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domingo, 26 de maio de 2019

OLHARES


Fotografia de Jack Delano tirada do arquivo da Shorpy.
Outubro de 1940. Criança apanhando batatas numa fazenda grande perto de Caribou, Maine. As escolas não abriam na região enquanto houvesse batatas para apanhar.até que não haja mais batatas para apanhar.

1 – Contam  nas aldeias que o trabalho do menino é pouco mas quem o perde é louco.

2 – Foi Guillevic que disse: «Às vezes uma criança chora para o futuro.»

3- Preocupada com a situação dos pequenos trabalhadores ouviu o seu ministro Disraeli dizer: «Ainda pior para eles se não trabalhassem…»

4 - Perante as realidades que nos cercam sabemos quanto se torna difícil a aplicação das convenções mundiais que proíbem o trabalho dos menores antes das idades limites estabelecidas.

5 – Recebeu uma carta do irmão. Dizia para ele ir que lhe arranjara trabalho na cidade. Despediu-se dos pais, dos amigos. Apanhou o comboio e encostou-se a um canto da carruagem com o bilhete muito apertado na mão.
O irmão esperava-o e levou-o ao dono do café. onde lhe arranjara trabalho que disse:
- Ganharás 300 escudos e com as gorjetas verás que arranjas para aí 500 escudos por mês.
Os olhos brilharam nos seus 12 anos-muito-meninos.
Mais tarde, muito mais tarde, dirá: «Eu comecei a trabalhar aos 12 anos e cheguei onde vocês me vêem.

quinta-feira, 22 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 3

Direcção literária: Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Xilogravuras: Altino Maia
Porto, Dezembro de 1957

Aos Homens Que Virão
Trad. M.D.E.

Nós, que haveis de entender, no futuro, o trabalho
como o doce sabor da desejada festa,
quando ele for para vós arte, paixão, vitória,
- quando o poeta vê no seu próprio poema –

pensai, então, em nós com carinhosa estima;
em nós que, trabalhando como bestas de carga,
entregues a tarefas monótonas, iguais,
deixamos que a tristeza marcasse o nosso olhar.

Ah!, como vós – sabei – nós amamos a vida
e, apesar disso, deste inferno, não quisemos
chorar lágrimas vãs, deixar morrer a esperança.

Ah, sim! Profundamente amamos a alegria,
como vós – as pequenas e grandes alegrias
de que a maior foi abrir-vos o caminho.

Poema de Guillevic

quarta-feira, 1 de junho de 2016

ÀS VEZES UMA CRIANÇA CHORA PARA O FUTURO


O existir um dia com designação, seja do que for, é um mau sinal.

Porque todos os dias deviam ser os dias a que se convencionou chamar da mulher, ou da árvore, ou da poesia, ou da música, ou da criança, ou disto, ou daquilo.

Para o 1 de Junho determinou-se que seria o Dia da Criança.

Falar de crianças é sempre acusar os adultos.

Milhões de crianças com fome, milhões de crianças trabalhando sob regime de exploração, milhões em idade escolar sem possibilidades de estudar, milhões vendidas como mercadoria.
Se a esses milhões juntarmos os elevados números fornecidos pelas estatísticas sobre o alcoolismo, droga e prostituição infantis, de crianças mortas e mutiladas por maus tratos infligidos pelos pais e «educadores», é um triste panorama que se apresenta à responsabilidade dos adultos.

Há crianças para educar: para ensinar a amar, a compreender, a conviver, a viver, enfim, a serem amanhã homens e mulheres capazes de uma vida normal e equilibrada.

Atribui-se a Pitágoras, filósofo que viveu nos anos 570/495 A.C., a frase: Eduquem-se as crianças e não será necessário castigar os homens.


Uma criança é uma garantia do amanhã.

Salvar uma criança é salvar uma tábua de multiplicação.

Nota do editor: o título é um verso de Eugène Guillevic

Legenda: fotografia de Antanas Sutkus

quinta-feira, 21 de maio de 2015

LIÇÃO DE COISAS


O sangue é um líquido complexo
que circula. Vermelha é a sua cor
sem paralelo e no entanto variável
como planície sob várias luas.

O sangue contém numerosos elementos
de que algumas pessoas conhecem a fórmula.

É o nosso sangue! Ele,
que gira, circula
e nos alimenta.

O sangue escoa-se facilmente
- basta-lhe uma abertura.

Mas o sangue de um morto por acidente
não é o mesmo, na rua,

que o sangue de um morto pela liberdade,
escorrendo também ao longo da rua.

Cada um deles tem uma maneira diferente
de ser vermelho e de gritar.


Legenda: Massacre de Santa Cruz, Timor, 12 de Novembro de 1991

segunda-feira, 27 de abril de 2015

POSTAIS EM SELO


E o horizonte que no olhar não cabe.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


É mau a gente habituar-se.


Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

terça-feira, 20 de março de 2012

HÁ SILÊNCIOS QUE DOEM!


Em plena ditadura (1960) Alexandre O’Neill escreveu o Poema Original do Medo.

As suas palavras avisavam que o medo ia ter tudo, penso no que o medo vai ter e tenho medo, que justamente o que o medo quer e cada um por seu caminho havemos de chegar todos a ratos.

Para ainda ficarmos entre poetas, cite-se o francês Eugène Guillevic quando escreveu: é mau quando a gente se habitua.

O povo e os trabalhadores portugueses não necessitam que lhes falem dos números de desempregados, das famílias que se deixaram loucamente endividar pelos bancos, porque, diariamente, sentem isso na pele.

Os que nos conduziram, à precaridade, ao estado de miséria, sim miséria!, em que vivemos, passeiam-se, por aí, na maior das impunidades.

Botam discurso, dizem que nos temos de sacrificar, até ao limite da fome, para que a banca não vá ao fundo, para que eles possam continuar a usufruir de chorudos ordenados de benesses múltiplas e várias.

Uma aberrante que é eurodeputado do CDS no Parlamento Europeu, em entrevista, arrotou um destes dias:

Cada greve feita acaba por ser uma machadada na imagem do país.

Tempos dramáticos, os tempos que vivemos.

Mais, ainda, quando olhamos a atónita passividade, com que grande parte dos portugueses enfrenta a dramática situação e sem que pressinta, nem de perto nem de longe, qualquer luzinha ao fundo do túnel

É aqui que entra o medo de que falava o O’Neill?

É!

O medo paralisou os portugueses.

Mas dizer: quando a situação pode depender de nós, há que lutar, há que vincar a forte indignação a que temos direito.

Para podermos chegar á tal cidade sem muros, nem ameias, de que já falava José Afonso, ou o Elogio de Um Revolucionário, de que falava um tal de Bertold Brecht:

Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.
Interroga o capital:
De onde vens?
Pergunta a cada ideia:
Serves a quem?
Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino,
ele cita os nomes.
À mesa onde ele se senta
 senta-se também a insatisfação.
A comida sabe mal e a sala  torna-se estreita.
Aonde o perseguem chega a revolta
e de onde o expulsam persiste a agitação.