Eduarda Dionísio (com quem trabalhou na associação Abril em Maio e recentemente no jornal PREC) diz que não há coisa de que o
Vítor Silva Tavares goste mais do que a tipografia, e o Alberto Pimenta (um dos
autores mais da casa, na & etc) crê que a fusão inseparável da estética e
da ética é o que melhor o define. Tudo o que disse sobre a artesania do livro
se relaciona bem com essa fusão.
Agora preside à Abril em Maio, que está num limbo. O que
o fez querer pertencer a este colectivo? Como resistência – não sei se a
palavra é a boa?
É essa. É a única.
Um dia a Abril em
Maio pediu para aqui uns livritos, disse onde era, à Graça, fui lá a um debate,
um rés-do-chão de uma casa antiga, fiquei encantadíssimo por ver aquele espaço
e reencontrar finalmente a Eduarda Dionísio, que conhecia de nome. Sabia-a
filha de quem era, mas nunca tinha tido relacionamento próximo.
E ao saber que aquela coisa tão encantadora que ali estava, onde um disco
daqueles que não aparecem em lado nenhum – sei lá, o García Lorca a tocar piano
– está ao lado de uma garrafa de azeite, de um boneco de barro, de um livro; ao
ver o tipo de pe, ssoas, a miudagem; ao ver que também ali não havia nenhum
propósito lucrativo, era uma associação cultural propriamente dita, e que
também ela não dependia de nenhuma espécie de subsídios, nem disto nem daquilo,
ou não estivesse lá a Eduarda Dionísio: havendo afinidades que não se podem
circunscrever ao ideológico, que têm a ver com a maneira de estar e de fazer
cultura, alheia ao “mainstream”; eu, que jamais tinha pertencido a qualquer
clube resolvi ser sócio daquele.
Estava longe de imaginar que iria filiar-me numa associação que tinha a sua
morte anunciada. Ser sócio não é só pagar a quota. Não posso abandonar o etc,
onde faço de tudo, sou eu que varro também o chão, essas coisas, a minha
disponibilidade está repartida, sempre. De qualquer modo tive trabalhos, iniciativas,
ideias na Abril em Maio, daquela pulga eléctrica que é a Eduarda Dionísio.
Tenho uma grande ternura por ela, uma grande admiração por aquela capacidade de
mobilizar e de fazer, também pela sua capacidade de organização, eu que sou
desorganizado. Muitas afinidades. De tal modo que não me interessa assim tanto
a Abril em Maio. Quando gosto de uma pessoa, sou de uma fidelidade total. Só
estou lá porque lá está a Eduarda, cultivando com ela o mesmo tipo de
fidelidade. É um mau feitio que me quadra muito bem. Quem me dera ter dez por
cento daquele mau feitio. É sempre recto.
Sempre falou no trabalho como uma fruição, parte da vida, dos amigos. É raro as
pessoas estarem numa coisa porque gostam muito de alguém. Têm objectivos, têm
projectos, podem ganhar isto, aquilo.
Eu e a Eduarda gostamos de fazer coisas. Com as mãos, com os pés, com a língua.
Não vamos teorizar muito sobre as coisas. Temos afinidades, é escusado estar a
gastar saliva. Entendemo-nos muito bem. Podemos passar logo para a acção e mobilizar
outros para esse trabalho.
A ideia do PREC?
Nasceu aqui. O título foi meu. Quem tiver
ideias sobre o nome a dar a esta folha, que é para ler e não para ver, portanto
vamos inundar a mancha com letras, uma letra vale mais que mil imagens...
Isso hoje é um verdadeiro PREC.
Exacto. Então, quem tiver ideias ponha no
papel. E eu tenho aqui uma que é uma dupla provocação: desta porta para fora,
quando sair, e desta porta para dentro, para as cabecinhas de todos nós que
aqui estamos. A minha proposta é chamar-lhe PREC.
Ponto dois, toda a gente vai associar PREC ao processo revolucionário em curso.
Só que nós vamos utilizar cada número para aquilo que nos der na bolha, e assim
subvertermos a própria ideia feita do PREC, porque no interior das letrinhas
vamos sempre meter coisas distintas, o que foi praticado com algum humor.
PREC porquê? Porque é PREC, sim senhor, contra-corrente, o próprio formato,
outra vez o papel manteigueiro, e, à semelhança dos velhos jornais, encher
aquela página literalmente com um corpo tão pequenino que vale pela mancha. É,
em sim mesmo, uma afirmação estética, tipográfica. Depois, se as pessoas
quiserem ler, com esforço, claro, até têm lá coisas para ler.
E de um trabalho tão duro, por vezes até às duas, três da manhã, conseguirmos
um momento lúdico de trabalho, sempre a rir, e sem expectativas.
Fazemos as coisas porque temos de as fazer, porque está na nossa condição.
Depois já não é connosco, já está para fora de nós. E a mim tanto me faz que
haja só uma pessoa que tenha lido, criticado aquilo, como dez mil, uma que
fosse. Aí não tenho espírito de missão, nem aqui dentro. Isto não é nenhuma
igreja, não há aqui nenhuma crença, faz-se porque se tem de fazer, está na
nossa condição fazer, fazer assim, saber porque fazemos assim. Perseguimos,
sim, uma ideia de harmonia, de beleza, de intervenção, e sabemos que é uma
resistência. Resistência é a palavra, à falta de ar vigente, ao obscurantismo,
à criação permanente de falsos mitos passageiros.
Legenda: pormenor do Subterrâneo 3 onde se encontra instalada a &etc.
Estantes com arquivos e os exemplares mão esgotados dos
livros &etc. A secretária e a cadeira de recosto onde o Vitor se sentava à
conversa com quem ia aparecendo. Falta, na secretária, a máquina de escrever.
Sim, porque ali nunca houve compudadores.