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sábado, 30 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

IRONIAS DO DESTINO

Guardo dos Suplementos Literários, principalmente os publicados durante a ditadura, as mais gratas recordações.

Raro era o jornal que não tinha o seu suplemento, quase todos publicados às quintas-feiras, uns mais bem trabalhados que outros, mas qualquer um com o seu ponto de interesse.

Para mim o mais interessante, sempre foi o do Diário de Lisboa, e recordo as críticas literárias do Alexandre Pinheiro Torres, do Mário Sacramento, do Álvaro Salema, do Eduardo Prado Coelho.

José Saramago, Vitor Silva Tavares, José Cardoso Pires, foram alguns dos coordenadores do Suplemento do Diário de Lisboa.

Do muito do que por esses suplementos fui lendo, fiquei a conhecer escritores, muitos dos quais nem sequer o nome ouvira.

É o caso deste artigo de Afonso Cautela, a propósito da edição, pela Ulisseia, de uma Antologia do Raul de Carvalho e publicado no Suplemento Literário do Jornal de Notícias de 3 de Março de 1966.

Depois de o ler, fiquei de imediato com a ideia de que Raul de Carvalho era um escritor que teria de conhecer.

O dinheiro era curtíssimo e eu apontava os autores e os livros num caderdinho, na expectativa de uma qualquer oportunidade para os adquirir.

Numa tarde de sábado do ano Abril de 1972, num género de carripana, que do lado direito de quem entrava no Parque Mayer, vendia livros e revistas em 2ª mão, no meiode Corins Tellado, Caprichos, Crónicas Femininas, Plateias e por aí adiante, encontrei a Poesia de Raul de Carvalho, editada em 1955 pela Portugália Editora.

Custou 5$00 que, naquele tempo, ao contrário do que se possa pensar, não era um mero preço.

Precisamente o livro em que está inserido Vem Serenidade, o tal poema que Bénard da Costa diz ser dos mais belos poemas da língua portuguesa.

Sorte de leitor.

Vem, setrenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos
sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte
tem todos os direitos.

As palavras de Afonso Cautela, que lera em 1966, tinham toda a razão de ser.

Faço os recortes:



Assim se fazia a minha alegria de leitor, aquilo que passa por ser cultura e é amor.


Aconteceu com Raul de Carvalho, com José Gomes Ferreira, com José Saramago, tantos outros.

Descobri-los, ficar uma felicidade apaixonada a rondar pelo corpo e nunca mais deixar de os ter a meu lado.

Dos vinte e cinco livros que Raul de Carvalho publicou 13 são Edição do Autor.

Para além dos custos de composição e impressão, Raul de Carvalho tinha de andar, de livraria em livraria, a colocar os livros, que ficavam em lugares pouco visíveis, a tralha é que tem de ficar bem à vista.

Tardiamente faziam contas com ele e nem todas chegavam a fazê-las.

E Raul de Carvalho sempre viveu com extremas dificuldades: económicas e de saúde.

Um quotidiano de silêncios, humilhações, dificuldades inomináveis, uma descontrolada paixão pelos outros.

Mas com uma fidelidade a si próprio que tanto o maravilhava, comovia e de que tanto se orgulhava.

Viveu numa permanente solidão, uma amarga e dolorosa peregrinação, mas sempre soube de que lado estava a verdade e a justiça.

Era um doente de risco, e sem ter com que pagar a alguém que o acompanhasse na doença, chegou a viver num asilo de caridade em Odivelas.

Hoje, penso que não: que adoeci, que fui
Envelhecendo, que há poucos livros úteis,
Que, para sobreviver, temos de trabalhar…
E o trabalho sem amor mata.
Não penso já no amor, penso na morte.
Não na morte que a todos nos espera, a um canto
do mundo, a um momento, não na morte final
estou pensando agora.

Jorge de Sena colocou-o entre os 100 melhores poetas do Século XX português.

E Baptista-Bastos dele escreveu:

Não o conheço de convívio, de fala, de gesto; conheço-lhe a poesia, porventura a forma mais íntima de lhe escutar a voz, lhe perscrutar as sombras, de entender os seus gritos hirtos, silenciosos, arranhados e feridos. Raul de carvalho. Um dos maiores poetas portugueses vivos, um homem marcado por suave tristeza, solidão proliferante em todos os mansos movimentos e, num escrínio raro, os poemas que escreveu, falando de si como se dos outros, de todos nós, falasse.

Em 1984, quis participar na IV Bienal de Vila Nova de Cerveira com uma comunicação sobre a jovem poesia portuguesa, que não chegou a apresentar.

Na madrugada de 12 para 13 de Agosto, o seu primeiro dia de estadia na vila, foi encontrado caído no chão da casa onde dormia.

Levaram-no para o hospital de Viana de Castelo, mas dada a gravidade do seu estado, encaminharam-no para o Hospital de S. João.

Com alta do hospital, foi repousar para casa do seu amigo Albano Martins, no Porto. Foi aí que uma pneumonia, no dia 3 de Setembro, colocou um ponto final no calvário dos dias atribulados que viveu.

No dia seguinte completaria 64 anos.

Ironias do destino, ou o que lhe quiserem chamar.

Texto publicado no dia 3 de Setembro de 2015.

sábado, 2 de maio de 2020

AYRTON SENNA DA SILVA


Ayrton Senna morreu há 16 anos.

Lembro-me como se fosse hoje. Era Domingo, Dia da Mãe, de Fórmula 1 e de Festa do 1º de Maio na Alameda. Na altura, por esta ordem de importância, os Camaradas que me perdoem…  

Deu para ver tudo em direto mas sem som, porque a almoço era em honra da minha Mãe e da Mãe das minhas filhas.

Confesso que, naquele momento, não fiquei demasiado inquieto. 

Diziam que se tinha visto Ayrton movimentar a cabeça, o que era bom sinal,  e naquela curva Tamburello já tinha assistido a acidentes muito mais espetaculares, como o de Piquet em 1987 e o de Gerhard Berger em 1989, este último com direito a incêndio, sem consequências físicas de extrema gravidade para os pilotos.


Mas a verdade é que o fim de semana de Imola não estava a correr nada bem.

Nessa época de 1994 a FIA tinha introduzido novas regras impondo a retirada dos apoios eletrónicos à condução e os carros estavam mais difíceis de guiar, tendo-se Ayrton queixado disso mesmo a propósito do seu Williams- Renault F16.  Nos treinos livres de sexta-feira  Rubinho Barrichello tinha voado de forma espetacular contra as vedações na “chicane” que antecede a reta da meta e o austríaco Roland Retzemberger também tinha sofrido um grave acidente nos treinos cronometrados da véspera, acabando por falecer...  

Mas eu não podia passar o Dia da Mãe agarrado à televisão e lembro-me de a ter apagado de vez, convencido que Ayrton teria saído muito mal tratado do acidente, porventura com graves lesões nas pernas, mas nada que me levasse sequer a sonhar com o que viria a acontecer. 

Voltei a ligar a televisão para ver o final da corrida, com aquela cena muito triste de um Michael Schumacher esfuziante a festejar no pódio, como se aquele tivesse sido um fim de semana igual a todos os outros… Mas de Senna não havia mais notícias…


Cerca de uma hora depois, quando me preparava para estacionar o carro na Barão de Sabrosa para ir ter com o meu Amigo Hugo que, como era habitual, estava de serviço às febras na Alameda, na tenda do Sindicato, a terrível notícia chegou-me via rádio pela voz de uma locutora brasileira: Ayrton Senna tinha acabado de falecer no Hospital de Bolonha. Um cabo da suspensão do seu Williams atravessou o capacete e perfurou-lhe o cérebro, veio a saber-se mais tarde.

E essa  Festa na Alameda já não foi como outras... 

Por ironia do destino, poucos meses antes tinha estado perto de Ayrton Senna. A Williams-Renault tinha vindo treinar ao Autódromo do Estoril no início do ano e eu, que por essa altura já tinha honras de Comité de Direção da Fábrica, meti uma cunha e consegui um convite da Direção Geral  para espreitar parte desses treinos. Com rigorosas instruções para não entrarmos nas “boxes”, não falarmos com ninguém nem perturbarmos o trabalho da equipa, que eles no final viriam trocar algumas palavras connosco. Ayrton Senna não apareceu…


Apenas um sinal da sua personalidade, que não era, de facto, de grandes simpatias. E se era, não as exteriorizava facilmente. Sempre muito sério, tinha aquele ar de que “todos lhe devem e ninguém lhe paga”…

Ao início não nutria, de facto, grande simpatia por Ayrton Senna. Preferia-lhe, de longe, o compatriota Nelsinho Piquet.

Pareciam ser a antítese um do outro. Nelson Piquet sempre sorridente, brincalhão e disposto a largar uma piada, por vezes até de mau gostou como quando uma vez deixou sair boca fora “Ayrton não gosta de mulher…!”.  O outro vingou-se, enrolando-se com a Xuxa e dando a entender que já tinha feito o mesmo com a mulher de Nelson… Enfim, o lado anedótico e menos saudável da F1…


Mas o que Nelson Piquet não fez, ao contrário do que constou, foi bloquear a entrada de Ayrton na Brabham, em 1984. Foi o patrocinador de então, a Parmalat, que deu preferência a um italiano, Teo Fabi.

Já Ayrton não se pode gabar do mesmo, porque veio a saber-se que tinha vetado a entrada de Derek Warwick na Lotus em 1986, com o argumento de que a equipa não tinha condições para disponibilizar duas viaturas competitivas a dois pilotos distintos.

Mas simpatias à parte, rapidamente me apercebi das enormes qualidades de Ayrton.


No seu ano de estreia na F1 fez milagres com um pouco competitivo Toleman-Hart e parece-me que ainda estou a vê-lo no Mónaco em 1984, seu ano de estreia na F1, sob chuva torrencial, a sair da 7ª fila, a passar por todos os que estavam à sua frente  e a começar a morder os calcanhares ao “leader” Prost, que cada vez que passava pela meta e via a distância entre ambos encurtar-se, esbracejava para que a Direcção da Corrida a desse por finda. Jacky Ickx, o Director, fez-lhe a vontade à 31ª volta e impediu uma vitória mais do que certa de Ayrton Senna.

Mas haveria de voltar-se o feitiço contra o feiticeiro. Nessa época de 1984  Prost perdeu o Campeonato para Niki Lauda por meio ponto… Se tivesse chegado ao final da corrida do Mónaco em 2º lugar teria obtido 6 pontos, mais dois do que os 4 que obteve com a corrida encurtada e os pontos reduzidos a metade. O suficiente para ser campeão do Mundo nesse ano...

Foi verdadeiramente aí, nessa tarde chuva,  que Ayrton começou a dar das vistas e nunca mais pararia de se evidenciar.


No ano seguinte passaria para a pouco competitiva Lotus, primeiro com as bonitas cores da John Player Special, e depois com o amarelo da Camel. Por lá andou durante três épocas, fazendo milagres com o fraco material que tinha à disposição e ganhando 6 Grandes Prémios (o primeiro dos quais em 1985 no Estoril, outra vez debaixo de chuva torrencial…)  e fazendo 16  “poles”. No  terceiro e último ano, com um carro um pouco mais competitivo, ameaçou os lideres Piquet e Mansell até à reta final do campeonato.

Em 1988 passou para a McLaren e outro galo cantou: 3 Campeonatos do Mundo,  35 vitórias em Grandes Prémios e 46 “pole positions”, nos 6 anos em que por lá andou. 

Em 1994, quando ingressou na “minha” Williams Renault, eu até já estava reconciliado com ele e não tinha dúvidas de que era o melhor piloto de todos quantos tinha visto na minha vida, e até hoje não mudei de opinião.


Outros (Schumacher, Hamilton, Vettel e Prost) ganharam mais corridas do que Senna, mas com material claramente superior ao da concorrência. E em número de “poles” Senna surge apenas em terceiro, mas com uma percentagem (40%) superior a Schumacher (22%), que está em segundo, e a Hamilton (35%), que está em primeiro.

Mas 1994 começou mal. “Poles” em todas as corridas, mas as duas primeiras acabadas fora da pista e uma distância de 16 pontos para o rival Schumacher.

Em Imola, naquele fim-de-semana de finais de Abril e início de Maio, Senna estava tenso.

Nas suas memórias o Prof. Sid Watkins, médico oficial da F1 durante muitos anos, conta que tinha visto Senna chorar no sábado, ao saber da morte de Ratzenberger, e na manhã do próprio dia da corrida, durante o minuto de silêncio que teve lugar no “briefing” dos pilotos.

A verdade é que Senna nunca tinha lidado tão de perto com a morte durante os anos em que esteve na Formula 1. A última morte em corridas  havia sido a de Ricardo Paletti, na largada do GP do Canadá de 1982, ainda Senna não tinha chegado à F1.

Vendo-o transtornado, Sid Watkins aconselhou-o a não correr nesse fim de semana, e até a parar durante uns tempos… Mas Senna respondeu-lhe nestes termos, que foram as últimas palavras que lhe dirigiu em vida: “Sid, há algumas coisas sobre as quais não temos controlo. Eu não posso abandonar. Tenho de continuar.” 

As últimas imagens que dele nos ficaram foram as da grelha de partida. Olhar perdido no vazio, como se já estivesse a entrar numa outra dimensão.

É claro que foi a pensar em Ayrton Senna que, numa tarde solarenga de final de Agosto, me dirigi ao Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Imola. Queria fazer o circuito a pé até Tamburello, que não ficava assim tão longe da entrada…

Mas não me deixaram passar das bancadas. Tive de chegar a Tamburello através do Parque de Acque Minerale, que fica no interior do circuito. Aí, no preciso local onde se deu o acidente, mas no lado oposto , está esta estátua de homenagem a Ayrton, na altura com um bonito ramo de flores no seu regaço, certamente gentileza de algum fã.

Fiz-lhe também a minha própria homenagem, e vim-me embora.


E porque Ayrton acreditava em Deus e na Vida para além da Morte, despeço-me dele  com estas breves palavras: 

“Repousa em Paz, meu Amigo. Diverte-te o que puderes, mas não faças muitos estragos aí por Cima… Imagino que já tenhas encontrado por aí o Fangio e, num carro alado de características idênticas para ambos, já tenham feito um tira-teimas acerca  daquela questão que, volta e meia, tanto nos vem à cabeça a nós, pobres mortais aqui em baixo: qual de vós foi o melhor piloto de todos os tempos…? Mas sabendo que o Fangio é um “gentleman” e que tu nem no Céu e a feijões gostas de perder, não me será muito difícil adivinhar a resposta...”

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

VAI E VEM


Se ainda andasse por cá, o João César Monteiro fazia hoje 81 anos.
Ontem, a Câmara Municipal da Figueira da Foz em lugar de lhe dar um nome de rua decidiu dar o seu nome a um auditório do Centro de Artes e Espectáculos, o que me parece mais ajustado.
Ajustado nos parece também recordar a Certidão de Nascimento que o João escreveu e que foi publicada no semanário & etc. nº 4 de 28 de Fevereiro de 1973.
Já agora se dirá que amanhã passam 17 anos sobre o dia em que o João, de cigarro na beiça, sem dever nada a ninguém, partiu sabe-se lá para onde.

«Tive infância caprichosa e bem nutrida, no seio de uma família fortemente dominada pelo espirito, chamemos-lhe assim, da 1 ª República. Escusado será dizer que abundavam os dichotes anti-clericais, muito embora o meu pai desejasse que eu viesse a seguir a carreira eclesiástica. Em suma: não se percebia nada. Pelo menos à primeira vista.
Por volta dos 16 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Tendo finalmente conseguido dissipar toda a fortuna na satisfação de brutais apetites, o meu garboso pai veio a falecer vitimado por cruel ataque cardíaco, deixando-me, perplexo e sem um chavo, a coçar a cabeça. Era chegada a hora de dar o corpinho ao manifesto, como a maior parte das pessoas. Filho que era de meu pai, atravessei senhorialmente muitos e variados empregos, mas em breve me apercebi que já não podia olhar o mundo da mesma maneira. Fui até Paris para ensaiar até onde me era possível ir. Não me era possível ir muito longe. Meses depois, «ayant connu pas mal de choses», era repatriado.

Em 1960, encontrei o Sr. Seixas Santos que teve a bondade de me ensinar um pouco do muito que sabe de cinema. O Sr. Vasconcelos andava ao mesmo e parecia fazer progressos que, infelizmente (para ele), o futuro ainda não comprovou. 
No ano seguinte, trabalhei como assistente de realização do Sr. Perdigão Queiroga e admito que poderia ter aprendido mais qualquercoisinha se não tivesse sido tão presunçoso.

Em 1963, na injusta qualidade de bolseiro da Fundação Calouste Gu1benkian, parti para Londres e fim de frequentar a London School of Film Technique. Suponho que nunca por aquela escola passou aluno tão mau, mas nesse passo não tive grandes culpas no cartório: é que de facto os ingleses não nasceram para o cinema. Aliás, ainda não percebi muito bem para que é que os ingleses nasceram. Deve com certeza ser pela mesma razão que nasceram os percevejos, as baratas e o pão integral, vulgo pão que o diabo amassou. A estadia em Londres, essa foi extremamente divertida, sobretudo no salutar plano das doces amizades; contudo, no regresso à Pátria, o meu pavoroso aproveitamento escolar foi muito sentido, como vergonhosa acção, por provincianas carpideiras a quem nunca passará pelas cabeças, tão chorosas dos mal gastos dinheirinhos da Gulbenkian, que a estupidez e a incompetência assentam arraiais em qualquer parte do mundo, inclusive no coração de Londres, sob o pomposo nome de London School of Film Technique.

 Em 1965, conheci o Paulo Rocha e os seus «Verdes Anos», o Fernando Lopes e o seu «Belarmino». Tomei-me de amizade pelo Fernando e de amores pelo filme do senhor Rocha, cujos hábitos de anacoreta o tornavam pouco acessível.

 Nesse mesmo ano, tentei pôr de pé um projecto de filme em 16 m/m, intitulado «Quem espera por sapatos de defunto morre descalços». Dois dias de filmagens e rabinho entre as pernas. Falta de xis. Esse ano negro não findaria, no entanto, sem que deixasse a meio o primeiro filme publicitário que me enfiaram nas unhas: de como, graças ao Não-sei-quê, fazer desaparecer em três penadas o mau cheiro do sovaco, e me internassem num hospício para acalmar as febres.

De novo na vida civil, os meus excessos ultra-românticos, temperados pela mais nobre profundidade sentimental, tiveram enfim (ai filhas de Sidon) a justa consagração, o que não me livrou de amouchar durante um ano, como escriba de Filmes Castello Lopes, Lda.

Em 1968, após um reconfortante período em que descobri que mães há muitas e pai só um, o celeste, dei mostras de, para além do instinto de conservação, possuir muitos outros bons instintos e fui finalmente recomendado ao produtor Ricardo Malheiro. Foi, pois, na mais desregrada euforia que fiz o filmezinho sobre Dona Sophia. Pouco tempo volvido (ó desgraça!), o Malheiro ia à falência ou, o que vinha a dar ao mesmo, a falência ia ao Malheiro. Sem grande proveito, tentei ainda a publicidade. Desesperadamente. Três ou quatro filmes, uma viagem, hélas! à Guiné, e disse.

No ano seguinte, estimulado por algumas boas vontades (saudades), resolvi repegar no projecto «Quem espera por sapatos de defunto morre descalço», cujas filmagens se arrastaram ao longo de dois anos. Numa altura em que eu já deitava o filme pelos olhos, a Fundação Gu1benkian concedeu-me (obrigadinho) um subsidio de $$$$$$$$$$$$$$$$... 180 contos, divididos em 3 prestações. Aqui, tive a tentação de dar uma volta. Pedi ao Vasconcelos para filmar dois planos que faltavam ainda ao filme, e fui. Itália e a inevitável Paris. Esgotada a finança, voltei para acabar o filme, receber a última prestação e partir outra vez, ora de comboio, ora à boleia, consoante a inspiração: Barcelona, Marselha, Florença, Milão, Como, Cernobbio, Paris.

Entretanto, o filme começou por ser relativamente mal recebido junto do Mecenas (quereriam ópera por 180 contos?), continuou, pateado num festival no Sul de Espanha e foi friamente acolhido pelos críticos presentes em Nice, aquando da chamada Semaine du Jeune Cinéma Portugais. Foi pena, porque me teria dado jeito, sobretudo no que toca à fruição de algumas benesses locais, mas já que não pôde ser, paciência! Tirando isso, aproveitei a estadia niceoise para comprar um lindo fato de banho de duas peças com a nota de 100 francos que o João Bénard me emprestou e ameacei partir uma garrafa de tinto na cabeça do Cunha Teles que, impensadamente, me chamou oportunista. Não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário, mas ser insultado por um manhoso negociante é coisa que me põe fora de mim. Detesto a promiscuidade e ensinaram-me a guardar escrupulosamente as distâncias. Por uma única e bem simples exigência: a de manter intacta e intocada e minha pessoa, para além da consciência de todos os meus erros e imperfeições. Levo, as mais das vezes, esta fantochada com o riso no costado, mas não é por acaso que, cada vez mais, me dou com menos pessoas.

Arrumados definitivamente os «Sapatos» iniciei, no Verão passado, «A Sagrada Família», que espero terminar por um destes dias. Presumo que não lhe estará reservada melhor sorte que a do filme anterior, mas devo confessar que a considero uma experiência relativamente importante, se não, e com certeza que não, no plano global de um cinema português, pelo menos, no plano particular do meu próprio cinema e na exacta medida em que, por um lado, discute e corrige dialècticamente o filme anterior e, por outro, prepara já o filme seguinte.
O filme seguinte chama-se «A Tempestade», baseia-se no poema dramático de Shakespeare e na ópera de Purcell e será perpetrado numa Arrábida pintada a Robbialac se, como se espera, a edilidade local não levantar intransponíveis obstáculos. Quanto mais não seja, há que atender aos relevantes serviços que a prestimosa tinta, que é só a que mais pinta e que mais dura, tem prestado ao colorido da Nação.

Que pensar de tudo isto? Em primeiro lugar, que a vida está má para os pobres. Depois que, nisto ou naquilo, vivemos todos muito ocupados, inclusive na falta de ocupação. Por último, que enquanto, pela parte que me toca, passo o tempo, como agora e aqui, a acariciar o meu dilatado egozinho e a fornecer de mim imagens razoavelmente aliciantes, como estas, existem pessoas bem mais obscuras que, discreta e devotadamente se vão ocupando de mim e do meu glorioso destino o que, aliás, não é novo. Parece que tem sido uma constante da História.

Assim sendo, resta-me reconhecer a solidão moral de uma prática cinematográfica cavada na dupla recusa de ser uma espécie de carro de aluguer da classe mais favorecida e, o que é mais grave, de trocar essa profunda exigência por toda e qualquer forma de demagogia neo-fadista que transporte e venda a miserável ilusão de servir outra coisa.

sábado, 4 de janeiro de 2020

CAMUS: UM HOMEM SERENO E TRISTE


Gosto de comboios, não tanto como John Ford, que os pôs em westerns e, mais poética e maravilhosamente, naqueles seus filme irlandeses, um deles O Homem Tranquilo com John Wayne e Maureen O'Hara

Camus não gostava de automóveis.

A 4 de Janeiro de 1960, para regressar, da sua casa de Lourmarin, a Paris, onde tinha encontro marcado com André Malraux, ministro da cultura, que tencionava propor a Camus a direcção de um teatro de ensaio, comprara um bilhete de comboio.

Acabou por viajar no carro de Michel Gallimard, sobrinho do seu editor. Camus seguia ao lado do condutor, atrás a mulher e a filha de Michel. No trajecto, em Villeblevin, um pneu que rebenta e o carro, que rolava a alta velocidade, descontrola-se e bate violentamente contra uma árvore.

Camus teve morte imediata, Gallimard morreria dias depois, as duas mulheres, feridas, salvaram-se.

Na sua mala de viagem, o bilhete de comboio que não fôra utilizado, o manuscrito, ainda inacabado, de O Primeiro Homem, onde conta a sua infância, que seria o volume inicial de uma trilogia que o autor pretendia escrever.

O relógio do carro marcava as 13 horas e 55 minutos.

Camus disse que nada era mais terrível que a morte de uma criança e nada mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel.

Que levou Camus a mudar de planos no seu regresso a Paris?

Quantos mais livros teria escrito? Quantos mais cigarros teria fumado?

Alguém dirá: foi o destino.

Outro alguém acrescentaria: o destino é um fulano sem moral nenhuma.

Aquele bilhete de comboio encontrado na sua mala…

Algum tempo antes, não sei quanto, Catherine, filha de Camus, vendo-o abatido pergunta:

- Estás triste?

- Não. Apenas só!, ouviu como resposta.

Urbano Tavares Rodrigues encontra-se com Albert Camus nos escritórios da Gallimard, mantém uma longa conversa que Urbano faz publicar no Diário de Lisboa de 16 de Maio de 1953, que, certamente devido a cortes da censura salazarista, apenas deu uma página do vespertino. 

«Tenho diante de mim, sereno e triste, um homem honesto e “só”, abandonado, atacado, exultado, caluniado, uma das grandes e nobres figuras do nosso século, até para os que dele discordam politicamente; um homem sempre desejoso de justiça, mas também de tolerância, defensor dos fracos e dos oprimidos, da arte e da liberdade, figura poética e não obstante poderosamente lógica no nosso mundo apaixonado pela violência e pela eficiência mecânica. Camus tem combatido e negado o obscurantismo cruel que se diz ou se acredita ao serviço da justiça e da liberdade. Tem-se oposto ao servilismo do comunismo imperialista de certos intelectuais de esquerda, “fascinados – como ele próprio denuncia – pela força e pela eficácia”, tal como os nazis de há quinze anos. Camus desmente os que o acusam de haver renegado a esquerda: a esquerda para ele é ainda hoje e será sempre a oposição à tirania. Não aceita o argumento dos defensores da Rússia soviética, segundo os quais o sentido da história tudo justifica. Para Camus a opressão é sempre opressão: não há carrascos privilegiados.»

Legenda: Camus conversando com Urbano tirada do Diário de Lisboa de 16 de Maio de 1953.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

À ESPERA, SEMPRE À ESPERA


O maior bocado das nossas vidas são perdas.

Eduardo Guerra Carneiro, no começo do ano de 2004, decidiu não viver mais.

Talvez a 2 ou 3 de Janeiro, não importa muito o dia, foi encontrado na laje do prédio onde vivia, ali ao Príncipe Real, mais concretamente, na Travessa do Abarracamento de Peniche.

Um voo filho da puta pôs fim à solidão do Eduardo Guerra Carneiro.

O Baptista-Bastos escreveu que ele atirou-se para o céu.

Ainda há dias o Manuel S. Fonseca escrevia: Eis o que sendo humano me é estranho: o suicídio.

No livrinho Profissão de Fé, a páginas 33, encontram lá este começo de poema que dá nome ao livro:

A dor é isto: um vazio. E sentir
depois um vazio maior – esperar
a morte. Escrevo, assim, convicto,
num estado semelhante ao pó,
mas em lava ardente procuro
a maneira ainda de incendiar.

A morte é isto? Um vazio? Mas
escrevo para contar aos outros
deste sentimento estranho. Ao espelho
vejo ressentimento, usura, uso
e abuso do tempo que me deram.
E ardo na paixão gelada, sem morrer.

Espero por ti, seguro que já sei
nada mais de ti esperar.

Sim, posso pegar nos livros do Eduardo e ler as maravilhas que nos deixou.

Mas é sempre um enorme vazio.

Legenda: o título é um verso do Eduardo em Algumas Palavras

sábado, 30 de novembro de 2019

HÁ 24 ANOS FICÁMOS SEM O ASSIS PACHECO


No dia 30 de Novembro de 1995, morria Fernando Assis Pacheco. Tinha 58 anos.

Saía da Livrareia Bucholz, quando um ataque cardíaco o vitimou.

Jornalista, poeta, romancista, um tipo de que se gostava à primeira vista.

Conheci-o nos idos de 1967, na redacção do Diário de Lisboa.

Mas o convívio aconteceu quando, juntamente com outros jornalistas do Diário de Lisboa, Raul Rego e Vitor Direito à cabeça, o Assis Pacheco, mais a sua HCESAR, se passou para o Republica.

Naquela manhã, fiquei parvo de todo a olhar os títulos dos jornais, a tentar perceber se aquilo era mesmo possível: o Assis Pacheco já não estar por aqui.

Tinha um fino humor, uma ironia cortante, uma cultura sem limites.

As suas entrevistas são de mão cheia e algumas delas encontram-se reunidas em Retratos Falados, que as Edições ASA publicaram em Maio de 2001. A Assírio Alvim tem vindo a publicar toda a sua obra.

Na sua HCESAR, escrevia com o indicador direito e gargalhava para a redacção, contando a última pilhéria.

Gozador da vida, perdia-se por vinhos e petiscos.

Deixou escrito que os melhores tordos que comeu, foram preparados pelo José Cardoso Pires  que tinha um apartamento, rasgado para o Atlântico, na Costa da Caparica.

No dia em que escorregou para dentro de si mesmo, Fernando Assis Pacheco estivera a folhear livros nos escaparates da Bucholz.

Quem dedicou toda uma vida à cultura, só poderia partir assim.

José Cardoso Pires:

Aqui para nós palpita-me que não vou tardar muito a ir ter contigo, é cá uma fé, até já sei que te vou encontrar “solitário diante de uma folha branca” como o Maiakowski. Mas sabes?, enquanto por cá ando fazes-me falta. Bastante, Assis. Mesmo bastante, acredita.

Último Tesão

Alombo contigo há uma porção de anos
e vou-te dizer és um chato
não tens ponta de paciência
para a vida nem para ti próprio

já te ouvi discursos a mandar vir
já te carreguei às costas
bêbedo como um Baco de aldeia
mijando as ceroulas
és um adolescente retardado
faltou-te sempre a quarta do bom senso

vez por outra um livrinho
de versos vez por outra nada
qualquer um do teu tempo
está bastante melhor do que tu
deputado administrador de empresa
ministro da maioria
puta (alguns chegaram a isso)

só tu meu inocente brincas com a neta
açulas o cão pedindo
à família que te ature
o tipo um dia destes morde-te
que é para aprenderes

mas aqui entre amigos
vou-te dizer também
uma coisa importante não cedas
à tentação de mudar
fica nesta pele que é tua

como é que tu escrevias
merdalhem-se uns aos outros

o país mete dó

guarda o último tesão
para mandares
meia dúzia de canalhas à tabua

Lisboa
5/6/9-VII-95

Fernando Assis Pacheco em Respiração Assistida

sábado, 28 de setembro de 2019

HÁ 45 ANOS


HÁ HISTORIADORES que designam o Setembro de 1974 como tendo sido um Setembro Negro.

O 28 de Setembro foi uma tentativa pífia de conspiração da extrema-direita, apoiada por Spínola, tendo como pano de fundo uma manifestação daquilo que o general designou como «maioria silenciosa» e constitui um dos principais marcos do processo revolucionário.

Em Julho, Spínola já tinha dito: «As maiorias silenciosas têm de sair do seu comodismo ou do seu temor e de se pronunciarem abertamente».

O PARTIDO LIBERAL, no dia 13, redige um comunicado apelando para que as pessoas começassem «a organizar a sua vida para aderirem à Grande Manifestação, e apoiar firmemente Sua Excelência na execução do Programa do Movimento das Forças armadas entendido de boa-fé, como via para a democracia personalista, pluralista e livre».

MARCADA a data da manifestação da «maioria silenciosa» para o dia 28.

DURANTE A MADRUGADA do dia 18 são afixados os cartazes.

ESTAVA PREVISTO O ALUGUER DE CAMIONETAS para transportar os manifestantes, aluguer sinalizado antecipadamente com dinheiro emprestado pelo Banco Espírito Santo.

NO DIA 20, num comício na Amadora, Álvaro Cunhal denuncia: «Se a reacção aguça os dentes e se prepara para morder, é necessário partir-lhes antes que morda»!

NA TRADICIONAL CORRIDA DE TOUROS, na Praça do Campo Pequeno, de apoio à Liga dos Combatentes, é feito o ensaio geral da manifestação.

Gratuitamente foram distribuídos bilhetes no valor de 300 contos. Spínola marca presença, acompanhado por Vasco Gonçalves, que é apupado enquanto Spínola é delirantemente aplaudido. A cada passe tauromáquico a populaça gritava:

«Portugal! Ultramar Ultramar!».

O cavaleiro João Zoio apareceria, no meio da arena, ostentando o cartaz da manifestação da «maioria silenciosa», enquanto pela instalação sonora era feita uma convocatória para a manifestação.

NO DIA 27 o Governo Provisório manifesta a Spínola a sua discordância sobre a manifestação e este emite um comunicado agradecendo a intenção de apoio da «maioria silenciosa» mas declarando que neste momento a manifestação não seria convenienteº



NA MADRUGADA do dia 28 populares montam barricadas em diversos pontos do país para evitar qualquer avanço de forças reacionárias. Organizaram piquetes, revistaram automóveis na procura de armas.

Cristóvão Aguiar escreve no seu Relação de Bordo: « … mas quem pode, em dias tão agitados como estes, ficar em casa?»

ANTÓNIO SPÍNOLA convoca o Conselho de Estado para o dia 30, renuncia ao mandato presidencial e os capitalistas portugueses vêem esfumar-se uma oportunidade de recuperar privilégios perdidos, transferem os seus capitais para o estrangeiro e, muitos, abandonam o país.

Costa Gomes é o novo Presidente da República.

ARTUR PORTELA Filho e o final de uma das suas Fundas:

«O general Spínola mobilizou a maioria silenciosa.
O MFA mobilizou o País.
Foi um opção.
Que o general Spínola cometeu o erro de fazer.
Porque a maioria não é silenciosa.
Porque o MFA é o País.»

Legenda: as imagens dos cartazes foram retiradas de Portugal Século XX de Joaquim Vieira, Bertrand Editora, Lisboa, Novembro de 2007.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

domingo, 4 de agosto de 2019

O TEMPO CAVALGA, CAVALGA, CAVALGA...


Rita Hayworth morreu a 14 de Maio de 1987.

Mas João Bénard da Costa diz que ela morreu num dia, num mês, do ano de 1948 quando Orson Wells mandou cortor-lhe os longos cabelos acobreados para que ela assim entrasse em A Dama de Xangai.

O Diário de Notícias, publica-se uma vez por semana em formato papel, encontra-se on line, mas para mim morreu no dia em, diariamente, deixei de o olhar nas bancas dos jornais.

Tudo isto para vos dizer que me chegou às mãos um suplemento do Diário de Notícias semanal em que é feita a evocação da louca viagem, iniciada a 24 de Julho de 2010, do Idílio Freire desde o norte da América até à América do Sul.

Não dei pelo tempo passar e fiquei assim meio aparvalhado coisa que me acontece regularmente desde que passei os setenta anos.

O Cais do Olhar acompanhou essa viagem e, à sua tosca maneira, foi deixando por aqui textos e textinhos sobre essa extraordinária aventura.

Tudo pode ser revisto na etiqueta «Idílio Freire» deste blogue.

Divirtam-se e maravilhem-se.

Legenda. capa do suplemento do Diário de Notícias de 20 de Julho de 2019

domingo, 14 de janeiro de 2018

FOI HÁ 61 ANOS!


Não temos razões para ter pena dele, mas sim de nós, porque o perdemos.

John Huston, durante o serviço fúnebre.

domingo, 17 de dezembro de 2017

O CENTENÁRIO DO GRAÇA


Fernando Lopes-Graça faria hoje 100 anos.
Foi um dos maiores maestros e compositores portugueses do século XX.
A sua vida foi uma longa luta contra a ditadura, o obscurantismo.
Esteve preso nas masmorras do Aljube e em Caxias.
Era militante do Partido Comunista Português.
Como escreveu José Saramago, quando soube da sua morte: «o querido Graça, o amigo do coração, o camarada fidelíssimo e leal.»

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

PAPÉIS DATADOS


Completavam-se.
Eram um todo.
Acabaram no dia em que uma tal Yoko Ono apareceu entre fileiras a por e a dispor.
A morte de John Lennon, agora ocorrida, não tira nada a um fenómeno chamado de The Beatles que marcou toda uma geração e por aí fora.
Um grupo de guedelhudos, uma instituição, um tempo em que as mínimas coisas, as coisas mais simples, outras coisas, eram “à beatles”.
O selo nítido, insolente, lançado pelos tempos fora, um estilo que marcou a História da Música.
Os bailes de sábado á noite. Os discos riscados, sabemos porquê.
Esse extraordinário trabalho que é a “Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta”.
Eles foram o escândalo que levou os senhores bem-educados, os moralistas decadentes, a declararem que ter cabelos compridos era o mesmo que ter ideias curtas.
O que ficou dos Beatles é muito, acima de tudo ensinaram-nos a gostar de música.
À porta do luxuoso edifício de apartamentos onde vivia, em Nova Iorque, Jiohn Lennon foi, estupidamente, assassinado por um louco colecionador de autógrafos.


(8 de Dezembro de 1980)

sábado, 25 de novembro de 2017

TODA A NOITE CHOVEU


Sábado, 25 de Novembro de 1967.

Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.

Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.

A chuva fustigava Lisboa.

Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua do Fanqueiros, a fazer a prova do fato.

Um enorme trovão e ficámos às escuras.

As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.

Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.

Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.

Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.


Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.

A chuva desabava como um dilúvio.

Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.

A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.

Não havia transportes.

A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.

Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio.

Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.
Sem telefones não era possível avisar as famílias.

Ninguém sabia de ninguém.

Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.


A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!

Durante toda a noite e madrugada choveu.

Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.

Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.

«Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros», palavras do ministro do Interior Santos Júnior.

Anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.


Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:

«A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da tragédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que oAlvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.»

Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:

«Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».

No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:


César Príncipe dá-nos ainda uma uma outra, miserável, determinação dos coronéis da Censura, datada de 30 de Dezembro de 1967.

Referia o baile de passagem de ano, realizado no Palácio dos Valenças em Sintra:

«Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações.» 

No dia 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.

O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.

A censura retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.

Escreveu o jornalista António Valdemar:

«Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.»
Diário de Notícias, num dos seus editoriais:

«Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.»


Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.

O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.

A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.

Estão passados 50 anos.

Há acontecimentos que nunca esquecem!
Há lições que nunca devíamos esquecer.

Acabamos por esquecer...

Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.

Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre.

Até um outro dia em que tudo volte a acontecer!

domingo, 29 de outubro de 2017

IRISH HEARTBEAT



Van Morrison está a festejar 50 anos de carreira a solo e publicou o seu 37º álbum de estúdio – Roll with the Punches.

Claro que Van Morrison não anda pelas listas dos discos mais vendidos, o próprio gosta muito pouco dos discos que faz, mas tem lugar de referência maior na música.

João Gobern, no Diário de Notícias, lembra a efeméride e acrescenta:

«Quando, há cinco anos, a insuspeita Rolling Stone procedeu a (mais) uma escolha dos 500 melhores álbuns de sempre, lá estavam, indiferentes às modas e à volatilidade destas eleições, dois discos do Big Van: Moondance(de 1970) em 66.º e Astral Weeks (de 1968, tão perto já do meio século) em 19.º. Nada mau, para um registo que, comercialmente, nunca foi além do 55.º lugar do top britânico...
Em boa verdade, qualquer destes álbuns e da esmagadora maioria dos outros, que perfazem o património de Van Morrison, pode continuar a ser ouvido hoje, com o mesmo prazer e sem enfrentar os riscos do final do prazo de validade. Por uma razão elementar: a escolha das canções, bem acompanhada pela escrita do próprio intérprete, continua a ser inspirada, apoiando-se na consistência do saber do protagonista, que conhece todos os standards, todos os nomes suscetíveis de poderem interessar-lhe. Depois, é aquele "pequeno passo" de génio, que se traduz em moldar cada momento a um fraseado próprio, a uma rítmica que transcende lógicas, a um tom de voz que se reconhece à segunda ou à terceira nota. Nestes particulares, faz lembrar Frank Sinatra, nada menos.

Roll with the Punches, para chegarmos ao que aqui nos traz, nada tem de novo - de resto, as últimas vezes que Van Morrison correu atrás da surpresa aconteceram em Irish Heartbeat, disco de 1988 gravado com os seus compatriotas (do lado sul da ilha verde) Chieftains, em que fez emergir despudoradamente as suas raízes celtas, e quando integrou o elenco especial da apresentação de The Wall (Pink Floyd) junto ao que restava do Muro de Berlim, redefinindo à força de voz uma canção tão contundente como Comfortaby Numb.

Aliás, é melhor que não haja sobressaltos - com Van Morrison, cada "prova cega" torna-se uma festa. E, neste disco, há, além dos temas próprios, canções de Bo Diddley, Doc Pomus, T-Bone Walker, Mose Allison, Sister Rosetta Sharpe e - bênção suprema - até de Sam Cooke e Count Basie. Além disso, por aqui se descobrem a guitarra de Jeff Beck, o Hammond de Georgie Fame, a harmónica de Paul Jones e o piano de Jason Rebello. O que significa que, estejam em causa Mean Old World ou How Far from God, Transformation ou Ordinary People (duas das três novas), e, sobretudo, Goin' To Chicago ou Bring It On Home To Me, a melhor solução passará sempre por deixar a música fazer o seu caminho, ligando-a ao passado ilustre de Van Morrison ou descobrindo um dos valores mais insistentes e coerentes da história do rock. Sem pressa - o feitiço vai obrigar a voltar aqui, uma e outra vez.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

LEMBRAR NEWMAN, SEMPRE


Nove anos sem Paul Newman, o actor dos mais belos olhos azuis do cinema.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

40 ANOS


Quarenta anos sem o Rei.
Lido hoje no Diário de Notícias:

Desde 1977 até hoje, foram publicadas 94 compilações discográficas de Presley. O que permite dizer que, 40 anos depois de falecer, ele ainda figura entre os artistas musicais mais rentáveis do mundo. 


sábado, 5 de agosto de 2017

AINDA HÁ ESTRELAS NO CÉU


Há 55 anos morria, segundo Ruy Belo, «a mulher mais bela do mundo.»
A sua morte permanece como uma história muito mal contada.
John Huston disse que foram os filhos da puta dos médicos que a mataram - «eles viciaram-na em pílulas.»
Há quem conclua que os Kennedys estão metidos no desenlace fatal.
Um dia se saberá!!

Legenda: Marilyn fotografia de Eve Arnold, 1960.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

JEANNE MOREAU (1928-2017)


Aos 89 anos, morreu Jeanne Moreau.
Foi muito mais além, mas bastava o extraordinário desempenho em Jules e Jim realizado por François Truffaut, um daqueles casos em que o filme suplanta o livro , para que fique na história do Cinema.
Um filme que arrepiou a minha geração, e não só!


quarta-feira, 7 de junho de 2017

DA MINHA GALERIA


O velho Dino faria hoje 100 anos.
O homem que gostava de ser parceiro, tal como escreve  João Gobern na evocação publicada no Diário de Notícias.

Legenda: fotograma de Rio Bravo, uma das boas passagens de Dean Martin pelo cinema.

sábado, 25 de março de 2017

DA MINHA GALERIA


Aretha Franklin, a fantástica Aretha Franklin, faz hoje 75 anos, número redondo.

Claro que posso dizer: é uma rapariga do meu tempo.

Como nasci em 45, temos três anos de diferença.

João Gobern assina, hoje, no Diário de Notícias, um excelente texto sobre a Diva.

Se a tradição de muitos dos anos mais chegados se mantiver, Aretha Louise Franklin terá alugado para hoje umas quaisquer instalações luxuosas, num hotel ou num clube, na cidade de Detroit. Terá tratado de encomendar um "farnel" farto em gorduras e açúcares, para manter o hábito de se dedicar à soul food. Terá cantores e/ou músicos contratados para abrilhantar mais uma festa de aniversário, daquelas que costuma oferecer a si própria, sem se esquecer de as publicitar para manter aceso o lume de boas (e só boas) notícias a respeito da Rainha do soul. 

E ouçam a pequena, principalmente nas gravações que fez para a «Atlantic».

Tal como a recordo, na tomada de posse de Barak Obama em 2009.