagens:


A campanha de lançamento chegou ao ponto de, num jogo internacional no Jamor, o editor mandou fazer chapéus para o sol que tinham escrito Três igual a Um. Compre! e até pôs um avião no ar com os dizeres Três Igual a Um.

A compra de À Beira do Abismo possibilitava uma viagem a Monte Carlo.  

Na contra capa são apresentadas as companhias que apoiavam a viagem:



Com os lucros da Escaravelho d'Ouro, Joaquim Figueiredo Magalhães, lança, dois anos mais tarde, a Editora Ulisseia.

O primeiro livro publicado é A Famosa Arte da Imprimição, de Américo Cortês Pinto.

A obra, acabada de imprimir na véspera de Natal, tem capa e capitulares de Manuel Rodrigues e é ilustrada com gravuras do pintor Lino António.

Trata-se de um belíssimo livro que vem da Biblioteca do meu pai.



Achei que devia iniciar a actividade com um pleito à arte da edição.

Na Ulisseia chamou para seus colaboradores Branquinho da Fonseca, Adolfo Casais Monteiro, Mário Henrique-Leiria, Jorge de Sena, José Blanc de Portugal, João Gaspar Simões.
Reuniam-se nas tardes de sexta-feira com uma garrafa de whisky para comentar os livros, trocar as revistas literárias estrangeiras que assinava, assinalar possíveis problemas com a censura, decidir tradutores.

Escolhi escritores como tradutores porque eram homens que sabiam português. É que se eu quisesse alguém que soubesse línguas, entregava as traduções ao porteiro do Avenida Palace que sabia oito idiomas, só não sabia era português. Mas também preferia os escritores porque gostavam do que traduziam, traduziam por gosto." E pagava bem as traduções, não se esquecendo de, em cada reedição, enviar um cheque, tanto a tradutores como capistas, no valor de um terço dos honorários iniciais.

Aos escritores portugueses, propôs desde logo um negócio inédito. Decidiu pagar os mais altos direitos de autor do mercado, 20 por cento do preço de capa, e adiantava mensalmente uma parcela dessa verba para que pudessem escrever em paz. Editou José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, David Mourão-Ferreira.

Eu estava muito bem colocado entre os jesuítas, a censura e os comunistas. A dada altura, entregava traduções a presos políticos em Peniche e em Caxias, justificando à censura que "sempre é preferível estarem a trabalhar do que a conspirar... E assim as famílias sempre recebiam algum". Pois nem a censura lhe conseguia resistir, publicou 14 livros proibidos.


Em 1959, Joaquim Figueiredo Magalhães, resolve lançar uma revista, oAlmanaque, cujas 18 capas de Sebastião Rodrigues e de Abel Manta são pura antologia da história do design gráfico português. Cardoso Pires, José Cutileiro, Sttau Monteiro, Alexandre O'Neill ou Augusto Abelaira são dos mais assíduos, mas a revista conta com as colaborações de Alexandre Pinheiro Torres, Baptista-Bastos, Francisco Mata. Irene Lisboa, Almada Negreiros, Sophia de Mello Breyner.

Sem ele e sem o lugar livre e alegre que ele criou na cultura portuguesa, o regime paroquial e bronco de Salazar teria sido para muita gente muito mais pesado, escreveu Vasco Pulido Valente que também colaborou no Almanaque.

Em 1972, Figueiredo Magalhães, decide vender a Ulisseia.

É aqui que entra a história de Livros Entre Bacalhau, Azeite e Vinho a Martelo.

Vitor Silva Tavares diz que, com a saída de Figueiredo Magalhães a Ulisseia tinha ficado sem cabeça, e é ele que, à frente da Ulisseia, com novos projectos, faz renascer toda a qualidade que era apanágio da editora.

Fundei uma colecção muito bonita, ainda hoje gosto muito dela, “Poesia e Ensaio”. O Magalhães tinha a colecção dos sucessos literários, com os romances; tinha a colecção dos Documentos Sociológicos e Políticos; era a Ulisseia que publicava os livros da Pelikan. Mas não tinha Poesia e Ensaio. E até nessa colecção houve logo livros apreendidos. Desde “Feira Cabisbaixa” do Alexandre O’Neill a uma antologia da poesia portuguesa do pós-Guerra, até casos mais graves. 

Entretanto Figueiredo Magalhães quis fazer uma companhia de aviação, depois um negócio de importação aérea de marisco de Cabo Verde para a Europa, a meias com Champalimaud. Tudo falhou. Quis comprar a Ulisseia de volta, mas a Verbo não acedeu. Fundou então a Meridiano para editar livros para a Gulbenkian, passou como director literário pela Bertrand na revolução, fundou finalmente a Convergência, que manteve até quase ao fim, no Chiado.

Quando fiz oitenta anos, decidi que era tempo de começar uma nova etapa na minha vida. E é por isso que ando a pensar em mudar a editora para uma sociedade só de mulheres. E não faço de sultão porque já não tenho idade para isso.

Chegou a contactar Catarina Portas para esse projecto.

Outra das sócias seria sua mulher, Rosa Lobato Faria, para além de duas moças novas.

Morreu no dia 26 de Novembro de 2008.

Fontes:
Figueiredo Magalhães- O Homem da Ulisseia, texto de Ricardo Machaqueiro, publicado na revista Ler nº 44 Inverno 1999.
O Último Livro da Ulisseia s.f.f. de Catarina Portas texto publicado noPúblico de

Legenda:
Fotografia de João Francisco Vilhena, publicado na revista Ler nº 44
O exemplar doaAlmanaque foi tirada da net.

domingo, 8 de janeiro de 2012

JANELA DO DIA


Por norma os fins-de-semana são dias parcos em notícias, os políticos os fala-barato, vão arejar e, apenas ficam as outras notícias, normalmente mortes outras tragédias, por vezes, um acontecimento feliz.
É um tempo propício para colocar à janela o que, nos últimos dias fui lendo pela concorrência.

1.

A opinião é do escritor chileno Luís Sepúlveda:

Há cada vez menos editores de verdade e cada vez mais managers que vendem livros conmo se fossem batatas ou bananas. Eles não falam de livros mas de produtos. Não falam de letras mas de números. Não falam de leitores mas de compradores. Com “yuppies à frente das grandes editoras, geram-se situações canalhas. Oferecem menos dinheiro aos escritores e chantageaim-nos, dizendo-lhes que não faltam escritores que queiram publicar.

As palavras assentam que nem uma luva na pessoa de Miguel Paes do Amaral, um rapaz de negócios diversos e que há uns dois ou três anos criou a Leya, um acervo de pequenas e grande editoras que existiam na nossa praça.

De livros Paes do Amral deve gostar tanto como eu, em miúdo, gostava de óleo de fígado de bacalhau., e, há tempos, numa entrevista ao Diário de Notícias revelava o seu gosto por carros e uma sua velha ambição de ser campeão de automóveis.

Soube-se, agora, que a Leya começou a despedir trabalhadores.

O facto merece de Sara Figueiredo Costa, no Cadeirão Voltaire, o seguinte comentário:

Já é público: o grupo Leya entra no novo ano a despedir trabalhadores, cerca de 30 só esta semana, segundo o jornal Público. Seguindo a mesma notícia, a Leya pensa crescer no Brasil, aumentando o número de funcionários de 600 para 700, e prepara-se para investir na área do digital e do ensino à distância.
Numa leitura mais pormenorizada da informação que agora se divulga, e ainda sem saber quem são os restantes trabalhadores que começam o ano na rua, fica-me uma dúvida que ultrapassa a questão laboral e social: uma das pessoas despedidas é o editor da Teorema, como vem na notícia. Ora, o que não vem na notícia é que o editor da Teorema, José Oliveira (depois de a Leya ter despedido Carlos da Veiga Ferreira há cerca de um ano, colocando José Oliveira como responsável também desta chancela, em acumulação com o trabalho que já fazia na Caminho), é também o editor responsável pelo catálogo infantil da Caminho. Assim de repente, o catálogo infantil da Caminho é capaz de ser, de entre os mais extensos catálogos do género em Portugal, o mais coerente, interessante e arrojado que temos. E isso não se deve à geração espontânea, mas sim ao conhecimento, ao trabalho e às apostas de José Oliveira, facto que deve estar muito próximo do consenso se falarmos com autores, editores, bibliotecários, professores, pais e outros mediadores possíveis. Com esta saída, o que acontece ao catálogo? Que futuro tem? E o que vão fazer ao passado que tão bem construiu? É a primeira dúvida angustiada que me assalta, sem falar do factor humano que 30 despedimentos implicam. Desconfio que não será a última.

2.

Sempre tive dificuldades em lidar com o passado, quer dizer, o meu passado é uma coisa um bocado irreal, pouco credível, parece pertencer a outra pessoa qualquer. Do futuro tenho uma imagem diferente, não desfocada mas riscada como um papel que tem palavras escritas e depois riscadas com muita força com um lápis de carvão e fica apenas uma mancha escura indecifrável sobre uma mancha branca. Resta-me uma nesga onde pousar os pés, não há espaço para desejos nem votos.

Lido no  Malone Meurt

terça-feira, 29 de junho de 2010

AINDA O DESASSOSSEGO DO EDITOR...


No episódio da recusa da “Moraes Editores” em publicar “Levantado do Chão”, Nelson de Matos diz que José Saramago não tem a mesma leitura dos acontecimentos e conta a história de uma outra maneira.

Não sei se haverá outras versões, mas esta é a versão que conheço da parte do autor. Está expressa numa longa entrevista concedida a Baptista-Bastos, e publicada em livro em Outubro de 1996. Por ela se fica a saber que a Bertrand também recusou a publicação.

"BB – Mas esses dois livros foram recusados por editores.

JS – Pois, mas isso já se sabe, isso são histórias cómicas. Penso que há editores, hoje, que torcem a orelha e a orelha não deita sangue.

BB – Um deles é o Nelson de Matos, que já o disse várias vezes publicamente.

JS – Sim o Nelson de Matos já o disse, embora eu suspeite de que o Nelson de Matos esteve sujeito a pressões exteriores e não teve outro remédio senão o de ceder a elas, embora eu pudesse ter esperado que, se assim foi, ele mo dissesse francamente. E, no caso da Bertrand, a Maria da Piedade, a quem levei o “Levantado do Chão”, também não encontrou, suponho eu, modos de convencer-se a si própria ou de convencer o senhor Bulhosa, embora eu duvide muito de que o livro lhe tenha chegado às mãos… quando muito ter-lhe-á chegado o nome da pessoa que o escreveu.
O “Memorial” não teve aventuras nenhumas porque o “Levantado do Chão” foi finalmente publicado pela Editorial Caminho, quando recebeu o “Memorial do Convento”, já tinha o aval do “Levantado do Chão. É certo que são coisas que chateiam, mas isso já se sabe, há livros muito melhores do que estes que também foram recusados e até por pessoas com muito mais responsabilidades do que o Nelson de Matos ou a Maria da Piedade.

Em “José Saramago: Aproximação a Um Retrato” de Baptista-Bastos,