Sobre a mesa os dois livros. Somente um
volume do “Mar de Setembro”, mas do “Ostinato
Rigore”, três exemplares. O meu, o do Manuel, o
do Joaquim. No final do dia ainda se juntaria
um outro, o do José Manuel Bulhão Martins.
Comprados nessa manhã na Guimarães; os três
decidiam-se pelo novo título, eu permaneci fiel,
até hoje, ao mar de setembro. Nenhum deles tinha
a minha relação com o mar, por isso viam no
verso de Eugénio um jovem a trabalhar a terra
vermelha do verão – o seu tronco, o vigor da argila vermelha do verão
mas o mar de setembro dava-me o melhor nadador
de agosto, o que perseguia desde maio até às marés vivas
o apelo absurdo da beleza
o espaço de tempo de um relâmpago
«com o rosto para sempre perdido / com o sorriso e
a sua tez dourada» algum de nós disse, mas nenhum
o chegou a escrever nas folhas que se espalhavam
sobre as mesas de fórmica.
Branco é o
silêncio, a solidão, o encantamento, a violência, o feitiço a nostalgia, a
amargura, o deslumbramento.
Tudo branco?
Tanner diz que sim.
Lisboa ao voo do
pássaro como diria o Mário-Henrique Leiria.
Um rio que se
atreve a ser mar.
Cheiros. Gentes.
Mãos que encontram outras mãos, mãos que ajudam, desajudam.
Paulo Nogueira,
ao tempo da estreia do filme, escreveu que a felicidade só está disponível para
quem sabe parar. Tanner pergunta todo o tempo se as cidades gostam dos homens.
Paul é um marinheiro
que trabalha na casa das máquinas de um navio que aporta a Lisboa.
De um poema de
Eugénio de Andrade:
Os navios existem
e existe o teu rosto encostado
ao rosto dos navios
Paul desembarca
e embrenha-se na cidade. Entra num bar e depara na parede com um relógio cujos
ponteiros rodam ao contrário. Nada, de facto, é tão permanente em relação a um
barco, como a próxima rota da sua viagem.
António Reis
deixou versos em que dizia que há sempre um rapaz triste com lágrimas nos olhos
frente a um barco.
Paul resolve
deixar partir o barco e ficar na cidade.
Talvez o primeiro dia do resto da sua
vida.
A Cidade Branca sofre um pouco da tristeza que é a nossa, ressalta a ternura que
ansiamos e procuramos indefinidamente.
Volto à
superfície, Stop; Rosa partiu não sei para onde, Stop; o único país de que
gosto verdadeiramente é o mar, Stop; amo-vos, Stop; beijo-te ternamente, Stop;
o corpo duma mulher é demasiado grande, Stop; a recordação e o esquecimento têm
a mesma origem, Stop; as mulheres são demasiado belas, stop; os comboios não
partem à tabela, Stop; não sei mais do que dantes, Stop., escreve Paul antes de deixar Lisboa, a cidade
branca.
Na Nota Preliminar
que Mécia, mulher de Jorge de Sena, escreveu para os 80 Poemas, conta que este projecto da tradução dos poemas de EmilyDickinson, era um velho sonho de Sena.
Em 1962 destinavam-se
a ser publicados em separata para a revista Bandarra,
organizada por Egito Gonçalves, mas nunca foram publicados.
Em 1967, com um
acréscimo de poemas traduzidos, foi enviado à Portugália Editora «onde não teve melhor sorte».
Em Julho de 1968 os
direitos autorais foram cedidos à Editorial Inova mas tudo ficou no
esquecimento.
Em Janeiro de 1978 as
Edições 70 prontificaram-se a publicar o livro, mas o poeta viria a morrer em
Junho desse mesmo ano.
Só em Outubro de 2010
os 80 Poemas de Emily Dickinson,
traduzidos por Jorge de Sena, teriam a sua publicação incluídos nas Obras
Completas que a Guimarães passou a publicar, tarefa a que a Editora se dedicou sem
grande carinho e entusiasmo. Diga-se.
Que o projecto era muito
querido a Jorge Sena, provam-no as muitas referências feitas a essas traduções
que se podem ler naCorrespondência
que trocou com Eugénio de Andrade., ao todo 22 notas.
A Inova chegou a
andar às voltas com os poemas de Dickinson, juntamente com a tradução dos
poemas de Cavafy. Estes saíram, os de Dickinson não tiveram essa sorte. E como
Sena tereia ficado feliz com essa publicação.
Em 3 de Junho de
1969, Sena escrevia a Eugénio:
«Mas estou francamente inquieto até hoje não recebi, de ti ou da Inova,
notícia de ter chegado a Emily Dickinson, que mandei pouco antes do Cavafy e
nem a respeito deste ou dela recebi da Inova qualquer comunicação. Que se passa
ou não se passa?»
Em 22 de Dezembro de
1970, mais um lamento:
«E era preciso que essa Inova se lembrasse da minha pobre Emily
Dickinson que há tantos anos sempre se vê editorialmente preterida.»
Por este tempo
de Natal quase a findar, tenho, sempre, comigo o sabor do perú, nos jantares de Natal e Ano Novo, o sabor das tangerinas, metia-se um dedo na casca e o fruto
saía por inteiro, e eram doces, doces, doces.
Há um livro de
Pablo Neruda que se chama Odes Elementares, em que o poeta louva
vegetais, frutos, comidas típicas, amigos, cidades, os homens, o trabalho,
tanta coisa, que modela e transforma-as em versos.
Tão simples como
respirar, mas aquela simplicidade que só está ao alcance de gente que busca
horizontes.
Num total de 68,
encontramos odes à alegria, ao amor, às aves do Chile, ao caldo de congro, à
cebola, à crítica, à inveja, à esperança, à apanha dos pássaros, à preguiça, ao
tomate,a o vinho, ao murmúrio, a um
relógio na noite.
Gostava que
houvesse, mas não há, uma ode à tangerina.
Desde os meus
tempos de infância que gosto do cheiro e do sabor da tangerina.
Tenho nos olhos
as tangerinas, descansando na fruteira, para os jantares de Natal e Ano Novo.
Acontecia
existir alguma míngua nas restantes refeições do ano, mas estes jantares eram
sagrados.
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.
tal como
escreveu Eugénio de Andrade.
Mas, parece, já
não existirem tangerinas.
Apenas algo
parecido, nomes como nectarinas, clementinas sei lá…
Sérgio Godinho,
no seu álbum Tinta Permanente tem uma canção a que chamou O Primeiro
Gomo da Tangerina.
Todos vieram
ver a menina
ao primeiro gomo de tangerina
menina atenta
não experimenta
sem primeiro
saber do cheiro
o sabor dos lábios
gestos sábios
Fruta esquisita
menina aflita
ao primeiro gomo de tangerina
amarga e doce
como se fosse
essa hora
em que chora
e depois dobra o riso
e assim faz seu juízo
Sumo na vida
é o que eu te desejo
um beijo um beijo
Ah, que se lembre
sempre a menina
do primeiro gomo de tangerina
p´la vida dentro
é esse o centro
da parcela da vitamina
que a faz crescer sempre menina
A terra é grande
é pequenina
do tamanho apenas da tangerina
quem mata e morra
nunca percorre
os caminhos do que há de melhor
nesse sumo
a vida, gomo a gomo
Sumo na vida
é o que eu te desejo
rumo na vida
um beijo
um beijo
Cheira, prova, experimenta...
O acontecimento é único
(a menina nunca antes provou nada assim)
e, por isso, todos vêm ver.
Será que vai gostar?
Vida fora, não esquecerá este primeiro gomo,
que, diz ela, tem o sabor da primeira vez.
E os Beatles, num
dos álbuns mais extraordinários dos anos 60, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts
Club Band, numa das canções mais polemicas – e elas são tantas! - com a Lucy, à espera de que ela virasse
para mim os olhos caleidoscópicos, também se fala de tangerinas… mas não só…
Imagina-te num barco num rio
Com árvores de tangerinas e céus de doce de laranja
Alguém te chama, respondes muito lentamente
Uma miúda com olhos de caleidoscópio
Flores de celofana amarelas e verdes
Elevam-se sobre a tua cabeça
Procura a miúda com o sol nos olhos
E ela foi-se embora.
Legenda: não foi
possível identificar o autor/origem da imagem.
Aqui,
eram os Alfas situados na Avª Almirante Gago Coutinho, ao Areeiro.
Agora é
um condomínio de habitação.
Começou
por ser três salas, daí o nome Alfas Triplex, e quando as fechou, passados
dez anos sobre a abertura, já eram cinco as salas.
Inaugurado
em 1985 não chegou a durar uma década.
Fechou
portas em 1997.
Quando
os centros comerciais criaram as suas salas, os Alfas ficaram às moscas.
Tinha
uma livraria, chamava-se Alfarrábio.
Comprei
muitos livros na Alfarrábio e um sei de certeza: Alentejo Não temSombra, uma antologia de poesia contemporânea sobre o Alentejo, organizada por
Eugénio de Andrade.
Está aí
a etiqueta e, no canto superior direito, escrito a lápis pelo livreiro o
respectivo preço: 250 escudos.
Num desses cafés, desde o meio da manhã até
ao meio da tarde, três ou quatro mesas estavam sempre reservadas para uma gente
que se juntava ali todos os dias e cedia, a horas sacramentais, o lugar a
outros que chegavam depois – os primeiros eram advogados, militares na reserva,
políticos, coisas assim; os segundos pertenciam à fauna suspeitíssima que são
os artistas e esses das letras, cujo préstimo verdadeiramente até hoje ninguém
descobriu.
Quanto a mim, gosto das palavras que sabem a
terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das
palavras lisas como seixos, rugosas como o pão de centeio. Palavras que cheiram
a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol.
Foi com essas palavras que fiz os poemas.
Palavras rumorosas de sangue, colhidas no espaço luminosos da infância, quando
o tempo era cheio, redondo, cintilante. As palavras necessárias para conservar
ainda os olhos abertos ao mar, ao céu, às dunas, sem vergonha, como se os
merecesse, e a inocência pudesse de quando em quando habitar os meus dias. As
palavras são a nossa salvação.
O livro é
composto por fotografias de amigos de Manuel Costa e Silva e para esses amigos,
o editor Nelson de Matos, arranjou alguém que desses amigos falasse.