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domingo, 24 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



As Mulheres de Messina

Elio Vittorini
Tradução: Nunes Martinho
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 92
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1966

Eu sei como pode imaginar este nosso país quem nunca o percorreu e dele conheça somente a sua alongada figura numa página do atlas; um planalto de secas terras avermelhadas entre dois mares que estão a ocidente e a oriente, árido, sem uma árvore, queimado pelos ventos e pelo hálito do sol, pelo hálito do sal; e assim é verdadeiramente nas grandes extensões, quando se sobe acima dos trezentos metros em viagem, entre uma e outra das suas cidades com torres e cúpulas, árido por grandes extensões, nu por grandes extensões, alto com terras avermelhadas entre Emília e Toscana ou entre Siracusa e Roma, tal como o deserto é o deserto entre um e outro dos seus oásis.
Ao longo do deserto os homens são viajantes, e do mesmo modo no nosso planalto
as gentes são nómadas, andam por aqui e por ali, pelo sul em direcção ao norte ou do norte em direcção ao sul em compridos comboios, donde se observa, permanecendo de pé três ou quatro dias de seguida, cinco de seguida, o que esta terra é em qualquer parte e que no seu todo se chama Itália, com lugares tão diferentes um dos outros como bari e Bolonha, Catanzaro e Génova.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Cravo Vermelho

Elio Vittorini
Prefácio: Elio Vittorini
Tradução: Sousa Victorino
Capa: Infante do Carmo
Colecção Miniatura nº 125
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Havia já muito tempo que não ousava brincar daquela forma estrepitosa. Tinha olhado para mim uma rapariga do «segundo» e eu, sem mais, deixara de o fazer.
Era filha de um coronel. Parecia-me lindíssima, embora usasse um chapelinho que lhe escondia metade da cara. Ia de casa para o liceu e do liceu para casa com uma mocetona de largas ancas, do mesmo ano, que lhe dava sempre a direita e parecia sua criada.
Logo que me senti olhado não hesitei; pus-me a segui-la, mantendo dez passos de distância, e acompanhava-a em todas as saídas. Voltava-se, em todo o percurso, uma única vez: quando chegava à esquina de rua onde ficava a sua casa. À tardinha voltava a passar debaixo das suas janela, a maior parte das vezes de bicicleta, e a música fluía subterrânea de dentro da longa fila de altos muros floridos. Também lhe escrevi, mas não me respondeu. Apenas, porque naquela minha carta lhe chamara Diana, me mandava com frequência e misteriosamente dizer, por qualquer rapariga do meu ano, que Diana me enviava cumprimentos.
Um dia mandou-me um cravo vermelho, fechado num sobescrito.
Encontrava-me na aula, enquanto a professora de línguas modernas escandia palavras de la Fontaine. Ama-me, pensei, dando um salto. A professora fritou-me que repetisse o último verso e eu disse, pesando na que me queria bem:
-Mas nem por sonhos!
Fui expulso da aula por todo o resto da lição e fui postar-me atrás da porta do «segundo», onde ela estava. Esperava ouvir-lhe a voz; não a conhecia mas supunha poder reconhecê-la. Ama-me, pensava. E a voz «dela» elevou-se enquanto a voz dolente do padre que ensinava grego a todo o Liceu, interrogava. Era uma voz como a duma criança que despertasse, com um longo «oh» de maravilhado recolhimento no início de cada resposta.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

OLHAR AS CAPAS


Gente da Sicília

Elio Vittorini
Tradução: Rosália Braamcamp
Capa: Bernardo Marques
Colecção Miniatura nº 112
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Eu andava, aquele inverno, sacudido por abstractos furores. Não direi quais, não é isso que me proponho contar. Mas é preciso dizer que eram abstractos, não heroicos, não vivos; de qualquer forma furores, por ver perdida a espécie humana. Isto há muito tempo, e andava com a cabeça caída. Via comunicados gritantes nos jornais e baixava a cabeça; via os amigos, durante uma hora, duas horas, e estava com eles sem dizer uma palavra, baixava a cabeça; e tinha uma rapariga, uma mulher que me esperava, mas nem sequer com ela dizia palavra, também baixava a cabeça. Ia chovendo e passavam os dias, os meses, e eu tinha os sapatos rotos, a água entrava-me nos sapatos, e não havia mais nada além disto: chuva, massacres nos comunicados dos jornais, e água nos meus sapatos rotos, amigos mudos, a vida em mim como um negro sonho, e nenhuma esperança, apenas calma.
O mal era esse: a calma na não esperança. Julgar a espécie humana perdida e não sentir desejo de fazer qualquer coisa contra isso, vontade de perder-me com ela, por exemplo.
Andava agitado por abstractos furores, mas não no sangue, e estava calmo, não tinha vontade de nada. Não me importava que a minha rapariga me esperasse; estar ao pé dela ou não, ou folhear um dicionário era para mim o mesmo; e sair a ver os amigos, os outros, ou ficar em casa era também para mim o mesmo. Estava calmo; era como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem tivesse jamais sabido o que significa ser feliz, como se nada tivesse a dizer, a afirmar, a negar, nada de meu para pôr em causa, e nada a ouvir, a dar, e nenhuma disposição de receber, e como se em todos os meus anos de existência nunca tivesse comido pão, bebido vinho ou café, nunca tivesse estado na cama com um rapariga, nunca tivesse tido filhos, nunca tivesse dado um murro em ninguém, ou não julgasse tudo isto possível, como se nunca tivesse tido uma infância na Sicília entre as piteiras e as minas de enxofre, nas montanhas; mas revolviam-se esses abstractos furores, e achava a espécie humana perdida, baixava a cabeça. E chovia: eu não dizia palavra aos amigos, e a água entrava-me nos sapatos.

domingo, 11 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Consideram-se Mortos e Morrem

Elio Vittorini
Tradução: José Terra
Capa: Luís Jardim
Colecção O Livro de Bolso nº 7
Portugália Editora, Lisboa s/d

O avô volta-se então, do limiar que alcançou entre as árvores. À sua direita, acende-se no céu já claro o olho vermelho do semáforo. Ele ergue a sua bengala e, agitando-a, diz-nos adeus; e a luz vermelha do semáforo apaga-se, volta a acender-se.
- Nós também somos elefantes – diz-nos a minha mãe.
E, dizendo isto, impede-nos de correr atrás do avô a fim de trazê-lo para casa. Volta a entrar na cozinha, nós entramos com ela, e, à luz eléctrica que empalidece com a claridade do dia, o seu rosto mostra-se sorridente.
- Não percebeis patavina – diz-nos – Não é o princípio da noite. É o fim.
Aponta-nos a hora do velho relógio de parede.
-- São seis e meia, vedes? Já os operários atravessam o parque, dirigindo-se para o trabalho. Hão-de encontrá-lo e trazer-no-lo. Mas se lhe dá na telha, entretanto!...

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Os Homens e os Outros

Elio Vittorini
Tradução: Elena Ricci Pinto e J. Wilson Pinto
Capa: António Domingues
Colecção: Os Livros das Três Abelhas nº 9
Publicações Europa.América, Lisboa s/d

«Não é preciso», disse o ancião, «chorar por eles.»
«Não?», disse Berta.
«Não é preciso chorar por nada que acontece nos nossos dias.»
«Nem pela ofensa? Nem pela dor?»
«Não, minha filha: nem pelo sangue que corre nos nossos dias.»
«Nem pela ofensa? Nem pela dor?»
«Se choramos aceitamos. É preciso não aceitar.»
«Os homens são assassinados e não é preciso chorar?»
«Se os choramos perdemo-los. É preciso não perdè-los.»
»E não é preciso chorar?»
«Certamente que não! Que fazemos se choramos? Tornamos inútil tudo o que fizeram.»