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quarta-feira, 25 de abril de 2018

EI-LA A CIDADE


Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias durou a barbárie salazarenta/marcelista, o tempo do desprezo, como lhe chamou Mário Dionísio.

Éramos um país que vivia debaixo de um atraso sem medida, tempos terríveis que só quem neles viveu tem a justa medida – quem passa por elas é que sabe!

O avô senta o neto nos joelhos e conta: foi assim.

Acreditávamos.

Tão só.

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

A festa foi bonita, pá.

Manuel António Pina:

Durou, o sonho, só uma semana, mas esse é um património que ninguém nos tirará. Na tarde do 1º de maio, já nos confrontávamos uns com os outros.
De então para cá, tem sido o que se sabe. Carlyle escreveu que as revoluções são sonhadas por idealistas, realizadas por radicais, e que quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

Quarenta e quatro anos sobre a madrugada que esperávamos, lembrando Sophia, quando emergimos da noite e do silêncio.

Também escreveu José Saramago:

Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fossemos nós a «fazê-lo» diferente.

Ao longo destes anos, tenho vindo a ouvir os que, a partir de um certo tempo, sempre anunciarem que o 25 de Abril se tornaria num 5 de Outubro.

Nunca acreditei e ainda não vi a possibilidade de isso vir a acontecer.

Gente que pensa que a memória do 25 de Abril é algo difuso, que com o tempo se tornará insignificante, gente que advoga o silêncio como um argumento.

Serenamente vos digo:

Não há nenhum 25 de Abril em que não me venha à memória, o 1º poema de Canto e Lamentação na Cidade Ocupada, incluído em  A Invenção do Amor e Outros Poemas, de Daniel Filipe lido, relido vezes sem conta, nos tais tempos difíceis:

 Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

domingo, 22 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Acreditávamos – era isso. «Porque há-de haver um futuro melhor» (como escrevíamos em dedicatórias nos livros oferecidos), porque era preciso conquistá-lo… e era possível.


Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

sábado, 25 de novembro de 2017

ATÉ NA MORTE É TRISTE SER-SE MISERÁVEL


Nós não diríamos: foram as cheias, foi a chuva. Talvez seja mais justo afirmar; foi a miséria, miséria que a nossa sociedade não neutralizou, que provocou a maioria das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por ser.

Citação de «O Comércio do Funchal», retirada do texto de Joana Pereira Bastos c/ Joana Beleza e José Pedro Castanheira, fotografia de Eduardo Gageiro, publicado na revista do Expresso de 12 de Novembro de 2017. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

FOI HÁ 50 ANOS




Já está à venda uma nova edição de O Canto e as Armas de Manuel Alegre, comemorativa dos 50 anos da 1ª edição.

No meu exemplar pode ler-se:

Este livro edição do autor foi composto e impresso em Novembro de 1967 na Tipografia do Carvalhido no Porto.

A capa, composta a partir de uma fotografia de Eduardo Gageiro, não tem indicação de autor.

Deste livro, Adriano Correia de Oliveira, retirou poemas, musicou-os, e ao álbum não teve qualquer dúvida em dar-lhe o mesmo nome do livro.

A primeira faixa do álbum, E de Súbito um Sino, é também o primeiro poema do livro, cujos primeiros versos são ditos pelo actor Ruy Mendes:

Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras:
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra
 povo. Teu génio.

E o teu silêncio
É de súbito um sino
Tocado pelo vento

Em todas as aldeias do meu sangue.


Poemas e canto que marcam toda uma geração, e não só uma geração, diga-se.

Esta nova edição de O Canto e as Armas tem prefácio de Mário Cláudio.

Que começa assim:

O convívio com um texto no espaço que o justifica, quando não resulta de um privilégio da nossa escolha, poderá corresponder a uma consequência da força das circunstâncias. Calhou-me dialogar com O Canto e as Armas nas bolanhas da Guiné onde cumpria a minha comissão de serviço militar obrigatório, e no verbo «cumprir», e no adjectivo «obrigatório », não pouco se insinuará do animus que terá comparecido à leitura. Não se tratando de uma proposta «neonefelibata», igual às que aliás informavam boa parte da poesia que nesse tempo se ia escrevendo na chamada «Metrópole», o texto de Manuel Alegre engastava o «espírito» no exacto lugar que o segregara, e onde o subscritor destas linhas se encontrava. Eu estava numa guerra, e numa guerra injusta, na qual muitos se envolviam desmotivadamente, como estaria qualquer leitor de Moby Dick a bordo de um baleeiro de Nantucket, e em busca do Leviatã branquíssimo, ou de Guerra e Paz na estepe gelada da Campanha da Rússia, e sob o comando de Napoleão. E quanto ao vocabulário estruturante de toda a obra literária, eis que coincidia ele com o que por então povoava a nossa fala quotidiana, percorrida por «bazucas e morteiros e estilhaços», por «granadas», e por «metralhadoras». Não me recordo de outro livro, a não ser talvez o de Job, eleito em momentos de infortúnio, que se me tenha amassado tão imediatamente no sangue.
Mas O Canto e as Armas assegurar-nos-ia ainda, a muitos, e a mim também, a permanência de um horizonte longínquo, o da terra europeia que nos fora berço, evocando o regaço da Mãe superlativa, por quem clama ao que se diz cada soldado antes de ascender a herói ou, o que valerá o mesmo, ao plano de quem «jaz morto e arrefece». Era a absoluta ruralidade que investia por aquelas páginas, conforme à grande paisagem, natural e humana, que a desertificação não avassalara ainda, e que haveria de enquadrar os anos seguintes. Despertavam de facto por ali criptomnésias de um pequeno paraíso agro-pastoril, «arados» e uma «espiga», ou «uma flor de verde pinho», a pontuar «oitenta e nove mil quilómetros quadrados».

Alguns dos poemas de Praça da Canção, como os deste livro, registam o aparecimento de um tal País de Abril, adivinhações, sonhos de Manuel Alegre.

É em O Canto e as Armas que está Poemarma, onde a dado ponto se pode ler:

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Assim foi, como alguns, cada vez menos, se lembram.

domingo, 1 de janeiro de 2017

TRADUZIR-SE



Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

domingo, 25 de setembro de 2016

UM RAPAZ DE SACAVÉM, UM HOMEM DO MUNDO




No dia 4 de Março de 1967, o fotógrafo Eduardo Gageiro foi o convidado dos Encontros do Diário de Lisboa – Juvenil.
Retomados a 12 de Novembro de 1966 com a presença de Eduardo Prado Coelho, depois com o jornalista Manuel de Azevedo e a 21 de Janeiro de 1967 com Fernando Lopes Graça e Dulce Cabrita.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


A gente que nasce e vive junto do mar é mais pura.

Herberto Helder em Os Passos em Volta

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

segunda-feira, 25 de abril de 2016

SARAMAGUEANDO


Ainda em ditadura, Manuel Alegre já nos falava de uma rapariga do País de Abril:

Por ti cantei entre meu povo e meu poema
E achei    achando-te    o País de Abril     

Em Os Poemas Possíveis, José Saramago, num qualquer dia, ouvindo Beethoven, garantiu-nos que um dia, um qualquer dia, ruiriam os altos muros e chegaria o dia das surpresas.

Assim foi.

Um outro poeta, Jorge de Sena, sabia que não havia de morrer sem saber qual a cor da liberdade, a grande ilusão, como lhe chamou José Gomes Ferreira, mas depois Sena acabaria por se espantar de a tal alegria ter assistido:

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
- no negro desespero sem esperança viva -
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe-
E agora, povo português?

Com o andar dos tempos, o 25 de Abril foi deixando em José Saramago, uma certa amargura.

Ainda escreverá:

Não esquecerei o que então chamámos Esperança.


Mas conversando com João Céu e Silva, deixou cair:

Eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha também tem democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transição como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram nessa altura… Até o Melo Antunes disse «Esse tipo é parvo!» Por isso não me falem em 25 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer «25 de Abril sempre» mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.


Já a 25 de Abril de 1993, Cadernos de Lanzarote, 1º volume, escrevera:

Carmélia telefonou de manhã, aos gritos «25 de Abril , sempre! 25 de Abril, sempre!» Lembrei-me daquela outra chamada, há 19 anos, no meio da noite, quando uma das filhas do Augusto da Costa Dias me avisou que a revolução está nas ruas, Agora, o entusiasmo de Carmélia, um entusiasmo de sobrevivente, deixou-me lamentavelmente frio.

No 5º volume dos Cadernos de Lanzarote, na entrada de 25 de Abril de 1997, José Saramago deixou escrito:

Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro, poster de Vieira da Silva

terça-feira, 15 de março de 2016

ESTUDAR PARA POETA


Fui sempre um péssimo aluno, no leviano julgamento professoral. Nem me esforçava por pompear virtudes inventadas, pois os programas escolares divergiam totalmente dos meus cujo desiderato, embora inconsciente, resumo agora nestas palavras: «estudar para poeta.»
Quanto às provas do fim do ano, sempre as considerei autênticos sacrifícios de humilhação vexada diante de senhores que falavam numa linguagem inquisitorial de que eu só a custo entendia algumas noções absurdas.
Os meus cursos pouco tinham a ver com os das classes que fingia frequentar. Ou apenas coincidiam com uma ou outra disciplina. A do português, por exemplo (gramática à parte).
Em português, desde que me pedissem que despejasse de cor os artigos, as preposições, os tempos dos verbos, etc., podia pelo menos exibir-me nos pontos escritos que (malbaratados tempos esses!) nunca ninguém me ensinou como se planeavam e faziam. Todos me afiançavam que se tratava de ter nascido com jeito ou sem jeito. Redigir não se ensinava. Nem se aprendia. Tudo se resumia a uma questão de jeiteira. Ou se tinha ou não se tinha habilidade. Como o meu caso evidenciava à maravilha.
Do que eu gostava sobretudo era de faltar à escola – frequentar a liberdade, uma das cadeiras básicas do meu curso especial, tomar contacto com a tumultuosa riqueza da cidade nas aulas livres das ruas, dos cafés, dos bilhares, da feira da ladra, das ruelas sórdidas, onde paradoxalmente os miúdos ostentavam a fome através das panças enormes. Tudo isto entremeado com uma ou duas horas de leituras repoltreadas de livros não recomendados pelos professores que, no entanto, me ensinaram uma disciplina fundamental: a do tédio. (Sem essa aprendizagem poderia lá ter aguentado tantos anos de bocejos!).
Em todo o caso sempre reduzi ao mínimo o enfado de ouvir falar de aritmética, por exemplo. Nos anos normalmente incautos da instrução primária, preferia substituí-la pela contagem rumorejante das folhas das amoreiras do caminho da Charca, para calcular quantos bichos-da-seda conseguiria manter na caixa de sapatos oferecida pela família para meu laboratório pessoal, em que gastava horas a ver criar vida e fabricar casinhas de cores redondas com uma espécie de cuspo em fios.

José Gomes Ferreira em Coleccionador de Absurdos

terça-feira, 1 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

quarta-feira, 10 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Portugal tem o feitio de um caixão. Será bom apenas para nele se morrer.

Vergílio Ferreira no 3º Volume de Conta-Corrente.

Legenda: fotografia de Eduardo Gajeiro

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


É mau a gente habituar-se.


Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

UMA GUITARRA COM GENTE DENTRO

  
Rui VieiraNery chamou-lhe Príncipe.

Um Príncipe de uma humildade arrepiante.

Em 11 de Outubro de 1967, entrevistado por José Carlos Vasconcelos para o Diário de Lisboa, dizia que não havia condições para ser profissional:

O profissionalismo de quem acompanha ou dá espectáculos não é o que eu idealizo, nem me interessa. O que eu desejava era poder especializar-me, estudar o instrumento, até com intuitos pedagógicos. Isto é: desenvolver um trabalho de investigação, que está por fazer, no campo da técnica, tentando integrar a guitarra em bases que a tornassem um instrumento capaz de permitir a qualquer compositor escrever para ele.



C. B. em A Capital de 3 de Abril de 1971:

Carlos Paredes não diz quem é, não fala de si. Não tem uma história decorada onde estão cuidadosamente assinalados cada êxito, cada digressão. Não tem álbum para colocar fotografias dos locais onde trabalhou, de quando colaborou no cinema, no teatro, acompanhou a Amália ou foi entrevistado para a Televisão. Com ele só é possível falar da guitarra portuguesa, mesmo que lhe façam vinte perguntas seguidas sobre a sua vida de artista. Vive as possibilidades, as limitações da guitarra. Fala dos seus êxitos, do seu nascimento, da sua morte, mas ele, Carlos Paredes, apaga-se perante a guitarra de que fala sempre e só.

Já depois do 25 de Abril António Duarte telefona-lhe a pedir uma entrevista para o JL.

Diz-lhe:

Mas acha que eu tenho categoria para ser entrevistado pelo Jornal de Letras?


Sentado a uma velha secretária de madeira, no arquivo de películas do Hospital de S. José, onde foi reintegrado depois do 25 de Abril, após ter sido demitido de funcionário público em consequência da prisão por pertencer ao Partido Comunista Português, acabou por dar a entrevista e disse:

Quero ser considerado um pequeno músico e se me conseguir realizar como pequeno músico, sentir-me-ei extremamente satisfeito.


Nasceu a 16 de Fevereiro de 1925, em Coimbra, mas quando morreu no dia 23 de Julho de 2004, já nos deixara, em Dezembro de 1993, acometido de mielopatia, um processo degenerativo na coluna vertebral que vai afectando o sistema nervoso central.

Num texto publicado no DNA, Catarina Carvalho escreveu:

Este é um texto desonesto. Fala da vida de um homem que perdeu a coisa que mais prazer lhe dava na vida: tocar guitarra. Vive em Campo de Ourique, preso pela doença à cama de um lar. Agora ele é só dos que o tratam, dos amigos íntimos, dele próprio. Apenas um homem. Não é nosso, não é dos jornais, não é do público. Do público é o Carlos Paredes. E o Carlos Paredes é um dedilhar fervente, rápido, genial. Por isso, em vez de lerem este texto, podem ouvir os «Verdes Anos», que é a verdade.

Legenda:

- fotografia de Eduardo Gageiro do CD Uma Guitarra Com Gente Dentro, Universal Music Portugal.
-  Título do Diário de Lisboa de 11 de Outubro de 1967.

-  Carlos Paredes fotografado pela PIDE em 1958, fotografia  da revista Vida de O Independente s/d

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

NÃO HÁ FESTA COMO ESTA!


Para além de tudo o que  faz da Festa do Avante um acontecimento único, acresce que este ano a involvência é lembrar, sempre, os 40 anos do 25 de Abril.

Como, de há unas anos a esta parte, a Festa, musicalmente, abrirá com Música Clássica e poderá ouvir-se a Sinfonietta de Lisboa dirigida pelo maestro Vasco Pearce de Azevedo, interpretando peças de Chopin e Schumann..
Destaque particular para a mostra de 40 fotos nos 40 anos do 25 de Abril, com fotografias de Eduardo Gageiro.
O programa completo poderá ser consultado do site da FESTA.
Uma boa e grande Festa do Avante!

domingo, 27 de abril de 2014

ATENTA EXPECTATIVA


27 de Abril de 1974.

O terceiro dia da nossa vida em liberdade.

Todos os jornais dão conta das reuniões que vão ocorrendo, no Palácio da Cova da Moura, com a Junta de Salvação Nacional, das manifestações de apoio ao Movimento das Forças Armadas que vão acontecendo por todo o País.
Anuncia-se que está prevista para amanhã a chegada a Lisboa de Mário Soares e que os bancos
reabrirão na segunda-feira dia 29.


Após demoradas negociações são libertados os presos políticos que se encontravam no Forte de Peniche. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

Esta é a 1ª página de A Capital que na sua página 4 noticia que o Presidente da Assembleia Nacional, engº Amaral Neto cancelou a reunião marcada para este dia e aguarda, apenas, que a Junta de Salvação Nacional decrete a dissolução da Assembleia.


O Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


Destaque na página 14 para a reunião que a Conferência Episcopal iniciou, em Fátima, no dia 23, ainda em tempo de ditadura, e que teve o encerramento ontem ao final da tarde.
Os senhores bispos mudaram de agulha e emitem um comunicado em que formulam votos para que os acontecimentos destes dias contribuam para o bem da sociedade portuguesa, na justiça, na reconciliação e no respeito
por todas as pessoas. Apelam para a virtudes cívicas dos católicos e demais portugueses de boa vontade. E rezam a Deus pelo povo de Portugal.


A conferência aproveita para se solidarizar com o Bispo de Nampula, expulso de Moçambique, nos primeiros dias de Abril, pela ditadura.


Essa solidariedade teria sido bem-vinda aquando dos acontecimentos, que também envolveram a expulsão de diversos missionários acusados de atentados de se oporem à guerra colonial.
Mas apenas um beato silêncio.
Profundo foi também o silêncio que os senhores bispos mantiveram, durante quarenta e oito anos, com um regime que oprimia e perseguia um povo e mantinha em África uma guerra  que matou, estropiou milhares de portugueses e africanos..

O República revelava que no Forte de Caxias estavam presos 228 membros da Ex-PIDE-DGS e que ainda continuavam à solta mais de dois mil agentes.



Oportuna a entrevista que na página 13 o desembargador Rocha Cunha concedeu a Fernando Assis Pacheco.
Está por fazer a história da participação dos juízes dos Tribunais Plenários. Pior ainda o sabermos que, após o 25 de Abril, esses mesmos juízos foram integrados no sistema judicial sem nunca terem sido responsabilizados e julgados. Eles foram protagonistas do aparelho repressivo da ditadura.
Uma impunidade que há-de estender-se aos agentes da PIDE-DGS e outros servidores do Estado Novo.


Não por uma questão de vingança, apenas por uma questão de justiça.
Na sua página de espectáculos o jornal avisava que, por motivos óbvios, não era possível revelar a programação da RTP:


Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.
Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado:,, como a invasão das instalações da A.N.P. a Junta de Salvação Nacional tomava posição.


Na página 7 publicava-se uma fotografia de Eduardo Gageiro  que registava o momento em que um membro da PIDE-DGS era preso.
Esta fotografia correrá mundo.


Também a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura,


Fotografia na última página do Diário de Lisboa.


No Largo da Misericórdia, o povo largou fogo a um automóvel da PIDE, ontem á tarde. Três agentes transportavam-se nele quando, cerca do meio-dia, foram identificados por populares arrastados para junto do pelourinho do largo e desramados pelo Exército. O povo queria linchá-los, tendo sido contido só a muito custo pelo capitão e pelos poucos soldados que os guardavam.

Como era sábado, saída para as bancas do semanário Expresso
Curiosidade sobre a abordagem que seria feita aos acontecimentos do 25 de Abril, mas os leitores encontraram uma edição inócua e hibrida.
A parte final do editorial do Expresso:


 Na página 14, em despudoradas afirmações, o ultra-salazarista Francisco Cazal-Ribeiro aguardava com atenta expectativa que a Junta de Salvação Nacional viesse a cumprir as promessas de liberdade constantes da sua declaração ao país.

sábado, 22 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS


Cartas da Prisão

José Magro
Capa de Luís Filipe da Conceição sobre fotografia de Eduardo Gageiro
Edições Avante, Lisboa, Fevereiro de 1975

- Temos de subir a corda a pulso, subir a pulso e sempre… - dizia o nosso Pereira Gomes a sorrir, como se contasse uma graça.
Subiu a corda. A pulso e até ao fim…
Eis aí outro em que também estou tranquilo. Nunca me cansei do cansaço… Nunca me cansei, nem creio que venha a cansar-me, da luta e da vida. Nunca!
Assim, quando a outra vier, a tal senhora magra e de foice comprida, muito feia e de incríveis exigências, não irei recebê-la de braços abertos, não! Há-de violentar-me, há-de levar-me à força!... Contra toda a dialéctica da vida? Pois será! Mas hei-de gritar-lhe que não, que não sou do seu mundo de repouso aparente, sem luz, sem som, sem gente… Sem gente, caramba! Eu sou é deste, com homens em redor, camaradas ou inimigos. Com mulheres, loiras e morenas, centros da vida, tão belas em geral e tão próximas. E com crianças, mais do que deuses rosados e imortais, herdeiras da vitória!
Oh magra senhora da foice! Acabarei por ter de aceitar-te, que remédio!
Mas ouve! Quero dizer-te o que não teria a coragem de dizer a uma mulher: és tão feia e fria, meu estafermo!

sábado, 3 de agosto de 2013

ATIRAVA-SE PARA CIMA DAS CADEIRAS


O dia 3 de Agosto de 1968 acordou radioso de sol brilhante.

Salazar passava um curto período de férias no forte de Santo António no Estoril.

Nessa manhã, o calista Hilário preparava-se para fazer o seu trabalho e Salazar, com o Diário de Notícias na mão, sentou-se numa cadeira de lona.

Acabou por cair e bater com a cabeça nas pedras da esplanada do Forte.

A governanta Maria de Jesus, e o calista logo acorreram para o ajudarem a levantar-se e Salazar pede que nada digam sobre a queda e que não chamem o médico.

São variadas as versões sobre a queda de Salazar.

Desequilíbrio?

Descuido?

A cadeira, por debilidade da armação de madeira ou da própria lona, não se encontrava nas melhores condições?

A versão de Manuel Marques, barbeiro de Salazar:

Tinha a mania de se sentar atirando-se para cima das cadeiras, dizem os seus próximos, opinião corroborada por diversos médicos que explicam que, aos 79 anos, e com uma vida sedentária como era a sua, por falta de musculatura nas pernas, teria tendência de se sentar num movimento de quem se deixa cair.

Mas há fontes que rezam que nem cadeira havia e apenas aconteceu uma  daquelas  macacoas, a que qualquer homem, perto dos 80 anos, está sujeito.

Mais: que o episódio ocorreu a 5 e não a 3 de Agosto.

Com ou sem cadeira, a 3 ou 5 de Agosto o importante é que a queda de uma cadeira faz com que a vida de um país começasse a mudar.

José Saramago, no seu livro Objecto Quase, descreve maravilhosamente este episódio da História portuguesa. Chamou-lhe Cadeira e, se ainda não conhecem o conto, podem lê-lo aqui.

Nas suas Memórias Rómulo de Carvalho relata  aos filhos dos netos dos meus netos, a queda do ditador Oliveira Salazar:

Costumava o nosso homem, para descansar o corpo, e especialmente o cérebro, do assédio das preocupações da governação, sentar-se, olhando o mar, no isolamento pastosos de uma esplanada do forte de Santo António do Estoril, situado na linha das praias, a pouca distância de Lisboa. Aí, só, irremediavelmente só, aconchegava-se na cadeira de repouso, cerrava as pálpebras e dormitava na paz do Senhor, embalado pelo sussurro das águas.
Numa tarde de Agosto de 1968, Salazar, já com os seus setenta e nove anos, dirigiu seus passos lentos para a sua cadeira de descanso. Sentia-se cansado, certamente, e desejoso de abandonar o corpo àquele seu habitual conforto. Descuidadamente, com o à vontade de quem está só, Salazar deixou cair o corpo em peso sobre a cadeira. Foi um momento histórico. A cadeira estalou, partiu-se, desconjuntou-se e estatelou o corpo do ditador no lajedo do forte, enquanto as águas do Tejo, mansamente, se alongavam nas areias da praia sussurrando.

Legenda: fotografia, datada de 1962, da autoria de Eduardo Gageiro.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

LISBOA, ONDE APORTOU BANA


Crónica de Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias de hoje:

Hoje, ele vai partir da sua cidade. Um dia, vi uma jovem lisboeta numa casa da Rua do Sol ao Rato descobrir o mundo trazido pela voz do gigante. A ele eu conhecia. Como no poema de Auden, "ele era meu norte, sul, meu leste e oeste", era o sentido da minha vida. Definição de felicidade? Tão simples: o canal de São Vicente com barcos enferrujados e Bana, tão grande, na praia a dizer as palavras de Resposta de segredo cu mar, acompanhado só pelo clarinete de Luís Morais... Se calhar nunca aconteceu, ali, de costas para o Mindelo e com Santo Antão ao longe, mas eu recorro a essa música para justificar o bairro luandense da minha infância, os amigos da adolescência, a ideia do meu mundo. Aliás, só fui ao Mindelo um dia e já lá não estavam nem Bana nem Luís Morais, só os barcos enferrujados e Santo Antão ao fundo. Por isso, quando Bana começou a cantar, na casa de mornas Monte Cara, eu encostei-me à cadeira para estar comigo. Foi quando a vi, à jovem lisboeta, fechar os olhos para estar consigo. E o corpo dela começou a menear-se, lentamente como uma morna pede. E quando Bana calou-se, nem eu nem ela aplaudimos, estávamos demasiado virados para dentro. Percebi que ela tinha ouvido um cantor da sua cidade. Hoje, na sua cidade, Lisboa, Bana vai ser cinzas. E depois vai para o Mindelo, a sua cidade seminal. Mindelo de São Vicente. São Vicente dos flagelados do vento leste. Do vento leste (norte, sul, oeste...) que o vai devolver ao mundo.



Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro.

terça-feira, 28 de maio de 2013

POEMA DE 28 DE MAIO AO CONTRÁRIO


Gigante foi a luz que acesa se estendeu
por sobre as trevas de um povo prisioneiro

Ninguém esperava que no primeiro impulso
de um movimento militar se abrissem todas as janelas

e todas as portas. Mas abriram-se e por elas
a luz e as vozes foram restituídas.

Todos agora, exército e povo, os militares e os políticos,
e quantos nunca pensaram que a política é coisa

de todos os dias ter de aprender-se a ver,
a falar e a ouvir, lá onde na caverna

só sombras de fantasmas existiam.
Todos têm de aprender a governar e a governar-se n`alma

e a fazer governo a liberdade e as vozes
e o direito de existir-se à luz do dia

como gente viva num país que é ela.
Todos têm de aprender que a liberdade não existe

apenas porque é dada, pois pode ser tirada,
ou apenas porque é conquistada, pois pode ser

licença em que não reste senão ela perder-se.
Têm de aprender que não pode ter-se num só dia

o que se perdeu em décadas. E que a Justiça
é a Liberdade que pensa mais nos outros que em si mesma.

Santa Bárbara, 28/5/74
Jorge Sena de Poemas Políticos e Afins em 40 Anos de Servidão, Moraes Editores, Lisboa Setembro de 1982.

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro.

O Q'UÉ QUE VAI NO PIOLHO?


Na próxima sexta-feira dia 31 de Maio, pelas 21,30 Horas, na Sala Manoel Oliveira do Cinema São Jorge - ENTRADA GRATUITA - exibe-se As Coisas Não  São Feitas Por Acaso , um filme de Tiago Cravidão sobre o fotógrafo Eduardo Gageiro.
Texto de promoção da Largo Filmes:

Estamos ao lado de Eduardo Gageiro quando o major Pato Anselmo lhe aponta a sua Walther de 9mm. Mas é Gageiro que dispara, fixando para sempre a última ameaça da ditadura Portuguesa que, segundos depois, e bem à nossa frente, se rende a Salgueiro Maia obrigando-o a morder o lábio para não chorar.

São agora os bancos de madeira do eléctrico 28 que nos transportam. Alfama, o Tejo, Campo de Ourique, Martim Moniz: é a preparação do próximo livro de Eduardo Gageiro. Aqui, constatamos a passagem da doença, e vamos assistindo ao ato fotográfico que das imagens quotidianas depura sínteses de vida. Presenciamos a espera, a escolha, o corpo em esforço para fixar a imagem imaginada. Matéria e ideia condensadas ao abrir do obturador. Gestos que este fotojornalista ensaia há mais de 65 anos.

Mas Eduardo fotografa ainda, é presente, actual, vivo e por isso, ao lado da grande escala assistimos às sessões fotográficas na humilde e lotada mesquita da mouraria, nos desgrenhados cabeleireiros para negros do Martim Moniz, e nas desarrumadas das lojas chinesas. “O dia-a-dia que soletramos sem dar por isso”, escreve o amigo José Cardoso Pires. Fragmentos unidos em torno do ponto de vista que este projeto, que durou cerca de 5 anos, foi instalando.

É este o olhar do filme sobre Eduardo Gageiro. Um filme que parte das histórias de duas imagens e que as cruza com a da preparação do seu último livro. Um filme que mostra como o olhar profundamente português deste fotógrafo viu as transformações em Portugal e no mundo nos últimos 60 anos. Um olhar que imaginou e que por isso viu e fotografou, o beijo de Dona Maria ao cadáver de Salazar em 1970, o rapto dos Israelitas nos jogos Olímpicos de 1972, o momento decisivo da revolução de 74, e as sedutoras revelações dos retratos de 95. Um olhar que na precisão científica de Álvaro Cunhal só pode ter origem num “observador atento e incansável que, com talentosa criatividade, não só colhe como cria a imagem e com ela interpreta a pessoa e o acontecimento.