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segunda-feira, 1 de julho de 2019

A EUGÉNIO DE ANDRADE


Desses teus lábios, onde o fruto se infunde
de húmidos clarões, cresce o amor em macia
aparência de cardo, cal ou sol.
E como um rio que goteja em dor uma alegria
no terrível espaço que divide
das tuas mãos os vestígios de um corpo,
de deuses não nascidos inviolável recordo.

É essa tua pureza de pássaro
- do sangue irrompes e da noite
pela invenção do dia e das estações –
que da minha solidão desvelas,
amigo, uma louca
repercussão de ecos e difracções.

Jorge de Sena em Correspondência com Carlo Vittorio Cattaneo

Legenda: fotografia de A. Lopes Fernandes

segunda-feira, 1 de abril de 2019

POSTAIS SEM SELO


A claridade coroa-se de cinza, eu sei: é sempre a tremer que levo o sol à boca.

Eugénio de Andrade de Contra a Obscuridade em Poesia e Prosa 1º volume

quinta-feira, 14 de março de 2019

segunda-feira, 4 de março de 2019

MAR DE SETEMBRO/OSTINATO RIGORE


Sobre a mesa os dois livros. Somente um
volume do “Mar de Setembro”, mas do “Ostinato
Rigore”, três exemplares. O meu, o do Manuel, o
do Joaquim. No final do dia ainda se juntaria

um outro, o do José Manuel Bulhão Martins.
Comprados nessa manhã na Guimarães; os três
decidiam-se pelo novo título, eu permaneci fiel,
até hoje, ao mar de setembro. Nenhum deles tinha

a minha relação com o mar, por isso viam no
verso de Eugénio um jovem a trabalhar a terra
vermelha do verão – o seu tronco, o vigor da argila vermelha do verão
mas o mar de setembro dava-me o melhor nadador
de agosto, o que perseguia desde maio até às marés vivas
o apelo absurdo da beleza
o espaço de tempo de um relâmpago

«com o rosto para sempre perdido / com o sorriso e
a sua tez dourada» algum de nós disse, mas nenhum
o chegou a escrever nas folhas que se espalhavam
sobre as mesas de fórmica.

João Miguel Fernandes Jorge

Legenda: Eugénio de Andrade

sexta-feira, 1 de março de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Dulcíssima cidade.

Branca?

Tanner diz que sim.

Branco é o silêncio, a solidão, o encantamento, a violência, o feitiço a nostalgia, a amargura, o deslumbramento.

Tudo branco?

Tanner diz que sim.

Lisboa ao voo do pássaro como diria o Mário-Henrique Leiria.

Um rio que se atreve a ser mar.

Cheiros. Gentes. Mãos que encontram outras mãos, mãos que ajudam, desajudam.

Paulo Nogueira, ao tempo da estreia do filme, escreveu que a felicidade só está disponível para quem sabe parar. Tanner pergunta todo o tempo se as cidades gostam dos homens.

Paul é um marinheiro que trabalha na casa das máquinas de um navio que aporta a Lisboa.

De um poema de Eugénio de Andrade:

Os navios existem
e existe o teu rosto encostado
ao rosto dos navios

Paul desembarca e embrenha-se na cidade. Entra num bar e depara na parede com um relógio cujos ponteiros rodam ao contrário. Nada, de facto, é tão permanente em relação a um barco, como a próxima rota da sua viagem.

António Reis deixou versos em que dizia que há sempre um rapaz triste com lágrimas nos olhos frente a um barco.

Paul resolve deixar partir o barco e ficar na cidade. 

Talvez o primeiro dia do resto da sua vida.

A Cidade Branca sofre um pouco da tristeza que é a nossa, ressalta a ternura que ansiamos e procuramos indefinidamente.

Volto à superfície, Stop; Rosa partiu não sei para onde, Stop; o único país de que gosto verdadeiramente é o mar, Stop; amo-vos, Stop; beijo-te ternamente, Stop; o corpo duma mulher é demasiado grande, Stop; a recordação e o esquecimento têm a mesma origem, Stop; as mulheres são demasiado belas, stop; os comboios não partem à tabela, Stop; não sei mais do que dantes, Stop.,  escreve Paul antes de deixar Lisboa, a cidade branca.

Realização e Argumento: Alain Tanner
Interpretação:
Bruno Ganz (Paul)
Teresa Madruga (Rosa)
Estreia em Portugal: Quarteto, 21 de Abril de 1983

quinta-feira, 19 de julho de 2018

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Na Nota Preliminar que Mécia, mulher de Jorge de Sena, escreveu para os 80 Poemas, conta que este projecto da tradução dos poemas de EmilyDickinson, era um velho sonho de Sena.

Em 1962 destinavam-se a ser publicados em separata para a revista Bandarra, organizada por Egito Gonçalves, mas nunca foram publicados.

Em 1967, com um acréscimo de poemas traduzidos, foi enviado à Portugália Editora «onde não teve melhor sorte».

Em Julho de 1968 os direitos autorais foram cedidos à Editorial Inova mas tudo ficou no esquecimento.

Em Janeiro de 1978 as Edições 70 prontificaram-se a publicar o livro, mas o poeta viria a morrer em Junho desse mesmo ano.

Só em Outubro de 2010 os 80 Poemas de Emily Dickinson, traduzidos por Jorge de Sena, teriam a sua publicação incluídos nas Obras Completas que a Guimarães passou a publicar, tarefa a que a Editora se dedicou sem grande carinho e entusiasmo. Diga-se.

Que o projecto era muito querido a Jorge Sena, provam-no as muitas referências feitas a essas traduções que se podem ler na Correspondência que trocou com Eugénio de Andrade., ao todo 22 notas.

A Inova chegou a andar às voltas com os poemas de Dickinson, juntamente com a tradução dos poemas de Cavafy. Estes saíram, os de Dickinson não tiveram essa sorte. E como Sena tereia ficado feliz com essa publicação.

Em 3 de Junho de 1969, Sena escrevia a Eugénio:

«Mas estou francamente inquieto até hoje não recebi, de ti ou da Inova, notícia de ter chegado a Emily Dickinson, que mandei pouco antes do Cavafy e nem a respeito deste ou dela recebi da Inova qualquer comunicação. Que se passa ou não se passa?»

Em 22 de Dezembro de 1970, mais um lamento:

«E era preciso que essa Inova se lembrasse da minha pobre Emily Dickinson que há tantos anos sempre se vê editorialmente preterida.»

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Como o filho corre para a mãe,
assim eu para ti corria…

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Eu sei da inutilidade das palavras.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Eugénio d’Andrade

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

DOCES, DOCES, DOCES


Por este tempo de Natal quase a findar, tenho, sempre, comigo o sabor do perú, nos jantares de Natal e Ano Novo, o sabor das tangerinas, metia-se um dedo na casca e o fruto saía por inteiro, e eram doces, doces, doces.

Há um livro de Pablo Neruda que se chama Odes Elementares, em que o poeta louva vegetais, frutos, comidas típicas, amigos, cidades, os homens, o trabalho, tanta coisa, que modela e transforma-as em versos.

Tão simples como respirar, mas aquela simplicidade que só está ao alcance de gente que busca horizontes.

Num total de 68, encontramos odes à alegria, ao amor, às aves do Chile, ao caldo de congro, à cebola, à crítica, à inveja, à esperança, à apanha dos pássaros, à preguiça, ao tomate,a o vinho, ao murmúrio,  a um relógio na noite.

Gostava que houvesse, mas não há, uma ode à tangerina.

Desde os meus tempos de infância que gosto do cheiro e do sabor da tangerina.

Tenho nos olhos as tangerinas, descansando na fruteira, para os jantares de Natal e Ano Novo.

Acontecia existir alguma míngua nas restantes refeições do ano, mas estes jantares eram sagrados.

deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

tal como escreveu Eugénio de Andrade.

Mas, parece, já não existirem tangerinas.

Apenas algo parecido, nomes como nectarinas, clementinas sei lá…

Sérgio Godinho, no seu álbum Tinta Permanente tem uma canção a que chamou O Primeiro Gomo da Tangerina.

Todos vieram
ver a menina
ao primeiro gomo de tangerina
menina atenta
não experimenta
sem primeiro
saber do cheiro
o sabor dos lábios
gestos sábios
Fruta esquisita
menina aflita
ao primeiro gomo de tangerina
amarga e doce
como se fosse
essa hora
em que chora
e depois dobra o riso
e assim faz seu juízo
Sumo na vida
é o que eu te desejo
um beijo um beijo
Ah, que se lembre
sempre a menina
do primeiro gomo de tangerina
p´la vida dentro
é esse o centro
da parcela da vitamina
que a faz crescer sempre menina
A terra é grande
é pequenina
do tamanho apenas da tangerina
quem mata e morra
nunca percorre
os caminhos do que há de melhor
nesse sumo
a vida, gomo a gomo
Sumo na vida
é o que eu te desejo
rumo na vida
um beijo
um beijo
Cheira, prova, experimenta...
O acontecimento é único
(a menina nunca antes provou nada assim)
e, por isso, todos vêm ver.
Será que vai gostar?
Vida fora, não esquecerá este primeiro gomo,
que, diz ela, tem o sabor da primeira vez.

E os Beatles, num dos álbuns mais extraordinários dos anos 60, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, numa das canções mais polemicas – e elas são tantas! -  com a Lucy, à espera de que ela virasse para mim os olhos caleidoscópicos, também se fala de tangerinas… mas não só…

Imagina-te num barco num rio
Com árvores de tangerinas e céus de doce de laranja
Alguém te chama, respondes muito lentamente
Uma miúda com olhos de caleidoscópio
Flores de celofana amarelas e verdes
Elevam-se sobre a tua cabeça
Procura a miúda com o sol nos olhos
E ela foi-se embora.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.


terça-feira, 27 de setembro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Aqui, eram os Alfas situados na Avª Almirante Gago Coutinho, ao Areeiro.

Agora é um condomínio de habitação.

Começou por ser três salas, daí o nome Alfas Triplex, e quando as fechou, passados dez anos sobre a abertura, já eram cinco as salas.

Inaugurado em 1985 não chegou a durar uma década.

Fechou portas em 1997.

Quando os centros comerciais criaram as suas salas, os Alfas ficaram às moscas.

Tinha uma livraria, chamava-se Alfarrábio.

Comprei muitos livros na Alfarrábio e um sei de certeza: Alentejo Não temSombra, uma antologia de poesia contemporânea sobre o Alentejo, organizada por Eugénio de Andrade.


Está aí a etiqueta e, no canto superior direito, escrito a lápis pelo livreiro o respectivo preço: 250 escudos.

Hoje, um euro e cinquenta cêntimos.

Estava longe o código de barras.

Estava longe tanta coisa.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

NUM DESSES CAFÉS


Num desses cafés, desde o meio da manhã até ao meio da tarde, três ou quatro mesas estavam sempre reservadas para uma gente que se juntava ali todos os dias e cedia, a horas sacramentais, o lugar a outros que chegavam depois – os primeiros eram advogados, militares na reserva, políticos, coisas assim; os segundos pertenciam à fauna suspeitíssima que são os artistas e esses das letras, cujo préstimo verdadeiramente até hoje ninguém descobriu.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 22 de junho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Quanto a mim, gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como o pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol.
Foi com essas palavras que fiz os poemas. Palavras rumorosas de sangue, colhidas no espaço luminosos da infância, quando o tempo era cheio, redondo, cintilante. As palavras necessárias para conservar ainda os olhos abertos ao mar, ao céu, às dunas, sem vergonha, como se os merecesse, e a inocência pudesse de quando em quando habitar os meus dias. As palavras são a nossa salvação.

Eugénio de Andrade em Rosto Precário

Legenda: pintura  de Mihai Criste

sábado, 16 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Recomeço. Não tenho outro ofício.

Eugénio de Andrade

Legenda: pintura de Marcel Duchamp

sábado, 26 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Sê paciente; espera
Que a palavra amadureça
E se desprenda como um fruto
Ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade em Poemas 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Pela noite adiante, com a morte na algibeira,
cada homem procura um rio para dormir.

Eugénio de Andrade

Legenda: fotografia de Edouard Boubat

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

OS AMIGOS DE MANUEL COSTA E SILVA


Os Meus Amigos é um livro-homenagem a Manuel Costa e Silva.
O livro é composto por fotografias de amigos de Manuel Costa e Silva e para esses amigos, o editor Nelson de Matos, arranjou alguém que desses amigos falasse.
São estes os amigos de Manuel Costa e Silva que aparecem no livro:

Fernando Lopes – texto de João César Monteiro
Maria João Seixas – texto de Maria Belo
José Gomes Ferreira – texto de Fernando Lopes Graça
Lia Gama – texto de Baptista-Bastos
Luandino Vieira – texto de Augusto Abelaira
João Hogan – texto de Virgílio Domingues
Eugénio de Andrade – texto de Eduardo Prado Coelho
Carlos de Oliveira – texto de Salvato Teles de Menezes
Rogério Ribeiro – Alexandre Cabral
Sérgio Niza – José Manuel C. Mendes
Maria do Céu Guerra – Vitorino d’Almeida
José Saramago – Carlos Eurico da Costa
João Abel Manta – José Carlos de Vasconcelos
Ilda Moreira – Luísa Dacosta
Ricardo Pais – Maria Velho da Costa
António Borges Coelho – José Saramago
Maria Emília Correia – Miguel Serras Pereira
Frederico George – Daciano Costa
José Cardoso Pires – Maria Lúcia Lepecki
Vitorino – Maria do Céu Guerra
António Ole – David Mestre
Zita Duarte – Fernando Lopes
Pedro Bessa Múrias – pelo próprio
Júlio Pomar – pelo próprio
Vespeira – António Ramos Rosa
Mario Vargas Llosa – Irineu Garcia
Virgílio Domingues – Rui Mário Gonçalves
João Cutileiro – Sílvia Chicó
Aníbal Falcato Alves – António Simões
Eduardo Geada – Artur Semedo
Rosalina Gomes d’Almeida – Sérgio Niza
José Bizarro – Mário Barradas

Legenda. Fotografia de Manuel Costa e Silva tirada de Os Meus Amigos.

sábado, 5 de dezembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbedos e perguntar o que aconteceu.

 Eugénio de Andrade

Legenda; não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


O silêncio é a minha maior tentação.

Eugénio d’Andrade

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 13 de junho de 2015

EUGÉNIO


Eugénio de Andrade deixou-nos há dez anos.
Mas ficaram as suas doces palavras.
Disse que valia a pena viver para escrever um verso.