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quinta-feira, 4 de junho de 2020

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Neste nº 9 de Notícias do Bloqueio encontramos poemas de José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz, José Fernandes Fafe e poemas do poeta búlgaro Nicolau Vaptzarov, traduzidos por Egito Gonçalves.

O poema de Pedro Alvim chama-se Lisboa e encerra quadros poéticos do Cais do So- dré, Praça de Camões, Rossio, e Alcântara.

Alcântara denuncia a morte do pintor José Dias Coelho, pela Pide, na Rua da Creche, em 19 de Dezembro de 1961:

Há quem tombe por um rio
Impetuoso e comum:
Alcântara dos tiros cegos
Alcântara sessenta e um.

Na etiqueta José DiasCoelho deste blogue, pode encontrar outras evocações poéticas, e não só, do assassínio de José Dias Coelho.

Uma delas é o poema A Morte Saíu à Rua, letra e música de José Afonso, incluído no seu álbum Eu Vou Ser Como a Toupeira, editado no Natal de 1972

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pr'a qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o rei morreu!

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 9

Direcção literária: Egito Gonçalves, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Desenho: Francisco Relógio
Porto, Março de 1962

A Luta

A luta é implacável e feroz;
Aa luta é épica, como se diz.
Eu já tombei, mas outro tomará o meu posto.
É tudo, nada conta a vida de um homem.

Fusilado e a seguir a fossa.
Tudo isso é lógico e bem simples.

Mas nas futuras tempestades
encontrar-nos-emos ainda juntos,
meu povo, porque nos amámos.

Nicolau Vaptzarov

Tradução de Egito Gonçalves

sábado, 7 de setembro de 2019

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Neste número 7 das Notícias do Bloqueio encontramos poemas de:

Joaquim Namorado
João Rui de Sousa
Alexandre O’ Neill
Jean Todrani, poemas traduzidos por Egito Gonçalves

Em separata, um desenho de Domingos Pinho a ilustrar o poema Ode de Mário Dionísio.



OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 7


Direcção literária: Egito Gonçalves, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Desenhos: Domingos Pinho
Porto, Março de 1960

Soneto

Sonetos garantidos por dois anos.
E é muito já, leitor que mos compraste
Para encontrar a alma, que trocaste
Por rádios, frigoríficos, enganos ...
Essa tristeza sobre pernas faz-te
Temeroso e cruel e tonto e traste.
Nem pior nem melhor que outros fulanos,
Não vês a Bomba e crês nos marcianos   ...
E é para ti que escrevo, é para ti
Que um verso lanço — O mão! — como o destino,
e nele ponho mesura, desatino,
Rasgo, invenção, lugar-comum, protesto?
Antes para soldado ou para resto,
Escroto de velho, ronco de suíno ...

Alexandre O’ Neill

quinta-feira, 19 de julho de 2018

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Na Nota Preliminar que Mécia, mulher de Jorge de Sena, escreveu para os 80 Poemas, conta que este projecto da tradução dos poemas de EmilyDickinson, era um velho sonho de Sena.

Em 1962 destinavam-se a ser publicados em separata para a revista Bandarra, organizada por Egito Gonçalves, mas nunca foram publicados.

Em 1967, com um acréscimo de poemas traduzidos, foi enviado à Portugália Editora «onde não teve melhor sorte».

Em Julho de 1968 os direitos autorais foram cedidos à Editorial Inova mas tudo ficou no esquecimento.

Em Janeiro de 1978 as Edições 70 prontificaram-se a publicar o livro, mas o poeta viria a morrer em Junho desse mesmo ano.

Só em Outubro de 2010 os 80 Poemas de Emily Dickinson, traduzidos por Jorge de Sena, teriam a sua publicação incluídos nas Obras Completas que a Guimarães passou a publicar, tarefa a que a Editora se dedicou sem grande carinho e entusiasmo. Diga-se.

Que o projecto era muito querido a Jorge Sena, provam-no as muitas referências feitas a essas traduções que se podem ler na Correspondência que trocou com Eugénio de Andrade., ao todo 22 notas.

A Inova chegou a andar às voltas com os poemas de Dickinson, juntamente com a tradução dos poemas de Cavafy. Estes saíram, os de Dickinson não tiveram essa sorte. E como Sena tereia ficado feliz com essa publicação.

Em 3 de Junho de 1969, Sena escrevia a Eugénio:

«Mas estou francamente inquieto até hoje não recebi, de ti ou da Inova, notícia de ter chegado a Emily Dickinson, que mandei pouco antes do Cavafy e nem a respeito deste ou dela recebi da Inova qualquer comunicação. Que se passa ou não se passa?»

Em 22 de Dezembro de 1970, mais um lamento:

«E era preciso que essa Inova se lembrasse da minha pobre Emily Dickinson que há tantos anos sempre se vê editorialmente preterida.»

quinta-feira, 22 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 3

Direcção literária: Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Xilogravuras: Altino Maia
Porto, Dezembro de 1957

Aos Homens Que Virão
Trad. M.D.E.

Nós, que haveis de entender, no futuro, o trabalho
como o doce sabor da desejada festa,
quando ele for para vós arte, paixão, vitória,
- quando o poeta vê no seu próprio poema –

pensai, então, em nós com carinhosa estima;
em nós que, trabalhando como bestas de carga,
entregues a tarefas monótonas, iguais,
deixamos que a tristeza marcasse o nosso olhar.

Ah!, como vós – sabei – nós amamos a vida
e, apesar disso, deste inferno, não quisemos
chorar lágrimas vãs, deixar morrer a esperança.

Ah, sim! Profundamente amamos a alegria,
como vós – as pequenas e grandes alegrias
de que a maior foi abrir-vos o caminho.

Poema de Guillevic

sábado, 27 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Atravessa-nos um rio de palavras: com elas eu me deito, me levanto, e faltam-me palavras para contar... 

Egito Gonçalves

Legenda: pintura de Albert Moore

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Sonhar a Terra Livre e Insubmissa

Egito Gonçalves/Luís Veiga Leitão/Papiniano Carlos
Desenho de Augusto Gomes, Vinheta de José Rodrigues
Capa: Armando Alves
Colecção Duas Horas de Leitura nº 16
Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

Caminhos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
               caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
                caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
                caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.                                                      
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
                 caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas

                 caminhemos serenos.

Papiniano Carlos

sábado, 30 de setembro de 2017

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Em tempo de ditadura, apesar de tudo, faziam-se coisas muito interessantes.

Estes dois volumes, Poesia 70 e Poesia 71, reflectem esse interesse.

Iniciativa do poeta e editor Egito Gonçalves que, para o primeiro volume teve a colaboração de Manuel Alberto Valente, e para o segundo a colaboração de Fiama Hasse Pais Brandão.

No primeiro volume publica-se uma espécie de prefácio a que os autores chamaram «Alguma palavras para dar uma ideia…» e em que dizem ao que vêm e falam  sobretudo de uma «amostragem» da poesia publicada em língua portuguesa, na Metrópole, no ano a que se refere.

Não foi planeada exclusivamente como uma antologia de poemas, mas sim como uma panorâmica.

Os poemas foram procurados em livros que se publicaram durante esses anos, em suplementos literários e juvenis de jornais que se publicavam nas cidades e na província.

Um trabalho interessante mas repleto de dificuldades, problemas diversos e algumas rasteiras, próprias deste país de poetas, ou como diziam algumas más-línguas, de escrevinhadores de versos.

Não tenho conhecimento que tivessem sido editados volumes referentes a anos seguintes.

Alguns antologiados, de que foram retirados poemas aparecidos em suplementos juvenis, alinham ao lado de nomes consagrados e alguns desses novos autores vieram a realizar outros voos no panorama da poesia, e não só, portuguesa.

Anos mais tarde, a editora Assírio &Alvim, editou alguns volumes, a que chamou Resumo, também amostragens, do que se publicou durante os anos de 2009 a 2013.

Desconheço se esses volumes tiveram posterior continuação.

Os poemas foram escolhidos por José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queiroz, Manuel de Freitas (anos 2009, 2010 e 2013) e Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós, Manuel de Freitas (anos 2011 e 2012.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Girassóis, rodam sobre si mesmos, indicam o ponto onde a luz se abre.

Egito Gonçalves em Os Arquivos do Silêncio

sábado, 15 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO


Descem até à boca 
por algum motivo as  lágrimas.

Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha

Legenda: fotografia de Francisco José de Almeida

quinta-feira, 9 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


O importante é saber onde dói.

Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha

Legenda: pintura de Van Gogh

quinta-feira, 11 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


12 Poemas Para Vasco Gonçalves

António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Casimiro de Brito, Eduardo Olímpio, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Gastão Cruz, J.J. Letria, José Barreiros, José Ferreira Monte, Maria da Graça Varela Cid, Maria Teresa Horta
Com um cartaz de Armando Alves e um desenho de José Rofrigues
Colecção O Oiro do Dia nº 9
Editorial Inova, Abril de 1976

A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.

A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.

Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.

Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de Inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.


Armando da Silva Carvalho

terça-feira, 28 de abril de 2015

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


Série de nove "fascículos de poesia" publicados no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direção de Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro. Incluíam poesia empenhada, que se insurgia contra o mundo circundante (a violência, a injustiça, a falta de liberdade) e afirmava o valor da solidariedade com o próximo.
A designação da revista, retirada do título de um poema de Egito Gonçalves, publicado no 4.° fascículo de Árvore, remete para um programa de poesia de resistência, aludindo metaforicamente ao cerco a que estavam submetidos os intelectuais portugueses.
Sem apresentar texto programático, nem textos de crítica ou teoria poética, a publicação reúne criação poética de autores com opções estéticas diversas (além da direção, Jorge de Sena, Casais Monteiro, Miguel Torga, Afonso Duarte, António José Fernandes, Vasco Costa Marques, Mário Henrique Leiria, Maria Almira Medina, João Ribeiro Melo, Orlando da Costa, José Fernandes Fafe, António Reis, Daniel Filipe, Joaquim Namorado, João Rui de Sousa, Alexandre O'Neill, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz), mas que colaboram sistematicamente com composições subordinadas a um intuito de denúncia e combate. Cada fascículo incluía, ainda, nas últimas páginas, tradução de poetas estrangeiros (Brecht, Guillevic, Stephan Hermlin, Jorge Carreara Andrade, Jean Todrani, Nicolau Vaptzarov). Os fascículos 6 e 8 são dedicados a poetas moçambicanos e angolanos.

Da Infopédia, Porto Editora

Este é o poema Notícias do Bloqueio de Egito Gonçalves, do livro A Viagem com o Teu Rosto (1958) e reunido em Os Arquivos do Silêncio:

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
             e a esperança reproduz-se 


Esta é a canção Let My People Go cantada por Paul Robeson e referida no poema de Noémia de Sousa Deixa Passar o Meu povo

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Diários

Jorge de Sena
Introdução: Mécia de Sousa
Edições Caixotim, Lisboa, Outubro de 2004

Recebi uma carta do Margarido em que me pede colaboração para uns cadernos que pensa publicar com o Egito Gonçalves. Como hei-de dar a uns e recusar a outros? – E quando é que a vida me permitirá que trabalhe em obra e não em traduções e artigos para ganhar dinheiro mísero, não perder contacto e justificar a oferta de alguns livros que não posso comprar.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PAPINIANO CARLOS (1918-2012)


Tinha 94 anos.

Nasceu em Lourenço Marque mas desde muito novo veio para o Porto onde cimentou uma grande amizade e companheirismo com a intelectualidade democrática da cidade, principalmente com os poetas Luís Veiga Leitão e Egito Gonçalves, ambos já falecidos.

Conheço-o de poemas dispersos em antologias e publicações como Notícias do Bloqueio e Cadernos do Meio-Dia.

Da poesia de Papiniano Carlos, disse a escritora Luísa DaCosta:

Servido por uma linguagem directa em que as palavras têm a pureza da significação primeira, a poesia de Papiniano Carlos, forma encontrada para um conteúdo de dor e de sonho.

Em dias tristes como este, nada como deixar os seus poemas.

Caminhos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,

já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.



Os Ciclistas

Com um surdo rumor de escavadora
ressoa no subsolo a tua voz.
Muitos tapam os ouvidos delicados.
Outros escondem-se para a não ouvir.
E outros estremecem de pavor.
Mas, rápidos, os ciclistas pedalam
na bruma dos subúrbios ao teu encontro.
Rosto baixo, mãos no guiador, pés
bem firmes nos pedais, geram
o movimento, o ritmo alado
das máquinas frágeis que cavalgam
ao amanhecer. Perpassam como espectros
sob a bruma e juntam-se, confluem,
avançam como um rio poderoso
sobre a cidade adormecida.
Os ciclistas. Os que erguem os andaimes
E fazem girar os fusos dos teares.
Os que movem as gruas. Os que transportam
O dinamite nas mãos calosas.
Os que não sabem envelhecer de tédio
à mesa do café nem vivem de mercadejar
preservativos, palavras, casas pré-fabricadas.
Os que não sonham morrer em glória
como jovens deuses trespassados na batalha.
Os que não hão-de apodrecer, como muitos de nós,
roídos de lepra e desespero.

Esses merecem bem a tua voz, Orfeu.

Legenda: estes poemas de Papiniano Carlos são retirados da antologia Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, que também contém poemas de Egito Gonçalves e Luís Veiga Leitão, Editorial Inova, Porto Fevereiro de 1973 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

POSTAIS SEM SELO


Difícil é esperar
quando sabemos
nada haver a esperar.

O eco de uma lágrima não basta
para dar vento à sementeira.

Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha, Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril 1970

Legenda: quadro de Balthus

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PRIMUS INTER PARES


Há no Porto um café onde se pensa. Há no Porto um café onde se escreve. Há no Porto um café onde se discute. Há no Porto um café onde se é intelectual pelo preço acessível, a qualquer bolsa, de meia de leite e torrada bijou.
Tem um ar recatado, simples: o aspecto, doce e calmo, de um domingo de Novembro. Mas não se iludam, amigos: confesso que este café me preocupa e intimida. Que me suam as mãos, quando lá entro. Que me sinto mesquinho e sem valia, quando me atrevo a mergulhar na mansuetude quase líquida da sala.
Nesse
café do Porto, os intelectuais contam-se pelo número de clientes. Há-os verdadeiros e de pacotilha, circunspectos e irreverentes, académicos e revolucionários. Há-os de todas as escolas e matizes, novos, velhos, morenos, bexiguentos, altos, ínfimos, com rendosas conezias ou dificuldades de dinheiro. Escrevem, pintam, dissertam, analisam, definem. Sobretudo definem, quer dizer: classificam de acordo com a morfologia conveniente, etiquetam, intitulam, fossilizam. É um café virado do avesso, onde as janelas dão para o íntimo da pequenez das coisas: só por se estar olhando a rua através das cortinas ondulantes, a rua e o seu sentido hieroglífico tornam-se perigosamente inexistentes. Depois, quando se vem, de novo, para a alegria do sol, é indispensável e urgente reinventar a rua sem limites até ao mais inútil e inofensivo dos disfarces. E para quê, afinal?
Pois, senhores, é bem fácil a resposta: para que, à mesma hora do mesmo dia igual, qualquer cliente possa fechar os olhos à presença do mundo, pensando, discutindo, escrevendo. E registe-se, para uso dos iletrados irrecuperáveis, e nosso próprio conforto espiritual, que isto de latim é uma bela coisa.

Daniel Filipe em “Discurso Sobre a Cidade” Sagitário, Porto 1957


Legenda: são lindíssimos os cafés do Porto. Alguns ainda resistem.
Segundo o jornalista Germano Silva, o café que Daniel Filipe invoca nesta crónica, é o Café Rialto, que já não existe. Ficava na Praça D. João I  e uma das tertúlias reunia o Daniel Filipe, o Egito Gonçalves, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão, o António Rebordão Navarro, às vezes o José Augusto Seabra. Mantinham na altura uma colecção de poesia: Notícias do Bloqueio.
Andei à procura de uma fotografia do Rialto, mas não encontrei.
A que ilustra o texto é do Café Majestic, um ex-libris da cidade.