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sexta-feira, 10 de maio de 2019

POSTAIS SEM SELO


Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma partícula do CONTINENTE, uma parte da TERRA; se um TORRÃO é arrastado para o MAR, a EUROPA fica diminuída, como se fosse um PROMONTÓRIO. Como se fosse a CASA dos teus AMIGOS ou a TUA PRÓPRIA; a MORTE de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do GÉNERO HUMANO. E por isso não perguntes por quem os SINOS dobram; eles dobram por TI:

John Donne, epígrafe em Por Quem os Sonos Dobram de Ernest Hemingway.

Legenda: Ingrid Bergman e Gary Cooper no filme de Sam Wood Por Quem os Sinos Dobram

segunda-feira, 8 de maio de 2017

OS BARES SÃO TODOS SIMPÁTICOS


Fomos de táxi ao Palace Hotel, deixámos as malas, marcámos camas no Sud-Express para essa noite e metemo-nos no bar do hotel a tomar um cocktail. Sentámo-nos nos bancos altos do balcão, enquanto o barman agitava os Martinis num grande skaker niquelado.
- Tem pida a extraordinária gentiaga que se encontra no bar de um grande hotel – dosse eu.
- Os barmen e os jockeys são as únicas pessoas que ainda são delicadas.
- Por vulgar que um hotel seja, o bar é sempre simpático.
- E pândego.
- Os homens dos bares são sempre finos.
- Sabes? – disse Brett. – É apura verdade. Ele tem só dezanove anos. Não é espantoso?
Tocámos os dois copos, ali sentados lado a lado no bar. Estavam embaciados. Para lá das cortinas do janelão era o Verão ardente de Madrid.
- Gosto de uma azeitona no Martini – disse eu ao homem do bar.
- E tem razão. Aí está ela.
- Obrigado.
- Eu devia ter perguntado. 
E o homem afastou-se pelo bar fora o suficiente para não ouvir a nossa conversa. Brett provara o Martini sem o levantar do balcão de madeira. Depois pegou-lhe. Após esse primeiro gole, já a mão tinha firmeza para o erguer.
- Está bom. Um bar simpático, não é?
- Os bares são todos simpáticos.

Ernest Hemingway em Fiesta

quarta-feira, 22 de março de 2017

UMA PERDA IRREPARÁVEL


Em carta, datada de 3 de Julho de 1961, Miguéis diz a Saramago que ainda vive debaixo da impressão – do choque – que nos causou o suicídio do Hemingway (e por muito bestial que o homem fosse, o artista era único, e a sua perda irreparável.

E já em findar de carta escreve:

A quase todos nos falta a longa paciência (a consciência, o métier) que faz os Hemingways… O homem estava a sofrer duma velha cirrose, de hipertensão, talvez de diabetes, e (suspeito) de cancro: é mais fácil enfrentar um toiro Miúra (em imaginação?) do que a morte lenta da desintegração… Ah, se ele tivesse lido Um Homem Sorri à Morte! Trop tard… O Hemingway viveu a afrontar perigos: fractura da espinha, ferimentos graves, alcoolismo, trabalho duro… Respeito-lhe a decisão. Também o Essenin, o Block, o Mayakóvasky se mataram…

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

RECADOS


Scott Fitzgerald ainda viveu quatro anos depois de escrever A Fenda Aberta.
Esteve em Hollywood a fazer argumentos para o cinema (nunca filmados como os imaginou); mandou histórias curtas a jornais (todas incluíveis entre o mai banal da sua produção); iniciou The Last Tycoon, romance (que não teve fôlego para cabar; apaixonou-se por Sheilah Graham – perdi a faculdade de esperar nestes caminhos que levam aos asilos da Zelda, deixou escrito num caderno de notas – (versão pobre e oxigenada das elegâncias das suas heroínas); e em 21 de Dezembro de 1940 sofreu um ataque cardíaco (a que o seu corpo minado pelo álcool não soube resistir).
Foi poupado, no entanto, à morte de Zelda. Morte de oito anos mais tarde – ela doida, de não haver nada a fazer-lhe – sufocada e consumida por chamas num incêndio do manicómio que a internava.
Numa carta, Hemingway tinha-lhe certo dia dado um conselho difícil: esquece, esquece lá a tragédia pessoal… Não és personagem de tragédia. Nem eu. Não passamos, ambos, de escritores…

Aníbal Fernandes, posfácio em A Fenda Aberta.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Vindes de muito longe…
Mas a distância
o que é para o vosso sangue, que canta sem fronteiras?
A morte necessária chama por vós todos os dias,
não  importa em que cidades, campos ou caminhos.
Deste país, do outro, do grande, do pequeno,
do que no mapa ocupa um lugar quase ignorado,
com as mesmas raízes que tem o mesmo sonho,
anónimos, simplesmente viestes até nós.

Rafael Alberti, extracto do poema A Las BrigadasInternacionales.
Tradução em Liberdade, Liberdade de Luiz Francisco Rebelo, Luís de Lima e Helder Costa

Legenda: Ernest Hemingway junto das forças republicanas durante a Guerra Civil  de Espanha.

sábado, 9 de janeiro de 2016

MARK TWAIN


Samuel Langhorne Clemens  nasceu no Missouri a 30 de novembro de 1835.

O mundo conhece-o como Mark Twain, o autor, entre outras obras, de As Aventuras de Tom Sawyer, As Aventuras de Huckleberry Finn, O Principe e o Pobre.

Por ouras palavras, Ernest Hemingway considerou As Aventuras de Huckleberry Finn, o maior romance da literatura norte-americana.

É este o começo do livro:

Vossemecês não me conhecem se não leram um livro chamado As Aventuras De Tom Sawyer, mas isso não tem importância. O livro foi escrito pelo senhor Mark Twain que, de uma forma geral, não se afastou da verdade. Houve coisas que ele exagerou mas, repito, de uma forma geral, não se afastou da verdade. Isso, aliás, pouco importa. Nunca encontrei ninguém que não pregasse a sua peta, uma vez por outra, a não ser a tia Polly, ou a viúva, ou talvez a Mary. A tia Polly – a tia Polly é a tia do Tom -, Mary e a viúva Douglas, tudo o que há a dizer a respeito delas está escrito nesse livro – que é fundamentalmente um livro honesto; com alguns exageros, como já disse.

Um dia, ao deparar-se com uma notícia do New York Journal que o dava como morto, Mark Twain proferiu a frase que ficou para a história: 

A notícia da minha morte é manifestamente exagerada.

Morreu no Connecticut no dia 21 de Abril de 1910.

Nota do editor: para a transcrição de As Aventuras de Hockleberry Finn, foi utilizada a tradução de Daniel Augusto Gonçalves para a Editora Livraria Civilização, Porto, Março de 1980.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Mr. John gostava de Nick porque, segundo dizia, ele tinha pecado original. Nick não compreendia o que ele queria dizer com isso, mas sentia-se orgulhoso.
- Terás coisas de que te arrepender, rapaz – dissera Mr. John a Nick. – Isso é uma das melhores coisas que há. Terás sempre a possibilidade de decidir se te arrependerás delas, ou não. O importante é tê-las.

Ernest Hemingway em Contos de Nick Adams

Legenda: pintura de Gustave Coubet

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO


Marjorie não desviara a atenção da cana de pesca, nem mesmo enquanto falavam. Adorava pescar. Adorava pescar com Nick.

Ernest Hemingway em Contos de Nick Adams

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

À CONVERSA...


F. Scott Fitzgerald:

- Sabes, Ernest, os ricos são diferentes de nós.

Ernest Hemingway:

- Sim , eu sei. Têm mais dinheiro do que nós.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

FRAGMENTOS


Possivelmente, Marilyn Monroe fez mais esforços para ler o Ulisses de James Joyce do que muita gente que diz que o leu e nunca acabou, ou sequer começou.

Por mim falo e digo que nunca o acabei e poucos esforços tenho feito para que lhe conheça o meio quanto mais o fim.

Em 1999, o exemplar de Ulisses que pertenceu a Marilyn Monroe, foi vendido por 7100 euros num leilão da Christie's.

A sua biblioteca era constituída por perto de quinhentos livros.

O já citado Ulisses estava por lá, e tinha por companhia obras de Dostoievesky, Jack Kerouac, Yeats, Samuel Beckett, Tolstoi, Walt Whitman, Rainer Maria Rilke, Bernard Shaw, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, D.H. Lawrence, F. Scott Fitzgerald, John Steinbeck.

Marilyn Monroe deixou um inventário que inclui fotografias, recortes de jornais, poemas, frases, cartas, notas várias.

Os papeis e fotografias datam de 1943, e vão até aos dias que antecederam a sua morte.

Parte de todo este material foi publicado em livro, no final do ano passado, nos Estados Unidos. Os editores chamaram-lhe Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters.

Do mundo de lendas que sempre envolveram, e envolvem, Marilyn, conta-se que um dia, em conversa com um amigo, terá tirado do bolso, um pequeno diário de capa vermelha a que chamava o seu livro de segredos.

Nesse livrinho, entre muitas outras coisas, falava dos planos de Kennedy para matar Fidel de Castro, de testes atómicos, das relações de Frank Sinatra com a Máfia, do movimento dos negros pelos direitos de igualdade, conversas que Marilyn ouviu enquanto conviveu com os Kennedys.

Naturalmente este livro de segredos não consta de Fragments: Poems, Intimate Notes Letters.

Diz, quem já o leu, que Fragments, não é a essência da literatura,  mas permite concluir que Marilyn não foi, exclusivamente, a loura burra que que a indústria de Hollywood construiu e impingiu à opinião pública de todo o mundo.

Um símbolo sexual torna-se um objecto. Eu detesto ser um objecto disse a actriz.
O escritor António Tabucchi  (1943-2012), escreveu o prefácio para a edição francesa do livro,  e observa:

No interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita.

Nos filmes que Billy Wilder realizou com Marilyn, opinião minha, os melhores dos seus filmes, a actriz fez a cabeça em água a Wilder, mas este sabia o diamante que tinha entre mãos:

Penso que ela é a melhor actriz cómica ligeira que temos no cinema hoje em dia, e qualquer pessoa sabe que a comédia ligeira é o mais difícil dos estilos de representação.

Deus deu-lhe tudo.

Obviamente que Billy Wilder, sabia do que falava.

No diário das filmagens do Let’s Make Love , Marilyn confessava:

De que é que eu tenho medo? Porque é que tenho tanto medo? Porque penso que não sei representar? Sei que sei representar, mas tenho medo. Tenho medo e sei que não devo ter, e não quero ter. Mas tenho.

Em 1948, Tom Kelley fotografou-a nua sobre veludo vermelho, que daria lugar ao celebérrimo calendário das paredes de todas as garagens do mundo.

Quando muitos anos mais tarde, um jornalista perguntou-lhe se ela não se envergonhara da ousadia de ter posado para Tom Kelley, Marilyn respondeu:

Tinha fome!

E, sarcasticamente, não deixou de acrescentar:

Porquê? Não gosta do vermelho?

Sabe-se, ou pensa-se que se sabe, que todos morremos a cada dia que passa.

Mas os dias de Marilyn foram tecendo o suicídio organizado em que a sua morte se transformou.

O tal seu livro dos segredos, o livro de capa vermelha, constituía material demasiado perigoso para que, impavidamente, o clã kennedyano assistisse à possibilidade de se tornar público.

Tenho a certeza de que acabarei louca se continuar a viver neste pesadelo, terá dito a actriz naqueles seus tempos de depressão, que irão culminar na noite em que tomou todos os tubos de comprimidos que tinha e não tinha, tal como sugere Ruy Belo no poema que dedicou à sua morte.

Poderá perguntar-se:

Tomou?

quinta-feira, 19 de julho de 2012

OLHAR AS CAPAS



Mulheres Que Lêem São Perigosas

Stefan Bollmann
Tradução Maria Filomena Duarte
Prefácio Elke Heidenreich
Tradução do prefácio: Paulo Rêgo
Quetzal Editores, Lisboa Abril 2007

Entender-se-iam homens e mulheres melhor se os homens lessem tanto como as mulheres? Saberiam eles mais acerca das nossas vidas, dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos, se lessem Sylvia Plath, Virginia Woolf, Carson McCullers, Jane Bowles, Annemarie Schwarzenbach ou Dorothy Parker, do mesmo modo que nós lemos Hemingway, Faulkner, Updike, Roth, Flaubert e Balzac? «As mulheres lêem de maneira diferente», observa Ruth Kluger ao abordar este interessante tema. Elas também lêem mais. E, ao ler, são ambas as coisas, homem e mulher, não têm sexo, sofrem com o herói, com a heroína, com o autor, com a autora, é-lhes indiferente. Estão reféns do livro. Apenas consigo amara homens que lêem, que de repente erguem a cabeça com aquela expressão no olhar, vinda de bem longe, suave, uma expressão repleta de um conhecimento não apenas de si, mas também acerca de mim. No entanto, regra geral, os homens não gostam de mulheres que lêem. E só muito de quando em quando é que homens e mulheres lêem em conjunto.

(Citação retirada do prefácio)

terça-feira, 15 de maio de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não se fica o mesmo, quando, aos quinze anos, se lê um livro como O Velho e o Mar de Ernest Hemingway. (1)

Há coisas assim: pequenas, simples e maravilhosas.

 Um livro que assim começa só pode ser um grande livro:

Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe.

Uma alegoria sobre a capacidade do homem de se superar a si próprio e vencer a natureza em busca da sobrevivência.

O homem é Santiago, um velho pescador cubano a quem a sorte piscatória há muito não sorri, mas que acaba por pescar um espadarte gigante.

Tem, então, tem de o puxar agarrado ao barco, até chegar à praia.

A praia é ainda muito longe, e quando lá chega, os tubarões apenas tinham deixado a espinha ao grande espadarte.

A capa do livro, que aqui se apresenta, não é a do livro que li aos quinze anos.

Essa era da valiosíssima Colecção Miniatura que a Livros do Brasil, publicaram durante anos, oferecendo aos leitores, verdadeiras pérolas da literatura mundial.

O livro pertencia à biblioteca do meu pai, e faz parte daquele extenso rol de livros desencaminhados, emprestados, ou coisa parecida, que foram até um qualquer lugar dos mares do sul e não mais voltaram.

Esta é já uma edição recente, mas segue a tradução de Jorge de Sena, a capa do pintor Bernardo Marques.

A história resulta das pescarias, ao largo de Cuba, de Enest Hemingway e do homem que o acompanhava. Um livro pequeno, bem ao estilo de Hemigway, que entendia que uma palavra a mais pode dar cabo de uma história.

Numa carta, enviada de Havana para o seu editor, datada de 4 de Março de 1952, revelava que era o livro mais bem escrito que jamais conseguira.



 Sempre pensava no mar como “La Mar”, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam bóias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem “el mar”, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.

Tu estás a matar-me, peixe, pensou o velho. Mas tens todo o direito. Nunca vi uma coisa maior, ou mais bela, ou mais serena ou mais nobre do que tu, meu irmão. Vem e mata-me. Não quero saber qual de nós mata (...) Mas o homem não foi feito para a derrota, disse. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.

Ernest Hemingway, um americano grande que gostava de mulheres, de gatos, corridas de touros, combates de galos, apaixonado por caça e pesca, bebedor inveterado fosse do que fosse, mas especialmente rum cubano.
 
Na sua solidão, a bebida e as mulheres, por vezes, ajudaram-no, mas também lhe trouxeram mágoas, principalmente as mulheres.

Ernest Hemingway terá um dia pensado que só lidando com a morte, os dias dramáticos poderiam ter um fim.

Na manhã de 2 Julho de 1961, um domingo, sentou-se no alpendre da sua casa de Ketchum, virou, uma das suas muitas caçadeiras para si, e disparou.

Seu pai fizera o mesmo, e Hemingway, ao longo da sua obra, não se cansou de escrever que todo o suicídio é uma cobardia, uma fuga à responsabilidade.

O mundo é um belo sítio pelo qual vale a pena lutar, e eu detesto ter que deixá-lo, deixou escrito em Porque Quem os Sinos Dobram
.

Deixou dito que toda a literatura norte-americana sai de um livro chamado Huckleberry Finn, principalmente as primeiras cem páginas.

Vossemecês não me conhecem se não leram um livro chamado “As Aventuras De Tom Sawyer”, mas isso não tem importância. O livro foi escrito pelo senhor Mark Twain que, de uma forma geral, não se afastou da verdade. Houve coisas que ele exagerou mas, repito, de uma forma geral, não se afastou da verdade. Isso, aliás, pouco importa. Nunca encontrei ninguém que não pregasse a sua peta, uma vez por outra, a não ser a tia Polly, ou a viúva, ou talvez a Mary. A tia Polly – a tia Polly é a tia do Tom -, Mary e a viúva Douglas, tudo o que há a dizer a respeito delas está escrito nesse livro – que é fundamentalmente um livro honesto; com alguns exageros, como já disse.

Em 1953 ganha o Prémio Pulitzer e, no ano seguinte, seria Prémio Nobel da Literatura.



O Velho e o Mar cai aqui, em O qu’é que vai no Piolho?,  porque John Sturges,  em 1958, fez uma adaptação do livro, que regista uma soberba interpretação de Spencer Tracy.



Vi o filme num cinema de reprisse, em Lisboa, também na televisão e, a última vez, em 1999, durante o ciclo que a Cinemateca organizou pelo centenário do nascimento de Hemingway.

Manuel Cintra Ferreira, na folha que acompanhou a exibição do filme, em 11 de Janeiro de 1999, considera que o livro é infilmável.

Mas não deixa de o considerar um filme singular. Sente-se ao longo de The Old Man and The Sea que estamos diante de um filme “falhado”, mas que consegue ter uma certa grandeza dentro do “fracasso”.

John Sturges limuta-se à função de “ilustrar” o argumento da melhor forma possível, mas sentem-se os espartilhos que o impedem de tentar algo mais pessoal: do excessivo “respeito pelo original e uma narrativa em que falta o que ele encena melhor: a acção resultando daí aí a excessiva e metódica fidelidade ao texto original com o realizador procurando ser simples “ilustrador” do texto de Hemingway.

Numa das cenas finais, no porto, dentro do bar, o espectador atento, pode descobrir Ernest Hemingway” himself.”


(1)       O Velho e o Mar, Ernest Hemingway Tradução e prefácio de Jorge de Sena
             Capa e ilustrações de Bernardo Marques.   
             Edição Livros do Brasil, Lisboa Abril 2002.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Ter e Não Ter é um dos meus filmes de cabeceira, um daqueles que sem qualquer sombra de dúvida levaria para a tal ilha deserta... Tem um belo guião do William Faulkner, tem o Bogart e a Bacall em estado de graça de começo de festa, mas também tem o Walter Brennan (um dos melhores actores secundários de sempre...), que passa a vida a perguntar às pessoas se alguma vez foram mordidas por uma abelha morta, o Hoagy Carmichael, de que tanto gosto,  a tocar piano e a cantar, o Marcel Dalio atrás do balcão  e o também grande (em todos sentidos...) Dan Seymour a fazer de Pide (seu papel preferido...) e a perguntar ao Bogart quais são as suas simpatias políticas (minding my own business, responde-lhe ele...)...

E tem também um belo final, que irá direitinho para a cassette da Aida. É um hino à Vida, à Amizade, à Comunidade e à Integridade como poucos filmes o foram. E tem os diálogos mais sensuais da história do cinema americano (se pusermos de lado as tiradas demasiado "rasteiras" da Mae West...).



 Vou dar-vos um exemplo, em inglês porque em português perde toda a sua graça e musicalidade.  Mas antes tenho de explicar, a quem não conhece o filme, que a Bacall (Slim - magrinha - no filme, e com essa alcunha ficaria para sempre para o Bogart até este morrer de um cancro e um milhão de whiskies, como então escreveu o André Bazin, crítico de cinema francês...)  andava ressabiada, porque o Bogart (Steve, no filme) não lhe ligava patavina e até chegou a dar-lhe  guia de marcha comprando-lhe um bilhete de avião de regresso para a terra dela (tal como também o fez, depois, John Wayne à  Angie Dicksson, no Rio Bravo... No Hawks, isto anda tudo ligado!). Já antes Slim lhe tinha perguntado quem teria sido a mulher que o deixou com tão má impressão sobre as mulheres... You know, you dont' have to act with me, Steve. You don't have to say anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and blow.

Pouco tempo antes ela tinha tentado beijá-lo, mas ele nem sequer  mexeu os lábios.

A segunda tentativa foi, porém, irresistível, e a coisa foi prolongada...

Reacção dela: It's much better when you colaborate!

A génese do filme tem uma história engraçada que não resisto a contar. O realizador, Howard Hawks, e o Ernest Hemingway (autor do livro em que o filme se baseia) tinham ido à pesca no alto mar e, enquanto o peixe não mordia, divagavam discutindo Cinema e Literatura, puxando cada um a brasa à sua sardinha. Para o Hemingway a base de um bom filme teria de ser uma boa história; para o Hawks, isso era indiferente, já que o fundamental era a  mise-en-scene...

- Aposto que sou capaz de fazer um grande filme com base no teu pior romance, disse ele ao Hemingway.

 - Qual é o meu pior romance?, pergunta-lhe este.

 - To have and have not, sem dúvida, diz  o Hawks.

  - És capaz de ter razão. 
Numa célebre entrevista que deu aos Cahiers du Cinema, Hawks disse que tinha feito o filme a correr porque precisava de dinheiro, mas não vai tão longe que diga se pagou a aposta a Hemingway.

 Mas que o filme é enorme, disso poucos duvidarão.




E numa onda de bom cinema e boa poesia, não quero ir-me embora sem vos deixar o curto poema que o Ruy Belo dedicou a Humphrey Bogar e que está incluído naquele célebre livrinho de capa azul da velha e saudosa Dom Quixote:

                                             “Era a cara que tinha e foi-se embora
                                              mas nunca foi tão visto como agora.
                                              O seu olhar é água, pura água
                                              devassa-nos, dá nome mesmo à mágoa
                                              Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
                                              não é verdade, meu irmão Humphrey Bogart?

Colaboração de Luís Miguel Mira


Nota do editor:
O texto do Luís Miguel Mira foi escrito, há uns bons pares de anos, no decorrer de uma brincadeira entre amigos.
Dado que a Cinemateca, amanhã, pelas 15,30 Horas, na Sala Dr. Félix Ribeiro, exibe Ter ou não Ter , resolvi recuperá-lo.

TO HAVE AND HAVE NOT
Ter e Não Ter
de Howard Hawks
com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Walter Brennan, Marcel
Dalio, Dolores Moran
Estados Unidos, 1944 – 99 min / legendado em português

O encontro do mais mítico par da história do cinema: Bogart e
Bacall, de uma forma não menos mítica. Na realidade, o desafi o
que Hawks se impôs foi o de arranjar a Bogart uma mulher tão
insolente como ele, capaz de lhe responder à letra. O primeiro
encontro (quando ela vai ao quarto dele pedir-lhe lume) é um
daqueles momentos que se tornaram lendários, com a réplica
dela (“Se precisares de mim… assobia”). Vagamente inspirado
em CASABLANCA, mais do que no conto de Hemingway, é,
de novo, uma história de resistência e de resistentes franceses
contra o governo francês de Vichy na Martinica.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Em “For Whom the Bell Tolls”, a loura e sueca Ingrid Bergmann, na cena em que mais celestes lhe vi os olhos, é uma improvável espanhola, uma improvável camponesa e a mais improvável Maria. Apaixonou-se por Gary Cooper, americano e combatente na Guerra Civil ao lado dos republicanos. Quer, mas não sabe como beijá-lo: “Onde é que se metem os narizes”, diz a escaldar de “coqueterie”. Senhor de um nariz que não se mete onde não é chamado, Cooper roça os lábios pelos lábios dela. “Afinal não se atravessam no caminho, pois não”, e já é ela que o beija, uma, duas vezes. À americana.

Manuel S. Fonseca no suplemento Actual do Expresso, 22 de Outubro de 2011.

Dubley Nichols adaptou o romance de Ernest Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram, segundo V.S. Pritchett, o romance mais adulto do escritor, para o filme que, com o mesmo nome, Sam Wood realizou em 1943.

Robert Jordan, alter ego de Hemingway,o americano, ou o inglês como quer Maria que ele seja, é interpretado por Gary Cooper e Maria por Ingrid Bergman.

Fica o diálogo, melhor dito o monólogo, de Maria com Roberto.

Maria fala, Roberto ouve e lmita-se a dizer Maria, ela pergunta se fez mal alguma coisa, ele nada diz e beija-a ardentemente:

- Roberto, eu… não sei beijar, senão beijava-o.
  Para onde vão os narizes? Sempre me perguntei o que fazíamos com o nariz!
  Eles não estorvam, pois não?
  Sempre pensei que iriam estorvar. Veja, consigo fazer.
- Maria…
- Fiz alguma coisa mal?

Agora, o diálogo do livro:

E depois, como num último apelo de esperança:
-Mas eu nunca beijei nenhum homem.
- Beija-me então agora.
- Eu bem queria. Mas não sei. Quando me fizeram coisas, lutei até perder os sentidos. Lutei até…até… que um deles se sentou em cima da minha cabeça… e eu mordi-o… e então amordaçaram-me e prenderam-me os braços atrás da cabeça… e outros abusaram de mim.
- Eu amo-te, Maria – repetiu Jordan – e ninguém te fe nada, ninguém te atingiu, ninguém tocou a minha coelhinha.
- Falas a sério?
- Como nunca.
- E podes amar-me ainda? Sussurrou Maria aconchegando-se a ele.
- E mais ainda.
- Vou tentar beijar-te muito bem.
- Beija-me então.
- Não sei,
- Beija-me simplesmente.
Ela beijou-o na face.
- Não.
- E o que é se faz ao nariz? Sempre me perguntei o que se faria ao nariz?
- Olha, vira um pouco a cabeça. – E as suas bocas juntaram-se. Ela estava unida a ele e a boca entreabriu-se pouco a pouco. E, de súbito, tendo a rapariga apertada contra ele, sentiu-se mais feliz que nunca, com uma felicidade interior ligeira, amorosa, exaltada e sem pensamentos, e sem fadigas, e sem cuidados, tudo delícias e ele murmurou: - minha coelhinha. Minha querida. Minha doce amada.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

IDÍLIO EM BICICLETA


 - Custa a morrer papá?
-Não, acho que é fácil, Nick. Depende.
Estavam instalados no barco, Nick à popa e o pai a remar.
O sol aparecia por detrás das colinas. Um barbo saltou, descrevendo um arco de círculo por cima da água. Nick deixava correr a mão pela superfície líquida, quente com aquele frio tão vivo da manhã. À escassa luz da aurora, no lago, sentado à popa do barco, enquanto o pai remava, teve a certeza de que nunca havia de morrer.

Ernest Hemingway em A Aldeia Índia

Fotografia de Idílio Freire