António Ramos
Rosa, Armando Silva Carvalho, Casimiro de Brito, Eduardo Olímpio, Egito Gonçalves,
Eugénio de Andrade, Gastão Cruz, J.J. Letria, José Barreiros, José Ferreira
Monte, Maria da Graça Varela Cid, Maria Teresa Horta
Com um cartaz de
Armando Alves e um desenho de José Rofrigues
Colecção O Oiro
do Dia nº 9
Editorial Inova,
Abril de 1976
A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.
A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.
Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.
Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de Inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.
Neste EP, chamadoDulcineia, que é título
do poema de José Gomes Ferreira, publicado em 1971, Manuel Freire faz a primeira
abordagem a poemas de José Saramago.
O poema escolhido foi Fala do Velho do Restelo ao Astronauta.
Os outros poemas do disco, para os quais, Manuel Freire fez
a música são Poema da malta das Naus de António Gedeão e Canção
de Eduardo Olímpio.
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.
Por ocasião dos 25 anos do 25 de Abril, Manuel Freire reuniu,
em formato CD, músicas que fez para poemas de José Saramago. Juntou também a
música que Luís Cília escreveu para Dia Não.
Há palavras que atam e há palavras que separam. Estas são das que unem
e aconchegam. Por isso, enquanto ele canta, eu vou dizendo baixinho o que
escrevi. É uma forma de agradecer.
Pelo menos uma vez por semana, ao cair da tarde, saia da Agência e ia até à “Livaria Anglo-Americana” ali ao Cais do Sodré, no mesmo lado da fronteira do "British-Bar" e do "English-Bar". No local da livraria, foi a Pastelaria Caneças, está hoje, com o mesmo nome, uma boutique de pão. Alguém já contou a história por aqui.
Quando se gosta de livros, se encontra um empregado de livraria que sabe o que é um livro, que ainda por cima é escritor, a felicidade é a palavra que se encontra para definir o enquadramento. Antes de Abril o Eduardo guardava-me, de imediato, os livros que ele cheirava que iriam ficar fora do mercado. Por um findar de tarde, era Verão, fui até à Anglo-Americana para saber dos últimos livros saídos. O Eduardo estava à conversa com o Altino Tojal, sim esse o dos Putos. Corridos os taipais fomos até ao British-Bar. Palavra puxa palavra, copo puxa copo, já eram mais que horas de jantar. Sabia que por casa o jantar seria uma salada de feijão frade, com muita cebola, pickles e atum Tenório. Era só juntar mais umas latas e corremos a apanhar o 35. O vinho era Arruda, tinto, a janela aberta bebia o calor na noite cálida, assim como lembrando o Eça, a Aida conversava com o Eduardo, ambos, desde muito jovens, empregados de balcão o Eduardo de livros, a Aida de corte e costura. Entretanto, chegara o Garrudo, já não sei bem para o quê, e a conversa ainda mais se eternizou. Escolher e falar de coisas simples, aquelas coisas insignificantes que nos emocionam até aos limites da ternura. Noite adiantada, o outro dia era dia de trabalho. O Garrudo ofereceu-se para boleias. O Altino Tojal quis ficar no Cais do Sodré e fomos levar o Eduardo a Manique, uma aldeia ali para os lados de Alcabibeche, onde há carreiras de camionetas, raparigas, que acabaram por dar um livro . Pela manhã, na Agência, recebo telefonema do Eduardo para passar pela livraria. Da conversa da véspera do Eduardo com a Aida, tinha nascido um poema. Escrito num bocado de cartão, a marcador vermelho, o Eduardo pediu-me que o entregasse à Aida. Durante muitos anos assim ficou na parede da casa. O tempo fez desaparecer as palavras, escritas a marcador vermelho, do Eduardo Olímpio. Mas a o poema está aqui: AMIGA
Quem sorri assim fecha a janela Que o Sol não é preciso Na mesa há uma toalha de ternura E no copo no talher o teu sorriso.
Pela casa dois pardais tentam voar Voam penas/alegrias no corredor: - Voem pardalitos, voem, voem Que as paredes desta casa são de amor.
E um dia hei-de ir mercar ao teu balcão (Nem seja somente em fantasia) Um casaco de sol em jaquetão, Já-que-tão me tocaste de harmonia. Eduardo Olímpio (16.09.81)
A fotografia que, em cima, ilustra estas memórias, tirou-a o Luís Pinheiro de Almeida, num daqueles dias rigorosos de Fevereiro deste ano. Mr. Ié-Ié garantiu que, para tirar a fotografia ao paquete Aida ancorado na Rocha de Conde d’ Óbidos, correu sérios riscos de vida. Mas prometeu que, quando o paquete voltar a Lisboa, fará uma fotografia mais aprimorada. Coloco, também, a capa de um dos livros do Eduardo Olímpio, precisamente A Menina da Carreira de Manique.
Um livro ternurento de que o Mário Castrim disse ser uma armadilha de encantamento de que poucos livros conhecem o segredo”, e o Júlio Conrado: “ao que o Eduardo Olímpio chama mini-crónicas chamo eu pérolas da literatura portuguesa. E assumo a inteira responsabilidade daquilo que escrevo., ou o Jorge Listopad: Lê-se, e o português canta. Através das coisas, das falas, do tempo. Sem falso lirismo, sem literatice. É possível que passasse por entre os “grandes” despercebido? Que não tivesse encontrado os leitores que merecia e merece?. (1) “A Menina da Carreira de Manique”, Eduardo Olímpio, capa H.Mourato, “Edições Maria da Fonte”, Lisboa 1978
Um sofazinho, sentadinhos, direitinhos, com conversas assim: - Tens uma mãos bonitas. - Ora, são mãos. - Dás-me um beijo? - Não dou. - Vamos domingo ao Éden ver Os Filhos de Ninguém? - Se a mãe deixar... Silêncio."