Este poema começa
no verão, os ramos da figueira a rasar a terra convidam a estender-me à sua sombra. Nela me refugiava como num rio. A mãe ralhava: A sombra da figueira é maligna, dizia. Eu não acreditava, bem sabia como cintilavam maduros e abertos seus frutos aos dentes matinais. Ali esperei por essas coisas reservadas aos sonhos. Uma flauta longínqua tocava numa écloga apenas lida. A poesia roçava- -me o corpo desperto até ao osso, procurava-me com tal evidência que eu sofria por não poder dar-lhe figura: pernas, braços, olhos, boca. Mas naquele céu verde de Agosto apenas me roçava, e partia.
Por causa de um
vírus, a Páscoa deste ano será diferente.
A fé é um
tormento, dizem.
«Morrer é só não ser visto», escreveu o poeta.
Nos dias que correm
quanta dor, quanta fome, quanto abandono?
«Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?»
Li a Bíblia,
volto lá algumas vezes, mas, como houve autores (Albert Camus, Bertrand
Russell, entre outros) que me fizeram ver que aquela história, pode estar muito
bem contada, mas não tem pernas para andar.
Respeito a fé, as crenças, tudo, de quem entenda a isso dedicar-se.
Gostaria que
respeitassem o facto de não frequentar deuses, mas não acontece facilmente.
«Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do
respeito que tenho pela fé dos outros.»
A fé será mesmo
um tormento?
Fica-te por aqui,
não abras janelas que depois não consigas fechar.
Quem tem olhos
que veja, quem tem ouvidos que ouça.
Lembra-te que um
dia alguém te disse que há quem procure pedras para atirar e quem as procure
para construir.
Deixa que os
poetas contem as coisas melhor do que tu poderias fazer.
E por estes dias
regista apenas o essencial, não te alongues muito, e também faz por pensar, tal
como José Saramago deixou num final de livro: «No dia seguinte ninguém
morreu» e enquanto os dias forem de Paixão, faz por esquecer os negros
números, é difícil, mas faz isso.
Já agora, como
vais tendo todo o tempo do mundo, terás de contar a história de como
procuraste, e encontraste, a música que hoje vais colocar aqui.
Rogo
Não, não rezes por mim.
Nenhum deus me perdoa a humanidade.
Vim sem vontade
E vou desesperado.
Mas assinei a vida que vivi.
Doeu-me o que sofri.
Fui sempre o senhorio do meu fado.
Por isso, quero a morte que mereço.
A morte natural,
Solitária e maldita
De quem não acredita
Em nenhuma oração
De salvação.
De quem sabe que nunca ressuscita.
Miguel Torga
«Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas
quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e
ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso
é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença,
pois sempre pátrias e deuses foi propriedade apenas de alguns, mas não me peças
a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direção das
nascentes.»
Eugénio de Andrade
Os Justos
«Começam o dia
louvando o imperfeito
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho
Olham por dentro a
brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado
Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio
Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas»
José Tolentino Mendonça
1.
Marcelo Rebelo de Sousa deixou hoje a indicação de que o
estado de emergência, até 1 de Maio, deverá manter-se.
2.
Após longa reunião, o Eurogrupo deu 540 mil milhões aos
países membros para mitigar as dificuldades decorrentes do Covd-19.
No fim, bateram-se palmas.
Palmas.
Não sei bem por quem… porquê…
3.
As inscrições diárias nos centros de emprego duplicaram
face a 2019.
Há 4.098 novos desempregados por dia. Despedimentos
coletivos disparam em Abril e a «lay-off» já abrange 40 mil empresas.
4.
Hart Island, no estado de Nova Iorque, a cerca de 25
quilómetros do centro da cidade, é uma ilha utilizada para sepultar as pessoas
que não são reclamadas pela família, está a ser utilizada para enterrar as
vítimas do Covid-19.
Os enterros, que antes ocorriam semanalmente, agora
acontecem cinco vezes por semana.
Os caixões são colocados numa espécie de vala comum.
Nova Iorque é o estado mais afectado com mais de 5.000
mortos e 160 mil casos de pessoas infectadas.
Cai, como antigamente, das estrelas
um frio que se espalha na cidade.
Não é noite nem dia, é o tempo ardente
da memória das coisas sem idade.
O que sonhei cabe nas tuas mãos
gastas a tecer melancolia:
um país crescendo em liberdade,
aureolado de trigo e de alegria.
Porém a morte passeia nos quartos,
ronda as esquinas, entra nos navios,
o seu olhar é verde, o seu vestido branco,
cheiram a cinza os seus dedos frios.
Entre um céu sem cor e montes de carvão
o ardor das estações cai apodrecido;
os mastros e as casas escorrem sombra,
só o sangue brilha endurecido.
Não é verdade tanta loja de perfumes,
não é verdade tanta rosa decepada,
tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,
tanto relógio, tanta pomba assassinada.
Não quero para mim tanto veneno,
tanta madrugada erguida pelo gelo,
nem olhos pintados onde morre o dia,
nem beijos de lágrimas no meu cabelo.
Amanhece… Um galo risca o
silêncio
desenhando o teu rosto nos telhados.
Eu falo do jardim onde começa
um dia claro de amantes enlaçados.
Eugénio de
Andrade de As Palavras Interditas em Poemas
Elas crescem em segredo, as crianças. Escondem-se no mais oculto da
casa para serem gado bravio, bétula branca.
Chega um dia em que estás descuidado a olhar o rebanho que regressa com
a poeira da tarde, e uma delas, a mais bonita, aproxima-se me bicos de pés,
diz-te ao ouvido que te ama, que te espera sobre o feno.
A tremer, vais buscar a caçadeira, e passas o resto da tarde a atirar
sobre as gralhas, inumeráveis, àquela hora.
Adormecer sobre a profusão dos girassóis, pensando nos flancos menos expostos
de outro corpo. Várias foram as negligências do olhar, bem pouco curioso para
outra coisa que não fosse a nudez da terra, às vezes muito jovem, outras,
fatigada. O desejo, só o desejo impede a perversão da alegria. E destas
sílabas.
Contigo chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.
Nunca concordei
por a Igreja, motivos que não compreendi, ou explicaram-me mal, ter deixado de
considerar o 8 de Dezembro como o Dia da Mãe e tê-lo enviado para o primeiro
domingo de Maio.
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio do laranjal...
Mas — tu sabes — a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.
Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
Obscuro Domínio Eugénio de Andrade Capa de Armando Alves sob um desenho de José Rodrigues Fotografias de Armando Alves Editorial Inova, Porto, Novembro de 1971 Arte de Navegar Vê como o verão sùbitamente se faz água no teu peito, e a noite se faz barco, e minha mão marinheiro
Também eu já me sentei algumas vezes às portas do
crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas
de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria,
isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te
pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas
não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a
direcção das nascentes.