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sexta-feira, 15 de março de 2019

BARCO


Vou hoje começar a recordar-te
embora a luz entrando sob o arco
escasso da realidade possa dar-te
a ilusão ainda de que o barco

simplesmente balouça mas não parte
Já partiu afinal do porto parco
onde vieste perceber a arte
de nada ser; no mesmo barco marco
lugar como num ventre: igual escala
é a perda da vida que ganhá-la

Gastão Cruz

Legenda: pintura de Edward Hopper

sexta-feira, 25 de maio de 2018

EU, ROSIE, EU SE FALASSE


Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira em Poemas

Legenda: pintura de Edward Hopper

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer.

Carson McCullers

Legenda: Pintura de Edward Hopper

domingo, 22 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Paga-me um café e conto-te
a minha vida


Legenda: pintura de Edward Hopper

terça-feira, 21 de outubro de 2014

QUOTIDIANOS


Fui, com o desejo de aprender como é a América. E não estava certo de estar aprendendo fosse o que fosse. Descobri que estava a falar em voz alta para o Charley. Ele gosta da ideia, mas o processo faz-lhe sono.
- Aqui só para nós, vamos tentar o que os meus rapazes chamariam fazer as generalidades dançar o jazz. Vamos pôr-lhe títulos e subtítulos. Consideremos a comida, tal como a encontrámos. É mais que possível que nas cidades que atravessámos acossados pelo tráfego haja bons e famosos restaurantes com ementas deliciosas. Mas nos sítios onde se come ao longo das estradas a comida foi asseada, sem sabor, sem cor e de uma completa uniformidade. É quase como se os fregueses não tivessem interesse no que comem, conquanto que não tenha características  que os atrapalhem. Isso é verdade quanto a tudo excepto quanto aos pequenos almoços, que são uniformemente maravilhosos se comermos só bacon com ovos e batatas fritas. À beira das estradas nunca tive um jantar realmente bom nem um pequeno almoço realmente mau. O bacon ou as salsichas eram bons e acondicionados na fábrica, os ovos frescos ou conservados frescos pela refrigeração, e a refrigeração era universal.

John Steineck em Viagens com o Charley

Legenda: pintura de Edward Hopper

sábado, 16 de agosto de 2014

À CONVERSA...


Clara Ferreira Alves, à conversa com um não nomeado grande encenador de teatro:

O meu problema não é o subsídio, que é ínfimo, é o Ministério da Cultura; metade daquela gente não faz nada e combate a outra metade. O dinheiro é gasto a alimentar a máquina.

Legenda: pintura de Edward Hopper

sábado, 5 de julho de 2014

POSTAIS SEM SELO


Os fins de tarde eram lentos, arrastados, ensanguentados por pores de sol magníficos. Seguiam-se noites quentes e lânguidas, ritmadas pelo soluço verde do farol do outro lado do golfo. Eu ficava à janela.

Antonio Tabucchi em O Pequeno Gatsby, conto incluído em O Jogo do Reverso, Quetzal Editores, Lisboa Abril de 1999.

Legenda:  pintura de Edward Hopper.

domingo, 12 de maio de 2013

LER SEM ROUPA


Há um quadro de Edward Hopper de que gosto muito (para falar verdade, gosto de quase todos, mas este interessa-se particularmente). Representa uma rapariga que lê em trajes menores sentada na cama feita de lavado de um quarto pequeno, no qual há ainda bagagem por abrir, um sapato derrubado e um chapéu pousado à pressa sobre a cómoda. Chama-se Hotel Room e sempre vi nele a urgência de, chegando a um lugar estranho, alguém terminar um capítulo de um livro que começou no avião (ou reler uma das epígrafes para a usar numa conferência que fará nessa mesma tarde) antes mesmo de desfazer as malas. A água estará a correr para a banheira nesse momento, preparando um banho de sais relaxante. Provavelmente, não é nada disso, mas a pintura de Hopper leva-me frequentemente a devaneios ficcionais, até porque a realidade anda bastante desagradável e há, aliás, coisas tontas a acontecer todos os dias. Uma delas (para não falar só do nosso país) tem que ver com a Amazon que, na altura em que se iniciou, era apenas uma livraria, mas, de repente, passou a loja virtual de basicamente tudo o que não seja perecível (e a ver vamos). Um dia destes, porque precisava de uma informação sobre uma edição específica de um livro, fui ao siteamericano e só me saltavam à vista vestidos e acessórios, não aparecendo um único livro na página de abertura. Talvez se pense que quem compra livros compra também roupa (e assinada por estilistas norte-americanos algo reputados) e que isso levará alguns leitores a, em vez de comprarem um romance, vestirem-seon line. Porém, no quadro de Hopper, está especialmente concentrada na leitura uma mulher quase nua. Para quê a roupa?

Maria do Rosário Pedreira em Horas Extraordinárias.

Legenda: Hotel Room de Edward Hopper.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ELOGIO DA SOLIDÃO


Uma casa para estrear e descobrir
em quantas salas se acomoda a solidão.
Cozinhou o jantar e come atentamente
como todos quantos dividem a comida em silêncio:
o náufrago, o mendigo, o oleiro na lancheira.

Coze o seu barro, um jeito de partir o pão
que deve ao tempo uma lentidão coalhada.
O ruído do vizinho não o incomoda.
Nenhuma fala ou resíduo humano leveda
uma página ao acaso. Pode decidir beber mais vinho
ou inaugurar a leitura de outro livro.
Mesmo sair para beber café e mastigar o frio.

No pasto, a chuva rega a placidez do boi;
abana a cabeça, fumegam as narinas,
desenha-se num fundo de pinhal que o vento
castiga; na caruma molhada pressente-se
o rumor de um cão absorto na ilusão
do que procura. Coisas mínimas, irrisórias,
vão salvar o resto da noite de presumir felicidade.

Lá fora a cidade está cercada na convicção
das suas vidas perdoáveis, mercando
um alimento longamente dispensável
- a respiração em vitualhas e sarcasmos,
a pobreza irresignável e irresolúvel,
o cansaço de não estar só e não querer estar.

José Alberto de Oliveira


Legenda: pintura de Edward Hopper

quarta-feira, 11 de julho de 2012

ESPERO


Espero
sentada
tranquilamente
em mim

Espero
como se estivesse num café
cheio de gente
Y. K. Centeno

Legenda: pintura Edward Hopper

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A EMPREGADA PORTUGUESA DO RESTAURANTE ITALIANO JUNTO A RUSSELL SQUARE

Já não espero dormir como dormia, vítima de sobressaltos,
ficar à chuva dois minutos que seja, certificando-me
de como fui ignorado ainda que a chuva seja
um dos poucos prazeres sem resíduo, como acordar de noite
e mobilar a insónia com ovos mexidos,
café, cigarros, poemas. Aconteceu há muitos
anos, estava na fila da com o sexo pendente
de vergonha e frio, o médico perguntou: “defeitos físicos?”
e eu só confessei ter miopia e astigmatismo. Agora
não tenho nenhuma relutância em deitar-me em camas estranhas,
mas prefiro dormir sozinho.

Ah! Verão tumultuoso, corpos em risco de desabar,
o trânsito frenético de comboios, miragens
- alguém lá dentro que evita olhar,
levanta-se do assento e quer saber quanto lhe falta,
“por favor dizia-me que horas são” (novo silêncio)
- Deus, relojoeiro magnífico!

- como se pode viver de boa mente numa cidade estranha,
a imprudência de estar à espera que alguém nos ouça,
que connosco lamente quartos húmidos e manhãs frias,
mas sem ter pena? Nunca será de mais louvar
os solavancos do autocarro, já que perdemos rumo e destino.

Pois estava previsto ser um acaso
e a geografia de  Abril claudica nas noites mais intensas,
um perfume que se liberta, uma granada de ternura perdida
na carruagem do Metro. Pode chover granizo, acordar
o cheiro tumultuosos da terra e depois de tropeçar na lista
dos pedidos, passar duas semanas em coma,
com janelas estreitas, folgas ao domingo, nostalgia dessa morrinha
que cai em Famalicão no Inverno, que as videiras bebem
e aduba o coração, um abandono que consola
ao dizer “gosto muito de ti”, no momento em que é certo
que já não voltaria.

José Alberto Oliveira em 366 Poemas Que Falam de Amor, Antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores, Lisboa 2004.

Legenda: pintura de Edward Hopper.

terça-feira, 8 de maio de 2012

POSTAIS SEM SELO


Tenho por princípios nunca fechar portas. Mas como mantê-las abertas o tempo todo se em certos dias o vento quer derrubar tudo?...

Adriana Calcanhotto em Sudoeste

Legenda: pintura de Edward Hopper.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

POSTAIS SEM SELO


Naqueles anos, todos eles se tinham movido sem saberem muito bem se acordariam na manhã seguinte. Viviam numa febre constante, numa vertigem, num excesso permanente. Era preciso viver depressa e morrer depressa, de preferência ainda jovem. Nenhum deles alimentava projectos ou ambicionava fosse o que fosse. Era-lhes indiferente estar vivo ou morto. Mantinham-se nesse lugar mal iluminado e sem saída: a vida.

Al Berto em Lunário, Assírio & Alvim, Dezembro 1999.

Legenda: quadro de Edward Hopper

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A CASA ONDE ÀS VEZES REGRESSO


A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça

Legenda: pintura Edward Hopper

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

OUTRAS CASAS OS HERDARAM


Sim, as coisas são o veículo de conhecimento, à medida que se dispõem experimentam o nosso pensamento e submetem à prova a nossa maneira de agir; disponho-as de certa maneira e já outras percepções surgem, mudo-as de lugar, estabeleço entre elas outras recíprocas relações, e já novos seres estão presentes e começam a exprimir-se (a mim) para que eu não os abandone, ou descreva, os mantenha, os reforce na sua realidade nascente; quando tudo por mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdaram, chamarão alguém a seu destino.

Maria Gabriela Llansol, em Finita - Diário 2, Edições Rolim, Lisboa 1987

Legenda: pintura de Edward Hopper

sábado, 7 de janeiro de 2012

GRITAR LOBO


continuei a regressar ao lugar onde me habituei a gritar lobo até muito depois de teres deixado de ir em meu auxílio. o inverno foi rigoroso, as espécies do medo extintas com cobertores e alguma companhia – com uma presença recuada, sobreviveu apenas essa falta de jeito adolescente que aprendemos a dissimular por motivos profissionais, antigos uniformes militares desenhados com cores primárias, listas com números de telefone, mapas, tudo o que a memória imediata atirou um dia para o interior de pequenas caixas, à espera de catalogação, descrição, esquecimento. esta noite venho dizer-te que encontrei o santo e a senha escritos no verso de um bilhete de autocarro, mas não a tua morada. já ninguém vive nas mesmas ruas passados tantos anos e a luz amarela e suja de uma lâmpada nua balança sobre um jogo de cartas deixado a meio. nessa época , só nos rendíamos a quem não nos queria vencer. Sei que haveria uma lição retirar de tudo isto, mas prefiro acusar-te de falta de resistência num jogo que um de nós poderia ter ganho, mas ambos perdemos.

Tiago Araújo no Público, 10 de Dezembro de 2011

Legenda: pintura de Edward Hopper

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Habituei-me a calar a dor até não sentir nada. Acreditem. Nada.

Marta Cristina de Araújo em Os Meios de Transporte, Edições ASA, Porto, Março de 2004

Legenda: pintura de Edward Hopper

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Sei que amanhã ninguém entenderá nossos poemas. Que ninguém saberá estes minutos dolorosos de mascar palavras. Mas sei também que é grande este momento em que nós somos um machado. Em que somos um corpo que constrói as suas próprias mãos.

Hélia Correia, Novembro 1968

Legenda: pintura de Edward Hopper

domingo, 20 de novembro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Porque temos medo de estar sozinhos na noite, perante os cacos da vida, ou não é por isso que nos juntamos no teatro?


Legenda: pintura de Edward Hopper

domingo, 13 de novembro de 2011

AO PERDER-TE


1.
Ao perder-te a ti perdemos os dois
eu porque tu eras o que eu mais amava
e tu porque eu era quem mais te amava.
Mas de nós os dois és tu quem perde mais
porque eu poderei amar outras como te amava a ti.
Mas a ti não te hão-de amar como eu te amava

2.

Contaram-me que estavas apaixonada por outro
e então fui para o meu quarto
e escrevi um artigo contra o governo
razão pela qual estou preso


Ernesto Cardenal em Cem Poemas de Amor de Outras Línguas, Antologia  de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim

Legenda: pintura de Edward Hopper.