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quinta-feira, 12 de julho de 2018

O ANTI-HERÓI


é que não estou nada interessado
mas mesmo nada
em ser herói

os heróis vêm     o heróis váo

quanto muito sobra deles uma estátua
w.c. para um cão

tenho muito mais interesse em estar vestido
na ganga colectiva dos sem nome
dos que lutam e calam
dos que lutando falam

com a avença de todos
contra o selo da fome

herói fica narciso sobre sépia
herói só tem cabeça de perfil

e eu não quero estar sozinho neste morse
sou o fácies de um corpo vezes mil

não
agradecido e obrigado
dispenso o medaçhão

prefiro estar aqui     ali     na multidão

do lado onde se sabe
que uma nação se faz da soma exacta
do povo que nela cabe

terça-feira, 10 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS


Como Quem Leva Ao Ombro a Vida Toda

Eduardo Olímpio
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, Maio de 1986

Retrato

de comum acordo      acordado
nem no norte    nem no sul    desnorteado
com óculos    que sempre a miopia
aumentou o ordenado

o homem realizado

veste-se suavemente de cinzento
(aquele fatinhos olhinho de perdiz…)
tudo o que diz é com comedimento

o homem feliz

tem um carrinho a sessenta letras
com que soletra
                           ao domingo
                                                os estoris

quinta-feira, 3 de junho de 2010

MEMÓRIAS

Pelo menos uma vez por semana, ao cair da tarde, saia da Agência e ia até à “Livaria Anglo-Americana” ali ao Cais do Sodré, no mesmo lado da fronteira do "British-Bar" e do "English-Bar". 

No local da livraria, foi a Pastelaria Caneças,  está hoje, com o mesmo nome, uma boutique de pão.

Alguém já contou a história por aqui.

Quando se gosta de livros, se encontra um empregado de livraria que sabe o que é um livro, que ainda por cima é escritor, a felicidade é a palavra que se encontra para definir o enquadramento.

Antes de Abril o Eduardo guardava-me, de imediato, os livros que ele cheirava que iriam ficar fora do mercado.

Por um findar de tarde, era Verão, fui até à Anglo-Americana para saber dos últimos livros saídos. O Eduardo estava à conversa com o Altino Tojal, sim esse o dos Putos. 

Corridos os taipais fomos até ao British-Bar. 

Palavra puxa palavra, copo puxa copo, já eram mais que horas de jantar. 

Sabia que por casa o jantar seria uma salada de feijão frade, com muita cebola, pickles e atum Tenório. 

Era só juntar mais umas latas e corremos a apanhar o 35.

O vinho era Arruda, tinto, a janela aberta bebia o calor na noite cálida, assim como lembrando o Eça, a Aida conversava com o Eduardo, ambos, desde muito jovens, empregados de balcão o Eduardo de livros, a Aida de corte e costura.

Entretanto, chegara o Garrudo, já não sei bem para o quê, e a conversa ainda mais se eternizou. Escolher e falar de coisas simples, aquelas coisas insignificantes que nos emocionam até aos limites da ternura.

Noite adiantada, o outro dia era dia de trabalho. O Garrudo ofereceu-se para boleias. 

O Altino Tojal quis ficar no Cais do Sodré e fomos levar o Eduardo a Manique, uma aldeia ali para os lados de Alcabibeche, onde há carreiras de camionetas, raparigas, que acabaram por dar um livro
.
Pela manhã, na Agência, recebo telefonema do Eduardo para passar pela livraria.

Da conversa da véspera do Eduardo com a Aida, tinha nascido um poema. Escrito num bocado de cartão, a marcador vermelho, o Eduardo pediu-me que o entregasse à Aida.

Durante muitos anos assim ficou na parede da casa.

O tempo fez desaparecer as palavras, escritas a marcador vermelho, do Eduardo Olímpio. Mas a o poema está aqui:

AMIGA

Quem sorri assim fecha a janela
Que o Sol não é preciso
Na mesa há uma toalha de ternura
E no copo no talher o teu sorriso.

Pela casa dois pardais tentam voar
Voam penas/alegrias no corredor:
- Voem pardalitos, voem, voem
Que as paredes desta casa são de amor.

E um dia hei-de ir mercar ao teu balcão
(Nem seja somente em fantasia)
Um casaco de sol em jaquetão,
Já-que-tão me tocaste de harmonia.


Eduardo Olímpio

(16.09.81)

A fotografia que, em cima, ilustra estas memórias, tirou-a o Luís Pinheiro de Almeida, num daqueles dias rigorosos de Fevereiro deste ano. Mr. Ié-Ié garantiu que, para tirar a fotografia ao paquete Aida ancorado na Rocha de Conde d’ Óbidos, correu sérios riscos de vida. 


Mas prometeu que, quando o paquete voltar a Lisboa, fará uma fotografia mais aprimorada.

Coloco, também, a capa de um dos livros do Eduardo Olímpio, precisamente A Menina da Carreira de Manique.


Um livro ternurento de que o Mário Castrim disse ser uma armadilha de encantamento de que poucos livros conhecem o segredo”, e o Júlio Conrado: “ao que o Eduardo Olímpio chama mini-crónicas chamo eu pérolas da literatura portuguesa. E assumo a inteira responsabilidade daquilo que escrevo., ou o Jorge Listopad: Lê-se, e o português canta. Através das coisas, das falas, do tempo. Sem falso lirismo, sem literatice. É possível que passasse por entre os “grandes” despercebido? Que não tivesse encontrado os leitores que merecia e merece?.

(1) “A Menina da Carreira de Manique”, Eduardo Olímpio, capa H.Mourato, “Edições Maria da Fonte”, Lisboa 1978