Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade Poemas. Mostrar todas as mensagens

domingo, 21 de julho de 2019

CANÇÃO


Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.

Tu eras água.
Água do mar se te beijava.  
Alta torre, alma, navio, 
adeus que não começa nem acaba.

Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.

Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou. 

Eugénio de Andrade de Até Amanhã em Poemas

domingo, 23 de junho de 2019

AS CRIANÇAS


Elas crescem em segredo, as crianças. Escondem-se no mais oculto da casa para serem gado bravio, bétula branca.
Chega um dia em que estás descuidado a olhar o rebanho que regressa com a poeira da tarde, e uma delas, a mais bonita, aproxima-se me bicos de pés, diz-te ao ouvido que te ama, que te espera sobre o feno.
A tremer, vais buscar a caçadeira, e passas o resto da tarde a atirar sobre as gralhas, inumeráveis, àquela hora.

Eugénio de Andrade em Memória Doutro Rio

quinta-feira, 28 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


Poesia e Prosa
Antologia
1º Volume

Eugénio de Andrade
Capa: Rochinha Diogo
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1987

Deixa que seja uma criança
a inclinar a tarde.
Dizem que é verão: não acredites.
O verão tem os pés iluminados pela lua,

O verão tem os nomes todos do mar,
não é o deserto
da cama aberta ao frio,
o prazer imitando a neve.

O que se vê daqui não é a dança
da claridade com o trigo,
o rio onde os cavalos bebem
a tarde a chegar ao fim.

Deixa que seja uma criança.

De Contra a Obscuridade

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

ENCONTRO NO INVERNO COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES



Com as aves aprende-se a morrer.
Também o frio de janeiro 
enredado nos ramos não ensina outra coisa
- dizias tu, olhando
as palmeiras correr para a luz.
Que chegava ao fim.
E com ela as palavras.
Procurei os teus olhos onde o azul
inocente se refugiara.
Na infância, o coração do linho
afastava os animais de sombra.
Amanhã já não serei eu a ver-te
subir aos choupos brancos.
O resplendor das mãos imperecível.

 Eugénio de Andrade

Legenda: Eugénio de Andtrade

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Variações Sobre Um Corpo
Antologia de Poesia Erótica Contemporânea

Capa: Armando Alves
Desenhos: José Rodrigues
Colecção Duas Horas de Leitura nº 26
Editorial Inova, Porto, Dezembro de 1973

Nas ervas

Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

CANÇÃO BREVE


Tudo me prende à terra onde me dei: 
o rio subitamente adolescente, 
a luz tropeçando nas esquinas, 
as areias onde ardi impaciente. 

Tudo me prende do mesmo triste amor 
que há em saber que a vida pouco dura, 
e nela ponho a esperança e o calor 
de uns dedos com restos de ternura. 

Dizem que há outros céus e outras luas 
e outros olhos densos de alegria, 
mas eu sou destas casas, destas ruas, 
deste amor a escorrer melancolia. 

Eugénio de Andrade de Os Amantes Sem Dinheiro em Poemas

segunda-feira, 23 de abril de 2018

GIRASSÓIS


Adormecer sobre a profusão dos girassóis, pensando nos flancos menos expostos de outro corpo. Várias foram as negligências do olhar, bem pouco curioso para outra coisa que não fosse a nudez da terra, às vezes muito jovem, outras, fatigada. O desejo, só o desejo impede a perversão da alegria. E destas sílabas.

Eugénio de Andrade em Memória Doutro Rio

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

ACERCA DE GATOS


Contigo chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.

Eugénio de Andrade em Assinar a Pele

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

POEMA À MÃE


Nunca concordei por a Igreja, motivos que não compreendi, ou explicaram-me mal, ter deixado de considerar o 8 de Dezembro como o Dia da Mãe e tê-lo enviado para o primeiro domingo de Maio.

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio do laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

CANÇÃO BREVE


Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Da Antologia Breve publicada em 21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade

Legenda: fotografia de José Rodrigues em 21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Peso da Sombra

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Desenho: Ângelo de Sousa
Editora Limiar, Porto, Outubro de 1982

Trabalho com a frágil e amarga
matéria do ar
e sei uma canção para enganar a morte –
assim errando vou a caminho do mar.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Poemas e Fragmentos de Safo

Tradução de Eugénio de Andrade
Desenho de Ângelo de Sousa
Capa: Armando Alves
Limiar, Porto, Dezembro de 1974

É um mal morrer e os deuses bem o sabem;
se assim não fora, eles próprios morreriam.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

DESPEDIDA


Junho chegara ao fim, a magoada
luz dos jacarandás, que me pousava
nos ombros, era agora o que tinha
para repartir contigo,
e um coração desmantelado
que só aos gatos servirá de abrigo

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

AS PALAVRAS INTERDITAS


Os navios existem, e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


Eugénio de Andrade em Poemas

Legenda: fotograma de Marnie de Alfred Hitchcock

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

REQUIEM PARA PIER PAOLO PASOLINI


 Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa: uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo – amanhece,
os primeiros autocarros já passaram,
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na primeira
página, o sangue apodrece o brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meretíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há,
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua.

Eugénio de Andrade em Escrita da Terra e Outros Epitáfios

Legenda: PierPaolo Pasolini foi assassinado há 40 anos.

domingo, 23 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Obscuro Domínio

Eugénio de Andrade
Capa de Armando Alves sob um desenho de José Rodrigues
Fotografias de Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Novembro de 1971

Arte de Navegar

Vê como o verão
sùbitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro

quinta-feira, 2 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Memória Doutro Rio

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editora Limiar, Porto, Abril de 1978

Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.

sábado, 13 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Rosto Precário

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editor Limiar, Porto, Setembro de 1979

As palavras são o ofício do poeta, parece-me que foi Cesare Pavese que o disse, e ofício rigoroso, acrescento eu. As palavras são a nossa condenação. Com as palavras se ama, com as palavras se odeia. E, suprema irrisão, ama-se e odeia-se com as mesmas palavras! Como Jano, são bifrontes: nelas se caminha na noite, nelas se caminha no dia. Quanto a mim, gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e ao sol.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
de cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia. 

Eugénio de Andrade em 12 Poemas a Vasco Gonçalves

Legenda: cartaz de Armando Alves em 12 Poemas a Vasco Gonçalves.

terça-feira, 2 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Matéria Solar

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editora Limiar, Porto, Março de 1980

Nesses lugares,
nesses lugares onde o ar
perde a mão,
os meus amigos começam a morrer.

Falar tornou-se insuportável. 
Falar dessa luz queimada.
deserta.

Que fazer desta boca, 
do olhar,

tão perto outrora de ser música?