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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

TERRA DE FÉ


Já foi ao hospital, já percorreu os acampamentos, já cruzou a feira em todos os sentidos, agora desceu à esplanada rumorosa, mergulha na profunda multidão, assiste aos exercícios, aos trabalhos práticos da fé, as orações patéticas, as promessas que se cumprem em arrasto de joelhos, com as rótulas a sangrar, amparada a penitente pelos sovacos antes que desmaie de dor e insofreável arroubo, e vê que os doentes foram trazidos do hospital, dispostos em alas, entre eles passará a imagem da Virgem Nossa Senhora no seu andor coberto de flores brancas, os olhos de Ricardo Reis vão de rosto em rosto, procuram e não encontram, é como estar num sonho cujo único sentido fosse precisamente não o ter, como sonhar com uma estrada que não principia, com uma sombra posta no chão sem corpo que a tivesse produzido, com uma palavra que o ar pronunciou e no mesmo ar se desarticula. Os cânticos são elementares, toscos, de sol-e-dó, é um coro de vozes trémulas e agudas, constantemente interrompido e retomado, A treze de Maio, na Cova da Iria, de súbito faz-se um grande silêncio, está a sair a imagem da capelinha das aparições, arrepiam-se as carnes e o cabelo da multidão, o sobrenatural veio e soprou sobre duzentas mil cabeças, alguma coisa vai ter de acontecer. Tocados de um místico fervor, os doentes estendem lenços, rosários, medalhas, com que os levitas tocam a imagem, depois devolvem-nos ao suplicante, e dizem os míseros, Nossa Senhora de Fátima dai-me vida, Senhora de Fátima permiti que eu ande, Senhora de Fátima permiti que eu veja, Senhora de Fátima permiti que eu ouça, Senhora de Fátima sarai-me, Senhora de Fátima, Senhora de Fátima, Senhora de Fátima, os mudos não pedem, olham apenas, se ainda têm olhos, por mais que Ricardo Reis apure a atenção não consegue ouvir, Senhora de Fátima põe neste meu braço esquerdo a tua mirada e cura-me se puderes, não tentarás o Senhor teu Deus nem a Senhora Sua Mãe, e, se bem pensasses, não deverias pedir, mas aceitar, isto mandaria a humildade, só Deus é que sabe o que nos convém. Não houve milagres. A imagem saiu, deu a volta e recolheu-se, os cegos ficaram cegos, os mudos sem voz, os paralíticos sem movimento, aos amputados não cresceram os membros, aos tristes não diminuiu a infelicidade, e todos em lágrimas se recriminam e acusam, Não foi bastante a minha fé, minha culpa, minha máxima culpa. Saiu a Virgem da sua capela com tão bom ânimo de fazer alguns feitos milagrosos, e achou os fiéis instáveis, em vez de ardentes sarças trémulas lamparinas, assim não pode ser, voltem cá para o ano. Começam a tornar-se compridas as sombras da tarde, o crepúsculo aproxima-se devagar, também ele em passo de procissão, aos poucos o céu perde o vivo azul do dia, agora é cor de pérola, porém naquele lado de além, o sol, já escondido por trás das copas das árvores, nas colinas distantes, explode em vermelho, laranja e roxo, não é rodopio, mas vulcão, parece impossível que tudo aquilo aconteça em silêncio no céu onde o sol está. Daqui a pouco será noite, vão-se acendendo as fogueiras, calaram-se os vendilhões, os pedintes contam as moedas, debaixo dessas árvores alimentam-se os corpos, abrem-se os farnéis desbastados, morde-se o pão duro, leva-se o pipo ou a borracha à boca sedenta, este é o comum de todos, as variantes de conduto são conforme as posses.

domingo, 7 de maio de 2017

A IGNORÂNCIA À SOLTA!

Este é o recorte de uma notícia publicada na última página do Expresso de 28 de Abril.

Lida a notícia não consegui entender do porquê do título.

Acresce que a notícia é um conjunto de disparates, de ignorância crassa, donde ressalta a afirmação de que Salazar recusou encontrar-se com Paulo VI depois de o Papa, ter recebido os representantes dos movimentos de libertação das então colónias portuguesas.

Que Salazar encontrou-se com Paulo VI prova-o a fotografia retirada do nº 1046 de 20 de Maio de 1967 do Notícias de Portugal que funcionava como boletim semanal de propaganda da ditadura, editado pelo SNI – Secretariado Nacional da Informação.


Paulo VI recebeu Salazar, durante quinze, numa pequena sala da Casa dos Retiros de Nossa Senhora do Rosário e, segundo o repórter oficial, foi um encontro «muito efectuoso».

Quanto à visita de Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos ao Vaticano no dia 1 de Julho de 1970, já era Primeiro-Ministro Marcelo Caetano e Salazar aguardaria mais 27 dias para que chegasse a sua morte física.

Houve, realmente, um contencioso entre Salazar e o Papa Paulo VI, mas ocorreu por causa da visita que, em Outubro de 1964, o Papa, por ocasião do Congresso Eucarístico Mundial, realizou à União Indiana.

Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros, em conferência de imprensa, no 21 de Outubro de 1964, disse aos jornalistas:

Temos de considerar a visita do Papa Paulo VI a Bombaim como um agravo gratuito, no duplo sentido e que é inútil e de que é injusto, praticado pelo Chefe do Catolicismo em relação a uma Nação católica.

Salazar exigiu que o Cardeal Cerejeira expressasse ao Vaticano que considerava essa visita um ultraje à nação portuguesa, três anos depois de depois de a União Indiana, Dezembro de 1964, ter retirado a soberania portuguesa a Goa, Damão e Diu.

As televisões são o que são, os jornais acompanham-nas freneticamente.

É estranho que num auto intitulado jornal de referência, não haja um qualquer editor que tenha lida a peça e, face a erros tão crassos, não tenha carregado de imediato na tecla «delete».

O problema é que, nos tempos que correm, as redacções dos órgãos de comunicação social encheram-se de estagiários licenciados em Comunicação Social que não lêem, não estudam e vivem em alegre ignorância.

 Será que existirá a humildade para uma declaração simples: «O Expresso errou»!

Esperarei sentado.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


O reitor do Santuário de Fátima, Carlos Cabecinhas, considerou hoje que a canonização de Francisco e Jacinta Marto, a 13 de Maio, reconhece a importância mundial de Fátima.

quinta-feira, 23 de março de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Segundo informa o site do Vaticano, o Papa Francisco aprova canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto.
É enorme a força das ratas de sacristia!...

segunda-feira, 13 de março de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO



A revista Visão publica, assinado por Miguel Carvalho, mais um capítulo dedicado aos negócios de Fátima.


Por seu lado, a sindicalista Helena Cardinali refere uma reunião com responsáveis do santuário para resolver o problema de uma trabalhadora e jamais esquecerá o que desses responsáveis lhe disse:


Legenda: fotografia de Rui Duarte Silva na Visão.

segunda-feira, 6 de março de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Vitor Dias, no seu blogue O Tempo das Cerejas, a propósito de uma mensagem sobre Fátima, de Zita Seabra, remete-nos para um texto do jornalista João Alferes Gonçalves:

 Não foi necessário descer aos subterrâneos do Vaticano: o quarto segredo de Fátima (até agora desconhecido) está à vista de todos no YouTube. Quem ainda não recebeu pelo menos três emails com o link para a extraordinária confissão de conversão de Zita Seabra, fica hoje a saber como a muito ex dirigente do PCP se sente confortada ao colo da virgem Maria, a quem agradece a conversão da Rússia e, presumo, a sua própria. O depoimento é uma coprodução do Santuário de Fátima e da Rádio Renascença, que pediram: Zita, junta a tua à nossa voz. E ela, tocada pelo Espírito Santo, juntou. O que parece certo, dados os conhecidos padrões de consumo da neófita, é que não está no seu horizonte juntar-se às Carmelitas Descalças. 
Passando a um plano mais sério, este episódio não pode deixar de suscitar uma reflexão sobre a credibilidade de uma pessoa que tem sido chamada pelos media a fazer juízos de valor sobre o partido e as pessoas que traiu. E, por extensão, sobre a credibilidade dos próprios media, cujo interesse óbvio é instrumentalizar a conversa (de paleio, não de convertida) de Zita Seabra no quadro de uma estratégia de combate ideológico.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL


O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaNatália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.


O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia por Fátima «apareceu» a três pastorinhos.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


No dia em que se completam 12 anos sobre a morte da vidente de Fátima, o Carmelo de Santa Teresa encerra o processo e envia para Roma seis caixas contendo 15 mil e 483 páginas que fundamentam a santidade da pastorinha.
Fátima é uma mentira da ditadura de Salazar.

Um negócio:

«Em 1970, o santuário tinha uma conta clandestina no Banco Pinto de Magalhães, no Porto, com mais de 257 quilos em barras de ouro, resultantes de peças oferecidas pelos peregrinos e posteriormente derretidas. O banco comercializou parte das barras, substituindo-as por ouro nazi. A proveniência criminosa das mesmas nunca mereceu contestação do santuário que as manteve naquela conta até serem vendidas», podia ler-se em «Os Segredos do Negócio de Fátima», publicado pela revista Visão de 26 de Janeiro.

Por Fátima muitos católicos afastaram-se da Igreja.

Não querer ver isto é enterrar a cabeça na areia.

Que o Papa Francisco compareça pelo centenário da mentira é uma decisão a que, talvez, não tenha conseguido escapar.

São duros e estranhos os caminhos da Igreja.

Legenda: imagem do Diário de Notícias.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do respeito que tenho pela fé dos outros.

Autor desconhecido

Legenda: Parque dos Insultos, pintura de Vespeira

UM PROBLEMA CHAMADO FÁTIMA



Fátima, os pastorinhos, os segredos, são um insulto à inteligência de crentes e não crentes, agnósticos e ateus. 

Fátima é um nódoa que cai no pano de fundo da ignorância e da cegueira feita fé.

Em Novembro de 2002, era Paulo Portas ministro de Estado e da Defesa, houve na Galiza uma maré negra provocada pelo petroleiro Prestige.

A costa portuguesa não foi de todo afectada e Paulo Portas apressou-se a dizer que Portugal tinha sido salvo pela intervenção de Nossa Senhora de Fátima.

A Igreja nunca conseguiu livrar-se do síndroma Fátima.

Quando Paulo VI veio a Fátima, por ocasião do cinquentenário, houve forte contestação.



Naquele tempo disse João Bénard da Costa:

Se me perguntarem de quando eu dato a minha saída da Igreja, respondo que do dia 13 de Maio de 1967, o dia da visita de Paulo VI a Portugal.

Agora que o Papa Francisco, por ocasião do centenário, pensa deslocar-se a Fátima, outras contestações terão lugar.

O bispo auxiliar de Lisboa, Nuno Brás, disse esta quinta-feira que o Papa Francisco lhe confirmou que se deslocará a Portugal em Maio a propósito do Centenário das Aparições.

O bispo auxiliar considera que a visita a Fátima pode ser dada como certa, a não ser que aconteça um imprevisto de agenda ou pessoal.

Caso a visita se verifique, o Papa Francisco será o quarto Papa a visitar Portugal, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010).

O recorte acima reproduzido pertence ao Notícias de Portugal (semanário de propaganda da ditadura) de 11 de Fevereiro de 1967, onde se conta das andanças, por Roma, do Cardeal Cerejeira tratando dos preparativos das comemorações do cinquentenário de Fátima.

Atente-se no telegrama, proveniente de Paris, sobre o motivo por que o Papa ainda não divulgou o «segredo» de Fátima.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Separar das Águas

Hélia Correia
Capa: Teresa Ferrand
A Regra do Jogo, Porto, Maio de 1981

Aquele foi o ano em que os santos tremeram e cravaram em Deus os seus olhares perplexos, as forças do demónio, que a espada e a fogueira por tento e tanto século haviam sepultado, ganhavam para o Mal um terço do planeta; os Bolcheviques tinham triunfado.
Foi o ano em que Deus, envelhecido, e já um tudo-nada cautelosos, mandou a sua mãe que abalasse em recado a terras portuguesas que, apesar da República, pareciam ser ainda as de melhor ouvido para admoestações.
Foi este o ano em que José sebastião, soldado, enxugando no lenço o suor do alívio, esconjurou definitivamente a sombra mal-cheirosa das trincheiras. Isto não porque a guerra tivesse terminado, mas porque a filha única do coronel Pimenta de Albuquerque, grávida de dois meses, se lançou da janela do seu quarto casando-se a seguir com o ditoso amante.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


Segundo a primeira página do Correio da Manhã de hoje, novo milagre à vista para os lados de Fátima.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

MANIFESTAÇÕES DE FÉ

Diário de Lisboa, 19 de Maio de 1972

quarta-feira, 14 de maio de 2014

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio publicado no Diário de Notícias de 13 de maio de 1967


Anúncio publicado em O Século de 14 de Maio de 1967


Anúncio publicado A Voz de 12 de maio de 1967


Anúncio publicado em A Voz de 13 de Maio de 1967


Anúncio publicado no Diário de Notícias de 11 de Maio de 1967.


Anúncio publicado nas Novidades de 12 de Maio de 1967.

terça-feira, 13 de maio de 2014

TERÁ QUE REZAR MUITOS TERÇOS



Respeito as crenças e a sensibilidade religiosa dos outros, por mais absurdas que me possam parecer.

A 13 de Maio de 1917, Nossa Senhora, sobre uma azinheira, aparece pela primeira vez aos três pastorinhos: Lúcia, Jacinta, Francisco

Diálogo de Nossa Senhora com os pastorinhos, segundo o escritor Guedes de Amorim:

- Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.
Lúcia ganhando coragem, perguntou então:
-Donde é Vossemecê?
- Sou do céu.
- E que me quer?
- Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, cada dia 13 e a esta mesma hora. Depois, direi quem sou e o que quero.
Lúcia desejou saber:
- Eu irei para o Céu?
- Sim, vais.
. E a Jacinta?
- Também.
- E o Francisco?
- Também mas terá que rezar muitos terços.

Os últimos dias de Jacinta, segundo A Voz de 11 de maio de 1967






Do Diário de Notícias de 11 de Maio de 1967



Palavras da homília proferida pelo papa Paulo Vi, segundo destaque de 1ª página de O Século de 14 de Maio de 1967.


Topo da 1ª página de A Voz de 12 de maio de 1967

                      

 Duas fotografias, e respectivas legendas de O Século Ilustrado de 13 de Maio de 1967.


 Fotografia e legenda de O Século Ilustrado, 13 de maio de 1967




O sr. prof. Oliveira Salazar manifestou a maior satisfação pelo ensejo de conhecer a única sobrevivente dos videntes de Fátima, tendo conversado alguns minutos com a Irmã Lúcia, que falava animadamente e com grande à-vontade.

Fotografia de O Século Ilustrado, legenda de O Século de 14 de Maio de 1967 



Topo e página do Diário da Manhã de 13 de maio de 1967.

Para muitos católicos, esta visita do Papa a Fátima, foi um golpe cruel.

Disse João Bénard da Costa:

Se me perguntarem de quando eu dato a minha saída da Igreja, respondo que do dia 13 de Maio de 1967, o dia da visita de Paulo VI a Portugal.

No dia 1 de Julho de 1970, para enorme escândalo das autoridades portuguesas, o Papa Paulo Vi recebia os três  lideres dos movimentos de libertação das colónias portuguesas: Agostinho Neto de Angola, Marcelino Santos de Moçambique, Amilcar Cabral da Guiné e Cabo Verde.

As autoridades, os pasquins, destilararam veneno por todos os seus poros,  declarando alto e bom som, que os católicos portugueses – e não só! – se sentiram tremendamente  indignados e revoltados por Sua Santidade ter recebido um grupo de terroristas, declarados inimigos de uma nação católica que ia do Minho a Timor.

Num ápice, Paulo Vi deixava de ser um dos maiores papas do nosso século para passar a ser um traidor.    

Nessa reunião, o Papa disse aos lideres revolucionários da luta contra o colonialismo: português:

Nós não podemos entrar em questões políticas. Mas conhecemos a aspiração que tendes. A Igreja, a esta aspiração, não dá apenas a sua simpatia, mas também o seu apoio. A Igreja, porém, recomenda que se encontrem soluções pacíficas e negociadas.

Em Setembro de 1991, o Arcebispo Primaz de Braga D. Eurico Dias Nogueira, peremptóriamente, afirmava que a queda do comunismo deveu-se à intercessão da Virgem de Fátima quando apareceu a Lúcia, Jacinta e Francisco.

Legenda: fotografia da 1ªpágina do Diário de Notícias de  13 de maio de 1967.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Adeptos do Benfica deslocaram-se às celebrações de Fátima, nos últimos dias, a pé, de carro ou de bicicleta, para agradecerem a conquista do campeonato, prometendo voltar, em outubro, caso a equipa de futebol vença na quarta-feira a Liga Europa.



Legenda: fotografia de Aida Santos

domingo, 27 de abril de 2014

ATENTA EXPECTATIVA


27 de Abril de 1974.

O terceiro dia da nossa vida em liberdade.

Todos os jornais dão conta das reuniões que vão ocorrendo, no Palácio da Cova da Moura, com a Junta de Salvação Nacional, das manifestações de apoio ao Movimento das Forças Armadas que vão acontecendo por todo o País.
Anuncia-se que está prevista para amanhã a chegada a Lisboa de Mário Soares e que os bancos
reabrirão na segunda-feira dia 29.


Após demoradas negociações são libertados os presos políticos que se encontravam no Forte de Peniche. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

Esta é a 1ª página de A Capital que na sua página 4 noticia que o Presidente da Assembleia Nacional, engº Amaral Neto cancelou a reunião marcada para este dia e aguarda, apenas, que a Junta de Salvação Nacional decrete a dissolução da Assembleia.


O Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


Destaque na página 14 para a reunião que a Conferência Episcopal iniciou, em Fátima, no dia 23, ainda em tempo de ditadura, e que teve o encerramento ontem ao final da tarde.
Os senhores bispos mudaram de agulha e emitem um comunicado em que formulam votos para que os acontecimentos destes dias contribuam para o bem da sociedade portuguesa, na justiça, na reconciliação e no respeito
por todas as pessoas. Apelam para a virtudes cívicas dos católicos e demais portugueses de boa vontade. E rezam a Deus pelo povo de Portugal.


A conferência aproveita para se solidarizar com o Bispo de Nampula, expulso de Moçambique, nos primeiros dias de Abril, pela ditadura.


Essa solidariedade teria sido bem-vinda aquando dos acontecimentos, que também envolveram a expulsão de diversos missionários acusados de atentados de se oporem à guerra colonial.
Mas apenas um beato silêncio.
Profundo foi também o silêncio que os senhores bispos mantiveram, durante quarenta e oito anos, com um regime que oprimia e perseguia um povo e mantinha em África uma guerra  que matou, estropiou milhares de portugueses e africanos..

O República revelava que no Forte de Caxias estavam presos 228 membros da Ex-PIDE-DGS e que ainda continuavam à solta mais de dois mil agentes.



Oportuna a entrevista que na página 13 o desembargador Rocha Cunha concedeu a Fernando Assis Pacheco.
Está por fazer a história da participação dos juízes dos Tribunais Plenários. Pior ainda o sabermos que, após o 25 de Abril, esses mesmos juízos foram integrados no sistema judicial sem nunca terem sido responsabilizados e julgados. Eles foram protagonistas do aparelho repressivo da ditadura.
Uma impunidade que há-de estender-se aos agentes da PIDE-DGS e outros servidores do Estado Novo.


Não por uma questão de vingança, apenas por uma questão de justiça.
Na sua página de espectáculos o jornal avisava que, por motivos óbvios, não era possível revelar a programação da RTP:


Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.
Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado:,, como a invasão das instalações da A.N.P. a Junta de Salvação Nacional tomava posição.


Na página 7 publicava-se uma fotografia de Eduardo Gageiro  que registava o momento em que um membro da PIDE-DGS era preso.
Esta fotografia correrá mundo.


Também a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura,


Fotografia na última página do Diário de Lisboa.


No Largo da Misericórdia, o povo largou fogo a um automóvel da PIDE, ontem á tarde. Três agentes transportavam-se nele quando, cerca do meio-dia, foram identificados por populares arrastados para junto do pelourinho do largo e desramados pelo Exército. O povo queria linchá-los, tendo sido contido só a muito custo pelo capitão e pelos poucos soldados que os guardavam.

Como era sábado, saída para as bancas do semanário Expresso
Curiosidade sobre a abordagem que seria feita aos acontecimentos do 25 de Abril, mas os leitores encontraram uma edição inócua e hibrida.
A parte final do editorial do Expresso:


 Na página 14, em despudoradas afirmações, o ultra-salazarista Francisco Cazal-Ribeiro aguardava com atenta expectativa que a Junta de Salvação Nacional viesse a cumprir as promessas de liberdade constantes da sua declaração ao país.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

EU SOU A MEMÓRIA


24 de Outubro de 1968

Antevendo a morte de Salazar os jornais, para registarem a ocorrência, prepararam edições especiais. Os jornais ainda se compunham a «chumbo».

Contudo, nem o pai morria nem a gente almoçava e as notícias sobre o estado de saúde de Salazar começaram a ser remetidas para as páginas interiores.

Aos poucos, os «chumbos» foram descendo para a caldeira.

Aqui se transcreve o que o Notícias de Portugal , neste dia, dedicava ao estado de saúde de Salazar:


Por estes tempos chegou a correr a notícia que um grupo de senhoras devotas queria arrancar dos médicos uma autorização para levarem Salazar a Fátima.

Entretanto os jornais iam publicando desenvolvidas notícias sobre a agenda diária da governação de Marcelo Caetano: recepções, visitas, discursos.

Nas conversas de café, Marcelo Caetano era considerado o administrador da falência.
José Gomes Ferreira, nos seus Dias Comuns, lançava um alerta aos historiadores futuros:

Não acrediteis nos jornais dos últimos 40 anos – dirigidos pela Censura. Nem nos documentos, na sua maioria falsos ou deturpados. (As regentes escolares – acreditai – eram e são recrutadas nas cridas de servir de baixíssima instrução. A Elisa, por exemplo, antiga criada da minha mãe, foi regente escolar e dá cada erro de ortografia!)
ACREDITAI EM MIM.
EU FUI TESTEMUNHA.
EU VIVI ESSES TEMPOS DE INFERNO E DE SILÊNCIO!
E U  S O U  A  M E M Ó R IA!

Legenda: O Presidente do Conselho, e o chanceler da Alemanha Federal Dr. Kurt Kiesinger, durante a recepção no Palácio de Queluz.
Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1122.