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terça-feira, 31 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Andrew Cuomo, governador do estado de Nova Iorque, lançou hoje um apelo urgente de ajuda a voluntários médicos e enfermeiros reformados perante o cenário aterrador de milhares e milhares de pessoas infectados pelo Covid-19 e com o número de mortos que já está perto dos mil óbitos.

«Por favor, venham para Nova Iorque ajudar-nos. Agora».

Entretanto, o presidente-tarado vai twitando a sua ignorância e o seu desprezo pelo povo.

Barack Obama, considerou hoje que o seu sucessor, Donald Trump, ignorou os avisos sobre os riscos de uma pandemia do novo coronavírus, e recordou o mesmo comportamento quanto às alterações climáticas. 

Pelos dias terríveis que se vivem em Nova Iorque, um poema de Federico Garcia Lorca cantado por Chico Buarque e Raimundo Fagner:

1.

Na India foram decretados 21 dias de confinamento social: fábricas, lojas e restaurantes encerraram as suas actividades.

A paragem de muitas das actividades produtivas deixou milhões de trabalhadores sem salários e sem condições de subsistência. Muitos estão a regressar a pé às zonas rurais de que são originários.

Segundo o jornal inglês The Guardian, Mamta, uma ex-empregada fabril de Gugaon diz que ela e a sua família, sem comida e sem dinheiro, não tiveram outra escolha senão partir e que «a fome vai matar-nos antes do Coronavirus.»

Entretanto, sucedem-se os confrontos e os trabalhadores migrantes e a polícia.

2.

A TAP vai avançar com um processo de 'lay-off' para 90% dos trabalhadores e com a redução do período normal de trabalho em 20% para os restantes colaboradores.
Governo já recebeu 3.600 pedidos de empresas para adesão ao novo lay-off

3.

A PSP deteve em Braga uma mulher de 43 anos por distúrbios no interior de uma padaria, dizendo que estava infetada com o vírus da covid-19 e cuspindo em objetos e em pessoas, chegando mesmo a agredi-las.

4.

A Direcção Geral de Saúde admite que existam em Portugal cerca de 9.500 infectados.

5.

Que leva três inspectores do SEF, no aeroporto de Lisboa, a agredirem um ucraniano ao ponto de lhe provocarem a morte?

Registe-se ainda as cumplicidades várias que tiveram para chegarem à ignomínia de informarem a embaixada de que o cidadão Igor morrera, no hospital, devido a um ataque epiléptico.

Estará esta mentalidade, de violência e mentira, generalizada nas forças de segurança que temos?

Este, o país dito dos brandos costumes!...

Numa sua canção, o catalão Pi de La Serra diz:

«Se os filhos da puta voassem, nunca veríamos mais o sol.»

6.

Os números negros:

Itália

12.428 mortos

Espanha

8.464 mortos

Estados Unidos

3.415 mortos

França

3.523 mortos

China

3.187 mortos

Irão

2.898 mortos

Grã-Bretanha

1.789 mortos

Holanda

1.039 mortos

Portugal

160 mortos

Mundo

42.032 mortos

7.

Vergílio Ferreira no 2º volume de Conta-Corrente:

A velhice é isso - sermos só nós a nossa testemunha.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


Copio tudo na vida, nas notícias que leio, no que acontece. Surpreendo-me muito quando crêem que essas coisas que há nas minhas obras são atrevimentos meus, audácias de poetas. Não. São pormenores autênticos, que a muita gente parecem raros porque é raro também aproximaram-se da vida com esta atitude tão simples e tão pouca praticada; ver e ouvir; uma coisa tão fácil!

Federico Garcia Lorca, Vértice, Fevereiro de 1965

OLHAR AS CAPAS


Obras Completas

Federico Garcia Lorca
Compilação e notas de Arturo Del Hoyo
Prólogo: Jorge Guillen
Epílogo: Vicente Alexandre
Aguilar, S.A. de Ediciones, Madrid, 1965


EL POETA LLEGA A LA HABANA

         A Don Fernando Ortiz

SON DE NEGROS EN CUBA

Cuando llegue la luna llena iré a Santiago de Cuba,
iré a Santiago,
en un coche de agua negra.
Iré a Santiago.
Cantarán los techos de palmera.
Iré a Santiago.
Cuando la palma quiere ser cigüefla,
iré a Santiago.
Y cuando quiere ser medusa el plátano,
iré a Santiago.
Iré a Santiago
con la rubia cabeza de Fonseca.
Iré a Santiago.
Y con la rosa de Romeo y Julieta
iré a Santiago.
Oh Cuba! Oh ritmo de semillas secas!
Iré a Santiago.
Oh cintura caliente y gota de madera!
Iré a Santiago.
Arpa de troncos vivos, caimán, flor de tabaco!
Iré a Santiago.
Siempre he dicho que yo iría a Santiago
en un coche de agua negra.
Iré a Santiago.
Brisa y alcohol en las ruedas,
iré a Santiago.
Mi coral en la tiniebla,
iré a Santiago.
El mar ahogado en la arena,
iré a Santiago,
calor blanco, fruta muerta,
iré a Santiago.
Oh bovino frescor de calaveras!
Oh Cuba! Oh curva de suspiro y barro!

Iré a Santiago.

(Poema de Poeta en Nueva York)

CANÇÕES PARA O MEU PAI


Algumas cassettes perderam-se, restam apontamentos em que anotava as canções a colocar, os alinhamentos a fazer, o resto é a memória, e a memória, meus caros, é algo levado da breca.

Ainda há dias coloquei aqui um Postal Sem Selo com uma frase do José Saramago tirada de uma carta sua para José Rodrigues Miguéis:

As terras da memória estão sempre por descobrir.

Das canções de Patxi Andion gravadas para o meu pai, apenas funciona a memória, já tão débil… tão débil… uma memória que se dizia de elefante, porque dizer é fácil…

Mas esta canção Verde, dedicada por Patxi Andión a Lorca, estava lá de certeza.

A canção faz parte do álbum «Como El Viento Del Norte, editado em 1974 e dedicado a sua mãe, Consuelo González.

O meu pai gostava muito de Federico Garcia Lorca, ao ponto de encomendar, na Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, por baixo do então Cinema Eden, as Obras Completas editadas pela Editora Aguilar.

Lembro-me, finais de anos 60, que o livro demorou a chegar, o meu pai chegou a pensar que o livro nunca chegaria, mas chegou.

Faz parte da biblioteca da casa e trata-se da décima edição, datada de 1965.

Excerto do discurso de Aceitação do Prémio Príncipe das Asturias, proferido por Leonard Cohen em 21 de Outubro de 2011:

«Já conhecem a minha profunda relação e convivência com o poeta Federico Garcia Lorca. Posso dizer que, nessa altura, era um jovem, um adolescente, sedento de encontrar a minha voz; estudara os poetas ingleses, conhecia bem as suas obras e copiava os seus estilos, mas não conseguia encontrar a minha pro´ria voz. Só quando li, mesmo traduzidas, as obras de Lorca é que percebi que havia ali uma voz. Não copiei a sua voz; nunca me atreveria. Mas ele autorizou-me a encontrar uma voz, a localizar essa voz; ou seja a localizar um eu, um eu que não estivesse resolvido, um eu que lutasse pela sua própria existência.»

Federico Garcia Lorca teve uma profunda influência na vida e na carreira de Leonard Cohen.

Quando a sua filha nasceu, chamou-lhe Lorca Sarah Cohen.


Legenda: reprodução parcial do encarte de Como El Viento Del Norte.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

PEQUENA ELEGIA A FEDERICO GARCIA LORCA


PEQUENA ELEGIA A FREDERICO GARCIA
(Para viola, pífaro e pandeireta)

a lua desenha o céu
feita de papel de prata
a lua acende a planície
feita de papel de prata

cá em baixo berram tiros
no cavalgar de espingardas
uniformes cor de chumbo 
caras como caveiras

ai camponês    camponês
que não sabes o que és

a lua ri lá no alto
feita de papel de prata

ai cigano traficante
vendes bandeiras e pano
vendes relógio e G3
e G3 avariada 
ai cigano ai cigano
ai cigano português

ai camponês tu também
dessas planícies largas
a lua está a mirar-te
sempre em papel de prata
pede a G3 ao cigano
mesmo que seja de pano
e que esteja avariada
camponês ai camponês

a lua já te não mira
a planície é do sol
como um cavalo no mar
a planície que é tua
mais bonita que a lua

ai camponês camponês
que já não sabes o que és

a lua deixou a prata
de papel e fugiu

e os guardas republicanos
vão prá puta 
que os pariu
todos

nós somos…
nós somos inúmeros
desconhecidos
feitos de revoltas e de lutas
nós somos inúmeros
feitos de sangue e de combates
nós somos todos os de nome ignorado
feitos de força e de amor
somos aqueles que
de Ocidente a Oriente
olham o sol bem de frente
e acreditam nas estrelas
somos os que caem a sorrir
que morrem a cantar
folhas ignoradas duma árvore
que ao tombar     verticais     belas
vêm fecundar a raiz
de outras árvores por nascer
aquecer a terra
onde nascerão papoilas vermelhas
que serão colhidas por crianças sorridentes
nós somos os que caminham
de olhos bem abertos virados à manhã
canções nos lábios

nós somos inúmeros
desconhecidos…

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A TERRA É O PROVÁVEL PARAÍSO PERDIDO


Na hora da sua morte, encontrar um texto do Bastos para aqui colocar, teria que ser da Cidade Diária e, mais concretamente, este Então que é isso, ó Vitinha?!

O Helder Pinho andava sempre com o livro debaixo do braço, um livro todo riscado, com as margens cheia de ideias e comentários e chegou a ter de cor este Vitinha e uma outra crónica Sobre Domingo,ele que vivia perto do rio, na Rua da Manutenção, junto a Xabregas e sabia da ronca dos barcos no Tejo em noites de nevoeiro, e sempre que a malta se juntava, recitava:

Ao domingo entendemos que somos feitos de muitas almas, que dissemos «sim» à inutilidade aparente das coisas e às coisas definitivamente inúteis, que não escolhemos o nosso modo de existir, ele aconteceu e assim terá de ser até à soma final dos dias, que vivemos punidos, unidos, solitários, mas sempre e sobretudo com os outros – o que será a avulsa dor da nossa glória.

Os mestres encontravam-se pela noite, num qualquer bar entre Bairro Alto e o Largo da Trindade. O Eduardo Valente da Fonseca, que, a qualquer hora do dia, da noite, vagabundeava entre a redação do República e os tascos e bares em redor, acabava sempre por dizer onde estava o Bastos. Normalmente o poiso certo poiso era o Expresso Bar. Ali no Largo da Trindade.

Bebíamos e falávamos na noite, tal como escreveu o BB numa outra volta que até mete o Manuel da Fonseca.

Ou como escreveu o Ângelo Granja, numa saudação, publicada no Diário Popular, a Capitão de Médio Curso, livro do Bastos de 1978:

Precisamos falar, capitão. se trouxeres contigo o Baptista-Bastos, ficaremos, como dirá o teu armador, à bebida e à conversa, falando, se calhar. De jornais e jornalistas, de mulheres e amor, de vinho e bebedeiras, e, isso sem falta, de livros e escritores. Precisamos falar, capitão, porque homem calado não faz viagem, é como os barcos de qualquer curso, logo sem curso, emergindo destroços num mar de palha, por aí qualquer.

Tudo isto, ainda a faltar algum tempo para o Bastos desatar a perguntar: onde é que estavas no 25 de Abril?

O Bastos dizia: Sou louco. Toda a gente diz que sou louco. É a minha felicidade. Muitas vezes que as pessoas consideram loucura é uma busca desesperada de sinceridade.

Pelo Outono de 1995, numa entrevista à revista Ler, mostrou-se cansado das mesmas conversas de bares. Ele envelhecera. Os outros também.

Sempre fui um homem de bares, de tertúlias, de grupos de amigos. Sempre fui um homem de beber, fiz estas coisas de uma forma excessiva: beber excessivamente, amar excessivamente, ainda hoje faço isso. Na bebida tive de cortar um bocado…

Gosto muito desta crónica do Baptista-Bastos, mesmo muito.

Numa das últimas vezes que estive com o Helder Pinho, sempre a mudar de amores, de casas, desprendido de tudo e mais alguma coisa, ainda lhe perguntei se não me queria vender o seu exemplar anotado da Cidade Diária. Respondeu-me que já não sabia por onde o livro ficara. E se ainda o tivesse, não mo vendia, dava-mo.

O Helder era como o Bastos: fazia tudo excessivamente e por um Agosto quente do ano de 2003, o coração disse-lhe que já não aguentava mais.

As cinzas foram lançadas ao Tejo para que ele pudesse continuar a ouvir a ronca dos barcos do Tejo, em noites de nevoeiro, tal como contava o Bastos, coisas que sugerem a vontade do sossego e da paz.

Legenda: o título é de um poema do Lorca que o BB, amiúde, citava, e o recorte é uma notícia do Expresso de 23 de Março de 1988.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

WALT WHITMAN


Uma noite, na Brasileira do Chiado, meados dos anos 60, eu e o Zé Ferraz, mesas cheias de intelectuais, outras gentes, também pides, e o Armindo a entrar porta dentro, com a sua pasta de cabedal preto, que colocava ao seu lado como se fosse um cão. 

Bica escaldada pedida, começou a tirar da pasta uma série de folhas A4, que eram poemas de Walt Whitman que ele acabara de traduzir.

O Armindo deu a cada um de nós, cópias dessas traduções que ele tivera o cuidado de passar a papel químico. Longe estava o mundo das fotocópias.

Foi assim que conheci Walt Whitman.

Digo com mágoa: não sei que descaminhos levaram essas traduções, excelentes traduções.
Armindo, um jovem cheio de talento que um dia, para fugir à guerra colonial se exilou em Paris, e de quem não mais tive notícias.

O Zé Ferraz também seguiu os mesmos passos, e também o silêncio.

Walt Whitman, autodidacta, aprendiz de tipografia, jornalista, enfermeiro na Guerra da Secessão confortando soldados, escrevendo-lhes cartas para os familiares, lendo-lhes poemas. Assumindo a sua homossexualidade, em tempos tão difíceis para esses sentimentos, teve de enfrentar os mais diversos ódios e incompreensões.

Como os de um crítico de um jornal de Boston em 1855:

O autor devia ser corrido a pontapés de qualquer sociedade decente, por pertencer a um nível inferior ao das bestas. Não há inteligência nem método nesta tagarelice desarticulada e cremos que deve tratar-se de um pobre louco fugido do manicómio em pleno delírio.

Ou os de um crítico londrino:

Mas que direito tem este Walt Whitman de ser considerado um poeta? A sua familiaridade com a arte é tão escassa como a de um porco com a matemática.

Mas o seu pensamento, livre e corajoso, tudo varreu.

Fernando Pessoa, via Álvaro de Campos, em Junho de 1915, envia-lhe uma saudação de que se reproduz um extracto:

Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!

De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!
Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidérmico, contíguo a tudo em corpo e alma,
Carnaval de todas as acções, bacanal de todos os propósitos
Irmão gémeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas,
Homero do insaisissable do flutuante carnal,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Electricidade futura!
Incubo de todos os gestos,
Espasmo p’ra dentro de todos os objectos de fora
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares, paneleiro de Deus!
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.

Quantas vezes eu beijo o teu retrato.
Lá onde estás agora (não sei onde é mas é Deus)
Sentes isto, sei que o sentes, e os meus beijos são mais quentes (em gente)
E tu assim é que os queres, meu velho, e agradeces de lá,
Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu espírito,
Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma.

Federico Garcia Lorca, em 1930, escreve-lhe uma ode, musicada há uns anos por Patxi Andion e que está incluída no álbum Poetas en Nueva York, um trabalho, publicado em 1986, por ocasião dos 50 anos do assassinato, pelo franquismo, deFederico Garcia Lorca:

Ni un solo momento, Viejo hermoso Walt Whutman,
he dejado de ver tu barba llena de mariposas,
ni tus hombros de pana gastados peor la luna,
ni tus muslos de Apolo virginal,

ni tu voz como una columna de ceniza.



Também Pablo Neruda:

Eu não me lembro
com que idade,
nem onde,
se no grande Sul molhado
ou na costa
temível, sob o breve
grito das gaivotas,
toquei certa mão e era
a mão de Walt Whitman:
pisei a terra
com os pés descalços,
andei sobre o pasto,
sobre o firme orvalho
 de Walt Whitman.

Yeats, Ezra Pound, Allen Ginsberg, também saudaram Walt Whitman.

E ainda há Robin Williams, em O Clube dos Poetas Mortos, a recitar Oh capitain, my capitain!

domingo, 13 de julho de 2014

UM POETA EM NOVA IORQUE


 Não haverá muitos “pequenos” livros com tanta história atrás de si.

Falamos de Um Poeta em Nova Iorque, o livro de poesia que Federico García Lorca (1898-1936) escreveu quando estudou na Universidade de Columbia, na Big Apple (1929-30), mas que só seria publicado já postumamente, quase em simultâneo nos Estados Unidos e no México, pelo seu amigo editor José “Pepe” Bergamín.

Desde a data da edição no final dos anos 30 que se discute se os 32 poemas de Um Poeta em Nova Iorque correspondiam ao projecto original de Lorca. Parece que não. Mas agora é possível perceber porquê. É que o original que o poeta assassinado pelos franquistas logo no início da Guerra Civil, em Agosto de 1936, deixara um mês antes no escritório de Bergamín, em Madrid, foi redescoberto várias décadas depois. E foi reeditado em Espanha, pela Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, supostamente mais de acordo com a proposta original.

No dia 13 de Julho de 1936, Lorca deixou no escritório de Bergamín, que na altura estava fora, o original de Um Poeta em Nova Iorque, acompanhado por esta nota: “Vim aqui para te ver, e devo voltar amanhã”. Não voltou. Seguindo a descrição de Andrew A. Anderson, um hispanista britânico, especialista na obra de Lorca e responsável pela nova edição da Galaxia Gutenberg, o texto original continha poemas manuscritos e outros dactilografados, além de desenhos, distribuídos por 124 páginas. A ideia do autor seria discutir com o editor a organização do livro, e Anderson admite que alguns dos poemas pudessem ficar de fora: “Lorca queria incluir a grande maioria, mas não todos. Aos sobrantes, chamar-lhes-ia ‘órfãos’”, nota o investigador, citado pelo El País.

Bergamín pensou inicialmente em editar o livro em Paris. Acabou por fazê-lo em Nova Iorque e no México, país onde se exilou fugindo do regime de Franco — coube-lhe, por exemplo, como organizador do Congresso Internacional de Escritores em Defesa da Cultura de 1937, encomendar Guernica a Picasso.

Depois de editar Um Poeta em Nova Iorque, Bergamín ofereceu o original a um amigo no México, Jesús de Ussía. No final dos anos 1990, estava na posse da actriz espanhola Manola Saavedra que, então se apercebeu do valor comercial do caderno e decidiu levá-lo a leilão na Christie’s. Os descendentes de Lorca, através da fundação com o nome do poeta, contestaram o direito da actriz ao manuscrito. O Tribunal de Londres deu razão a Manola, e a fundação acabou por adquirir o documento em leilão, em 2003, por cerca de 200 mil euros.

Dez anos depois, é sobre esse material que a nova edição chegou às livrarias.

Mas continuará por se saber qual era a ideia de Lorca para o seu livro.
  
Fonte: Público


Legenda; Imagem de parte da Oda Walt Whitman em Poeta en Nueva York,  em Obra Completa de Federico Garcia Lorca, Aguilar Ediciones, Madrid 1965.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O ASSASSÍNIO DE LORCA


No dia 19 de Agosto de 1936, Federico Garcia Lorca foi assassinado nos arredores de Granada.
Lorca, então com 38 anos, foi preso por um deputado católico de direita que justificou a sua prisão dizendo que ele era mais perigoso com a caneta do que outros com o revolver.

Entrada, datada de 19 de Agosto de 1986, de  Miguel Torga no seu Diário:

Há meio século que Lorca foi fuzilado. Mas os anos não atenuaram o horror do crime de Granada. Pelo contrário. E os deuses sabiam que seria assim. Por isso, quiseram que na voragem que abriu as portas à violência do nosso tempo, para opróbrio dos carrascos, a poesia tivesse o seu quinhão. É que só ela, encarnada, poderia ser o símbolo perene e puro do martírio inocente e o mais nobre penhor da eterna ressurreição da liberdade.



Leonard Cohen contou um dia:

Tinha estudado poesia na escola, mas foi só quando, acidentalmente, dei de caras com um livro de Lorca que percebi o que era a poesia. Tocou-me tão fundo, que a partir desse momento, percebi o que queria ser: poeta. Quando a minha filha nasceu resolvi chamar-lhe Lorca Sarah Cohen. Ele teve a mais profunda influência na minha vida e na minha carreira. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

POSTAIS SEM SELO


Se eles disserem que me perdi, procurem-me em Havana.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

POETAS EN NUEVA YORK


Colectânea, publicada em 1986, ano em que passaram 50 anos sobre o assassinato de Federico Garcia Lorca.

Cantores e autores de diversos países prestam homenagem ao poeta.

Os poemas são retirados do livro “Puetas En Nueva York”

Poemas e intérpretes:

Lado 1

Pequeño vals vienés – Leonard Cohen
Norma y paraíso de los negros – Lluis Llach
Grito hacia Roma – Angelo Branduardi
Nacimiento de Cristo – Vicot Manuel
Tua infancia en Mentón – Davis Broza
Asessinato – Paco de Lucia e Pepe de Lucia

Lado 2

La Aurora – Raimundo Fagner e Chico Buaqrue
Son de negros de Cuba – George Moustaki e Mikis Theodorakis
Ciudad en sueño – Donovan
Pequeño poema infinito – Manfred Maurenbrecher
Oda a Walt Whitman – Patxi Andión


A capa é de Eduardo Urculo.

CBS  450286-1



O POETA É UMA ÁRVORE




Crónica de Manuel António Pina no “Jornal de Notícias” de ontem:

“Aquele que pediu "Quando eu morrer/ deixai a varanda aberta" foi assassinado por pistoleiros franquistas há 75 anos, a 17 de Agosto de 1936, exactamente um mês após a rebelião fascista contra a República que, com a cumplicidade activa da Igreja - "Benditos sejam os canhões", a proclamação do primaz de Madrid continua a ser uma das mais graves injúrias contra os Evangelhos alguma vez proferida por um bispo católico - afogou Espanha num mar de sangue e ignomínia.

Federico Garcia Lorca tinha regressado a Granada poucos dias antes. Os esquadrões da morte andavam pelas ruas e procurou refúgio em casa do poeta Luís Rosales, falangista e seu amigo. Foi aí que, no dia 16, militantes da Falange o prenderam. Nessa mesma noite foi levado para os campos de Viznar e, às 4 da madrugada, assassinado a tiro juntamente com um professor primário e dois bandarilheiros anarquistas.

A sua morte ("De la cueva salen/ largos sollozos") continua envolta em mistério. Não lhe eram conhecidas posições políticas, além de se assumir como republicano e de um dia ter dito: "Estou e estarei sempre do lado dos que têm fome". E, crime maior ainda para os seus algozes, era homossexual.

"Aqui fuzila-se como se desbastam árvores", escreveu Saint-Éxupery sobre a Guerra Civil. Lorca foi só mais uma árvore, frondosa e frágil: "O meu coração está aqui (...)/ funde o teu ceptro nele, Senhor./ É um fruto/ demasiado outonal/ e apodreceu".


Legenda: fotografia tirada das “Obras Completas” de Federico Garcia Lorca, Aguilar S.S., Madrid 1965