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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

ESPELHOS E VULCÕES IV



Dos vulcões gostava de falar, em tom de arrepio, como se um vento de fogo cortasse de súbito os sonhos.

São esses os vulcões do imaginário, acesos quando menos se espera, ao olharmos o negro borralho que julgamos ser apenas cinza morna.

Já voei por cima de um vulcão, na realidade ou na noite dos prodígios. Arrisquei a pele ao provar os álcoois das profundezas, lava espessa a transbordar das taças.

Aos vulcões misturo os espelhos, num retrato imperfeito de algumas ousadias. São violentos os gritos e ressoa o clamor de multidões estilhaçando os vidros dos tiranos.

Caem os muros, revolvem-se as fronteiras. Espantados com a sua força, com o poder ao alcance das mãos, os homens imprimem neste novo tempo as suas impressões digitais, tantas vezes manchadas pelo próprio sangue ainda derramado.

Volto então aos vulcões de modo mais lírico para não me deixar tombar nas ravinas do medo. São, afinal, encostas de prazer, quando os olhamos com a firmeza de tudo querer mudar.

Há vulcões no teu olhar, dizia o homem para o espelho da parede. E explodia então o esmalte e os vidros rompiam os veludos e alcatifas.

Eduardo Guerra Carneiro em Lixo

Legenda: vinheta de Carlos Ferreiro em Lixo

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

ALGUMAS PALAVRAS


Algumas palavras são mais que o som.
Soltam-se delas lâmpadas, por vezes gritos.
Palavras que demoram na boca
com o sabor da manhã de Outubro, o claro gosto
da terra húmida, castanha até doer.

E há noites em que se ouve, além das horas,
um chamar por nós, um apelo
comovido. Podemos afirmar: são irmãos,
são mães, são companheiras. Mas é outra a face
revelada. Todo um ruído quente
quase desanimado. Um ténue vento
queimando-se nos vidros. Posso dizer:
em noites assim algumas morrem, muito antes
de saberem o nome e a voz. De quem
esse clamor? Saber que na antiga casa
as portas se abriram, um ou outro quarto
vai iluminar-se e começa o dia!

Há palavras lança-chamas.
Conheço algumas que nos fazem viver,
por não serem simples som
mas estradas incendiadas por dentro,
duplos corações batendo com o calor
da certeza do dia que se segue.
Assim me apoio às palavras,
procuro a tudo dar um nome,
e em noites destas ─ salientes, defumadas,
com vozes que nos chamam ─ sou um corpo
novo. Quebrando o meu silêncio,
povoo alguns espaços de alegria.
Rasgo o papel. Irado, desejoso
de saber até onde, quando, como,
o corpo vai. Nas palavras me encontro.
Cansado, quase morto, à espera,
sempre à espera. Nas palavras vivo,
denuncio ou ataco. Há um grande sol
à nossa espera. Quantos somos?

Eduardo Guerra Carneiro em Algumas palavras

domingo, 27 de janeiro de 2019

NÃO É O OUTRO


Não é o Outro que tu buscas? Sim,
a explosão dos tais espelhos. Sei
também que olhar esses teus olhos
provoca as miragens – o deserto.
Perto daí estava o estrangeiro,
e as veredas abriam-se sem medo.
Recordas a viagem, ida sem volta,
onde os poemas ferviam já em leite.
Azedo tu estavas, meu escriba,
os comboios povoavam a escuridão
e, de encontrão em encontrão,
tu sorrias à viagem. Lá longe,
no planalto em chamas,
os índios perguntavam pelo livro.

Eduardo Guerra Carneiro em A Noiva das Astúrias

Legenda: desenho de Carlos Ferreiro tirado de A Dama das Astúrias

segunda-feira, 21 de maio de 2018

NUNO BRAGANÇA


Nuno Bragança dizia-me sempre um simpático
«Olá, rapaz!» quando o apanhava na Trindade
em confidências alcoólicas com o Fernandinho Almeida.
Era já o fim da linha e não sei mesmo
se ele chegou a andar na carreira do 24.
Nas prosas se via o desespero, tal como a impaciência
com que escutava tiradas mais literatas.
Enraivecia por dentro, mordido por outros
deuses, venenos aziagos. Encontrei-o
uma vez à chuva, e perguntei-lhe: «Então?»
Respondeu: «Deixa-me estar nesta paragem.»
Era à porta de um hotel. Hesitava.
Sei hoje que talvez bastasse outra palavra
para a sua alma poder ainda ser salva.

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

Legenda: fotografia de Joaquim Lobo tirada da contracapa de DoFim do Mundo

domingo, 4 de março de 2018

AUTO-RETRATO


Quantas horas não choras a pensar
em ti — quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado — assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes,
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.

Eduardo Guerra Carneiro em Conta-Corrente

Legenda: desenho de Carlos Ferreiro em Conta-Corrente

domingo, 10 de dezembro de 2017

LUÍS VEIGA LEITÃO


Veiga Leitão, meu querido, tão nortenhos
nós somos no fim dos anos cinquenta!
À sucapa vamos beber uns tintos
e tu preocupas-te por eu ser ainda
um catraio do liceu de Vila Real.
Mostrava-te versos ruidosos que acolhias
e felizmente dizias que não eram ainda
poesia. Depois, noutras visitas,
a cavaqueira passa p’ra lá do Marão,
limite nessa altura das angústias
dos meus voos. Noite de pedra era o tempo,
como o título do teu livro. Tanta ternura
 cumplicidade, entre dois covilhetes
e algumas taças de branco para rebater.

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

segunda-feira, 12 de junho de 2017

MORRER DE AMOR


A neve queima
mas o fogo do teu corpo
que tanto me incendeia
transforma-se às vezes
numa estátua de pedra.

A neve queima
e nela me deitava
abraçado à montanha.
Brilhava assim na paixão
e não gelava – ardia
o coração.

A neve queima
com flores geladas.
Para mim são labaredas
esses outeiros brancos
a arder num só olhar.

A neve queima
mas gelo nos incêndios
do prazer. Serei fogo
das estrelas? Ou apenas
a confusão dos elementos.
Eu sei: vogar no ar.

A neve queima
mas quero arder
no teu corpo ardente.
E quebrar o gelo
dessa estátua minha.

A neve queima.
Mesmo a tremer de frio
procuro no ar que respiro
o fogo que me leve
às águas mais profundas
dos teus vulcões acesos.

A neve queima
ao sabê-la fria.
Desço aos infernos
dos fantasmas
e procuro água de beber.

A neve queima
e nas veredas encontro
a paz desse silêncio.
Mas gritar eu quero
no ar ardente
dos teus sentidos.

A neve queima
quando nem a sinto
Busco no teu olhar
o sinal mais simples:
unir gelo e chamas.

A neve queima
mas eu quero arder
nos elementos maiores.
Incendeia-me, amor!
Vogar no ar, morrer
nas águas do teu fogo.

Lisboa, Julho de 1994

Eduardo Guerra Carneiro em Ler nº 28, Outubro 1994

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O POETA QUE SE ATIROU PARA O CÉU


No fim das trevas da noite admitia: uma pequena estrela de esperança a brilhar.

Mas naquele começo de um novo ano escolheu a morte.

Como tão certeiro escreveu o Baptista-Bastos: o poeta que se atirou para o céu.

Num qualquer dia do ano de 1999, talvez antes, escrevo com medo de ser tarde, a propósito de fitas, falara das tais luzinhas a brilhar:

Acendem-se já as luzes natalícias e ele escapa-se, no intervalo dos aguaceiros, por entre o empedrado escorregadio das ruas e travessas do bairro, para aparentes portos de abrigo, que buscando a companhia de algumas palavras, mesmo que sejam de ocasião, tentando a cumplicidade de alguns sorrisos, mesmo que sejam de encomenda. Já pouco mais pede, perdidas ilusões, desfeitas quimeras.

Eduardo Guerra Carneiro, no dia 2 de Janeiro de 2004, foi encontrado sem vida junto à casa onde morava sozinho na Travessa do Abarracamento de Peniche, ali ao Bairro Alto que ele tanto amava e conhecia tão bem.


AUTO-RETRATO

Quantas horas não choras a pensar
em ti — quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado — assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes,
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.


Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

domingo, 25 de outubro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Como Não Quer a Coisa

Eduardo Guerra Carneiro
Prefácio: Vitor Silva Tavares
Capa e «hors-texte» de Carlos Ferreiro
Edições &etc. Lisboa, Agosto de 1978

PREFÁCIO A UMA HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE

As clarabóias deste lado da cidade acendem-se mais cedo.
sinal que alguém projecta o fogo sobre o bairro
incendiando casas, talvez certas pessoas, as ruas
mais estreitas junto ao Tejo. Em manhãs como esta o sol
entra na mesa e pára junto às teclas. Parece um sorriso;
diria mesmo uma ternura. Poucos são os Palácios, mas imenso
é o espaço. E as águas, no rio e junto às teclas, acendem-se
com o fogo de outras clarabóias.

Depois são as luzes, as indústrias, o último petroleiro.
Descansam moradores em casas altas
enquanto se ergue a cidade nocturna de bares e liamba
e cresce um ou outro clandestino. É tempo de sair
por entre a névoa; rondar as esquinas; sorrir à puta;
apertar o copo; sentir o suor da cidade, corpo a tremer
de frio e febre neste tempo de amoníaco e éter
com ambulâncias lentas a caminho da morgue.

Antes ainda das luzes, quando, à maneira de Cesário,
o fumo se eleva no espaço, o recorte das fachadas
é mais nítido, o vermelho de Lisboa é mais intenso,
podemos imaginar escadas cansadas da madeira,
fogões acesos nas cozinhas,
crianças já com sono,
etc, etc...

domingo, 16 de agosto de 2015

OS CAFÉS


 Nos cafés desenham os paisanos, vulgares
senhores de bagaço e genebra, raspando o mármore
entre as folhas do jornal. Morrem os cafés
com o seu bilhar, bengaleiro e escarrador. Música
de rádio ainda sintoniza a serradura e os vidros
baços quando chove. Recordo cafés
da província, ou da cidade grande,
destruídos por ímpias criaturas do plástico.
Já não servem cevada ou eduardinho e o açúcar
não vem no açucareiro. Alguns ainda assinam
os jornais, o cobre limpam e pagam
aos paquetes. Autorizam cauteleiros, a caixa
do engraxador, a rapariga das violetas. Violentam
os cafés aqueles da usura, ratos do cimento.
Avessos à militança, são os cafés retracto militante
de algumas senhoras de batina e capa, entornando
no pires o leite do caniche. Alvoraçados os velhos
titilam nas retretes e os tabacos esgotam-se em suspiro.
São cafés com espelhos e amarelas luzes onde o néon
ainda não entrou. Também de padres são feitas
essas lojas; de marçanos, rapazelhos e trapistas.
Devolvendo teorias sobre os ditos. Em tempo de ditadura
era o café a teia da intriga, o bocejar jacobino,
o guarda-chuva pingando tristes ais. Insisto pois
no rádio e radiador. Quem lembra os pianos?
Carambolas secas já cortavam o fumo dos charutos;
no marcador quinze de partido; na mesa ao fundo,
igual à história antiga, dois jogadores de xadrez ou de gamão.

 Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

quarta-feira, 6 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Lixo

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Carlos Ferreiro
& etc, Lisboa, Outubro 1993

Há nomes de luxo onde o lixo
arde — bouças chamejantes.
Medo é a palavra exacta nas travessas
quando bandos circulam protegidos
pela finança alta e licenciada.
Se ele diz que há cavalos e cães
e fala dos doutores, esquecem
que no fundo era o mercado.
O país ergue-se em peões e os baldios
em chamas. Volta ao restolhar do milho
e camponeses dizem da lavoura,
da fome e da calúnia. Basta
olhar os murais onde esse luxo
se transformou no lixo capital.

A canalha junta-se nos pátios
no lusco-fusco de alguns entardeceres.
Galinhas debicam, entre caliça e cimento,
nos torrões onde pode estar semente ou grão.
O bolor cresce, com a humidade, em caixotões
encostados, a esmo, pelos cantos. A canalha
canta nos lugares — nódoas de vinho
e sangue misturados. O ódio ressuma
das frinchas dos tabiques. Na lama
desses pátios surgem flores carnívoras,
alimentadas a grogue e lavadura.
Crioula é a voz, a desmaiar no violão
e o azul ultramarino invade a cantina.
A hora do lobo ainda junta essa canalha.

Não penses que a canalha é lixo.
Nunca o foi. Na secura das terras,
fouce a fouce, ergue as colheitas
dos teus alimentos. Não julgues a canalha
o bode expiatório destes dramas. Lumpen
é quase luz noutra reforma dita
dura. Ouve as sirenes da polícia
e as ambulâncias solenes da morte.
Entre os espelhos quebrados dessas lojas
estão os focos do incêndio dos costumes.
Alarma-te: metrópoles em pânico
estão a arder. Não penses que o lixo
é só ao lado. Eis que ele se aproxima,
raia a raia.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Algumas Palavras

Eduardo Guerra Carneiro
Nova Realidade, Porto, Março de 1969

Que se passou com estes olhos que já sabem percorrer a cidade? Que se passou com estes olhos? É saber afinal que tudo está ligado, desde Lester Young ao som dos Beatles, passando pela ira inglesa, o grito americano, a meticulosa raiva de Fanon, as longas barbas de Walt Whitman, a guitarra de Sandburg, as palavras de Fidel, a voz de Joan Baez. Depois é fácil, meus amigos, meu amor, abrir os braços àqueles que têm braços, sorrir ligeiramente, abrir os olhos.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Contra a Corrente

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Carlos Ferreiro
Edições &etc, Lisboa, Setembro 1988

Aqui de novo estou, cantiga, neste
lugar de eleição onde retomo a escrita.
É um vagar premeditado, no regresso ao corpo,
em demorado gosto de bebida dupla. Reparo: a carga
das palavras, canga difícil para quem
deste modo quer fazer o mosto. A poesia
já regressa, por entre cortinados e veludos
e o quarto, a sala, os corredores, o vão
da escada, ressoam com os seus passos,
afinal tão leves - a neve no soalho,
difícil no silêncio. Dizia do regresso; assim
desfaço os nós do medo: floresta e engano,
areal distante. Sorris e tudo é novo.
Sim: acabo sempre por falar de ti.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Profissão de Fé

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores,  Lisboa, 1990


A BARBA

A barba é o meu gato. Afago-a
neste jeito de quem passa os dedos
pelo dorso de um bichano. Eu sei
que estou a tocar num tigre: a barba
encrespa-se, revolve-se mesmo.
Ondas, campos de milho, searas,
também conhecem afago igual.
Mas este gato rebelde, a minha barba
apenas, é agora tudo a que me prendo.
Mestres já me dizem do excesso
de assim me virar para dentro.
Não! É para fora! Mora a barba
noutras eras, noutro espaço. É ela
que me afaga a mim: a última ternura.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

PROCURASTE, CAMINHANTE


Procuraste, caminhante, essas veredas
ainda libertárias, na Ibéria. Mas
misturaste, na errância, a estrada larga
com caminhos de formigas rastejantes.
Põe-te de pé, poeta!, nunca de joelhos,
pois nem as virgens ouvem teus lamentos,
atolado em lameiros como um verme.
Serve-te da verve que encontraste
nos insurrectos cantos das tabernas
e, reinadio, caminha, pois caminho,
lá diz o outro, e com razão, se faz
apenas caminhando. Não tenhas pena- alegria!
- mas proclama que é nesta terra amiga
que ainda pode renascer a utopia. 

Eduardo Guerra Carneiro, em A Noiva das Astúrias, Edições & Etc, Lisboa Agosto de 2001.

Legenda: ilustração de Carlos Ferreiro para este poema do Eduardo Guerra Carneiro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

OLHAR AS CAPAS


A Noiva das Astúrias

Eduardo Guerra Carneiro
Capa e desenhos: Carlos Ferreiro
Editora & etc, Lisboa Agosto 2001

No seu afã de procurar o longe
não via o perto e, assim, já tropeçava
nas metáforas simples do quotidiano.
Feito monge divagava pelas brumas
e buscava auroras, nem sequer boreais,
quando, ali, à mão de semear, estava
tudo, mesmo tudo o que sonhava. Barcas
vogavam noutros sentidos e os aeroportos
abriam-se em correntes novas - vagas
alterosas de diferentes migrações. Pensou,
então, cheirando tempo & espaço, na mente
borbulhante - no vulcão. Metamorfose, sim,
metamorfose era a palavra necessária.
Mais que o som: deixar casulo e ser borboleta.

sábado, 4 de dezembro de 2010

IDÍLIO EM BICICLETA


As bicicletas de Setembro rolam
no asfalto quente  da estrada de Braga.
Do rio vem o fresco e dos montes
um  bafo quente a zumbir,
tal qual abelhas. Risca ao meio,
o cabelo solta-se na ragem.
Vamos assim em roda livre
e os peixes mordem o isco
nas águas mais profundas. Bicicletas
voltam ao parque fechado. Vem
também habitar este palácio de ócio
onde o ópio transpira nas paredes.
Risco maior não é a velocidade
mas o estilo bom da pedalada

Eduardo Guerra Carneiro em Profissão de Fé

Imagem de Idílio Freire.