Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade Correspondência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade Correspondência. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de setembro de 2017

A JORGE DE SENA, NO CHÃO DA CALIFÓRNIA


No dia 25 de Março de 1976 sofre um enfarte de miocárdio.
Ainda vem a Portugal entre 3 e 17 de Maio e de 3 a 20 de Junho de 1977. Neste segundo período, esteve em Coimbra, a 7, na Guarda entre 10 e 11 para as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidade Portugueses, em que discursou, e no Porto, entre 15 e 17 de Junho.
Jorge de Sena adoece, gravemente, no início de 1978, com cancro., vindo a falecer no dia 4 de Junho.

Carta de Eugénio de Andrade, datada de 5 de Ju8nho de 1978, enviada a Mécia de Sena:

Querida Mécia:

Aqui me tem, quase sem palavras, só para um abraço emocional, e não só pela perda do Jorge – um dos raros portugueses universais do nosso tempo, que nos morre, como já tive ocasião publicamente – mas também por si.
Disponha de mim para o que necessitar e, quando tiver ocasião, diga-me se o Jorge ainda recebeu a minha última carta quando soube da gravidade da sua doença, pois depois de a ter metido no correio verifiquei que não indiquei o número que se segue a Califórnia.
Grande abraço do seu, afectuosamente

                                                                           Eugénio de Andrade

Carta de Eugénio de Andrade, datada de 9 de Outubro de 1978, para Mécia de Sena:

Querida Mécia:

Aqui vai o poema sobre o Jorge. Quero que V. seja dos primeiros leitores destes versos.
Junte-lhe as saudades e um grande abraço


A JORGE DE SENA, NO CHÃO DA CALIFÓRNIA

É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em ti
o rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu - concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portugueses
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

                                                                             Agosto de 1978
                                                                    Eugénio de Andrade

sábado, 9 de setembro de 2017

UM SILÊNCIO SEM NOME


Em carta, datada de 24 de Dezembro de 1974, Sena pergunta-lhe:
«Que tens feito, que não dás notícias?»
Só a 23 de Janeiro de 1975, Eugénio lhe responde:

O meu silêncio já não tem nome. Desculpa-me. Os dias passam não sei como. Jornais, rádio, televisão – quase não faço mais nada. Não vejo os amigos, não sei que fazer, provavelmente preocupados como eu com a fragilidade de todo o processo político. Em certos aspectos nada mudou desde que aqui estiveste: o mesmo abismo entre o poder económico e o poder político, a ausência de medidas vigorosas no sentido de evitar saídas de capital, a mesma fragmentação se espera (acentuado agora no PS com a saída do Manuel Serra, para constituir a Frente Socialista, os fascistas instalados a todos os níveis, etc., etc. Estamos, portanto, bem longe de uma revolução em marcha, por muito que se fale nisso…

terça-feira, 22 de agosto de 2017

UM SILÊNCIO REPLETO DE RAZÕES


 Neste livro de Correspondência, pertence a Eugénio de Andrade a primeira carta pós-25 de Abril. Não tem dia. Apenas: Maio de 1974:

O meu silêncio começa a ser escandaloso, mas tem as suas razões, algumas que conheces, outras que ignoras. Antes de 25 de Abril tive o mais íntimo dos meus amigos preso pela Pide, e depois do movimento das Forças Armadas, houve uns dias de bebedeira.
O tempo quase não chegava para a leitura dos  jornais, as emissões de rádio, a televisão. Durante uns dias este país foi outro: agora é necessário encontrar-se um ritmo, o que não é fácil. O processo democrático, ao nível dos organismos, das fábricas, das escolas, é para já uma batalha. É evidente a falta de hábito. Não tardará que a Junta de Salvação comece a ter também os seus presos políticos: a esquerda revolucionária já está a ser aproximada pelos bem-pensantes do país, incluindo os comunistas, da mais sinistra reacção.
(…)
Não tomes a mal o meu silêncio, o país começa a estar quase todo em greve, e isso é muito inquietante.

domingo, 2 de julho de 2017

EM QUE CORDA SENSÍVEL LHE TOCASTE?


Na última carta, Jorge de Sena fazia referência a umas trapalhadas de que fôra vítima por parte de Mário Cesariny de Vasconcelos.
Em carta datada de 25 de Novembro de 1969, Eugénio de Andrade diz-lhe:

Vi os surrealistas de armas contra ti – não te enviei os recortes para que te não incomodassem. Não conheço o prefácio dos Manifestos. Em que corda sensível lhe tocaste? Acho que fizeste bem em não ligares ao assunto qualquer importância. Conheces bem o Mário Cesariny – ele precisa de um pequeno escândalo de vez em quando, para que não o esqueçam.


Legenda: Mário Cesariny por André Carrilho

terça-feira, 16 de maio de 2017

QUE POSSO EU FAZER?


Final de carta de Eugénio de Andrade, datada de 30 de Abril de 1969, para Jorge de Sena:

E, caríssimo, fico-me por aqui. Eu continuo a arruinar-me com os discos. Tenho agora todas as óperas gravadas de Mozart. E gasto o meu tempo a ouvi-las. Que outra coisa posso eu fazer nesta cidade, neste país?

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O QUE TEMOS DE MELHOR PARA DAR


Porto, 1 de Setembro de 1967

Querido Jorge,

Cheguei há dias de Londres – que é a maravilha que sabe – e encontro em casa as suas Novas Andanças, que havia lido há muito. Alegrou-me que, finalmente, você me tenha perdoado o meu silêncio, que só tem a ver com o meu desespero e onde até a ternura e a amizade podem morrer à míngua de palavras, E, contudo, se ainda vivo, é na esperança de que à vida as palavras possam restituir uma possível dignidade. Algumas palavras, e entre elas contam-se as suas. Eis porque nada de quanto V. escreve me passa despercebido, o que é raro, nesta língua, a que ambos damos o que temos de melhor para dar.

Jorge de Sena/Eugénio de Andrade em Correspondência

terça-feira, 4 de abril de 2017

BOAS INTENÇÕES QUE NÃO ESCREVEM BONS ROMANCES


Em carta, datada de 31 de Outubro de 1964, Eugénio de Andrade, que fazia parte do júri que atribuíu a Sophia de Mello Breyner Andresen, pelo seu «Livro Sexto» em detrimento de «Metamorfoses» de Jorge de Sena, o Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, escreve a Jorge de Sena:

«Quebro um longo silêncio (os motivos são tantos… sem que nenhum tenha a ver consigo) para lhe agradecer, tão tarde!, o seu belo, muito belo livro. Provavelmente já saberá que este foi por mim chamado ao último Prémio de Poesia da Sociedade de Escritores e que esteve à beira de o ganhar. Eu e o Padre Manuel Antunes votámos nele, por esta ordem. Havia então dois votos para o livro de Sophia, e coube ao representante da Sociedade desempatar. Mas o próprio voto de desempate foi dado após longa perplexidade, fique isto dito em abono do Pinheiro Torres. Conto-lhe isto mais para lhe mostrar quanto gostei do seu livro que por qualquer outra razão.»

Jorge de Sena responde em carta de 7 de Novembro de 1964:

«No meio de tudo isto, às vezes, com a correspondência em desordem, pensei em escrever-lhe. Mas, depois que soube ser V. membro do júri do prémio, sentia-me constrangido e, após o que, perdoe-me que lhe diga, considero um escândalo, fiquei à espera, mais constrangido ainda, que me escrevesse Você. O que finalmente aconteceu. Eu explico a razão de empregar a palavra «escândalo». Sabe V. que sou velho amigo da Sophia, a quem quero muito bem, e que sou das pessoas que a estimavam e admiravam, ainda quando todos ou quase todos a consideravam uma cabotina aristocrática, pela qual os neo-relistas não podiam nem roçar-se. Acho que ela é um dos mais importantes poetas portugueses do nosso tempo. Mas acontece que se premiavam livros e não pessoas. E das duas uma, se se premiavam pessoas, a minha obra, queiram-no ou não, é mais importante e mais influente que a dela; se se premiavam livros, o meu é um dos maiores livros que neste século se escreveram em português, mesmo que a obra de Sophia fosse mais influente que a minha. Isto não tem qualquer saída que não seja o ódio coligado contra mim, que é velho, a fúria dos comunistas que, por seus chantagistas que nem comunistas são, dominam tudo aí, e a minoria em que os meus fiéis sempre ficarão perante tudo isso. Tudo o mais são as boas intenções com que, segundo o Gide, não se escrevem bons romances. E não me fale desse Pinheiro Torres, que considero um dos muitos Margaridos que arrastam a cauda por essas ruas lusas e outros lugares menos públicos.»

Jorge de sena/Eugénio de Andrade em Correspondência.

Legenda: a capa do Livro Sexto é tirada do site da Biblioteca Nacional.

domingo, 26 de março de 2017

EXÍLIOS DE ALMA


A 2 de Novembro de 1962, Eugénio de Andrade escreve a Jorge de Sena:

Há já tanto tempo que não lhe escrevo! Você não faz ideia deste exílio de alma que são os dias aqui. Nada sabe a vida. E contudo não esqueço – lembro-me que você faz anos hoje, e isso leva-me a quebrar este silêncio para lhe enviar um abraço longo, cheio de saudade, à portuguesa.

Jorge de Sena, desde São Paulo, é pronto na resposta e escreve no dia 9 de Novembro:

Eu faço ideia, sim, Eugénio, do que seja esse «exílio de alma», onde «nada sabe a vida». E por várias razões: se bem que saiba – e como sei! – isso hoje mais triste do que nunca (embora me pareça que, para nossa maior solidão, nunca os medíocres de todas as cores e feitios terão sido tão felizes e bafejados de boa sorte editorial e jornalística…), havia muito que a vida aí me não sabia; e, tendo jogado tudo e acabado aqui, não posso dizer que, na verdade, ela tenha mudado de gosto… pelo menos o gosto de hoje, vai-se parecendo muito com o antigo. E porque vou ficando mais velho e mais desiludido de tudo (vida política, literária, vida tout court), provavelmente que até me sabe pio. As saudades que tenho dos amigos são imensas; e tê-las-ia sempre. Mas são tornadas mais densas pela total ausência de convívio, que é, num misto de provincianismo e de americanismo, a vida brasileira. Ninguém procura ninguém, se ele, no momento lhe não é necessário para qualquer coisa; e as pessoas têm vergonha de, em convívio, serem os intelectuais que passam por ser. De resto, eu evitei, desde sempre, mergulhar num pretenso convívio que existe em São Paulo ou no Rio, e que é feito de comunidade de negócios literários, de uísques caros, e da tolerância para com todos os medíocres que a política literária, mais do que aí, não elimina e antes tolera e cultiva, sem distingui-los da gente decente, E, como você sabe, nos meios universitários em que vivo, aqui como aí não abundam os intelectuais ou sequer as pessoas de gosto e de cultura. Dá-se até, nestes meios, um curioso fenómeno com pessoas como eu ou o Casais as pessoas evitam conversar, de medo de dizerem tolices que não nos escapariam..,.

Jorge de Sena/Eugénio de Andrade em Correspondência

Legenda: Jorge de Sena e Eugénio de Andrade

sexta-feira, 17 de março de 2017

MAS OS TEMPOS SÃO SOMBRIOS


Já há algum tempo que lhe devia ter agradecido o seu último volume de ensaios (1) e o seu conto (2) – ambos magníficos – mas os tempos são sombrios e eu não consigo erguer-me de rosto limpo para coisas que me requerem inteiro. a poesia que não escrevo, a pureza que o amor implica, a transparência que a amizade exige, e outras ainda. Parece-me que já o silêncio é sem mácula – e quebrá-lo é uma violentação.
Foi uma pena que tão mesquinhas razões impedissem a inclusão de «Os Amantes» no seu livro, além de ser um dos seus melhores contos, são ainda das páginas mais francas, e, portanto, mais puras, que em português se escreveram sobre o amor – e quem não saiba ver isso nada sabe de amor nem da arte de contar.

Carta de Eugénio de Andrade datada de 27 de Julho de 1961 em Correspondência.

(     (1) - O Poeta é um Fingidor, Edições Ática, 1961

(     (2) - Trata-se de «Os Amantes» que fará parte das «Novas Andanças do Demónio» publicado pela Portugália em Agosto de 1966 e que, segundo Sena, deveria fazer parte de «Andanças do Demónio» editado em 1960.

quinta-feira, 9 de março de 2017

UM AMIGO LONGE É QUASE UM AMIGO PERDIDO


Jorge de Sena chega ao Brasil, onde ficará exilado, no dia 7 de Agosto de 1959, a fim de participar, na Universidade da Bahia, entre 10 e 21 daquele mês, no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros. Jorge de Sena viajou a convite do governo brasileiro razão porque não fazia parte da comitiva oficial da ditadura salazarista àquele colóquio.

Mécia, mulher de Jorge de Sena, em carta para Eugénio de Andrade, datada de 3 de Setembro de 1959, informa Eugénio de Andrade:

O Jorge continua pelo Brasil, acarinhado como nunca julgou, exausto de trabalho (relator de não sei quantas teses por dia no Colóquio), e de andar por todo o lado, ao coo, quase, de toda a gente, não tem pernas que o façam voltar para aqui. Espero-o, contudo, por toda a próxima semana.

Em carta datada de 10 de Setembro. Mécia diz a Eugénio de Andrade que Jorge de Sena não voltará a Portugal:

A confirmar-se a ficada do Jorge por lá, em breve irei também se Deus quiser. E bem me custa deixar esta terra que estimo e meia dúzia de pessoas que nela particularmente estimo também. Mas… onde o Jorge estiver bem estarei com certeza bem.

A 15 de Setembro Eugénio responde a Mécia:

Chego de Santo Tirso e encontro a sua carta.
A notícia que me dá em relação ao Jorge surpreendeu-me, entristeceu-me e alegrou-me. Fácil de entender, não é verdade?
O Jorge faz por cá muita falta. Há muito poucas pessoas com a sua coragem e categoria mental no nosso país, e cada uma que parete torna o vazio maior. Mas compreendo que não resista aos amáveis convites brasileiro – além do enriquecimento de contactos que é uma longa estadia no Brasil e, provavelmente, melhoria mesmo da situação económica, o que também +e de ponderar quando há várias crianças. Mas tenho pena – um amigo longe é quase um amigo perdido. Ou talvez não!

Em carta, datada de Assis a 27 de Julho de 1960, Sena escreve a Eugénio:

O que tem sido a minha vida no Brasil: escritos, traduções, aulas, jornalismo, viagens, um nunca respirar tão intenso, ou mais, do que já era aí, não saberá V. exactamente; mas calculará que o meu silêncio, apenas quebrado por cartas a editora, e deixando sem notícias os melhores Amigos, não pode deixar de significar uma vida assim. Neste momento, estou a cinco dias de recomeçarem as aulas, e a oito de voar para o Recife (meia distância a que estou de Portugal), onde vou participar no Congresso da Crítica, para o qual, contra minha indicação expressa, não teráo convidado o Saraiva, o Serrão, o Simões, o Óscar, etc. acobertando-se em que o Congresso se restringe aos professores universitários,,, o que eu e o Casais aqui somos. De resto, convidaram-nos com passagens pagas, etc. – ou de outro modo eu não iria.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

COMO DE VÓS

Final da carta de Jorge de Sena para Eugénio de Andrade datada de 2 de Novembro de 1958:

P.S. – Sabe V. que o meu soneto à memória do papa me valeu uma carta anónima do Porto, classificando-o de… não poesia mas desinteria? Palavra que, para meu governo, gostaria de saber quem foi, pois não terá sido um simples leitor qualquer, Investigue-me isso.

Por carta, datada de 10 de Novembro, Eugénio de Andrade responde a Sena:

Que coisa horrorosa essa história da carta anónima! Não poderei averiguar nada sobre isso – há já muito, muito tempo, que me afastei de qualquer convívio de todos os «literatos» capazes de tais infâmias! E aqui há bastantes!

É este o soneto de Jorge de Sena:

Como de Vós

                       À memória do papa Pio XII que quis, ouvir, moribundo, o «Alegret-
                       To da Sétima Sinfonia de Beethoven

Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,

importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.

Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.

Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

MEGALOMANIA ACIMA DA AMIZADE


Recebi uma carta do Joel Serrão a falar-me do vosso plano de conferências sobre o Cesário e a pedir a minha intervenção junto do Torga. Já lhe respondi a dizer-lhe que, neste momento, não sou a pessoa mais indicada para o fazer, poi o Torga está amuado comigo, por certo pela minha resposta ao inquérito do Tetracórnio – e como sinal disto, não me enviou o último livro. Ou ele está ofendido por eu considerar o Fernando Pessoa a mais fascinante personalidade do meio-século ou então por ter citado um livro de versos do Régio e ter citado dele, Torga, um livro de prosas. De resto eu já previa isso; sei muito bem que a sua megalomania está sempre acima da sua amizade.

Eugénio de Andrade, carta datada de 24 de Março de 1953 em Correspondência Jorge deSena/Eugénio de Andrade.

sábado, 28 de janeiro de 2017

AINDA TEIXEIRA DE PASCOAES


Pela leitura da Correspondência trocada entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade, constata-se que ambos eram entusiastas da obra de Teixeira de Pascoaes.

Após a morte de Teixeira de Pascoaes, Jorge de Sena tem a ideia de organizar uma edição dos «Cadernos de Poesia» sobre o poeta. Eugénio de Andrade, em carta datada de 19 de Dezembro de 1952, escreve:


Na Biblioteca do meu pai, não havia um único livro de Teixeira de Pascoaes.

Quando em Junho de 1966 li A Memória das Palavras dei com os encómios que o José Gomes Ferreira dedica a Pascoaes:

«A conselho de Leonardo Coimbra comprei o Sempre e então aconteceu o abismo. De súbito ruíram-se-me na alma anos e anos de falsa literatura, de improvisos à Bocage, de construções de palavras de caliça, sem subterrâneos, com que a pátria oficial das escolas sufoca desde a infância verdadeira poesia a correr em fontes de borboletas absurdas…»

Meti conversa com o meu pai sobre Teixeira de Pascoaes e ele disse-me que era escritor que não o entusiasmava. 

O meu pai era das pessoas menos saudosistas que até hoje conheci.

Nestas circunstâncias, e tendo respeito por opiniões de gente como José Gomes Ferreira,  e como gostei sempre de melhorar a minha vasta ignorância, andei pelas livrarias, alguns alfarrabistas, em demanda de um qualquer livro de Teixeira de Pascoaes.

Não tive qualquer ponta de sorte e mesmo ao longo dos tempos nunca encontrei obras de Pascoaes.

De modo que Pascoes é uma das muitas lacunas que transporto.

E, pelo andar da carruagem, penso que assim continuará a ser.

Por sinal, José Gomes Ferreira, refere, já naquele tempo, a dificuldade em encontrar livros de Pascoaes:

«Sim. Já lá vão anos sem fim desde a última vez que falei com Teixeira de Pascoaes, aqui, diante desta montra… (Sinto que vou indignar-me!) sim, exactamente aqui, diante desta montra (Vem, indignação, vem!), onde nunca, nunca, nunca, NUNCA me lembro de ter visto exposto um único livro de versos do Poeta. Nem aqui, nem em qualquer outra montra de Lisboa, aliás. Só nos alfarrabistas, para educação das traças.
Dir-se-ia que Teixeira de Pascoaes não existe

Remato este evocação de Teixeira de Pascoaes, folheando a História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, capítulo intitulado «Teixeira de Pascoaes e a evolução do Saudosismo»:

«A designação de Saudosismo pertence, em sentido restrito e corrente, a um movimento estético e doutrinário que tem como figura central o poeta Teixeira de Pascoaes. Embora influenciado pela estética simbolista, o saudosismo deve considerar-se sobretudo com um desenvolvimento do misticismo panteísta que se acentua na fase declinante da geração de 70.»

Propriamente sobre Teixeira de Pascoaes:

«A comunicabilidade da obra de Pascoaes é muito prejudicada, e sê-lo-á cada vez mais, pela sua pretensão de atingir profundas verdades através de meras extrapolações analógicas, por certa suficiência em que se insulou, com o seu círculo de admiradores desenraizados dos problemas reais portugueses. No entanto, subsiste nalguns dos seus livros certo fôlego, certa largueza de concepção do romantismo progressista (Vida Etérea, 1906; Regresso ao Paraíso, 1912); e no seu lirismo, monòtonamente elegíaco e sombrio, há, em compensação, uma sensibilidade  vibrátil que alarga os seus motivos de interesse para fora do vulgar âmbito pessoalista e erótico: há como que um sentido franciscano de companheirismo que abrange mulheres, homens, símbolos, bichos, árvores, pedras, o Marão, Tâmega e a própria morte (Senhora da Noite, 1909; Marânus, 1911; o Doido e a Morte, 1913; Elegia do Amor, 1924; etc.).»

Legenda: José Gomes Ferreira e Teixeira de Pascoaes, fotografia tirada da Fotobiografia de José Gomes Ferreira

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

PARA NÃO LHE CHAMAR OUTRA COISA


Já li a nossa homenagem ao Pascoaes nos Cadernos. Não sendo ainda o que o nosso grande poeta merece, é no entanto uma coisa digna, limpa, com alguns depoimentos sérios. Sabe, Jorge, sinto o Pascoaes crescer espantosamente, dia a dia. Agora ao reler certos livros e ao ler outros, de prosa, que ainda não tinha lido, sinto-me envergonhado. Ele era tão grande, e nós à sua roda, não dávamos por essa grandeza excessiva! Não faz ideia, como isso, ontem à noite, ao acabar o Duplo Passeio, se me tornou evidente. Até o que não presta é de boa qualidade! Tem presente este livro? Se não tem, releia-o, peço-lhe. Algumas páginas são tão grandes como certo Rimbaud, certo Lautréamont.
O depoimento do Torga é chocante, para não lhe chamar outra coisa. Naturalmente que a obra do Pascoaes tem defeitos, todos nós o sabemos. Qual é o grande poeta que os não tem? Mas reduzi-lo a esses defeitos, como o torga faz, é… horrível! Creio que não fui só eu a ficar chocado. Muita gente me tem falado nisso.

Eugénio de Andrade, carta datada de 11 de Fevereiro de 1953, em Correspondência Jorge de Sena/Eugénio de Andrade.

Jorge de Sena, em carta datada de 3 de Março de 1953, responde a Eugénio de Andrade e refere o depoimento de Miguel Torga:

Ocorre-me, agora, a prosa de Torga, de facto bastante triste – mas não terá pelo menos a virtude de ser sincera… na medida em que mais uma vez Torga se confessa o «único»?

domingo, 22 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Correspondência
1949-1978

Jorge de Sena/Eugénio de Andrade
Organização: Mécia de Sena
Apresentação: Isabel de Sena
Notas: Jorge Fazenda Lourenço
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz, Lisboa, Outubro de 2016

Querido Jorge:

Recebi simultaneamente a tua carta e original de Cavafy, há já alguns dias, mas não tive ocasião de te escrever logo após a leitura dos poemas, como gostaria de ter feito. Comparei mesmo alguns poemas com a tradução do Pontani. Como imaginava, a tua tradução é incomparável, particularmente, os poemas breves, os mais difíceis de traduzir, pelo risco que alguns correm de se transformarem numa quase banalidade madrigalesca, o que acontecia com as traduções francesas, a que não escapam mesmo as traduções mais belas. É um prodígio o que consegues. E se podes afirmar, apoiado em Goethe, que não há grande poema que não possa ser traduzido, seria indispensável juntar que tudo vai do tradutor. Ora o Cavafy teve a sorte de te encontrar no caminho. Se dou mais relevo às traduções dos «eróticos » (achando igualmente notável o que fizeste dos três poemas do Cavafy que prefiro – «O deus abandona Marco António», «Ítaca» e «À espera dos bárbaros») é tão-só porque considero a tradução de tais poemas mais difíceis que os outros. A matéria, além de muito frágil é, em outro sentido, delicada. Tu resolves tudo com uma franqueza, uma elegância e uma frescura verdadeiramente notáveis. Reparo até que os poemas têm uma força explosiva que só intuíra nas traduções francesas ou italianas, receando até que tais poemas constituam um pequeno escândalo, justamente, como muito bem referes no teu prefácio, que é muito corajoso, pela nobreza moral que revelam, isentos, como são, dos perversos conceitos de «pecado».
As traduções deram-me uma grande alegria.Este livro pertence-me. A primeira vez que traduziste o Cavafy, lembras-te?, foi para mim, numa noite em tua casa, talvez depois da leitura de As Evidências. Quando apareceram as tuas primeiras traduções no Comércio, estimulei-te, através de correspondência, no sentido de publicares novas traduções. Quando o editor me pediu a indicação de alguns poetas estrangeiros para a colecção que iniciou com o Lorca, o Cavafy, traduzido por ti, foi dos primeiros nomes que apontei. «Um deus abandona Marco António» e «A origem» são poemas que me acompanham desde a tua tradução no Comércio. (Pude assim notar agora as variantes, importantíssimas, lendo agora «A Origem» neste teu volume).
Felizmente que a alegria que me deu o teu livro me compensou da melancolia da tua carta. O que sobretudo lamento, nesta história do prémio, é que por via de o não receberes sejamos privados de nova visita tua. Tu já sabes o descrédito que tem para mim a chamada glória literária. Ser-se Namora, para me servir da tua expressão, é coisa que suponho não interessa a ninguém. Que importa o êxito? Tu não és um escritor para multidões, não no fundo o desejaste nunca ser. De um certo êxito suponho que terás até desprezo. Podes estar tranquilo: a tua obra está aí, e brilha, e aquece. Ela pertence aos melhores, como bem sabes. É pena, realmente, que a tal ilha, Taiti ou outra qualquer (a minha fica no mar grego), não esteja nunca senão no nosso desejo. Que havemos de fazer? Suportar é tudo – não foi o Rilke que disse? Suportar– não há para nós outra solução sob pena de abdicarmos de sermos homens.
Na próxima carta já te direi quais são os teus 50 poemas que prefiro. Tenho o maior gosto em indicar-tos.
Lembranças afectuosas à Mécia. Para ti o maior abraço do muito
teu,
Eugénio

(Carta de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, datada de 21 de Maio de 1969)