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domingo, 25 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Circo das Palavras

Eduardo Olímpio
Capa e ilustrações: Afonso
Círculo de Leitores, Novembro de 1981

Quando o Circo das Palavras chegou à Cidade dos Meninos que Gostam de Aprender, foi uma festa tão grande, tão grande, que até os pombos voavam com música dentro das asas e as fontes pintaram as gotas de água com as cores todas do Arco-Íris.

sábado, 27 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


A Menina da Carreira de Manique

Eduardo Olímpio
Capa: H. Mourato
Edições Maria da Fonte, Lisboa, 1978

Vem no banco de trás. Um molho de livros, papéis, apontamentos. Uma mão cheia de amanhã. Tem os cabelos grandes e loiros como os cabelos das moiras de antigamente. Cabelos de fada, da princesa que esperava fechada num castelo.
E uns olhos tudo: olhos trigo, olhos horizonte, ternura, aconchego. E esperança, esperança: olhos mundo inteiro.
Quando a camioneta chega à minha paragem a menina da carreira de Manique já lá vem, sentada: mês se eu for para as outras paragens mãos antes, mais primeiro, ela também lá está pálida e morena, sentada no seu banco de todos os dias: menina do princípio do mundo, ao princípio da manhã está presente. Olho-a.
É o meu doce pequeno-almoço, olhar a menina da carreira de Manique, Menina só de olhar. Menina de semear suavidade nas arestas do dia que nos irá matar.
Entretanto o sol desgrenha-se, amarelado, da banda de lá do Tejo e os cabelos, o rosto, os olhos-tamanho-do-mundo da menina que já vem do princípio da madrugada inundam o autocarro duma luz que nos conforta. Penso: quando o céu se tornar numa impossível cúpula de ferro, quando as cigarras emigrarem para as sibérias do silêncio, quando o vento me despentear a fé, resta-me a menina da carreira de Manique para olhar.
E o mundo estará cheio de sol.

terça-feira, 10 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS


Como Quem Leva Ao Ombro a Vida Toda

Eduardo Olímpio
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, Maio de 1986

Retrato

de comum acordo      acordado
nem no norte    nem no sul    desnorteado
com óculos    que sempre a miopia
aumentou o ordenado

o homem realizado

veste-se suavemente de cinzento
(aquele fatinhos olhinho de perdiz…)
tudo o que diz é com comedimento

o homem feliz

tem um carrinho a sessenta letras
com que soletra
                           ao domingo
                                                os estoris

domingo, 4 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


António dos Olhos Tristes

Eduardo Olímpio
Capa: H. Mourato
Colecção Cacto nº 7
Prelo Editora, Lisboa, Março de 1978

Quando Mestre Manuel Regedor acabou de ler  esta parte do folhetim que há um ror de tempo vinha aparecendo no jornal, os homens ficaram com um brilho tão forte nos olhos que pareciam capazes de alevantar dez arrobas de peso com as mãos.
António dos olhos Triste pediu a Mestre Manuel: - Dê-me esse pedaço de jornal, Mestre Manuel Regedor. Dê-me que eu agradeço-lhe muito. Mestre Manuel começou a cortar a parte do rodapé que trazia o folhetim e foi dizendo a António dos Olhos Tristes:
- Mas pra que diacho queres tu o jornal se não sabes ler nem escrever, não me dizes?
António dos Olhos Tristes agarrou no pedaço de folhetim e quase que a falar só para ele foi dizendo enquanto o enrolava na algibeira: - Isto que aqui está é tão certo que eu só de olhar prós riscos que aqui estão sou capaz de o tornar a dizer, letra por letra, sem me enganar: quando os homens escrevem e dizem as coisas tal e qual como elas são a gente só tem de olhar ou escutar pra ser capaz de os entender. E começou, enquanto se alevantava do banco: - Pensa que o mundo está cheio de homens que lutam para que um rio de lodo não se atravesse entre a vida e o sonho.
Depois saiu.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Cadernos Despertar - I

Eduardo Olímpio, José Carlos Ary dos Santos, José Jorge Letria, José Vultos Sequeira, Luís Maçarico, Manuel Branco, Miguel Serrano, Orlando César
Prefácio: Miguel Serrano
Capa: Miguel Eduardo
Publicação não periódica
Edição dos Autores, Lisboa, Junho de 1982

Soneto de Cabeceira

Em mim próprio me gasto e me desgasto
em mim próprio me vergo e desgoverno
de mim próprio varrasco me vergasto
quando pretendo ser perfeito ou terno.

De mim, que eu tanto gosto me desgosto:
sempre que rasgo as teias do inferno
revejo a aranha de viscoso rosto
comendo a mosca do meu sono eterno.

De mim me desencanto e desagravo
De mim me distancio e me separo
Cada vez mais humilde e mais altivo.

É esta a luta que camigo travo:
se o dia de amanhã fôr dia claro
morro cem vezes para ficar vivo.

(José Carlos Ary dos Santos)