Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Prado Coelho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Prado Coelho. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 3 de julho de 2019

OLHARES

Para quem vive, ou viveu, em França, sabe perfeitamente do que falo. Todas as manhãs havia um prazer indispensável. Comprar o jornal Libération e ir lê-lo ao café. Um café em Paris é um espaço acolhedor, com espelhos e madeiras e terraços envidraçados que se abrem para a chegada da Primavera, o sol avançando portas adentro.

Eduardo Prado Coelho

segunda-feira, 15 de abril de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O meu primeiro contacto com João César Monteiro remete-me para a década de 70, quando começou a fazer crítica de cinema para o Diário de Lisboa, tendo como companheiros o Eduardo Prado Coelho, o Lauro António e o Vitor Silva Tavares.


«Eu sempre disse por exemplo que o cinema sou eu. E isto é uma afirmação que não tem nada de monárquico ou de centrista. Tudo o que eu faço é singular, insubstituível.»

E ainda:

«Eu sou um realizador que não sabe efectivamente, «a ponta de um corno». Sei que isto é horrível, mas é assim. Devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»

Fiquei com um gosto assolapado pelo João.

Mais ainda quando colaborou na folha cultural q. b. &.etc. principalmente, quando lá  escarrapachou A Minha Certidão:

Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Eu e o meu pai, volta e meia, íamos para a petisqueira e para a conversa e depois havia «piolho»

Tudo corria melhor, a cereja no topo do bolo, quando calhava um filme do João César Monteiro.

Infelizmente só vimos quatro filmes, a sua morte em 1990, roubou-me esse insubstituível prazer.

Para além do génio, para além da arte, para além de tudo, os filmes do João César Monteiro davam-nos um imenso gozo.

Foram estes os filmes:

Silvestre no Cine-Bloco
À Flor do Mar no Ávila
Recordações da Casa Amarela no Fórum Picoas e éramos os únicos espectadores.

João César:

«A mim interessa-me fazer filmes para todos os públicos. Noventa por cento da população do país não é um espectador de cinema e provavelmente será esse o público mais inocente e disponível, porque menos condicionado por certos códigos imperialistas. É um dever cívico fazer cinema para essa gente, embora sem grandes esperanças de que a curto prazo possam ser espectadores de cinema.»

Vitor Silva Tavares:

«Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.»


Pego no guião de Recordações da Casa Amarela, publicado no 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro e entretenho-me a copiar a Cena 06 do filme.

João César escreve que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.


«Ferdinando sentado à mesa, serve-se de uma cabeça de garoupa com todos. Olha para fora de campo e diz:

Ferdinando: Caríssimo João de Deus: isso é reumático ou venéreo?

João de Deus entra em campo, com o sobretudo vestido, aperta a mão a Ferdinando, enquanto sussurra, debruçado sobre Ferdinando:

João de Deus: É coisa que me apareceu nas virilhas.

João de Deus senta-se em frente de Ferdinando.

Ferdinando (a rir): Nas brilhas, como se diz no Porto. Manda vir qualquer coisa que se trinque.

João de Deus: Não me apetece, Ferdinando. Tenho a boca a arder e custa-me mastigar.

Ferdinando: Estamos todos podres, é o que isso quer dizer. E a tua mãe?

Enquanto Ferdinando se vai  batendo com a cabeça de garoupa, João de Deus puxa de um cigarro, acende-o e, com o cotovelo apoiado no tampo da mesa, encosta a cabeça ao punho fechado.

João de Deus: Lá anda.

Ferdinando: Madre de Deus só há uma. Nunca o esqueças, meu filho.

João de Deus: Não consegui foi escrever nada. Sou amigo do tipo. Pelo menos, fui amigo da mulher e custa-me um bocado. Conheço-os há uma data de anos, ainda do tempo da outra senhora.

A câmara desloca-se ligeiramente para a esquerda, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que suspende o garfo, junto à boca.

Ferdinando: Estás a perder qualidades, Se me é permitido um reparo – não leves a mal - , por vezes consegues ser contundente, mas nunca fulminante. Andas às voltas, não vais direito ao assunto. Bebe nos clássicos, meu filho. Fulmina. Recordas-te da polémica de Camilo com Mesquita Fialho?

A câmara desloca-se ligeiramente para a direita, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que muito devastou a pratada e emborca um copo de branco.

João de Deus: O problema é que este não se chama Filho.

Ferdinando pousa o copo na mesa e diz com toda a gravidade que se impõe:

Ferdinando: Mas também deputa… filho.

João de Deus: Estou farto de escrever imundícies.

Ferdinando está boquiaberto.

Ferdinando: Mas tu nunca arriscaste a ponta de um corno, nem sequer o nome.
As chatices com a «judite», os processos em tribunal, as pesadas indemnizações, tudo te tem sido poupado. Nunca me vi confrontado com um caso de tamanha ingratidão: metes-me nojo.

O criado entra pela esquerda e levanta o prato de Ferdinando.

Ferdinando: Só café e uma bagaceira fresquinha. Da casa.

O criado sai por onde entrara. Percebe-se que Ferdinando acende uma cigarrilha. O criado entre em campo com o café e o bagaço, pousa-os na mesa e volta a sair.

Ferdinando: Vá-me tirando a continha, la dolorosa.»

Uma cena maravilhosa.

Por alturas da exibição do Silvestre em Lisboa, Mário Castrim abria, no Diário de Lisboa uma sua crítica de televisão, dizendo que tinha ido ver o filme pela segunda vez como quem se vai purificar nas águas do Jordão.

Sobre Silvestre, o João César disse que era um filme para as pessoas que ainda conseguem sentir-se crianças.

Agarrando na frase, José Saramago escreveu que «é um filme que não infantiliza os adultos que nós somos, mas adultiza as crianças que continuamos a ser.»

Fernando Lopes:

«Ao César perdoa-se tudo porque ele tem um talento que se ri de si próprio. Em suma. É um grande demente que faz coisas muito belas.»

Ainda o João:

«Ninguém morre por não fazer filmes e se morrer é idiota. Não avle a pena. Morre-se, sim, por fazer filmes, por na idade em que se fazem as opções mais importantes (que não são necessariamente as mais graves) se ter optado pelo ofício de cineasta, Agora estou sozinho diante das estrelas.»

Tenho saudades do João César Monteiro, do meu pai.

A falta que me fazem!

sábado, 22 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Relâmpago

Nº 11
Número dedicado a Carlos de Oliveira
Colaborações:
José Ricardo Nunes, Manuel Gusmão, Pedro Eiras, Rosa Maria Martelo, Armando Silva carvalho, Augusto Abelaira, Eduarda Dionísio, Eduardo Prado Coelho, Fernando Lopes, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, José Manuel Mendes, Margarida Gil, Nuno Júdice, Urbano Tavares Rodrigues
Capa: Nuno Marques Mendes
Assírio Alvim, Lisboa, Outubro de 2002

De súbito, o Carlos de Oliveira pediu-me:
- Você por acaso tem aí um lápis?
Aquele “por acaso” impressionou-me, era indicativo de que, para ele, só por acidente um escritor usaria lápis (então eu ainda não publicara nenhum livro). E fui perguntando:
- Você esqueceu-se?
Para meu espanto, revelou-me que nunca, por nunca ser, trazia um lápis (ou caneta) na algibeira. O seu lápis era a memória, construía as poesias “na cabeça”. Alinhava e desalinhava as palavras na memória durante o dia, durante as horas do dia, e quando chegava a casa, era somente escrevê-las. Somente? Escrevê-las, reescrevê-las, quem conhece o Carlos sabe como é.
Então, com o lápis, para depois a Ângela as passar à máquina. Quantas vezes?

(Do texto de Augusto Abelaira)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

DANÇAR FORA DA DANÇA


Nunca dancei. Vi os outros dançarem, em terraços voltados para o mar, no chão de areia de África ou do Brasil, em clandestinos infernos de bares de marinheiros ou em inflamadas discotecas de praia turísticas, vi-os e julguei-os felizes, esquecidos e voláteis, perdidos e enovelados numa bola de fogo, mesmo se às vezes os pares se rompiam e ela vinha sentar-se a chorar, e então eu pensava que ainda havia palavras que podiam funcionar como carícias, que eu sabia dizê-las, palavras redondas, encostadas à face magoada e triste. Também dancei sem que os outros soubessem que eu dançava, mas dancei fora da dança, porque dançava para mostrar que também dançava, e lembrava-me disso em cada passo, e nunca esquecia que era o meu próprio corpo que dançava, e nunca soube dançar sobre o esquecimento do corpo, nunca ninguém dançou sobre o meu corpo como se fosse a areia da praia ou um terraço voltado para o mar, nunca ninguém que eu sentisse os dois esquecidos de mim.
Pouco a pouco, aprendi a olhar a arte da dança, e passei noites inteiras no deslumbramento de os ver, sem palavras úteis que me explicassem o que ali se passava à minha frente. Era apenas ficar sentado com os olhos colados ao vidro de um mundo outro em que os corpos se multiplicavam como estrelas no momento preciso em que ainda não se tinham tocado, mas já começavam a precipitar-se uns para dentro dos outros. Eles dançavam, esplêndidos, gloriosos, e eu ao vê-los sei que nunca dancei.


Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume II

Legenda: pintura de Di Cavalcanti

domingo, 24 de janeiro de 2016

UMA CONCHA BURGUESA E ARISTOCRATIZANTE


Parece que é sempre assim, se atendermos ao ar enlevado com que todos olham o céu e proclamam com orgulho: “É isto a Bretanha!” Será. Um tempo intransigentemente brumoso, com a areia ensombrada pela paisagem ininterrupta das nuvens, e as pessoas atravessando invernosamente a praia, embrulhadas em camisolões de malha grossa, “kispos”, “anoraks” e “parkas”, todo um reportório de protecções para o frio cortante e a agressão das marés.
Recordo-me – mas o contexto é radicalmente diferente –dos verões passados em São Martinho do Porto, “um microclima”, como dizia o meu pai, havia sol em todo o lado, e mal nos aproximávamos das Caldas da Rainha víamos uma concentração de nuvens para os lados do Atlântico, e a alternativa era simples, ou as nuvens ficavam todo o dia, ou havia uma ventania que as varria e tornava a praia insuportável. Acordávamos e corríamos a encostar a atesta às janelas, na melancolia de uma chuva miudinha, mas sempre na esperança de que isto vai levantar, e como se sabe ao meio-dia ou carrega ou alivia. São Martinho: poucos lugares portugueses tiveram para mim este peso mágico, dunas de infância em Salir, merendas na praia, castelos de areia, o Catitinha, o homem dos barquilhos, o domingo das regatas, o bilhar à noite, a roleta, as bicicletas da rua dos cafés, o jogo do prego, as excursões colectivas ao cinema para os lugares da frente, os mais baratos, onde não estavam os pais, as idas ao Facho, a descida à Praia da Adraga, o farol e a lenda do navio encalhado, as sestas, a descoberta do amor, os amuos de fim de tarde, os passeios de barco, as leituras no pinhal, a Maria Eduarda, o Artur e os seus estudos de Direito, as discussões políticas, o ir comprar os jornais, os confrontos sarcásticos entre o Benfica e o Sporting, o efeito do 25 de Abril num lugar profundamente reaccionário, os insultos oblíquos, umas caçarolas com bifes e batata fritas que se foram reduzindo e se passaram a chamar “crises” num acto de resistência dos condes e marqueses à política do regime democrático, as conversas e loucuras do Luso Soares, o grupo, o bando, a utopia, a areia nos olhos, a felicidade, o fim do Verão. Mas São Martinho era uma concha burguesa e aristocratizante, um ninho familiar, amável, confortável e doméstico, enquanto Saint-Malo tem uma forma desabrida de nos atrair, é como se passássemos de uma aventura dos cinco para um romance do Sandokan, o tigre da Malásia, e saímos da baía, e afrontamos as ondas, e caminhamos para o mar largo, e deixamos a costa a perder de vista, e sentimo-nos definitivamente abandonados, expostos à inclemência dos céus, para sempre adultos, guiados por estrelas vacilantes, sem bússola nem mapa.

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi”, 2º Volume

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

SOLITUDE


A canção que Eduardo Prado Coelho ouvia enquanto escrevia.



OLHAR AS CAPAS


Tudo O Que Não Escrevi
Diário II (1992)

Eduardo Prado Coelho
Capa: João Machado
Ilustração da sobrecapa: David de Almeida
Colecção Finisterra
Edições Asa, Porto, Abril de 1994

A eternidade não me interessa, costumava dizer, deve ser um enorme aborrecimento. O que eu desejo é uma outra imagem do tempo, um tempo que se torne elástico, extensível, pastosos mas transparente, um tempo-chiclets, um tempo como a massas do pão que se modela com os dedos. Os momentos de verdadeira felicidade são exactamente como este: avanço em direcção ao mar, e de súbito é tudo mar dentro de mim. Henri Michaux, esse viajante sem viagens, ensinou-me um dia: «Qui connaît une mer connaît la mer.» Talvez o fascínio do jazz resulte de uma relação com o tempo deste tipo: uma tela que se alarga tanto à volta da minha cabeça que se torna uma venda iluminada (ouço Solitude cantado poe Ella Fitzgerald).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

SARAMAGUEANDO


A arrumar papeis, as coisas que se guardam, algumas que, hoje, não sei rigorosa mente por que foram recortadas e guardadas, apanhei este início de Fio do Horizonte, a crónica que Eduardo Prado Coelho manteve na última página do Público.

A crónica é de 10 de Novembro de 2005:

São tantos os autores de romances que existem por esse mundo fora que ou a gente escolhe uma dúzia a quem se liga fielmente, ou então perde-se numa espécie de voragem. Aqueles que escolhemos, ou que de certo modo nos escolhem, passam a ser companheiros muito próximos, a quem nos liga um pacto de amizade: gostamos de os defender, independentemente dos altos e baixos de uma carreira.

Para mim, José Saramago está naquela dúzia de que falava o Eduardo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Tudo o Que Não Escrevi
Diário I (1991-1992)

Eduardo Prado Coelho
Capa: João Machado
Desenho da sobrecapa: David de Almeida
Colecção Finisterra
Eduções ASA, Porto, Abril de 1993

A minha avó paterna chamava-se Adelina. Não era a mãe do meu pai, Palmira, que morrera quando o filho tinha dois anos apenas, mas a tia, com quem o meu avô, prudente e institucional, decidira voltar a casar. O meu pai manteve sempre uma extrema nostalgia pela mãe que mal chegara a conhecer. Até porque a outra, a avó que eu conheci, era a imagem oposta: personagem apagada, discreta, submissa, dedicada, modelo da mulher que vive na vida do seu marido e que assume como uma missão sagrada substituir a irmã em falta.
O meu avô lia-lhe tudo quanto escrevia. E ela ouvia-o com interminável paciência, sem perceber quase nada (não tinha suficiente cultura para isso). Contudo, adorava que ele lesse – forma generosa de o ajudar a ouvir-se a si próprio. Sempre tive uma ternura sem limites por este tipo de pessoas. Por isso mesmo chorei com a Shirley Mac Lane a ouvir as novelas escritas por Frank Sinatra no filme de Minelli chamado Some came running. E fiquei imensamente cúmplice do Manuel Gusmão quando ele me disse um dia que chorava sempre com essas imagens.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS



Obra Poética

David Mourão-Ferreira
Introdução de Eduardo Prado Coelho
Capa: escultura em mármore de Cascais de Francisco Simões
Editorial Presença, Lisboa, Julho de 1996

Soneto Amargo de Convívio Humano

A pouco se reduz esta aventura:
rio  sombrio de palavras feito,
onde cada garganta é um parapeito
sobre o líquido engano que murmura...

 De pedra, de silêncio, e hostilidade,
somos estátuas verdes mas esquivas.
Odiar? Amar? - Apenas tentativas
falhadas nas esquinas da saudade.

E já nenhuma esp'rança nos consegue
manter o morto corpo desatento:
somente partilhamos o tormento
a que vai cada um de nós entregue.

Que no entanto o rio nos iluda,

com sua eterna melopeia aguda.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

CÉSAR, CRÍTICO DE CINEMA



A vez primeira que li o nome de João César Monteiro foi no tempo em que começou a fazer crítica de cinema no Diário de Lisboa.

Por esses tempos, a crítica de cinema era uma encomenda das distribuidoras.

Os jornais, a troco de publicidade, faziam o frete e os filmes eram sempre para ver.

Anos 70, no Diário de Lisboa entenderam que as coisas não poderiam continuar assim.

 Os leitores mereciam uma crítica de cinema digna desse nome.

É assim que aparecem Lauro António, Eduardo Prado Coelho, João César Monteiro, Vitor Silva Tavares.

Foi uma pedrada no charco.

Quase de imediato os distribuidores intimaram o jornal.

Ou voltavam aos velhos caminhos ou retiravam a publicidade.

O jornal não cedeu à chantagem.

Como escreveu João Bénard da Costa nas suas brilhantes crónicas, Eu e a Crítica, guardadas em Os Filmes da Minha Vida:

E aprender a gostar é tudo quanto pedi e peço aos críticos de quem gosto.

Hoje, são tristes os tempos da crítica que lemos em jornais e semanários.

João César Monteiro, durante a rodagem de Branca de Neve, deu uma entrevista a Diogo Lopes e aproveitou para dizer:

Os críticos não percebem os filmes que vão ver.

Por que raio terão inventado essa coisa completamente imbecil de marcar os filmes com estrelinhas?

Saberão eles o que os leitores esperam de uma crítica de cinema?

Estou em crer que não, e o João César acertou na mouche.

É necessário que os críticos entendam os filmes. Se não os entendem, não podem dá-los a entender.
Baudelaire dizia que a crítica para ser justa, isto é, para ter a sua razão de ser, a crítica deve ser parcial, apaixonada, política, ou seja, forte de um ponto de vista exclusivo, mas do ponto de vista que mais horizontes abram.

Lilian Hellman dizia que pior que um mau crítico, só um crítico que julga sê-lo.

De algumas das críticas do João César Monteiro, no Diário de Lisboa, guardei recorte.

Não tenho todas as críticas do João porque – tempos difíceis, - o dinheiro curto, não chegava para tudo…

São cinco.

Vão aparecer, por aqui, nos dias que se seguem.

Divirtam-se.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Bruxelas, 20.11.1991
Melancólicas recordações de um jantar numa noite demasiado belga de Outono: quando se convive com «eurocratas» (digamos: funcionários de organizações internacionais), teme-se muito pelo destino da Europa,
Espero que o futuro me não dê razão…

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Vol. I

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poemas Quotidianos

António Reis
Prefácio: Eduardo Pardo Coelho
Colecção poetas de Hoje nº 25
Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1967

Não esqueço os mortos

Não esqueço os heróis

Não esqueço
o luto
das famílias

Todos silenciosos

Denuncio
pùblicamente
a nossa cobardia

e quem mente

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ESSE MOVIMENTO DE ANCAS


Juliette Greco evoca Miles Davis, amante. Quando, anos depois, o reencontrou em Paris. Ela, alguns passos na sala, de costas, um pouco curvada, desatenta: procurar um isqueiro, encher um copo com álcool, abrir uma janela porque faz calor. E ele ri, feliz. Juliette Greco pergunta: "Estás a rir, porquê?” E Miles Davis responde: “Porque reconheceria esse movimento de ancas em qualquer parte do mundo.

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume I, Edições Asa, Porto, Abril de 1993




quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Às vezes lembro-me melhor das salas onde vi os filmes do que dos próprios filmes – memória entranhada aos lugares e desatenta a datas ou números, memória mais geográfica do que histórica. Com Passion, de Jean-Luc Godard, a referência é o Quarteto – ou será que me enganei? E o mais vivo da recordação passa por dois sentimentos misturados: o de uma espécie de fúria, de caos devastador, e depois pelas fretas do filme, a descida de imagens sumptuosas que trazem a paz e a serenidade

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume II, Edições Asa, Porto, Abril de 1994

sábado, 22 de março de 2014

POSTAIS SEM SELO


Houve um tempo em que festejavam o dia dos meus anos, hoje sou eu que os festejo, se assim se pode dizer, é como as carícias sobre o corpo, a mão de um outro vem sempre de uma distância definitivamente perdida no eco das nossas duas mãos, e é uma experiência diferente que nos prende a uma estranheza, e não uma festa triste que se arredonda à nossa volta.


Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi  2º volume, Edições Asa, Porto, Abril de 1994

domingo, 25 de agosto de 2013

O EDUARDO


Quando neste dia, no ano de 2007, Eduardo Prado Coelho morreu, tinha 63 anos.

Em miúdo preenchia caderdinhos com frases que achava fundamentais para a vida.

No decorrer dessa vida, diziam: Citas muito.

O Eduardo, no seu Tudo o Que Não Escrevi, explicou:

Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata do uso de argumentos de autoridade, nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro»
.
Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas - isto é, os nomes próprios - para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto ( a citação faz um desvio) é criara em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que , que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide - efeito de descontextualização.

Resta o argumento mais pessoal, quase íntimo: sempre vivi entre palavras, através dos textos que escrevi sobre os textos dos outros, e as citações são o material que me habituei a trabalhar. Poderei chamar a isto efeito de montagem?

Pequeno exercício quotidiano: ler freses desgarradas, soltá-las arbitrariamente do texto. Isto é, abrir um livros ao acaso, num sinal vermelho, antes de o filme começar, durante os anúncios na televisão, e escolher à toa algumas palavras. Sempre pensei que, numa dessas frases, chegaria a verdade, o encontro decisivo. Uns jogam na lotaria, outros nas palavras.

sábado, 10 de agosto de 2013

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Eduardo Prado Coelho, no 2º volume de Tudo O Que Não Escrevi tem esta curiosa observação:

Às vezes lembro-me melhor das salas onde vi os filmes do que dos próprios filmes.

Antes de metade da minha memória adormecer, soube sempre dos filmes e das salas onde vi esses filmes.

Hoje, na matinée caseira calhou Sublime Tentação.

Vi-o no S. Luiz, com o meu pai, finais dos anos 60
.
Quando deixei a casa dos meus pais, ficaram na despensa caixas de sapatos e camisas que continham bilhetes e programas de cinema, teatro, futebol, coisas várias que se vão guardando sabe-se lá porquê.

A minha mãe, que tinha a mania das limpezas e das arrumações, passados uns anos, entendeu que aquilo era lixo. Não me perguntou nada e despejou tudo no caixote
.
Quando um dia perguntei pelas caixas passei a saber do destino que tinham levado.

Fiquei a olhar para a minha mãe.

O que é eu havia de dizer?

Se nada disso tivesse acontecido, poderia, agora, dizer-vos a data em que vi Sublime Tentação no S. Luiz, com o meu pai.

Não sou picuinhas, mas gosto de pormenores, detalhes que completam situações.

Os Birdwells, uma próspera família Quaker de Indiana, tentam permanecer fora da Guerra Civil que está a ser travada no Sul.
Durante o encontro, o Major Harvey, do exército da União, chega ao local para exortar os homens Quakers a pegarem em armas contra o Sul. Embora alguns, incluindo Jess e Josh, admitam dúvidas em relação às suas crenças pacifistas, o major não consegue nenhuma adesão, principalmente depois que Eliza, uma das Ministras, faz uma vigorosa defesa dos princípios Quakers.


Como é que uma canção pode ficar para sempre guardada dentro de nós?

Acontece com a canção tema do filme, da autoria de Dimitri Tiomkin e Paul Francis Webster,cantada por Pat Boone.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

UMA CASA JUNTO AO MAR


A minha verdadeira ambição era ter uma casa junto ao mar, com livros, discos, gatos e cães, e alguns rostos amigos e amados, e a visita regular da Alexandra e do Vasco, ir dois dias por semana a Lisboa, ver cinema, espectáculos, comprar jornais e revistas, ler e escrever horas a fio, ver a chuva pela janela, ir todos os anos visitar Veneza, passar por Paris, voltar a ler e a escrever, adormecer tranquilo.

Eduardo Prado Coelho numa entrevista ao JL s/d

terça-feira, 24 de abril de 2012

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA


Esta foi a escolha, para o dia 24 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

Na crítica de cinema, Eduardo Prado Coelho, um dos colaboradores do Cinéfilo, aborda Ritual, filme de Ingmar Bergman.

Começa assim:

Qualquer comunicação travada entre duas pessoas parece depender sempre de um contrato implícito, que estipula a fronteira, que separa o que se pode dizer do que não se pode dizer. A comunicação autêntica corresponde ao alargar progressivo destas fronteiras. Assegura-se assim que num exame de literatura o professor me pode interrogar sobre os meus sentimentos perante um soneto de Camões, mas não pode, segundo o contrato que nos une, inquirir acerca da minha da minha vida. E assim por diante. Pois é esta mínima lei, que parece regular as relações entre as pessoas , que Bergman transgride espectacularmente no seu filme Ritual – e daí a violência.



Para terminar a crítica, Prado Coelho escreveu:

Rito infindável (que apenas uma decisão formal vem fechar) – ou (como se diz num poema de Luiza Neto Jorge) “rio que só tinha de humano o ir/secando”.

O filme estava em exibição no Estúdio do Cinema Império.

No Monumental podia ver-se Harry, o Detective em Acção de Ted Post com Clint Eastwood.

A violência transformada no mais desprezível dos espectáculos.

No Mundial exibia-se O Nosso Amor de Ontem de Sidney Pollack, Com Robert Redford e Barbra Streisand

Da história de amor filmada no mais puro estilocpublicitário ao revivalismo da América  dos anos 40, passando pela “mensagem” social e pelas vedetas sempre em grande plano, nada falta nesta superprodução medíocre, fabricada para o êxito fácil fácil e imediato. De lamentar, sobretudo, o facto de se tratar de um filme realizado por Sydnay Pollack, um dos cineastas americanos mais interessantes da última década, agora, ao que parece, promovido a funcionário conformado.

O Politeama continuava a exibir Eusébio, a Pantera Negra de Juan de Orduña

A imagem convencional do mito ou como aproveitar o futebol para lucro fácil.

O Cine Clube Universitário fazia exibir no cinema Paris, Ladrões de Bicicletas de Vittorio de Sica

No Porto, o Cinéfilo aconselhava, no Estúdio, a ver  A Máscara de Ingmar Bergman, com Bibi Anderson e Liv Ullmann.

Não tarde a ir vê-lo. Aconselhamo-lo mesmo a vê-lo mais do que uma vez, que uma obra como Persona, não encontrará muitas vezes.

O Cine-Clube do Porto exibia, no Batalha, O Mundo a seus Pés de Orson Welles.