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quinta-feira, 18 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS



Os Afluentes do Silêncio

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Dezembro de 1968

Esta morte, assim sem mais nem menos, que um amigo me comunica, entala-se-me na garganta. «Morreu o Manuel Ribeiro de Pavia. Levou-o uma pneumonia que o foi encontrar depauperado por uma vida quase de miséria. Passava fome! Tinha uma única camisa! Não pagava o quarto há não sei quanto tempo! E nós a falarmos-lhe de poesia…» Assim é: passava realmente fome. Todos nós o sabíamos. E ele a falar-nos de pintura, de poesia, da dignificação da vida. É justamente nisto que residia a sua grandeza. Não falava da sua fome – de que, feitas bem as contas, veio a morrer. A fome não consta de nenhum epitáfio.

quinta-feira, 28 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


Poesia e Prosa
Antologia
1º Volume

Eugénio de Andrade
Capa: Rochinha Diogo
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1987

Deixa que seja uma criança
a inclinar a tarde.
Dizem que é verão: não acredites.
O verão tem os pés iluminados pela lua,

O verão tem os nomes todos do mar,
não é o deserto
da cama aberta ao frio,
o prazer imitando a neve.

O que se vê daqui não é a dança
da claridade com o trigo,
o rio onde os cavalos bebem
a tarde a chegar ao fim.

Deixa que seja uma criança.

De Contra a Obscuridade

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Variações Sobre Um Corpo
Antologia de Poesia Erótica Contemporânea

Capa: Armando Alves
Desenhos: José Rodrigues
Colecção Duas Horas de Leitura nº 26
Editorial Inova, Porto, Dezembro de 1973

Nas ervas

Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.

sábado, 21 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS


Limiar dos Pássaros

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Limiar, Porto, Setembro de 1976

Nada sabia de marés, com algumas partias, com outras regressavas. Um dia, já há muito, deixei de te ver. Disseram-me que morreste, e que foste meu pai. É capaz de ser verdade, e ultimamente tenho imaginado como terias morrido. Espero que tenha sido sobre os teus olhos, que foram muito belos, que a morte haja começado com rigor o seu ofício. Era neles que incidia o meu desejo. Quando penso em ti, vejo-te de órbitas vazias, um sangue escuro invadindo-te a boca. Apodreces como toda a gente, só um pouco mais de lado, porque a morte deve ter prosseguido o seu trabalho sobre o coração. Que procurava ela quando o levou à boca? Está agora sobre o centro do teu ser, aí refocila voluptuosamente, crava os dentes até arrancar os teus mais viris ornamentos e cuspir-tos na cara. Foi pena que já não pudesses ouvir as suas gargalhadas ao longo do corredor.
Onde me espera.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade
Seguidos de Antologia

Vários autores (Alexandre Pinheiro Torres, António Ramos Rosa, Eduardo Lourenço, Gastão Cruz, Jorge de Sena, José Fernandes Fafe, José Pacheco Pereira, Mário Sacramento, Óscar Lopes, Vergílio Ferreira, entre outros.
Prefácio: Manuel Alberto Valente
Capa: Armando Alves
Colecção Civilização Portuguesa nº 10
Editorial Inova, Porto s/d

Contra el silencio y el bulício invento
La Palabra, libertad que se inventa y me inventa cada dia.
Octavio Paz

Apetecia-me escrever que, após Fernando Pessoa, era Eugénio de Andrade o maior poeta português do século presente. Apetecia-me escrever, mas não escrevo. E no entanto, passado o magnífico rebanho do portentoso guardador, a poesia nacional – alicerçada, sem dúvida, num índice de qualidade bastante saliente – poucos nomes teve e tem que brilhem tanto com o dele. Poucos? Três ou quatro apenas! Os suficientes, justo é confessá-lo, para que a mão me trema e o coração se sobressalte no momento de arriscar a parada suprema…

(Do prefácio de Manuel Alberto Valente)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Peso da Sombra

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Desenho: Ângelo de Sousa
Editora Limiar, Porto, Outubro de 1982

Trabalho com a frágil e amarga
matéria do ar
e sei uma canção para enganar a morte –
assim errando vou a caminho do mar.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Poemas e Fragmentos de Safo

Tradução de Eugénio de Andrade
Desenho de Ângelo de Sousa
Capa: Armando Alves
Limiar, Porto, Dezembro de 1974

É um mal morrer e os deuses bem o sabem;
se assim não fora, eles próprios morreriam.

domingo, 22 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Correspondência
1949-1978

Jorge de Sena/Eugénio de Andrade
Organização: Mécia de Sena
Apresentação: Isabel de Sena
Notas: Jorge Fazenda Lourenço
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz, Lisboa, Outubro de 2016

Querido Jorge:

Recebi simultaneamente a tua carta e original de Cavafy, há já alguns dias, mas não tive ocasião de te escrever logo após a leitura dos poemas, como gostaria de ter feito. Comparei mesmo alguns poemas com a tradução do Pontani. Como imaginava, a tua tradução é incomparável, particularmente, os poemas breves, os mais difíceis de traduzir, pelo risco que alguns correm de se transformarem numa quase banalidade madrigalesca, o que acontecia com as traduções francesas, a que não escapam mesmo as traduções mais belas. É um prodígio o que consegues. E se podes afirmar, apoiado em Goethe, que não há grande poema que não possa ser traduzido, seria indispensável juntar que tudo vai do tradutor. Ora o Cavafy teve a sorte de te encontrar no caminho. Se dou mais relevo às traduções dos «eróticos » (achando igualmente notável o que fizeste dos três poemas do Cavafy que prefiro – «O deus abandona Marco António», «Ítaca» e «À espera dos bárbaros») é tão-só porque considero a tradução de tais poemas mais difíceis que os outros. A matéria, além de muito frágil é, em outro sentido, delicada. Tu resolves tudo com uma franqueza, uma elegância e uma frescura verdadeiramente notáveis. Reparo até que os poemas têm uma força explosiva que só intuíra nas traduções francesas ou italianas, receando até que tais poemas constituam um pequeno escândalo, justamente, como muito bem referes no teu prefácio, que é muito corajoso, pela nobreza moral que revelam, isentos, como são, dos perversos conceitos de «pecado».
As traduções deram-me uma grande alegria.Este livro pertence-me. A primeira vez que traduziste o Cavafy, lembras-te?, foi para mim, numa noite em tua casa, talvez depois da leitura de As Evidências. Quando apareceram as tuas primeiras traduções no Comércio, estimulei-te, através de correspondência, no sentido de publicares novas traduções. Quando o editor me pediu a indicação de alguns poetas estrangeiros para a colecção que iniciou com o Lorca, o Cavafy, traduzido por ti, foi dos primeiros nomes que apontei. «Um deus abandona Marco António» e «A origem» são poemas que me acompanham desde a tua tradução no Comércio. (Pude assim notar agora as variantes, importantíssimas, lendo agora «A Origem» neste teu volume).
Felizmente que a alegria que me deu o teu livro me compensou da melancolia da tua carta. O que sobretudo lamento, nesta história do prémio, é que por via de o não receberes sejamos privados de nova visita tua. Tu já sabes o descrédito que tem para mim a chamada glória literária. Ser-se Namora, para me servir da tua expressão, é coisa que suponho não interessa a ninguém. Que importa o êxito? Tu não és um escritor para multidões, não no fundo o desejaste nunca ser. De um certo êxito suponho que terás até desprezo. Podes estar tranquilo: a tua obra está aí, e brilha, e aquece. Ela pertence aos melhores, como bem sabes. É pena, realmente, que a tal ilha, Taiti ou outra qualquer (a minha fica no mar grego), não esteja nunca senão no nosso desejo. Que havemos de fazer? Suportar é tudo – não foi o Rilke que disse? Suportar– não há para nós outra solução sob pena de abdicarmos de sermos homens.
Na próxima carta já te direi quais são os teus 50 poemas que prefiro. Tenho o maior gosto em indicar-tos.
Lembranças afectuosas à Mécia. Para ti o maior abraço do muito
teu,
Eugénio

(Carta de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, datada de 21 de Maio de 1969)

domingo, 10 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Alentejo Não tem Sombra

Antologia de Poesia Contemporânea sobre o Alentejo,
Organizada por Eugénio de Andrade,
Com uma pintura de Armando Alves e outra de Jorge Pinheiro
Colecção O Aprendiz de Feiticeiro nº 2
Editorial O Oiro do Dia, Porto, Primavera de 1982


A Cortiça

É preciso dizer-se o que acontece
            no meu país de sal
há gente que arrefece      que arrefece
                  de sol a sol
                 de mal a mal.
É preciso dizer-se o que acontece
             no meu país de sal.

Passando o Tejo       para além da ponte
              que não nos liga a nada
                   só se vê horizonte
                          horizonte
                  e tristeza queimada.

É preciso dizer-se o que se passa
           no meu país de treva:
uma fome tão grande que trespassa
         o ventre de quem a leva.
É preciso dizer-se o que se passa
           no meu país de treva:

mal finda a noite       escurece logo o dia
                e uma espessa energia
                feita de pus no sangue
                    de lama na barriga
      nasce da terra exangue e inimiga

É o vapor da sede       é o calor do medo.
                  a cama do ganhão
                 a casca do sobredo.
                  É o suor com pão
          que se come em segredo.

É preciso dizer-se o que nos dão
      no meu país de boa lavra
aonde um homem morre como um cão
                à míngua de palavra:

Por cada tronco desnudado       um lado
              do nosso orgulho ferido
         e por cada sobreiro despojado
     um homem esfomeado e mal parido.

                         Ah não, filhos da mãe!
                         Ah não, filhos da terra!
                         Os enjeitados também vão à guerra.

José Carlos Ary dos Santos em Resumo

domingo, 23 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Obscuro Domínio

Eugénio de Andrade
Capa de Armando Alves sob um desenho de José Rodrigues
Fotografias de Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Novembro de 1971

Arte de Navegar

Vê como o verão
sùbitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro

quinta-feira, 2 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Memória Doutro Rio

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editora Limiar, Porto, Abril de 1978

Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.

sábado, 13 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Rosto Precário

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editor Limiar, Porto, Setembro de 1979

As palavras são o ofício do poeta, parece-me que foi Cesare Pavese que o disse, e ofício rigoroso, acrescento eu. As palavras são a nossa condenação. Com as palavras se ama, com as palavras se odeia. E, suprema irrisão, ama-se e odeia-se com as mesmas palavras! Como Jano, são bifrontes: nelas se caminha na noite, nelas se caminha no dia. Quanto a mim, gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e ao sol.

terça-feira, 2 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Matéria Solar

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editora Limiar, Porto, Março de 1980

Nesses lugares,
nesses lugares onde o ar
perde a mão,
os meus amigos começam a morrer.

Falar tornou-se insuportável. 
Falar dessa luz queimada.
deserta.

Que fazer desta boca, 
do olhar,

tão perto outrora de ser música?

quarta-feira, 20 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS



Branco no Branco

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editora Limiar, Porto, Setembro de 1974

Faz uma chave, mesmo pequena,
Entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

terça-feira, 5 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Véspera da Água

Eugénio de Andrade
Capa de Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Setembro de 1973

Cavatina

Obstruído o caminho da transparência
só me resta reunir os fragmentos do sol nos espelhos
e com eles junto ao coração
atravessar indiferente a desordem matinal dos mastros.

Quando mais envelheço mais pueril é a luz
mas essa vai comigo.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Ostinato Rigore
Escrita da Terra e Outros Epitáfios

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editora Limiar, Porto, Abril de 1977

Casa na Chuva

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.

sábado, 28 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS



Trocar de Rosa

Eugénio de Andrade (Traduções)
Capa: João B.
Na Regra do Jogo, Lisboa, Janeiro de 1980

ENSAIO DE CÂNTICO NO TEMPLO

Ah, que farto que eu estou da minha
cobarde e velha terra, tão selvagem,
e como gostaria de abalar
para o norte
onde dizem que a gente é limpa e nobre, culta e rica,
viva, livre, feliz!
Então, na confraria, os irmãos diriam
reprovando: «Como pássaro que deixa o ninho,
assim o homem que deixa o lugar»,
enquanto eu, bem longe, riria
da lei, da sabedoria
antiga desta terra tão ávida.
Porém de que me serve prosseguir um sonho -
aqui  hei-de ficar até morrer,
pois cobarde e selvagem também eu o sou,
e além disso amando
com dor desesperada
esta pobre,
suja, triste, desgraçada pátria minha. 


sábado, 29 de novembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Poemas

Eugénio de Andrade
Colecção Poetas de Hoje nº 23
Portugália Editora, Lisboa, Novembro de 1966


Urgentemente 

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
                           muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.