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domingo, 25 de outubro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Como Não Quer a Coisa

Eduardo Guerra Carneiro
Prefácio: Vitor Silva Tavares
Capa e «hors-texte» de Carlos Ferreiro
Edições &etc. Lisboa, Agosto de 1978

PREFÁCIO A UMA HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE

As clarabóias deste lado da cidade acendem-se mais cedo.
sinal que alguém projecta o fogo sobre o bairro
incendiando casas, talvez certas pessoas, as ruas
mais estreitas junto ao Tejo. Em manhãs como esta o sol
entra na mesa e pára junto às teclas. Parece um sorriso;
diria mesmo uma ternura. Poucos são os Palácios, mas imenso
é o espaço. E as águas, no rio e junto às teclas, acendem-se
com o fogo de outras clarabóias.

Depois são as luzes, as indústrias, o último petroleiro.
Descansam moradores em casas altas
enquanto se ergue a cidade nocturna de bares e liamba
e cresce um ou outro clandestino. É tempo de sair
por entre a névoa; rondar as esquinas; sorrir à puta;
apertar o copo; sentir o suor da cidade, corpo a tremer
de frio e febre neste tempo de amoníaco e éter
com ambulâncias lentas a caminho da morgue.

Antes ainda das luzes, quando, à maneira de Cesário,
o fumo se eleva no espaço, o recorte das fachadas
é mais nítido, o vermelho de Lisboa é mais intenso,
podemos imaginar escadas cansadas da madeira,
fogões acesos nas cozinhas,
crianças já com sono,
etc, etc...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Dama de Copas

Eduardo Guerra Carneiro
Em «hors-texte» um desenho original de Carlos Ferreiro
Edições &etc. Lisboa, Setembro de 1981

Era um lugar de encontros clandestinos onde se trocavam pequenos jornais e palavras a meia-voz; onde se inventava a esperança desses dias. Mas, ao longe, afinal tão perto!, barcos partiam para a morte em terras d’África. Era a guerra.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Lixo

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Carlos Ferreiro
& etc, Lisboa, Outubro 1993

Há nomes de luxo onde o lixo
arde — bouças chamejantes.
Medo é a palavra exacta nas travessas
quando bandos circulam protegidos
pela finança alta e licenciada.
Se ele diz que há cavalos e cães
e fala dos doutores, esquecem
que no fundo era o mercado.
O país ergue-se em peões e os baldios
em chamas. Volta ao restolhar do milho
e camponeses dizem da lavoura,
da fome e da calúnia. Basta
olhar os murais onde esse luxo
se transformou no lixo capital.

A canalha junta-se nos pátios
no lusco-fusco de alguns entardeceres.
Galinhas debicam, entre caliça e cimento,
nos torrões onde pode estar semente ou grão.
O bolor cresce, com a humidade, em caixotões
encostados, a esmo, pelos cantos. A canalha
canta nos lugares — nódoas de vinho
e sangue misturados. O ódio ressuma
das frinchas dos tabiques. Na lama
desses pátios surgem flores carnívoras,
alimentadas a grogue e lavadura.
Crioula é a voz, a desmaiar no violão
e o azul ultramarino invade a cantina.
A hora do lobo ainda junta essa canalha.

Não penses que a canalha é lixo.
Nunca o foi. Na secura das terras,
fouce a fouce, ergue as colheitas
dos teus alimentos. Não julgues a canalha
o bode expiatório destes dramas. Lumpen
é quase luz noutra reforma dita
dura. Ouve as sirenes da polícia
e as ambulâncias solenes da morte.
Entre os espelhos quebrados dessas lojas
estão os focos do incêndio dos costumes.
Alarma-te: metrópoles em pânico
estão a arder. Não penses que o lixo
é só ao lado. Eis que ele se aproxima,
raia a raia.

terça-feira, 31 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Revólver do Repórter

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Teorema, Lisboa 1994

Por vezes o repórter está sentado, quase de mãos no regaço, à espera que as notícias lhe caiam no colo, já maduras. Mas, noutras alturas, busca e rebusca a cidade, por tabernas e bares, e os factos aí estão a saltar, fresquinhos, vivos da costa.
Personagens são às dúzias, histórias dão para encher muitos blocos de notas. Trata-se então de seleccionar, separar o trigo do joio, guardar na manga alguns recados para outro dia, outra ocasião.

domingo, 22 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Outras Fitas

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Fernando Mateus
Editorial Teorema, Lisboa Maio de 1999

A bibliotecária traz a angústia agarrada à pele, mas procura desfazer-se dela, como as serpentes que se esfregam nas areias e nas pedras para mudarem as suas “cascas”. Só que, para os humanos, mudar de pele, mesmo no sentido figurado, não é assim tão fácil.
Ele encontra-se muitas vezes num bar ribeirinho, onde os veleiros navegam nas paredes, em aguarelas antigas, de azuis e amarelos desmaiados, a cortarem as vagas, lutando contra as tempestades. Em tempos diferentes, talvez ela lhe fizesse companhia nos álcoois fortes, que ele teima em beber aos fins-de-semana. Agora, fica-se pelas águas tónicas, cigarro atrás de cigarro, enquanto lhe fala de mágoas, e conta histórias terríveis, onde se podiam colocar os versos de Maiakovski: Nesta vida é mais fácil morrer do que viver.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Algumas Palavras

Eduardo Guerra Carneiro
Nova Realidade, Porto, Março de 1969

Que se passou com estes olhos que já sabem percorrer a cidade? Que se passou com estes olhos? É saber afinal que tudo está ligado, desde Lester Young ao som dos Beatles, passando pela ira inglesa, o grito americano, a meticulosa raiva de Fanon, as longas barbas de Walt Whitman, a guitarra de Sandburg, as palavras de Fidel, a voz de Joan Baez. Depois é fácil, meus amigos, meu amor, abrir os braços àqueles que têm braços, sorrir ligeiramente, abrir os olhos.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Contra a Corrente

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Carlos Ferreiro
Edições &etc, Lisboa, Setembro 1988

Aqui de novo estou, cantiga, neste
lugar de eleição onde retomo a escrita.
É um vagar premeditado, no regresso ao corpo,
em demorado gosto de bebida dupla. Reparo: a carga
das palavras, canga difícil para quem
deste modo quer fazer o mosto. A poesia
já regressa, por entre cortinados e veludos
e o quarto, a sala, os corredores, o vão
da escada, ressoam com os seus passos,
afinal tão leves - a neve no soalho,
difícil no silêncio. Dizia do regresso; assim
desfaço os nós do medo: floresta e engano,
areal distante. Sorris e tudo é novo.
Sim: acabo sempre por falar de ti.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Profissão de Fé

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores,  Lisboa, 1990


A BARBA

A barba é o meu gato. Afago-a
neste jeito de quem passa os dedos
pelo dorso de um bichano. Eu sei
que estou a tocar num tigre: a barba
encrespa-se, revolve-se mesmo.
Ondas, campos de milho, searas,
também conhecem afago igual.
Mas este gato rebelde, a minha barba
apenas, é agora tudo a que me prendo.
Mestres já me dizem do excesso
de assim me virar para dentro.
Não! É para fora! Mora a barba
noutras eras, noutro espaço. É ela
que me afaga a mim: a última ternura.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

OLHAR AS CAPAS


A Noiva das Astúrias

Eduardo Guerra Carneiro
Capa e desenhos: Carlos Ferreiro
Editora & etc, Lisboa Agosto 2001

No seu afã de procurar o longe
não via o perto e, assim, já tropeçava
nas metáforas simples do quotidiano.
Feito monge divagava pelas brumas
e buscava auroras, nem sequer boreais,
quando, ali, à mão de semear, estava
tudo, mesmo tudo o que sonhava. Barcas
vogavam noutros sentidos e os aeroportos
abriam-se em correntes novas - vagas
alterosas de diferentes migrações. Pensou,
então, cheirando tempo & espaço, na mente
borbulhante - no vulcão. Metamorfose, sim,
metamorfose era a palavra necessária.
Mais que o som: deixar casulo e ser borboleta.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

OLHAR AS CAPAS



Isto Anda Tudo Ligado

Eduardo Guerra Carneiro
Cadernos Peninsulares nº. 1
Ulmeiro, Lisboa, Janeiro 1970

Onde estás agora? Disseram-me que a tristeza se instalou nas cadeiras da tua
casa, nos
teus móveis de estilo, entre os
lençóis da tua imensa cama. A tua voz
ainda s
oa por entre os meus livros, em
alguns discos, no fundo de algumas gar-
rafas
. Onde estás agora? Disseram-me
que o vento já não afasta os teus cabelos.
Em al
guns descampados ficou a recor
dação da tua magnífica água-de-colónia,
do
shampoo que em certas tardes de
Março íamos comprar ao supermercado
perto do
Hotel. Lembro o teu corpo como
quem recorda um navio ou um poema de
Camilo Pessanha.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

OLHAR AS CAPAS


É Assim Que Se Faz A História

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Dorindo de Carvalho
Colecção Cadernos Peninsulares
Assírio &Alvim, Lisboa, Abril 1963

J.C.M.C.

(Fragmentos comentados de uma
carta. Também: dedicatória)

O princípio de tudo num P.S.: Há tantos silêncios nesta carta. Tantas
coisas que não se podem deixar escritas.

Depois: os segredos compartilhados (Pierrot mon ami, mon semblable, mon frère), o teu regresso. De súbito, a nova explosão, as praias quietas e mornas, um livro (Jules e Jim) ou um filme. Tu dizias que não esperavas a minha carta cheia de som fúria. Falavas de um tempo de escuridão total. Eu diria: as trevas.
Ainda existiam as pradarias da Camarga, as viagens ao Tibete, jovens com casacos arménios, profetas, a maison, antigo bordel durante a ocupação alemã, onde até o Oliveira dormia deitado por terra (sobre as carpetes, enfim...). Quase agarravas as nossas austrálias, e o tempo perdido, quando te juntavas a tipos com free man
escrito nas costas e ouvias o locutor da Europe 1 perguntar: Porque vêm aqui? Respondias com eles: yes! yes! Falavas, claro, de Obaldia, Boris Vian e, sempre, de Godard.
Et maintenant le cinéma c'est Jean-Luc Godard, dizia Aragon. Tu
comentavas: foi a coisa mais acertada que disse até hoje. Mas o tempo era a escuridão total: as trevas.
Estávamos em 1966. Em Bruxelas, a insípida, velhos bebiam cerveja e o Brel ardia em flamengo. Ias ouvir Ornette Coleman para a porta do Jazzland e contavas coisas do parque de Montsouris. Tinhas já bilhete para o concerto do Thelonious Monk mas continuavas a falar-me de Anna Karina, de um sol bonito que ia chegar, da
Alsácia, de Mulhouse, dos bons vinhos do Reno e da Suíça, onde chegaste horas depois de Anita Eckberg dirigir a todos os genebrinos a saudação de despedida. O regresso a Paris. O tempo da escuridão total: as trevas.

O princípio de tudo num P.S.: Há tantos silêncios... Depois, agora: os telefones funcionam, as estradas abrem-se com força à nossa frente, as palavras ardem nos lábios, os descamisados percorrem o sul com as costas queimadas pelo sol intenso, Porto Covo abriga ainda uma canção, dois ou três maços de cigarros vazios, um spray para a garganta que lá ficou esquecido, uma aventura dos anos cinquenta que repetimos nos nossos trinta anos. Falavas de um tempo de escuridão total: as trevas. Um P.S.: Tantas coisas que não se podem deixar escritas...