Chegamos à
última passagem da Leitura do Diário Volúvel de Enrique Vila-Matas:
Procuro o recolhimento, porque a literatura costuma
ser mais interessante do que a vida. Não sei se é paradoxal, mas gosto imenso
da vida, porque, digam o que disserem, é parecida com um grande romance.
Como dizia Erik Satie, viemos ao mundo muito jovens
num tempo muito velho. E é ao mesmo tempo – revela-nos Calasso – ao que Kafka
faz alusão na breve e misteriosa frase solta que abre os seus Diários: «Os espectadores ficam rígidos
quando o comboio passa.» O comboio é o tempo que não nos permite compreender a
sua forma. É então inevitável ficar rígido, enquanto o observamos: sinal de uma
última resistência.
Sim, irei viver para Paris a pensar – como Pessoa
quando estava em Sintra e queria estar em Lisboa, embora quando estivesse em
Lisboa quisesse estar em Sintra – que deveria estar a viver em Nova Iorque.
Até agora, o começo que mais me tinha impressionado era o de O
Estrangeiro. Li-o nos tempos da minha
mais inicial juventude e sem que ninguém me avisasse do que ali me esperava:
«Hoje, a mamã morreu. Ou talvez ontem, não sei.» Não se me escapa que esse
início está considerado um dos melhores da novela contemporânea. Vem-me outro à
memória, de leitura mais recente: «Fui cordialmente convidado para fazer parte
do realismo visceral. Aceitei, naturalmente. Não houve cerimónia de iniciação.
Antes isso» (Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens). É um começo magnífico, precisamente porque carece de qualquer espécie
de iniciação.
De volta a Barcelona, tropecei acidentalmente num conto de Tabucchi, El
pequeño Gatsby: «O vento abanava as cortinas, tu dormias, o farol lançava raios
intermináveis, a noite estava agradável, quase tropical, mas eu chegaria em
breve ao meu farol, sentia-o, estava perto, bastava esperar que a noite me
mandasse um sinal de luz, não deixaria fugir essa oportunidade, não
atormentaria a minha velhice censurando-me por não ter ido ao farol.»
Voltava a fumar e fazia-o sem
quaisquer remorsos, porque sabia que um dia deixaria de fumar e recuperaria.
Fumava sem limites e escrever, para mim, era um acto complementar do prazer de
fumar. Escrevia sobre alguém que se regia pelo princípio de nunca fumar
enquanto dormia, mas durante o dia fumava; alguém para quem o fumo era o sonho
do fogo. Era eu, que finalmente voltava a ser o mesmo. Eu que ultimamente estou
a voltar a ser quem era, estou a regressar pouco a pouco à vida, como quem
desperta de um desfalecimento. Até me desculpei diante dos meus superiores e,
num dos meus subterfúgios humorísticos, aleguei um pequeno desmaio de várias
semanas.
«Creio que chegou a altura de viver um pouco mais atentamente», dizia
Atxaga na sua carta. E citava Nazim Himket, que num breve e intenso texto
comentava que é preciso levar a sério o viver-se, pois viver não admite
brincadeiras. Temos de saber – dizia Himket – que viver é a coisa mais real e
mais bela. E não esquecer que viver é a nossa tarefa. Estejamos onde
estivermos, temos de viver como se nunca tivéssemos de morrer. Mesmo que, por
exemplo, nos restem uns minutos de vida, devemos continuar a rir com a última
piada, a olhar pela janela para ver se o tempo continua chuvosos, esperando com
impaciência as últimas noticias da imprensa.
Na Paris do clochard da La
Hune, inúmeros preparativos para o centenário do nascimento de Samuel Beckett,
aquele escritor que, quando no inquérito de um jornal lhe perguntaram porque é
que escrevia, deu a resposta mais breve, mais «bonsai» e apenas com três
sílabas: «Bon qu’à ça» «Sou só bom nisso». Maldita piada que Beckett acharia a
todas estas homenagens. Deduzo que acabarão por se converter em algo que o
próprio Beckett já definira muito bem: «queca de verbo».
Quando já se tem muita experiência do mundo, começamos a interrogar-nos
se a experiência de todo esse tempo nos serviu realmente para alguma coisa e se
aprendemos algo que possa ser útil para os nossos filhos, discípulos, amigos.
Como não tenho filhos nem discípulos, concentro-me nos amigos. Reúno-os
mentalmente num quarto às escuras, como se estivéssemos numa sessão de
espiritismo. Cria-se uma certa expectativa face ao que agora lhes possa dizer.
Esgoto todas as possibilidades de não ter de falar, porque na realidade, ter
de transmitir o que quer que seja para a posteridade é um problema, um
grandessíssimo problema e uma chatice. Mas finalmente obrigam-me e digo:
Aqui estou eu no meu quarto habitual, onde me parece ter estado sempre.
Como tantas outras manhãs da minha vida, encontro-me em casa a escrever. Ressoa,
vibrante a música Be My Baby, cantada
pelas The Ronettes. Quando tinha dezasseis anos, era a minha canção favorita.
De repente, ouço perfeitamente que alguém acaba de chegar ao patamar, no
elevador. Mas ´estranho. Quem chegou não toca a nenhuma das quatro portas, nem
se decide a abrir nenhuma delas. É como se tivesse ficado indeciso, aturdido ou
simplesmente imóvel, ali. Vivo há tantos anos nesta casa, que controlo muito
bem os sons que se possam ouvir perto da minha porta. Passam quase dois minutos
até que, exactamente quando a canção termina, tocam à minha campainha. Abro.
Vejo um homem, mais ou menos da minha idade. É o estafeta de uma editora e veio
entregar-me um livro. Dá-mo e assino o papel. «As Ronettes…», sussurra o homem,
melancólico. «Põem-me bem-disposto», comento sem me mostrar surpreendido –
embora o esteja – poe ele conhecer The Ronettes. Sorrio, despeço-me, fecho a porta
devagar, com a amabilidade habitual. Fico à escuta atrás da porta e noto que o
homem não entra no elevador. É possível que tenha voltado a ficar imóvel no
patamar. Seguramente, deixou-se ficar encostado a uma parede, quebrado,
desfeito de nostalgia e até a chorar, à espera que volte a pôr-lhe Me My
Baby.