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domingo, 4 de agosto de 2019

O TEMPO CAVALGA, CAVALGA, CAVALGA...


Rita Hayworth morreu a 14 de Maio de 1987.

Mas João Bénard da Costa diz que ela morreu num dia, num mês, do ano de 1948 quando Orson Wells mandou cortor-lhe os longos cabelos acobreados para que ela assim entrasse em A Dama de Xangai.

O Diário de Notícias, publica-se uma vez por semana em formato papel, encontra-se on line, mas para mim morreu no dia em, diariamente, deixei de o olhar nas bancas dos jornais.

Tudo isto para vos dizer que me chegou às mãos um suplemento do Diário de Notícias semanal em que é feita a evocação da louca viagem, iniciada a 24 de Julho de 2010, do Idílio Freire desde o norte da América até à América do Sul.

Não dei pelo tempo passar e fiquei assim meio aparvalhado coisa que me acontece regularmente desde que passei os setenta anos.

O Cais do Olhar acompanhou essa viagem e, à sua tosca maneira, foi deixando por aqui textos e textinhos sobre essa extraordinária aventura.

Tudo pode ser revisto na etiqueta «Idílio Freire» deste blogue.

Divirtam-se e maravilhem-se.

Legenda. capa do suplemento do Diário de Notícias de 20 de Julho de 2019

domingo, 14 de janeiro de 2018

FOI HÁ 61 ANOS!


Não temos razões para ter pena dele, mas sim de nós, porque o perdemos.

John Huston, durante o serviço fúnebre.

domingo, 17 de dezembro de 2017

O CENTENÁRIO DO GRAÇA


Fernando Lopes-Graça faria hoje 100 anos.
Foi um dos maiores maestros e compositores portugueses do século XX.
A sua vida foi uma longa luta contra a ditadura, o obscurantismo.
Esteve preso nas masmorras do Aljube e em Caxias.
Era militante do Partido Comunista Português.
Como escreveu José Saramago, quando soube da sua morte: «o querido Graça, o amigo do coração, o camarada fidelíssimo e leal.»

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

PAPÉIS DATADOS


Completavam-se.
Eram um todo.
Acabaram no dia em que uma tal Yoko Ono apareceu entre fileiras a por e a dispor.
A morte de John Lennon, agora ocorrida, não tira nada a um fenómeno chamado de The Beatles que marcou toda uma geração e por aí fora.
Um grupo de guedelhudos, uma instituição, um tempo em que as mínimas coisas, as coisas mais simples, outras coisas, eram “à beatles”.
O selo nítido, insolente, lançado pelos tempos fora, um estilo que marcou a História da Música.
Os bailes de sábado á noite. Os discos riscados, sabemos porquê.
Esse extraordinário trabalho que é a “Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta”.
Eles foram o escândalo que levou os senhores bem-educados, os moralistas decadentes, a declararem que ter cabelos compridos era o mesmo que ter ideias curtas.
O que ficou dos Beatles é muito, acima de tudo ensinaram-nos a gostar de música.
À porta do luxuoso edifício de apartamentos onde vivia, em Nova Iorque, Jiohn Lennon foi, estupidamente, assassinado por um louco colecionador de autógrafos.


(8 de Dezembro de 1980)

sábado, 25 de novembro de 2017

TODA A NOITE CHOVEU


Sábado, 25 de Novembro de 1967.

Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.

Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.

A chuva fustigava Lisboa.

Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua do Fanqueiros, a fazer a prova do fato.

Um enorme trovão e ficámos às escuras.

As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.

Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.

Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.

Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.


Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.

A chuva desabava como um dilúvio.

Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.

A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.

Não havia transportes.

A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.

Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio.

Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.
Sem telefones não era possível avisar as famílias.

Ninguém sabia de ninguém.

Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.


A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!

Durante toda a noite e madrugada choveu.

Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.

Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.

«Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros», palavras do ministro do Interior Santos Júnior.

Anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.


Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:

«A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da tragédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que oAlvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.»

Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:

«Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».

No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:


César Príncipe dá-nos ainda uma uma outra, miserável, determinação dos coronéis da Censura, datada de 30 de Dezembro de 1967.

Referia o baile de passagem de ano, realizado no Palácio dos Valenças em Sintra:

«Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações.» 

No dia 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.

O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.

A censura retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.

Escreveu o jornalista António Valdemar:

«Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.»
Diário de Notícias, num dos seus editoriais:

«Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.»


Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.

O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.

A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.

Estão passados 50 anos.

Há acontecimentos que nunca esquecem!
Há lições que nunca devíamos esquecer.

Acabamos por esquecer...

Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.

Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre.

Até um outro dia em que tudo volte a acontecer!

domingo, 29 de outubro de 2017

IRISH HEARTBEAT



Van Morrison está a festejar 50 anos de carreira a solo e publicou o seu 37º álbum de estúdio – Roll with the Punches.

Claro que Van Morrison não anda pelas listas dos discos mais vendidos, o próprio gosta muito pouco dos discos que faz, mas tem lugar de referência maior na música.

João Gobern, no Diário de Notícias, lembra a efeméride e acrescenta:

«Quando, há cinco anos, a insuspeita Rolling Stone procedeu a (mais) uma escolha dos 500 melhores álbuns de sempre, lá estavam, indiferentes às modas e à volatilidade destas eleições, dois discos do Big Van: Moondance(de 1970) em 66.º e Astral Weeks (de 1968, tão perto já do meio século) em 19.º. Nada mau, para um registo que, comercialmente, nunca foi além do 55.º lugar do top britânico...
Em boa verdade, qualquer destes álbuns e da esmagadora maioria dos outros, que perfazem o património de Van Morrison, pode continuar a ser ouvido hoje, com o mesmo prazer e sem enfrentar os riscos do final do prazo de validade. Por uma razão elementar: a escolha das canções, bem acompanhada pela escrita do próprio intérprete, continua a ser inspirada, apoiando-se na consistência do saber do protagonista, que conhece todos os standards, todos os nomes suscetíveis de poderem interessar-lhe. Depois, é aquele "pequeno passo" de génio, que se traduz em moldar cada momento a um fraseado próprio, a uma rítmica que transcende lógicas, a um tom de voz que se reconhece à segunda ou à terceira nota. Nestes particulares, faz lembrar Frank Sinatra, nada menos.

Roll with the Punches, para chegarmos ao que aqui nos traz, nada tem de novo - de resto, as últimas vezes que Van Morrison correu atrás da surpresa aconteceram em Irish Heartbeat, disco de 1988 gravado com os seus compatriotas (do lado sul da ilha verde) Chieftains, em que fez emergir despudoradamente as suas raízes celtas, e quando integrou o elenco especial da apresentação de The Wall (Pink Floyd) junto ao que restava do Muro de Berlim, redefinindo à força de voz uma canção tão contundente como Comfortaby Numb.

Aliás, é melhor que não haja sobressaltos - com Van Morrison, cada "prova cega" torna-se uma festa. E, neste disco, há, além dos temas próprios, canções de Bo Diddley, Doc Pomus, T-Bone Walker, Mose Allison, Sister Rosetta Sharpe e - bênção suprema - até de Sam Cooke e Count Basie. Além disso, por aqui se descobrem a guitarra de Jeff Beck, o Hammond de Georgie Fame, a harmónica de Paul Jones e o piano de Jason Rebello. O que significa que, estejam em causa Mean Old World ou How Far from God, Transformation ou Ordinary People (duas das três novas), e, sobretudo, Goin' To Chicago ou Bring It On Home To Me, a melhor solução passará sempre por deixar a música fazer o seu caminho, ligando-a ao passado ilustre de Van Morrison ou descobrindo um dos valores mais insistentes e coerentes da história do rock. Sem pressa - o feitiço vai obrigar a voltar aqui, uma e outra vez.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

LEMBRAR NEWMAN, SEMPRE


Nove anos sem Paul Newman, o actor dos mais belos olhos azuis do cinema.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

40 ANOS


Quarenta anos sem o Rei.
Lido hoje no Diário de Notícias:

Desde 1977 até hoje, foram publicadas 94 compilações discográficas de Presley. O que permite dizer que, 40 anos depois de falecer, ele ainda figura entre os artistas musicais mais rentáveis do mundo. 


sábado, 5 de agosto de 2017

AINDA HÁ ESTRELAS NO CÉU


Há 55 anos morria, segundo Ruy Belo, «a mulher mais bela do mundo.»
A sua morte permanece como uma história muito mal contada.
John Huston disse que foram os filhos da puta dos médicos que a mataram - «eles viciaram-na em pílulas.»
Há quem conclua que os Kennedys estão metidos no desenlace fatal.
Um dia se saberá!!

Legenda: Marilyn fotografia de Eve Arnold, 1960.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

JEANNE MOREAU (1928-2017)


Aos 89 anos, morreu Jeanne Moreau.
Foi muito mais além, mas bastava o extraordinário desempenho em Jules e Jim realizado por François Truffaut, um daqueles casos em que o filme suplanta o livro , para que fique na história do Cinema.
Um filme que arrepiou a minha geração, e não só!


quarta-feira, 7 de junho de 2017

DA MINHA GALERIA


O velho Dino faria hoje 100 anos.
O homem que gostava de ser parceiro, tal como escreve  João Gobern na evocação publicada no Diário de Notícias.

Legenda: fotograma de Rio Bravo, uma das boas passagens de Dean Martin pelo cinema.

sábado, 25 de março de 2017

DA MINHA GALERIA


Aretha Franklin, a fantástica Aretha Franklin, faz hoje 75 anos, número redondo.

Claro que posso dizer: é uma rapariga do meu tempo.

Como nasci em 45, temos três anos de diferença.

João Gobern assina, hoje, no Diário de Notícias, um excelente texto sobre a Diva.

Se a tradição de muitos dos anos mais chegados se mantiver, Aretha Louise Franklin terá alugado para hoje umas quaisquer instalações luxuosas, num hotel ou num clube, na cidade de Detroit. Terá tratado de encomendar um "farnel" farto em gorduras e açúcares, para manter o hábito de se dedicar à soul food. Terá cantores e/ou músicos contratados para abrilhantar mais uma festa de aniversário, daquelas que costuma oferecer a si própria, sem se esquecer de as publicitar para manter aceso o lume de boas (e só boas) notícias a respeito da Rainha do soul. 

E ouçam a pequena, principalmente nas gravações que fez para a «Atlantic».

Tal como a recordo, na tomada de posse de Barak Obama em 2009.






quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

TRINTA ANOS SEM O JOSÉ AFONSO


Trinta anos.
Como é que já passou tanto tempo?
Ficou-nos o seu exemplo, o sorriso simples e franco, a música, as canções.
Inúteis as palavras que possa trazer para aqui.
Neste dia em que a tristeza nos invade, sempre nos envolverá essa tristeza, trago uma das canções do Zeca que só muito tarde descobri, uma canção que aprendi a gostar.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

FEHÉR



A morte de Fehér, no relvado do Estádio do Guimarães, é uma das páginas mais tristes da História do Benfica.

EUSÉBIO DA SILVA FERREIRA


Copiado de A Bola de hoje

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

COMPREENDE, NÃO É?


Mário-Henrique Leiria nasceu a 2 de Janeiro de 1923 e morreu a 9 de Janeiro de 1980.

Há quem diga que morreu de fome, de prolongado abandono. O Luiz Pacheco não concordava e escreveu: Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito. 

Jorge Listopad:

Nada de Passadismos para os «Secos & Molhados», disseram-me.
Por isso hoje começo por Mário-Henrique Leiria que morreu há uma semana. Tão presente. Escritor e poeta que baralhou as cartas de todas as convenções, o humorista de origem melancólica, magíster da ironia mordaz e terna, ao observar o mundo como o fruto surrealista de coincidências artísticas, realmente muito «chateado» com a desordem da ordem.
Lisboeta, nasceu em 1923. Curriculum: Belas-Artes, não acabadas, movimento surrealista, marinha mercante, caixeiro de praça, metalúrgico, caminheiro (estradeiro, como diz Mário de Andrade), Europa Latina, Balcãs, Transibéria (?), Carcavelos,  Carcavelos-hospital.
Autor de poesia, de centenas de textos jornalísticos, de contos, cujo livro Contos do Gin-Tonic em 73, no último marcelismo, foi um best-seller pela qualidade e livre respiração.
Chegaram depois a sua casa e disseram-lhe:
- Mas você não consegue escrever coisas compridas! Isso que faz é uma miséria.
- Coisas compridas, como?
- Bem, romances, crónicas autênticas, ensaios sólidos.
.-Não, isso não sou capaz.
- Então você não é um escritor.
- Pois não. Quem se atreveu a chamar-me tal coisa?
- Desculpe. Mas uma coisa comprida, por favor, não arranja?
- Quando as coisas vão a ficar maiores, deito logo fora. Compreende, não é?

domingo, 8 de janeiro de 2017

POVO QUE CANTA


Há 88 anos nascia em Ajaccio, na Córsega, Michel Giacometti.

Um dia, conheceu em França uma portuguesa com quem acabou por casar.

Vieram passar a lua-de-mel a Portugal e o etnomusicólogo corso acabou, também, por se apaixonar pela terra, pelo canto do povo.


Deixou dito que no Alentejo existia um gosto pelo canto, único no mundo.

Esse canto, em 27 de Novembro de 2014, haveria de tornar-se Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Percorreu o país-de-lés, tendo deixado a maior recolha jamais feita em Portugal sobre música popular e tradicional.


O programa Povo Que Canta, título retirado de uma canção anarquista espanhola - «Pueblo que canta no puede morir» -, transmitido na televisão a preto e branco, foi publicado em DVD pelo jornal Público.


 Em Agosto de 1979, encontrou-se, em Albufeira, com Miguel Torga, encontro que o escritor assim regista no seu Diário:


Não sei que vento o trouxe de terras estranhas. Sei que há muito aportou aqui e que, afortunadamente, criou raízes. Como que a dar-lhes alimento, estuda as várias manifestações da nossa cultura popular, desde a música às danças, aos adágios, à culinária, às próprias mezinhas com que nos curamos. Foi desses tesouros – alguns definitivamente salvos pelo seu carinho – que, de resto, falámos largo tempo, ele a discretear e eu a sentir, emocionado, que tinha diante de mim um livro aberto da pátria. O café era uma Babel. Idiomas de todos os continentes cruzavam-se em todas as direcções. E, na minha aflição nativa, nada me podia dar mais consolo do que encontrar um paroxismo de lusitanidade naquela natureza em boa hora transplantada. Tive a impressão súbita que o Algarve voltava a ser português.

Legenda: murais, em Peroguarda, homenageando Michel Giacometti.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

HÁ TRÊS ANOS


Eusébio da Silva Ferreira, o Rei, morreu há 3 anos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O POETA QUE SE ATIROU PARA O CÉU


No fim das trevas da noite admitia: uma pequena estrela de esperança a brilhar.

Mas naquele começo de um novo ano escolheu a morte.

Como tão certeiro escreveu o Baptista-Bastos: o poeta que se atirou para o céu.

Num qualquer dia do ano de 1999, talvez antes, escrevo com medo de ser tarde, a propósito de fitas, falara das tais luzinhas a brilhar:

Acendem-se já as luzes natalícias e ele escapa-se, no intervalo dos aguaceiros, por entre o empedrado escorregadio das ruas e travessas do bairro, para aparentes portos de abrigo, que buscando a companhia de algumas palavras, mesmo que sejam de ocasião, tentando a cumplicidade de alguns sorrisos, mesmo que sejam de encomenda. Já pouco mais pede, perdidas ilusões, desfeitas quimeras.

Eduardo Guerra Carneiro, no dia 2 de Janeiro de 2004, foi encontrado sem vida junto à casa onde morava sozinho na Travessa do Abarracamento de Peniche, ali ao Bairro Alto que ele tanto amava e conhecia tão bem.


AUTO-RETRATO

Quantas horas não choras a pensar
em ti — quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado — assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes,
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.


Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

domingo, 25 de dezembro de 2016

O QUE RESTA DO MEU SONHO AMERICANO


Hoje, dia de Natal (que notícia mais estranha, ouvida a olhar para o pinheiro), morreu a alegria ela mesmo, a melancolia ela mesmo, a esperança ela mesmo, a geometria exacta do lirismo: morreu Charlie Chaplin. Realmente, só faltava esta: morrer o Chaplin. Não era possível, realmente, descobrir notícia mais interessante, realmente, para dar no dia de Natal, do que nos virem dizer que morreu o Chaplin. O que vale, menino, é que já nada nos surpreende.
Cá por mim, íntimo de Charlot até à última costela, que passei com ele as passas do Algarve, já nem ligo. O meu amigo Charlie, ninguém o mata. É o matas. Seria matar esta gargalhada que ainda hoje dou, esta fraternidade de estar de pé, para estar de pé. Nisso, sou intransigente. Ninguém mata o Charlot porque não quero. Ninguém mata as luzes da cidade, ninguém mata as quimeras de oiro.
Estou aqui para defender esta ideia, defendê-la contra a morte. Nem que tenha de pedir a pistola emprestada ao Bogart, nem que tenha de não sei quê.
Porque é isto que resta do meu sonho americano.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas