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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

NOTÍCIAS DO CIRCO


Aquele rapaz que palreia sobre futebol na estação-sargeta, que é deputado chegado a cheiros de ultra-extrema direita, apresentou um projecto de resolução, na Assembleia da República, a recomendar ao Governo que proceda à instauração de uma celebração solene do 25 de Novembro, com o fim de que lhe seja dado a mesma dignidade do 25 de Abril.

No projecto de resolução, o rapaz lembra que a liberdade só foi devolvida aos portugueses no dia 25 de Novembro de 1975 e isso deve-se à intervenção pronta e eficaz do Regimento de Comandos da Amadora, então sob o Comando do Coronel Jaime Neves, pelo que à sua ação decisiva devemos todos nós a liberdade e o regime democrático de que hoje podemos usufruir.

Em Novembro de 1976, Maria Velho da Costa escreveu um texto, manuscrito acima, que intitulou ESTE DIA NÃO.

«O 25 de Novembro não é para celebrar.
Porque não foi um acto de alegria, foi
um acto de necessidade. Para os melhores,
dolorosa, para os piores, maligna.
Proponho a esta assembleia de povos um
dia de silêncio em honra da fala
portuguesa sem ódio. Que não viva a morte.»

sábado, 12 de outubro de 2019

NOTÍCIAS DO CIRCO


A entrada do deputado apoiado pela CMTV no Parlamento é uma péssima notícia.

Trágica, mesmo.

A comunicação social de sargeta já esfrega as mãos porque tem ali um filão.

No tempo de intervenção que terá no Parlamento, montará um festival de javardice.

No café do bairro, ouvi dizer que os que votaram naquilo fizeram-no porque o dito personagem é do Benfica e não gosta de ciganos.

Um grupo de benfiquistas fez chegar uma carta aberta à Direcção do clube em que lembram que o personagem, para além de outras coisas, é uma figura xenófoba e que a Direcção do clube não pode continuar a pactuar com a sua evidência mediática.

A parte clubística do personagem é um pormenor complicado e o clube, um tanto ou quanto de mãos atadas, recusou, segundo a Lusa, comentar a carta aberta e remeteu para os estatutos do clube, nos quais é indicado que o clube não diferencia os sócios "em razão da raça, género, sexo, ascendência, língua, nacionalidade ou território de origem, condição económica e social e convicções políticas, ideológicas e religiosas".

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

AO CUIDADO DE QUEM ELEGEU ANDRÉ VENTURA


Sim, eu sei que escrever sobre o Chega e o seu líder tem sempre o risco de lhe dar ainda mais protagonismo. Sim, eu sei que, neste momento, decorrem negociações para a formação de um novo governo e que o centro-direita atravessa uma crise sem precedentes. Sim, eu sei que, politicamente, o país tem problemas gravíssimos que mereciam ser denunciados nestas linhas de texto. Mas não posso - não consigo - deixar de alertar para os riscos que a nossa democracia enfrenta com a eleição de André Ventura para a Assembleia da República. E, ao contrário do que muitos pensam, não é ignorando e muito menos normalizando os "venturas" que se faz este combate.

Confesso que fui daqueles que, até os dados serem oficiais, não acreditaram que fosse possível. Não porque seja ingénuo ao ponto de achar que os extremistas, os populistas e os oportunistas não conseguem penetrar e ascender nas democracias mais desenvolvidas - o mundo está cheio de exemplos desses -, mas porque achei sempre que o que se está a passar no Estados Unidos, no Brasil ou no Reino Unido, só para citar alguns casos, era suficientemente elucidativo para o eleitorado português.

Não foi. Por ignorância ou porque, afinal, há mais "venturas" no país do que eu imaginava, a verdade é que estas eleições mostram bem como uma parte do eleitorado da abstenção e dos votos nulos encontrou um "salvador" em quem se revê. Não tendo eu - e, felizmente, a esmagadora maioria dos eleitores - contribuído para a eleição do deputado do Chega, é bom que quem o fez tenha consciência daquilo em que nos meteu a todos. E do que ainda pode vir aí.

Chamar extremista e populista a André Ventura é quase um elogio que se lhe faz. Na verdade, o deputado do Chega é apenas um oportunista político que se ama a si próprio acima de todas as coisas e que não tem outro propósito que não seja a autopromoção. Um extremista - de esquerda ou de direita - tem um programa e uma ideologia política, com a qual podemos concordar ou discordar, mas tem. A agenda de André Ventura é a capa do tabloide em cima da mesa de café e a conversa que ela provoca durante horas entre um copo de três. É apanhar meia dúzia de conversas de pé de orelha e reproduzi-las com ênfase, para parecer convicto e determinado no que se está a dizer, mas sem qualquer substância.

Em André Ventura, a tática é falar primeiro e nunca pensar depois. Não há um pingo de política, o mínimo de visão estratégica. Ali mora um cata-vento que vai girando para noroeste e para sudoeste, num movimento rotatório constante que lhe permite dizer tudo e o seu contrário, mas deixando sempre um soundbyte no ouvido de quem o estiver a ouvir.

Em André Ventura há, pelo menos, uma incoerência insanável - que o Ricardo Araújo Pereira retratou de forma brilhante esta semana: a do político que se diz antissistema e que, ainda há dois anos, não só fazia parte dele como o elogiava.

Em André Ventura não há uma ideia sobre economia, saúde, educação, justiça ou mesmo sobre segurança interna, de que gosta tanto de falar. Há, isso sim, um aproveitamento vergonhoso do sofrimento dos outros, que é depois capitalizado eleitoralmente em proveito próprio, sem que quem vota nele se aperceba de que está a ser usado.

É por tudo isto - e por mais algumas coisas - que a eleição de André Ventura para deputado é uma ameaça à democracia. Porque, mesmo sozinho no Parlamento, pode fazer muitos estragos. Não pelas propostas que possa apresentar, que dificilmente - espero - terão acolhimento dos restantes partidos. Mas porque o novo deputado do Chega vai querer transformar o plenário da Assembleia da República num estúdio de televisão e fazer aquilo que sabe fazer melhor: montar um circo onde ele possa ser o protagonista principal.

André Ventura simboliza um enorme retrocesso para a nossa democracia. E desenganem-se os que acham que esta eleição é um epifenómeno que não vai crescer. Quem votou nele deu-lhe o palco de que ele precisava para poder crescer e "acordar" outros espíritos que andam para aí ocultos, escondidos cobardemente nas redes sociais. Só temos de estar "agradecidos": a Pedro Passos Coelho, por lhe ter dado o seu primeiro grande palco político; aos chamados partidos do sistema, que nas últimas décadas falharam com as pessoas e escancararam as portas da casa da democracia aos "venturas" desta vida; e a quem o elegeu, por nos proporcionar a todos este odor insuportável a mofo. Espero que durmam todos de consciência tranquila.

Anselmo Crespo no Diário de Notícias