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quarta-feira, 20 de maio de 2020

POSTAIS SEM SELO


Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um.

Eugénio de Andrade

Legenda: pormenor de uma pintura de Edward Hopper

segunda-feira, 30 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


No meio de todo este turbilhão, começo a sentir dificuldades em separar as águas.

Estou mais que chateado…

O José Cardoso Pires, quando estava chateado, dizia: «a culpa é dos padres!»

A música de hoje é um delicioso divertimento tirado de um disco que é uma compilação de trabalhos de uma escola criada por por Carl Orff e Gunnild Keetman.

Um tal de Gin-tonic, conta a história desse disco num texto publicado, há uns anos, no blogue IÉ-IÉ de Luís Pinheiro.

A historinha pode ser lida, já a seguir em RELACIONADOS.


A imagem no topo do texto é uma pintura de Edward Hopper.



1.

A gentalha de direita continua a bater no governo.

Vejo agora mais televisão do que antes da quarentena.

Há canais que não frequento e a SIC vou já largar da mão.

Tem por lá um rapaz, que dá pelo nome Bernardo Ferrão que alegremente disse – não ouvi! - «Ninguém vai escapar ao contágio».

O governo tem os seus erros – quem os não teria? –, as suas limitações, mas confiemos que possa levar  a nau a porto calmo.

Entre a tal gentalha da direita, todos se acham que podem ser primeiros-ministros, mas todos fogem de ser administradores do condomínio lá do prédio.

2.

Há muitos anos, nas paredes da Tasquinha do Aires, na Trafaria, por entre capas de discos, coisas diversas, podia ler-se num azulejo:

«Coma e beba porque vai passar muito tempo morto.»

3.

Um anónimo deixou este comentário no blogue de Maria do Rosário Pedreira:

«Eu estou de quarentena há muitos anos, encerrado em casa há muito tempo - excepto aos sábados, em que costumava dar uma volta -, pelo que não estranho muito. O tempo nunca me chega para os discos que tenho para ouvir, os livros que tenho para ler... 24 horas é poucochinho. E ainda preciso de dormir, imaginem a perda de tempo! Sempre me aborreci mais na rua do que em casa. Somos todos diferentes.
Para dar um toque intelectual ao meu comentário cito T. S. Eliot: "a espécie humana não pode suportar muita realidade".»

4.

Uma turba de gente, durante o fim-de-semana, foi barrada na Ponte 25 de Abril.
Muitos, apenas queriam ir à praia em pleno estado de emergência.

5.

A CGTP denunciou 1.600 despedimentos em cantinas escolares e em empresas portuguesas do setor do calçado, têxtil e indústria automóvel, alertando para os abusos laborais que decorrem da crise económica provocada pelo surto do novo coronavírus.


6.

Os números negros:

Itália

11.591 mortes

 Espanha

7.340 mortes

China

3.186 mortes

França

3.024  mortes

Irão

2.757 mortes

Grã-Bretanha

1.408 mortes

Portugal

140 mortes

No Mundo

37.140 mortes

7.

José Saramago escreveu um dia que o universo não tem notícia da nossa existência.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Quando somos novos, pensamos que os velhos se queixam de os tempos já não serem o que eram porque isso lhes torna mais fácil não ter medo de morrer. Quando somos velhos, tornamo-nos impacientes com o modo como os jovens aplaudem o progresso mais insignificante mas não dão importância à barbárie do mundo. Não vou dizer que as coisas estão piores, o que digo é que, se estivessem, os jovens não dariam por isso. Os velhos tempos eram bons porque nós éramos jovens e ignorávamos quão ignorantes os jovens podem ser.

Julian Barnes em O Papagaio de Flaubert

Legenda: pintura de Edwarad Hopper

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


A minha casa é onde estás.

José Agostinho Baptista

Legenda: pintura de Edward Hopper.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A CASA PERTO DO MAR


As casas que tive tiraram-mas. Calhou
que fossem anos nefastos guerras desolações expatriamentos;
por vezes o caçador encontra as aves de passagem
por vezes não as encontra; a caça
era boa no meu tempo, os chumbos apanharam muitos;
os outros vagueiam ou enlouquecem nos refúgios.

Não me fales do rouxinol nem da cotovia
nem da pequena arvéola
que escreve algarismos na luz com a sua cauda;
não sei muito de casas
sei que têm a sua tribo, mais nada.
novas ao princípio, como as crianças de colo
que brincam nos jardins como as franjas do sol,
bordam coloridas persianas e brilhantes
portas sobre o dia;
quando o arquitecto acaba mudam,
enrugam ou sorriem ou mesmo teimam
com os que ficaram com os que partiram
com outros que voltariam se pudessem
os que se perderam, agora que o mundo
se tornou num imenso hotel.

Não sei muito de casas,
lembro-me da sua alegria e da sua tristeza
às vezes quando paro;
                                            mesmo
às vezes, perto do mar, em câmaras nuas
com uma cama de ferro sem nada meu
olhando a aranha nocturna cismo
que alguém se prepara para vir, que o enfeitam
com roupa branca e negra com jóias multicores
e em seu redor falam baixo damas veneráveis
cabelos cinzentos e rendado escuro,
que se prepara para vir e despedir-se de mim;
ou, uma mulher com pestanas em hélice talhe profundo
voltando de portos meridionais,
Esmirna Rodes Siracusa Alexandria,
de cidades fechadas com as quentes persianas,
com perfumes de frutos de ouro e com ervas mágicas,
que sobe os degraus sem ver
os que adormeceram debaixo das escadas.

Sabes as casas teimam facilmente, quando as despes.

Yorgos Seferis, tradução de Joaquim Manuel Magalhães.
Poema encontrado em Um Mar de Filmes, Cinemateca Portuguesa , 1998.
Legenda: pintura de Edward Hopper

sexta-feira, 15 de março de 2019

BARCO


Vou hoje começar a recordar-te
embora a luz entrando sob o arco
escasso da realidade possa dar-te
a ilusão ainda de que o barco

simplesmente balouça mas não parte
Já partiu afinal do porto parco
onde vieste perceber a arte
de nada ser; no mesmo barco marco
lugar como num ventre: igual escala
é a perda da vida que ganhá-la

Gastão Cruz

Legenda: pintura de Edward Hopper

sexta-feira, 25 de maio de 2018

EU, ROSIE, EU SE FALASSE


Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira em Poemas

Legenda: pintura de Edward Hopper

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer.

Carson McCullers

Legenda: Pintura de Edward Hopper

domingo, 22 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Paga-me um café e conto-te
a minha vida


Legenda: pintura de Edward Hopper

terça-feira, 21 de outubro de 2014

QUOTIDIANOS


Fui, com o desejo de aprender como é a América. E não estava certo de estar aprendendo fosse o que fosse. Descobri que estava a falar em voz alta para o Charley. Ele gosta da ideia, mas o processo faz-lhe sono.
- Aqui só para nós, vamos tentar o que os meus rapazes chamariam fazer as generalidades dançar o jazz. Vamos pôr-lhe títulos e subtítulos. Consideremos a comida, tal como a encontrámos. É mais que possível que nas cidades que atravessámos acossados pelo tráfego haja bons e famosos restaurantes com ementas deliciosas. Mas nos sítios onde se come ao longo das estradas a comida foi asseada, sem sabor, sem cor e de uma completa uniformidade. É quase como se os fregueses não tivessem interesse no que comem, conquanto que não tenha características  que os atrapalhem. Isso é verdade quanto a tudo excepto quanto aos pequenos almoços, que são uniformemente maravilhosos se comermos só bacon com ovos e batatas fritas. À beira das estradas nunca tive um jantar realmente bom nem um pequeno almoço realmente mau. O bacon ou as salsichas eram bons e acondicionados na fábrica, os ovos frescos ou conservados frescos pela refrigeração, e a refrigeração era universal.

John Steineck em Viagens com o Charley

Legenda: pintura de Edward Hopper

sábado, 16 de agosto de 2014

À CONVERSA...


Clara Ferreira Alves, à conversa com um não nomeado grande encenador de teatro:

O meu problema não é o subsídio, que é ínfimo, é o Ministério da Cultura; metade daquela gente não faz nada e combate a outra metade. O dinheiro é gasto a alimentar a máquina.

Legenda: pintura de Edward Hopper

sábado, 5 de julho de 2014

POSTAIS SEM SELO


Os fins de tarde eram lentos, arrastados, ensanguentados por pores de sol magníficos. Seguiam-se noites quentes e lânguidas, ritmadas pelo soluço verde do farol do outro lado do golfo. Eu ficava à janela.

Antonio Tabucchi em O Pequeno Gatsby, conto incluído em O Jogo do Reverso, Quetzal Editores, Lisboa Abril de 1999.

Legenda:  pintura de Edward Hopper.

domingo, 12 de maio de 2013

LER SEM ROUPA


Há um quadro de Edward Hopper de que gosto muito (para falar verdade, gosto de quase todos, mas este interessa-se particularmente). Representa uma rapariga que lê em trajes menores sentada na cama feita de lavado de um quarto pequeno, no qual há ainda bagagem por abrir, um sapato derrubado e um chapéu pousado à pressa sobre a cómoda. Chama-se Hotel Room e sempre vi nele a urgência de, chegando a um lugar estranho, alguém terminar um capítulo de um livro que começou no avião (ou reler uma das epígrafes para a usar numa conferência que fará nessa mesma tarde) antes mesmo de desfazer as malas. A água estará a correr para a banheira nesse momento, preparando um banho de sais relaxante. Provavelmente, não é nada disso, mas a pintura de Hopper leva-me frequentemente a devaneios ficcionais, até porque a realidade anda bastante desagradável e há, aliás, coisas tontas a acontecer todos os dias. Uma delas (para não falar só do nosso país) tem que ver com a Amazon que, na altura em que se iniciou, era apenas uma livraria, mas, de repente, passou a loja virtual de basicamente tudo o que não seja perecível (e a ver vamos). Um dia destes, porque precisava de uma informação sobre uma edição específica de um livro, fui ao siteamericano e só me saltavam à vista vestidos e acessórios, não aparecendo um único livro na página de abertura. Talvez se pense que quem compra livros compra também roupa (e assinada por estilistas norte-americanos algo reputados) e que isso levará alguns leitores a, em vez de comprarem um romance, vestirem-seon line. Porém, no quadro de Hopper, está especialmente concentrada na leitura uma mulher quase nua. Para quê a roupa?

Maria do Rosário Pedreira em Horas Extraordinárias.

Legenda: Hotel Room de Edward Hopper.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ELOGIO DA SOLIDÃO


Uma casa para estrear e descobrir
em quantas salas se acomoda a solidão.
Cozinhou o jantar e come atentamente
como todos quantos dividem a comida em silêncio:
o náufrago, o mendigo, o oleiro na lancheira.

Coze o seu barro, um jeito de partir o pão
que deve ao tempo uma lentidão coalhada.
O ruído do vizinho não o incomoda.
Nenhuma fala ou resíduo humano leveda
uma página ao acaso. Pode decidir beber mais vinho
ou inaugurar a leitura de outro livro.
Mesmo sair para beber café e mastigar o frio.

No pasto, a chuva rega a placidez do boi;
abana a cabeça, fumegam as narinas,
desenha-se num fundo de pinhal que o vento
castiga; na caruma molhada pressente-se
o rumor de um cão absorto na ilusão
do que procura. Coisas mínimas, irrisórias,
vão salvar o resto da noite de presumir felicidade.

Lá fora a cidade está cercada na convicção
das suas vidas perdoáveis, mercando
um alimento longamente dispensável
- a respiração em vitualhas e sarcasmos,
a pobreza irresignável e irresolúvel,
o cansaço de não estar só e não querer estar.

José Alberto de Oliveira


Legenda: pintura de Edward Hopper

quarta-feira, 11 de julho de 2012

ESPERO


Espero
sentada
tranquilamente
em mim

Espero
como se estivesse num café
cheio de gente
Y. K. Centeno

Legenda: pintura Edward Hopper

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A EMPREGADA PORTUGUESA DO RESTAURANTE ITALIANO JUNTO A RUSSELL SQUARE

Já não espero dormir como dormia, vítima de sobressaltos,
ficar à chuva dois minutos que seja, certificando-me
de como fui ignorado ainda que a chuva seja
um dos poucos prazeres sem resíduo, como acordar de noite
e mobilar a insónia com ovos mexidos,
café, cigarros, poemas. Aconteceu há muitos
anos, estava na fila da com o sexo pendente
de vergonha e frio, o médico perguntou: “defeitos físicos?”
e eu só confessei ter miopia e astigmatismo. Agora
não tenho nenhuma relutância em deitar-me em camas estranhas,
mas prefiro dormir sozinho.

Ah! Verão tumultuoso, corpos em risco de desabar,
o trânsito frenético de comboios, miragens
- alguém lá dentro que evita olhar,
levanta-se do assento e quer saber quanto lhe falta,
“por favor dizia-me que horas são” (novo silêncio)
- Deus, relojoeiro magnífico!

- como se pode viver de boa mente numa cidade estranha,
a imprudência de estar à espera que alguém nos ouça,
que connosco lamente quartos húmidos e manhãs frias,
mas sem ter pena? Nunca será de mais louvar
os solavancos do autocarro, já que perdemos rumo e destino.

Pois estava previsto ser um acaso
e a geografia de  Abril claudica nas noites mais intensas,
um perfume que se liberta, uma granada de ternura perdida
na carruagem do Metro. Pode chover granizo, acordar
o cheiro tumultuosos da terra e depois de tropeçar na lista
dos pedidos, passar duas semanas em coma,
com janelas estreitas, folgas ao domingo, nostalgia dessa morrinha
que cai em Famalicão no Inverno, que as videiras bebem
e aduba o coração, um abandono que consola
ao dizer “gosto muito de ti”, no momento em que é certo
que já não voltaria.

José Alberto Oliveira em 366 Poemas Que Falam de Amor, Antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores, Lisboa 2004.

Legenda: pintura de Edward Hopper.

terça-feira, 8 de maio de 2012

POSTAIS SEM SELO


Tenho por princípios nunca fechar portas. Mas como mantê-las abertas o tempo todo se em certos dias o vento quer derrubar tudo?...

Adriana Calcanhotto em Sudoeste

Legenda: pintura de Edward Hopper.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

POSTAIS SEM SELO


Naqueles anos, todos eles se tinham movido sem saberem muito bem se acordariam na manhã seguinte. Viviam numa febre constante, numa vertigem, num excesso permanente. Era preciso viver depressa e morrer depressa, de preferência ainda jovem. Nenhum deles alimentava projectos ou ambicionava fosse o que fosse. Era-lhes indiferente estar vivo ou morto. Mantinham-se nesse lugar mal iluminado e sem saída: a vida.

Al Berto em Lunário, Assírio & Alvim, Dezembro 1999.

Legenda: quadro de Edward Hopper

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A CASA ONDE ÀS VEZES REGRESSO


A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça

Legenda: pintura Edward Hopper

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

OUTRAS CASAS OS HERDARAM


Sim, as coisas são o veículo de conhecimento, à medida que se dispõem experimentam o nosso pensamento e submetem à prova a nossa maneira de agir; disponho-as de certa maneira e já outras percepções surgem, mudo-as de lugar, estabeleço entre elas outras recíprocas relações, e já novos seres estão presentes e começam a exprimir-se (a mim) para que eu não os abandone, ou descreva, os mantenha, os reforce na sua realidade nascente; quando tudo por mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdaram, chamarão alguém a seu destino.

Maria Gabriela Llansol, em Finita - Diário 2, Edições Rolim, Lisboa 1987

Legenda: pintura de Edward Hopper