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quinta-feira, 7 de março de 2019

A VIDA COMO UM GRANDE ROMANCE


Chegamos à última passagem da Leitura do Diário Volúvel de Enrique Vila-Matas:

Procuro o recolhimento, porque a literatura costuma ser mais interessante do que a vida. Não sei se é paradoxal, mas gosto imenso da vida, porque, digam o que disserem, é parecida com um grande romance.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

QUANDO O COMBOIO PASSA


Como dizia Erik Satie, viemos ao mundo muito jovens num tempo muito velho. E é ao mesmo tempo – revela-nos Calasso – ao que Kafka faz alusão na breve e misteriosa frase solta que abre os seus Diários: «Os espectadores ficam rígidos quando o comboio passa.» O comboio é o tempo que não nos permite compreender a sua forma. É então inevitável ficar rígido, enquanto o observamos: sinal de uma última resistência.

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

DEVERIA ESTAR A VIVER EM NOVA IORQURE


Sim, irei viver para Paris a pensar – como Pessoa quando estava em Sintra e queria estar em Lisboa, embora quando estivesse em Lisboa quisesse estar em Sintra – que deveria estar a viver em Nova Iorque.

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

COMEÇOS DE LIVROS


Até agora, o começo que mais me tinha impressionado era o de O Estrangeiro. Li-o nos tempos da minha mais inicial juventude e sem que ninguém me avisasse do que ali me esperava: «Hoje, a mamã morreu. Ou talvez ontem, não sei.» Não se me escapa que esse início está considerado um dos melhores da novela contemporânea. Vem-me outro à memória, de leitura mais recente: «Fui cordialmente convidado para fazer parte do realismo visceral. Aceitei, naturalmente. Não houve cerimónia de iniciação. Antes isso» (Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens). É um começo magnífico, precisamente porque carece de qualquer espécie de iniciação.

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

CONTINUEM A DAR O MESMO...


Deixo a televisão ligada e regresso horas depois, ao entardecer, e não me surpreende minimamente que ainda continuem a dar o mesmo.

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

UM SINAL DE LUZ


De volta a Barcelona, tropecei acidentalmente num conto de Tabucchi, El pequeño Gatsby: «O vento abanava as cortinas, tu dormias, o farol lançava raios intermináveis, a noite estava agradável, quase tropical, mas eu chegaria em breve ao meu farol, sentia-o, estava perto, bastava esperar que a noite me mandasse um sinal de luz, não deixaria fugir essa oportunidade, não atormentaria a minha velhice censurando-me por não ter ido ao farol.»

Enrique Vila-Matas em Diário Volúivel

sábado, 5 de janeiro de 2019

O SONHO DO FOGO


 Voltava a fumar e fazia-o sem quaisquer remorsos, porque sabia que um dia deixaria de fumar e recuperaria. Fumava sem limites e escrever, para mim, era um acto complementar do prazer de fumar. Escrevia sobre alguém que se regia pelo princípio de nunca fumar enquanto dormia, mas durante o dia fumava; alguém para quem o fumo era o sonho do fogo. Era eu, que finalmente voltava a ser o mesmo. Eu que ultimamente estou a voltar a ser quem era, estou a regressar pouco a pouco à vida, como quem desperta de um desfalecimento. Até me desculpei diante dos meus superiores e, num dos meus subterfúgios humorísticos, aleguei um pequeno desmaio de várias semanas.

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A COISA MAIS REAL E MAIS BELA


«Creio que chegou a altura de viver um pouco mais atentamente», dizia Atxaga na sua carta. E citava Nazim Himket, que num breve e intenso texto comentava que é preciso levar a sério o viver-se, pois viver não admite brincadeiras. Temos de saber – dizia Himket – que viver é a coisa mais real e mais bela. E não esquecer que viver é a nossa tarefa. Estejamos onde estivermos, temos de viver como se nunca tivéssemos de morrer. Mesmo que, por exemplo, nos restem uns minutos de vida, devemos continuar a rir com a última piada, a olhar pela janela para ver se o tempo continua chuvosos, esperando com impaciência as últimas noticias da imprensa.

Enrique Vila-Matas em Diário Solúvel

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

SOU SÓ BOM NISSO


Na Paris do clochard da La Hune, inúmeros preparativos para o centenário do nascimento de Samuel Beckett, aquele escritor que, quando no inquérito de um jornal lhe perguntaram porque é que escrevia, deu a resposta mais breve, mais «bonsai» e apenas com três sílabas: «Bon qu’à ça» «Sou só bom nisso». Maldita piada que Beckett acharia a todas estas homenagens. Deduzo que acabarão por se converter em algo que o próprio Beckett já definira muito bem: «queca de verbo».

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel

Legenda: Samuel Beckett

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

NUM QUARTO ÀS ESCURAS


Quando já se tem muita experiência do mundo, começamos a interrogar-nos se a experiência de todo esse tempo nos serviu realmente para alguma coisa e se aprendemos algo que possa ser útil para os nossos filhos, discípulos, amigos. Como não tenho filhos nem discípulos, concentro-me nos amigos. Reúno-os mentalmente num quarto às escuras, como se estivéssemos numa sessão de espiritismo. Cria-se uma certa expectativa face ao que agora lhes possa dizer. Esgoto todas as possibilidades de não ter de falar, porque na realidade, ter de transmitir o que quer que seja para a posteridade é um problema, um grandessíssimo problema e uma chatice. Mas finalmente obrigam-me e digo:
- Os que melhor falaram da morte morreram.

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

DESFEITO EM NOSTALGIA


Aqui estou eu no meu quarto habitual, onde me parece ter estado sempre. Como tantas outras manhãs da minha vida, encontro-me em casa a escrever. Ressoa, vibrante a música Be My Baby, cantada pelas The Ronettes. Quando tinha dezasseis anos, era a minha canção favorita. De repente, ouço perfeitamente que alguém acaba de chegar ao patamar, no elevador. Mas ´estranho. Quem chegou não toca a nenhuma das quatro portas, nem se decide a abrir nenhuma delas. É como se tivesse ficado indeciso, aturdido ou simplesmente imóvel, ali. Vivo há tantos anos nesta casa, que controlo muito bem os sons que se possam ouvir perto da minha porta. Passam quase dois minutos até que, exactamente quando a canção termina, tocam à minha campainha. Abro. Vejo um homem, mais ou menos da minha idade. É o estafeta de uma editora e veio entregar-me um livro. Dá-mo e assino o papel. «As Ronettes…», sussurra o homem, melancólico. «Põem-me bem-disposto», comento sem me mostrar surpreendido – embora o esteja – poe ele conhecer The Ronettes. Sorrio, despeço-me, fecho a porta devagar, com a amabilidade habitual. Fico à escuta atrás da porta e noto que o homem não entra no elevador. É possível que tenha voltado a ficar imóvel no patamar. Seguramente, deixou-se ficar encostado a uma parede, quebrado, desfeito de nostalgia e até a chorar, à espera que volte a pôr-lhe Me My Baby.

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel