Mostrar mensagens com a etiqueta Evtuchenko. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Evtuchenko. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 17 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


A tradução é como uma mulher. Se é bela, não é fiel. Se é fiel, não é com certeza bela.

Evtuchenko citado por José Cutileiro no Expresso

segunda-feira, 3 de abril de 2017

EVGUENI IEVTUCHENKO (1932-2017)


Feliz o título que Ferreira Fernandes escolheu para a sua crónica, de hoje, no Diário de Notícias, sobre a morte de Evtuchenko:


«Morreu Evgueni Ievtuchenko, um poeta do seu tempo. Passou por Lisboa há exatos 50 anos. Era russo, da Sibéria, filho daqueles anos 60 que chegaram até à URSS. Anos que procuravam, não sabendo o quê. Entre 1956 (crítica do XX Congresso comunista a Estaline) e 1968 (invasão da Checoslováquia), a Rússia viveu um pouco disso. O livro Doutor Jivago, de Boris Pasternak, nasceu dessa procura, e o poeta Ievtuchenko, também. Pouco? Ievtuchenko fez esta frase: "Um poeta na Rússia é mais do que um poeta." Um dia, a URSS, condescendente, deixou-o sair. Foi à Espanha de Franco, também condescendente, que o deixou dar um recital, sem anúncios, na igreja dos Capuchinhos, em Barcelona. De lá, Ievtuchenko veio até Fátima, estava cá o Papa Paulo VI. Fez um poema, com versos assim: "O povo arrastava-se", "de joelhos ligados"... Snu Abecassis, que lançava a editora Dom Quixote, convidou-o para um recital de poesia, no teatro Capitólio, em 17 de maio de 1967. Salazar, também condescendente, deixou um papão russo declamar. Ficou um livro dos poemas ditos e um ligeiro incómodo nos comunistas locais, não sabendo bem se o russo estava dentro das normas. Não estava. Quando a URSS ruiu, Evgueni Ievtuchenko apoiou Gorbachev e foi viver para os EUA. No ano passado, voltou a Barcelona e disse: "Quando me perguntam se a Rússia está bem, lembro que ainda há pouco sete mil pessoas ouviram um recital de poesia." Ievtuchenko pediu para ser enterrado ao lado de Pasternak.»

Quando Evtuchenko passou por cá, tinha 20 anos e alinhei num quase generalizado entusiasmo.

Aqui, aqui, aqui e aqui falo dessa passagem.

Estive tentado a chamar a essa visita, um embuste.

Hoje, prefiro escrever que foi um equívoco.

domingo, 21 de agosto de 2016

SEGUNDA «POESIA DE PAREDE»


Em Maio de 1967 o poeta soviético Evtuchenko esteve em Portugal.

Aquiaqui e aqui, há pormenores sobre essa historieta.

Muitos de nós embarcámos no canto de sereia.

José Gomes Ferreira foi um dos que não foi em cantigas.

Exactamente em 1967, José Gomes Ferreira entendeu escrever poemas no quarto do filho Alexandre.

Escreveu apenas duas poesias incluídas em A Poesia Continua.

E anotou:

A segunda criticava um bom poeta soviético, então de visista a Portugal – Ievtuchenko – que caíra, por inadvertência ou ignorância dos truques fascistas, na armadilha de se deixar fotografar por debaixo de um galo, espécie de brasão do S.N.I. Não pôde com certeza evitá-lo, o poeta.

É este o poema:

Meu filho, queres saber
porque recusei fazer o papel de paisagem
e não entrei no elenco
da farsa que houve aí de homenagem
a Ievtuchenko?

Primeiro: porque já estou velho para pagem.
Depois, porque quase chorei quando vi
que foram fotografá-lo
debaixo do galo
do S.N.I.

Ah! Ievtuchenko,
que pensarão das tuas fotografias
e desse galo torto
(que tão bem te define)
as raivas do coração fundo
dos presos de Caxias!

E Lenine?

Que pensará o camarada Lenine
que - sabias? -
até depois de morto
fez a revolução no outro mundo?

Conclusão, meu rapaz:
nunca queiras ser cartaz.

terça-feira, 17 de abril de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Nos dias que correm, apenas circunstâncias, substancialmente especiais, me levam a sair de casa para ir comer a um restaurante.
Mas por uma tarde dos idos de Março, deu para desafiar Dom Pepe e Dona Aida, para irmos comer um cosido à portuguesa à Gina, o último restaurante, dos que em tempos existiram no Parque Mayer.
Pois é! Preferível tinha sido estar quietinho-da-silva, ou descer ao Beira-Gare para umas bifanas e uns penaltis de tinto.
O cosido apresentou-se como vulgar de lineu, e a conta só não caíu na exorbitância, que a casa pratica, porque Don Pepe é um velho frequentador e aconteceu uma atençãozinha.
Mas o pior de tudo foi, mesmo em frente ao restaurante da Gina, olhar a degradação a que deixaram que o Capitólio chegasse.
Um abandono inqualificável. Um montão de destroços indescritível.
Aquilo que, parcialmente, podem ver nas fotografias tiradas nessa tarde de Março.
Como foi possível?
O Capitólio abriu ao público em 11 de Julho de 1931, aliciante e arrojado projecto do arquitecto Luís Cristino Silva.
Estou em crer, a minha memória já conheceu melhores dias, que foi no Capitólio que vi, aí pelos 7/8 anos, o Pinoquio do Walt Disney.
Outros filmes por lá vi, mas não ficaram registos.
A última vez que estive no Capitólio, essa sim, tem um outro registo, com data certa e tudo: 17 de Maio de 1967.





Foi a tarde em que esse equivoco que dá pelo nome de Eugénio Evtuchenko, veio a revelar-se um mero vendedor-de-banha-da-cobra, deu um recital de poesia, traduzida directamente  do russo por J. Seabra-Dinis, com a colaboração de Fernando Assis Pacheco para a versão poética final, que, também, leu em português, os poemas que, antes, Evtuchenko  recitara.
Recordo-me de o meu pai contar que, nos finais dos anos 60, assistiu no Capitólio à representação de A Alma Boa de Sé-Chuão de Bertolt Brecht, pela Companhia de Maria Della Costa, em que metade da assistência era composta por agentes da PIDE e legionários, que no final desataram a patear, mas foram engolidos pela ovação que ecoou pela sala, entremeada com Vivas à Liberdade e à Democracia.
O meu pai aproveitava para recordar as sessões no Politeama, Maio de 1945, com o Casablanca que esteve dez semanas em exibição, e, convoco João Bénard da Costa, para dos Filmes da Minha Vida adiantar mais qualquer coisinha:
Só de ouvido conheço as histórias que se passaram no Politeama, com o público a levantar-se para ouvir a Marselhesa abafar o Die Wacht am Rhein, como se diz que um rei de Inglaterra se levantou para ouvir o “Aleluia” do Messias de Haendel.
 O Parque Mayer foi percurso rotineiro dos domingos da malta da rua.
Descer do alto da Penha de França, palmilhar até ao Parque, só para irmos olhar as pessoas, os cafés, os cartazes dos teatros, as entradas e saídas das matinés das revistas, o remanso daqueles cinzentos domingos, exacta medida do nosso provincianismo.



Mais tarde haveria de ler num poema de Armando Silva Carvalho: Domingo é um bom dia para se olhar a tristeza.


Lembro-me que havia um alfarrabista à direita, logo que se entrava no parque, onde comprávamos aqueles livros distribuídos pela Agéncia Portuguesa de Revistas que metiam histórias do FBI e outras cowboyadas e que, juntamente com Salgaris, Walter Scotts, Júlios Verne, ajudaram, alguns de nós, a criar hábitos de leitura.
Nesse alfarrabista, uns anos mais à frente, comprei, por tuta e meia, uma mão cheia de Almanaques, mais tarde emprestados ao Carlos Alberto.
A Almanaque foi uma revista mensal, o primeiro número saíu em Outubro de 1959, o último em Maio de 1961, e tinha como chefe de redacção José Cardoso Pires (A minha ideia era fazer uma revista que não respeitasse ninguém e fosse o mais sacana possível), que, entre whiskadas e cigarradas, dirigia uma equipa composta por Alexandre O’Neill, Luís Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, José Cutileiro, Baptista-Bastos, Vasco Pulido Valente, com grafismo de Sebastião Rodrigues, mais tarde de João Abel Manta.
Não mais tive notícias do Carlos Alberto e, naturalmente, dos Almanaques também não.
Com o 25 de Abril, a decadência lenta do Parque Mayer arrastou o Capitólio para a exibição de filmes pornográficos, também por lá funcionou uma discoteca, mas, nem sequer dava pró tabaco, e acabou por fechar as portas e ficar ao abandono.
Em 1993 o Capitólio foi declarado imóvel de interesse público mas, como tantas vezes acontece, a classificação mais não é que um diploma para pendurar na parede, porque nada acontece.





Durante o consulado de Pedro Santana Lopes, como presidente da Câmara de Lisboa, ocorreu aquele estranho negócio com a Bragaparques: a Câmara cedia os terrenos da antiga Feira Popular, em Entrecampos, a empresa cedia o Parque Mayer e mais 60 milhões de euros.
Tudo aquilo cheirava a esturro, a autêntico caso de polícia.
Mas, com pompa e circunstância, foi anunciada a recuperação do Parque Mayer, um megalómano projecto, para o qual foi convocado o arquitecto Frank Gehry, que se passeou pelo Parque, comeu e bebeu do fino, e fez-se pagar bem por uns rabiscos que desenhou.
Tudo acabou por ficar em águas de bacalhau.
Pelo meio, mais uma mão cheia de parasitas, também encheu os bolsos e, quem tudo pagou, desgraçadamente, foi a rapaziada do costume.
Tout va três bien, madame La Marquise!
Em Setembro de 2009, a Câmara Municipal de Lisboa, presidida por António Costa, anunciou para o Capitólio, uma recuperação do edifício que se transformaria num espaço cultural dedicado ao teatro e cinema, além de um prolongamento do Jardim Botânico e Museu de História Natural.
Por unanimidade a Câmara, também, aprovou que o Capitólio se passasse a chamar Teatro Raul Solando.
Sem querer ofender ninguém, e colocando de lado os inquestionáveis méritos de Raul Solnado, considero a decisão um perfeito disparate.
O arqueitecto Alberto Souza Oliveira foi indicado para o estudo e projecto da reabilitação do edifício. Colocaram-se uns tapumes, aconteceram umas obras, mas de repente tudo parou.
Chamada a apresentar qualquer explicação para a paragem das obras, a Câmara nada adiantou, mas nos bastidores sabia-se que a paragem das obras tinha a ver com o imbróglio jurídico que envolvia a permuta dos terrenos.
No dia 4 deste Abril, ficou a saber-se que, por decisão do Tribunal Central Administrativo, foi anulado  o negócio que, há sete anos, envolveu a Câmara e a Bragaparques.
Assim sendo a Câmara Municipal de Lisboa perdeu a posse do Parque Mayer, volta a ficar com os terrenos de Entrecampos e terá que devolver o dinheiro à Bragaparques.
Confusos?
Então, fiquem a saber que o Público do dia 10, noticiava que, apesar da incerteza sobre quem é o dono do Parque Mayer, as obras de recuperação do Capitólio deverão ser retomadas, após uma paragem de um ano e nove meses, ainda no decorrer deste mês.
Não é difícil de concluir que a recuperação do Capitólio ficará para as calendas.
Quanto trabalho? Quanto dinheiro enterrado?
Como dizem os alentejanos: este país dá-me cá umas fezes!...
Legenda: a fotografia de Evtuchenko é retirada de Ievtuchenko em Lisboa, Poemas do Recital, Publicações Dom Quixote, Lisboa 1967.Também se podem ver Fernando Assis Pacheco e J. Seabra-Dinis.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

EVTUCHENKO EM LISBOA


Maio de 1967, tempos de ditadura.

Por aqueles tempos, o cinzentismo, a muralha de silêncio, por vezes, quebrava-se e saltavam pedras para o charco.

Acontecia  um grito, uma festa.

Como é que um escritor soviético desembarca no Portugal de Salazar?

Mercê das muitas influências, nacionais e no estrangeiro, que Snu Abecassis, fundadora e proprietária das “Publicações Dom Quixote”, mantinha
.
Possivelmente fez chegar a Salazar a mensagem que o homem, apesar de soviético, era inofensivo. Terá dado garantias.

O regime viu que talvez valesse a pena correr o risco. Para compor a cena, terá imposto, aconselhado que o escritor fosse a Fátima, ocorria o 50º aniversário do milagre da fé, com a presença do papa Paulo VI. Também calhava bem uma fotografia com um cartaz turístico, outras miudezas…

Penso que terá sido na “Seara Nova” que dei com uma referência, ao sucesso que a tradução do livro de um jovem escritor soviético estava a provocar no Brasil. O autor era Eugénio Evtuchenko o livro chamava-se “Autobiografia Precoce”.

Falei do entusiasmo ao meu pai, e se ele, pelos meios habituais e clandestinos, arranjava o livro.

A costela marxista-leninista do senhor meu pai, fez-lhe torcer o nariz, lembro-me de o ouvir dizer que autobiografia de alguém que tinha 30 anos, deveria ser apenas para gozar o pagode.

Passadas duas ou três semanas, chegou o livro. Começava assim:

“A autobiografia de um poeta são seus próprios poemas. O resto é suplementar.”

Sorrio ao lembrar a alegria com que li e reli o livro, como o fiz passar, de  mão em mão, pela malta.

Fácil ser-se ingénuo naquela idade, naquele tempo.

Peguei-lhe agora, está todo sublinhado.





Ao acaso:

“… para ser poeta, não é suficiente saber escrever poemas. É necessário, ter capacidade para defendê-los.”

“O pão não substitui o ideal. Mas, o ideal substitui o pão. Tal é, a meu ver, a natureza do homem. E estou convencido que só os grandes sofrimentos geram os grandes ideais.”

“A dura escola da vida me ensinou a ter confiança nos outros”.

Em Janeiro de 1967 aparecem na imprensa as primeiras notícias de que estava para breve a publicação, pelas “Publicações Dom Quixote”, da “Autobiografia Prematura” de Ievtuchenko – “um depoimento sobre a juventude, a poesia, o estalinismo e o socialismo,”

A 13 de Maio, surpresa das surpresas, Evtuchenko,, vindo de Espanha, passaporte devidamente visado pela Embaixada de Portugal, aterra na Portela.

Apenas no dia 16 os vespertinos darão a notícia da sua presença em Portugal e ficamos, então, a saber que, mal pusera pé em Lisboa, de imediato arrancoara para Fátima.

Do porquê de ir a Fátima dirá aos jornalistas:

“Porque eu sabia que uma experiência destas é uma coisa muito rara, muito importante.”

Pela ida de Evtuchenko a Fátima, ainda estou a ver o sorriso trocista do meu pai.

A leitura dos jornais da época, permite este desenhar dos passos do poeta:

Sábado à noite, regressa de Fátima.

Domingo de manhã dará um passeio por Lisboa, uma fotografia, publicada no “Diário Popular”, mostra-o junto à estátua de Camões.

“Camões é muito conhecido na União Soviética”, disse.

Manifesta o desejo de ver o Benfica e Eusébio mas estes jogavam em Aveiro e acabou por ir ao Restelo ver o Belenenses ganhar, por dois a zero, ao Vitória de Setúbal.

Encontro com jornalistas nas instalações das “Publicações Dom Quixote”. Uma frase que ficou:

“A poesia é como os pássaros e os pássaros não conhecem as fronteiras.”




Recepção com escritores portugueses, em casa de Snu Abecassis.

A 15 de Maio, na mouche, José Gomes Ferreira escreve nos seus “Dias Comuns”:

 “Telefonaram-me de “Publicações Dom Quixote a convidarem-me pata uma recepção em honra do poeta Ievtuchenko que se encontra, há dias, em Lisboa (facto que os jornais ainda não anunciaram). Agradeci, dei uma resposta vaga e não fui. Com toda a sinceridade, interessa-me pouco a carne-e-osso desse Poeta-Turista que anda a pavonear-se pelos países fascistas, por reclamo próprio.”

- Mal chegou e apareceram os fotógrafos – contou-me hoje o Baptista-Bastps – parecia histérico aos berros está aí algum fotógrafo americano? Algum fotógrafo americano?
- Que o pariu! – Disse eu comigo – Não o conheço. Ele, se quiser, que me procure!”

Na manhã seguinte vai até Sesimbra, na companhia de Fernando Namora.
Confraterniza, numa taberna, com pescadores, petisca queijos, bebe vinho da região.
O repórter do “Diário Popular” deixa cair um pormenor: ”comeu vorazmente salsa crua.”

À noite aparece, inesperadamente, na “Sociedade Filarmónica Democrática Timbre Seixalense”, onde José Carlos de Vasconcelos dava um recital de poesia.

Não resistiu a recitar, em russo, o poema “Dorme Amor”

Dia 17, sessão de autógrafos na “Livraria Divulgação”, na Estefânia. Mais um pormenor da reportagem do “Diário Popular:Esgotados os exemplares da sua “Autobiografia Prematura”, (1000.000 exemplares) assinou sobre toda a espécie de papéis. Alguém lhe apresentou, subitamente, um Dicionário de Russo-Português.”
 
Nessa mesma tarde, no “Capitólio”, dará um recital de poesia, “lotação largamente excedida”, lê-se na reportagem do “Diário de Notícias”.
Teatralmente, Evtuchenko, recitou os poemas em russo. Antes, Fernando Assis Pacheco leu a tradução desses poemas, feita por J. Seabra-Dinis.

Em Junho, as “Publicações Dom Quixote”, hão-de lançar um livrinho “Ievtuchemko em Lisboa”, com a tradução do recital no “Capitólio”.

À noite, sessão de autógrafos na Feira do Livro. Os escassos livros reservados para a ocasião, desapareceram num abrir e fechar de olhos. 






Com uma máquina-quase-de-brincar, tirei algumas fotografias.
Gosto particularmente daquela em que Evtuchenko, oferece ao guarda da P.S.P. destacado para o pavilhão para manter a ordem olha o poeta, um exemplar da “Autobiofrafia Prematura autografado.

Aparece o José Carlos Vasconcelos e, no fresco da noite, ficamos à conversa. Fala-me, com emoção e entusiasmo, da impressão que, na véspera, quando apareceu no Recital de Poesia no Seixal, Evtuchenko lhe deixara.

A viva comunicabilidade de Evtuchenko não deixou apenas Carlos Vasconcelos impressionado, foram muitos mais.
   
Entusiasmo de ocasião que o tempo haveria de provar.

Na manhã do dia 18, Evtuchenko, toma o avião para Paris, onde apanhará um outro que o levará para Moscovo.
Disse aos jornalistas que “o público português é um dos melhores do Mundo”





No aeroporto da capital francesa, instado pelos jornalistas sobre a sua peregrinação a Fátima, Evtuchenko responde:

“A minha impressão foi extremamente forte e não pode ser resumida numas palavras. Nunca me poderei esquecer das expressões angustiadas dos circunstantes, procurando no céu uma esperança que, para eles, não existe na Terra.”

Lembrança para novo sorriso trocista do senhor meu pai.

Passados dois, três anos, começaram a ser conhecidas notícias que realçavam o seu oportunismo, o seu único interesse em conservar privilégios.

O entusiasmo pela leitura da “Autobiografia” foi morrendo aos poucos, para hoje ser apenas  uma remota lembrança no canto da memória.

A História diz que não se pode enganar as pessoas todo o tempo.

Em 5 Agosto de 1974, Alexandre O’ Neill, escrevia em “A Capital”:

“O Pássaro esteve há sete anos entre nós. Não chegou a ser o Maiakowski que provavelmente alguém esperava que ele afivelasse, mas alguns entusiastas tocaram-lhe como se o pássaro fosse uma peregrina relíquia do grande poeta soviético. Não era, não podia ser, como rapidamente se viu.”

OLHAR AS CAPAS


Ievtuchenko em Lisboa

Tradução directa do russo por J. Seabra-Dinis, com a colaboração de Fernando Assis Pacheco para a versão poética final.
Capa de Fernando Felgueiras.
Publicações Dom Quixote, Lisboa Junho de 1967.

Sou um comboio rápido que há mitos anos vai e vem
entre a cidade Sim e a cidade Não.
Os meus nervos estão tensos como cabos
entre a cidade sim e a cidade Não.
Tudo está morto e assustado na cidade Não.
É como um embrulho feito de tristeza.
Dentro dela todas as coisas franzem a testa.
Há medo nos olhos de todos os retratos.
De manhã enceram com bílis o soalho.
Os sofás são de falsidade, as paredes de miséria.
Nunca te darão nessa cidade um bom conselho,
nem um ramo de flores, nem um simples aceno.
As máquinas de escrever batem, com cópia, a resposta:
“Não-não-não… não-não-não… não-não-não…”
E quando enfim se apagam as luzes
os fantasmas iniciam o seu lúgubre  bailado.
Nunca, ainda que rebentes, arranjarás bilhete
para fugir da negra cidade Não.

Ah, mas a vida na cidade Sim é um canto de ave.
Não tem paredes a cidade, é como um ninho.
As estrelas dizem que as acolhas nos teus braços.
E sem vergonha seus lábios pedem os teus lábios,
num brando murmúrio: “São tudo tolices…”
A flor provocante implora que a cortes,
os rebanhos oferecem o leite  com seus mugidos.
ninguém tem ponta de medo.
E aonde queiras ir te levam num instante comboios, barcos, aviões,
e com um rumor vai a água murmurando:
“Sim-sim-sim… sim-sim-sim… sim-sim-sim…”
Mas às vezes é certo que aborrece
ser-me dado, afinal, tudo sem esforço
nesta cidade Sim, deslumbrante de cor.

É melhor ir e vir até ao fim da minha vida
entre a cidade Sim e a cidade não!
É melhor ter os nervos tensos como cabos
entre a cidade Não e a cidade Sim.