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terça-feira, 12 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS



O Vagabundo Decepado

Egito Gonçalves
Capa. Álvaro Portugal
Desenho: António Areal
Edição Noticias do Bloqueio, Porto 1957

A todos os que esperam de mim um movimento impetuoso,
discursos em pedestais, vozes de comando,
presto esta informação: - Sou um vagabundo decepado! 
Viajo sem cabeça e sem braços na paisagem que me dão,
limitado por um rio a norte, um oceano a sul,
e a luz metálica de um coração a noroeste...
Venho assim desde a infância. É inútil lutar
pois fiz das esperanças barcos de papel
e perdi-as, muito novo, debaixo de uma ponte.
Vagabundo que apenas sobrevive
escrevo relatórios, versos, diagnósticos diários
do que encontro nas esquinas e envenena os corações.
Atravesso as ruas com chagas de néons
e escrevo para ti que um dia me apareceste,
desembarcada de um combóio, para oferecer à minha vida
mais um motivo de alegria e de desânimo...
e para ti, meu amigo de outros tempos,
que hoje me enfrentas com o dedo no gatilho...
para os poetas que cavam a angústia com as unhas
e com elas erguem verdadeiros e fortes alicerces;
para todas as bocas sem doçura, beijos sem harmonia,
mulheres a quem o choro cavou leitos de rio sobre o rosto,
sexos que se deixam deslumbrar pelo cheiro a gasolina
e viajam em automóveis que conduzem à desfloração...
para todos os homens que utilizam a noite serviçal
fabricando com ela flechas para fender a neblina;
e para ti, meu amor, cuja presença
é uma aguarela a escorrer nos objectos...
escrevo para todas as coisas solitárias e inúteis
que amo sem compreender e desenham ternura nos meus dedos...
Mas não esperem nada. Sou um vagabundo decepado,
caminhando em nevoeiro como uma lenda,
apontando num livro as coisas que me surgem
e que são belas e estranhas como flores por descobrir,
religiões por inventar, ilhas por emergir,
a viagem com o teu rosto, um vestido sem habitante,
a feiticeira queimada em 1570... 
 Sou apenas um fantasma vagabundeante e sem cabeça,
arrancado a uma lenda bretã vinda numa arca,
e que alicerça o amor de uma velha maneira
- percorrendo com um dedo o canal entre os teus seios. 



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Memória de Setembro

Egito Gonçalves
Capa: Álvaro Portugal
Edição do Autor, Porto, 1960

Porque te disse no momento exacto a palavra necessária – o
vagão dos prisioneiros pôde partir sem ti

Porque estabelecemos o mapa detalhado dos estreitos carreiros
que atravessem o pântano, a complicada mas segura rede –
erguemos ao abrigo o nosso facho de sangue

Porque soubemos não ficar de mãos vazias à espera da morte e
rasgamos a tempo as cartas de solidão que os correios entre-
gavam – escapamos às frias rajadas de vento norte e desespero

Porque soubemos construir as pontes que vadeiam o medo e
caminhar indiferentes ao piscar dos semáforos – conseguimos
encontrar a água potável, o corta-arame, a clareira onde tínhamos
entrevista

Pacientemente edificamos o tempo com o esforço dos olhos e
velamos para dar à felicidade as boas vindas

sábado, 27 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Sonhar a Terra Livre e Insubmissa

Egito Gonçalves/Luís Veiga Leitão/Papiniano Carlos
Desenho de Augusto Gomes, Vinheta de José Rodrigues
Capa: Armando Alves
Colecção Duas Horas de Leitura nº 16
Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

Cm Palavras…

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço. 

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra. 

Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar... 

Egito Gonçalves

sábado, 30 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Poesia 71

Selecção de Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves
Capa: Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Junho de 1972

Dois Poemas

I

Nem sei estimar das tuas vestes sem costura
o fito e a alba
ou louvor da tala dos instantes
um só vermelho.
pelas moradas ledas e subtis
à passagem dos castos e escolhidos
                                                                    sustenidos
dos lidos
nada soube
que mais que o sáurio verde não prossiga.
Nem escolhido é o signo por lavrado
Entre a testa e o chão
No húmido verdor dalguma víscera.
Se casas são plantadas com perícia
e arrematados autos lautos
louvados por tão cautos
seja a lhaneza desta a palha da debulha
o verde devolvido em amarelo.
É que não sei dos nomes com firmeza
mais que o início quedo e boçal talo
nem companhia posso ou artefactos
que o langor da lagarta não assista
que não consinta o emergir dos catos.

II

No entretanto do tempo é que o verde resiste
o interstício manso a prova do contínuo
que quebra o passo e mais que o acrescenta
o assegura; se a roda começou
e do metal a terra é estreita         diminui
e de redonda à recta se afeiçoa
pelo verde o sabemos      no intervalo
dum ponto a outro ponto
do recado
da boca a outra boca   da fissura
entre o nome e o feito vertical.
No caule o facto osso e a semente
no espaço a obra de metal e a folha crua.


(Poemas de Maia Velho da Costa publicados no suplemento «Literatura e Arte» de A Capital)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Poesia 70

Selecção de Egito Gonçalves e Manuel Alberto Valente
Capa: Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Junho de 1971

Devolvem-me os canais em que circulo
os cartazes do pranto as unhas tensas
cruzando sobre a fronte o desengano
uma chuva de fogo para a noite

Dizendo noite a própria noite vela
para imitar o dia destruí-lo
uma lata vazia um grito gasto
onde a sopa arrefece

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra

Dizendo dia crio a melhor forma
de revender a noite insinuá-la
fio de raiz roendo-me os tecidos
uma estátua crescendo

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra.

Vasco da Costa Marques do livro Um Beco no Espaço

terça-feira, 29 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Amor Desagua em Delta

Egito Gonçalves
Capa: Armando Alves com um desenho de José Rodrigues
Colecção Coroa da Terra nº 1
Editorial Inova, Porto, Dezembro de 1971

Sitiados


Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.

Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.

Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.

Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Hiroxima
Antologia Poética

Organização e Prefácio de Carlos Loures e Manuel Simões
Colecção Nova Realidade nº 3
Edição dos Coordenadores, Tomar, 1967

A Bomba

O primeiro sopro arrancou-lhe a roupa;
o imediato levou também a carne.
Ao longo da rua
durante alguns segundos correu o esqueleto.
Mas a rua já não estava,
estava toda no ar;
de lá caíam bocados de prédios, bocados
de crianças, restos de cadilaques…
O esqueleto não compreendia sózinho
aquela situação:
deixou-se tombar sobre algumas pedras radioactivas
e permitiu na queda o extravio de alguns ossos.

(Caso curioso: o coração
pulsou ainda três ou quatro vezes.
entre o gradeamento das costelas.)

Egito Gonçalves

domingo, 12 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Luz Vegetal

Egito Gonçalves
Capa: Armando Alves
Limiar, Porto, Dezembro de 1975

Falo alto para sentir o som do que escrevo, a vida das
palavras que arrancam do sal que mantenho na ferida.

Mas não pronuncio o teu nome, És um ser abstracto
no fundo da dor.

Não é para ti. Nem por ti. De um fogo incinerado
Extraio vocábulos insepultos.

O mistério é pensar que se ainda existes

                                    és agora alguém que não conheço. 



Nota do autor:   Luz Vegetal inclui um ciclo de poemas escrito em um ano: de Setembro de 1971 a Setembro 1972. Este poema enviado para um jornal de província,  foi proibido pela censura.  

sexta-feira, 22 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Fósforo Na Palha

Egito Gonçalves
Capa: Fernando Felgueiras
Cadernos de Poesia nº 11
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril 1970

Um dia finalmente amarrarei
os teus joelhos entre duas mãos
as minhas mãos então serenas
para que não possas caminhar sem mim

quinta-feira, 10 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS


Os Arquivos do Silêncio

Egito Gonçalves
Prefácio: Óscar Lopes
Colecção Poetas de Hoje nº 10
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

MORTE NO INTERROGATÓRIO

Às três da madrugada eu dormia sem sonhos.
Minha mulher dormia a meu lado. Eu tinha
uma das mãos pousada sobre a sua coxa.

Uma lua de outono brilhava sobre as ruas;
um ar agreste preparava as noites para o inverno.

Às três da madrugada os companheiros
dormiam quase todos. Um deles, porém,
regressava, fatigado, de um trabalho nocturno.

Era a hora dos fogos-fátuos sobre as campas;
a hora em que os exilados buscam o sono em comprimidos.


Às três da madrugada sua mulher ainda velava.
Embrulhada num xaile tinha um livro entre as mãos;
insone, acendera a luz havia meia hora.

Na sala o interrogatório atravessava o tempo;
lâmpadas de mil vátios tornavam a vida irrespirável.

Às três da madrugada o coração fraquejou
e os dois comissários ficaram perante um homem morto
e dois cinzeiros com trinta pontas de cigarros.

domingo, 8 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Poesia Espanhola do Após Guerra
Selecção e tradução, prefácio e notas de Egito Gonçalves
Capa: João da Camara Leme
Portugália Editora, Lisboa s/d

Notícia ao Entardecer

Devia ter-te escrito há tempos uma carta
dizendo entre outras coisas: “na província chove,
minha irmã foi para freira,
eu perdi o emprego”.
Possivelmente responderias com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Lamento isso da tua irmã
mas alegro-me com a chuva
que é boa para as colheitas”.
Há tempos, amigo, devia ter-te escrito
para te contar de coisas de importância:
por exemplo que estou bastante só
depois daquele amor;
por exemplo que durmo muitas horas
para me esquecer de que existo;
por exemplo que estou bastante triste
mas que em algum país haverá eleições
antes do mês de Janeiro.
Terias respondido com a tua letra:
“Não me agrada o teu estado” ou “é preciso
que sacudas o tédio”.
Terias respondido com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Eu conheci um senhor que estava morto...”
Ter-me-ias dito que não importa nada,
não importa estar triste ou solitário
se na província chove,
se as colheitas foram boas este Verão
haverá por aí dinheiro em abundância.
Dir-me-ias: “Amigo, o que importa
é ter vontade; quem quer pode”.
(Eu conheci um senhor que estava morto...)
O tal senhor que estava morto, estava
somente um pouco ferido. Disseram-no
os jornais. Até recordo a data.
Ressuscitou, é certo, mas estava
somente um pouco ferido.
Em troca sinto-me destruído, descentrado;
não tenho remédio; passeio,
vou à taverna e escrevo
cartas que nunca saem de Madrid.
Não falo com ninguém, nunca pergunto
como acabou a festa.
Diz-me se ainda é possível escrever cartas.
Diz-me se ainda é possível estar mais morto.

Gabino Alejandro Carriedo


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

domingo, 10 de outubro de 2010

OLHAR AS CAPAS


Poemas a Guevara

Selecção e tradução de Egito Gonçalves
Capa de Armando Alves
Colecção  Os Olhos e a memória nº 1
Editora Limiar, Porto Janeiro 1975

Che

Eu tive um irmão
Não nos vimos nunca
mas não importava.

Eu tive um irmão
que andava na selva
enquanto eu dormia.

O amei ao meu modo,
lhe tomei a voz
livre como a água,
caminhei às vezes
perto de sua sombra.
meu irmão desperto
enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me
por detrás da noite
a sua estrela eleita.

Júlio Cortázar