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quarta-feira, 22 de abril de 2020

ALGUÉM LHES DIRÁ O QUE SOFREMOS...


Não são razoáveis as fotografias que tirei a alguns murais que, após o 25 de Abril, apareceram na cidade, apenas ficarão como um juntar de certas memórias.

Sentado no Expresso-Bar, gin-tónico na mão, o Mário-Henrique Leiria dizia:

-Vê lá tu, que o Álvaro Guerra deixou de me falar só porque não sou do partido dele!...

Com estrondo os altos muros ruíram, olhámos o dia das surpresas.
Mas era suficiente?

Pode-se ter deixado de acreditar em coisas em que se acreditou?

 E os escolhos dos muros que ruíram?

Miguel Torga, que é escritor que nunca me provocou grandes entusiasmos, escreveu no seu Diário:

«Coimbra, 25 de Abril de 1974 – Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada…»

Passados estão 46 anos.

Demasiados erros, demasiadas distracções, demasiadas ingenuidades, acabaram por mergulhar o país num mar largo de clientelismo, de partilha do poder, de corrupção, do salve-se quem puder…

Onde está o dinheiro, onde está o raio do dinheiro?

Não lhe apetecia nada rematar a prosasinha com a frase da Simone de Beauvoir, escritora que também nunca lhe provocou grandes entusiasmos, mas aí vai:
«É horrível assistir à agonia de uma esperança.»

A canção daqueles tempos que hoje ouviremos, é trazida pelo Adriano Correia de Oliveira.

Faz parte do álbum, «Cantaremos», editado em 1970.

Música do Adriano para um poema do Fernando Assis Pacheco que nos fala das razões porque então podíamos amar serenamente com tantos amigos na prisão.

«Não deveis enganar-vos: cada verso tem um selo fraterno caminhando para a branca cidade sob o sol.», deixou o poeta escrito nas o páginas interiores do álbum.



Legenda: o título é tirado de um poema de Egito Gonçalves.

sábado, 30 de novembro de 2019

HÁ 24 ANOS FICÁMOS SEM O ASSIS PACHECO


No dia 30 de Novembro de 1995, morria Fernando Assis Pacheco. Tinha 58 anos.

Saía da Livrareia Bucholz, quando um ataque cardíaco o vitimou.

Jornalista, poeta, romancista, um tipo de que se gostava à primeira vista.

Conheci-o nos idos de 1967, na redacção do Diário de Lisboa.

Mas o convívio aconteceu quando, juntamente com outros jornalistas do Diário de Lisboa, Raul Rego e Vitor Direito à cabeça, o Assis Pacheco, mais a sua HCESAR, se passou para o Republica.

Naquela manhã, fiquei parvo de todo a olhar os títulos dos jornais, a tentar perceber se aquilo era mesmo possível: o Assis Pacheco já não estar por aqui.

Tinha um fino humor, uma ironia cortante, uma cultura sem limites.

As suas entrevistas são de mão cheia e algumas delas encontram-se reunidas em Retratos Falados, que as Edições ASA publicaram em Maio de 2001. A Assírio Alvim tem vindo a publicar toda a sua obra.

Na sua HCESAR, escrevia com o indicador direito e gargalhava para a redacção, contando a última pilhéria.

Gozador da vida, perdia-se por vinhos e petiscos.

Deixou escrito que os melhores tordos que comeu, foram preparados pelo José Cardoso Pires  que tinha um apartamento, rasgado para o Atlântico, na Costa da Caparica.

No dia em que escorregou para dentro de si mesmo, Fernando Assis Pacheco estivera a folhear livros nos escaparates da Bucholz.

Quem dedicou toda uma vida à cultura, só poderia partir assim.

José Cardoso Pires:

Aqui para nós palpita-me que não vou tardar muito a ir ter contigo, é cá uma fé, até já sei que te vou encontrar “solitário diante de uma folha branca” como o Maiakowski. Mas sabes?, enquanto por cá ando fazes-me falta. Bastante, Assis. Mesmo bastante, acredita.

Último Tesão

Alombo contigo há uma porção de anos
e vou-te dizer és um chato
não tens ponta de paciência
para a vida nem para ti próprio

já te ouvi discursos a mandar vir
já te carreguei às costas
bêbedo como um Baco de aldeia
mijando as ceroulas
és um adolescente retardado
faltou-te sempre a quarta do bom senso

vez por outra um livrinho
de versos vez por outra nada
qualquer um do teu tempo
está bastante melhor do que tu
deputado administrador de empresa
ministro da maioria
puta (alguns chegaram a isso)

só tu meu inocente brincas com a neta
açulas o cão pedindo
à família que te ature
o tipo um dia destes morde-te
que é para aprenderes

mas aqui entre amigos
vou-te dizer também
uma coisa importante não cedas
à tentação de mudar
fica nesta pele que é tua

como é que tu escrevias
merdalhem-se uns aos outros

o país mete dó

guarda o último tesão
para mandares
meia dúzia de canalhas à tabua

Lisboa
5/6/9-VII-95

Fernando Assis Pacheco em Respiração Assistida

sábado, 19 de outubro de 2019

RUI JORDÃO (1952-2019)


Soube da morte de Rui Jordão, quando, pela manhã, visitei o Largo da Memória do Luís Enes.

Logo me ocorreu um muito longínquo Benfica Feyenoord e deixei comentário:

«Dos mais elegantes intérpretes de futebol que vi jogar.
22 de Março de 1972: 2ª mão da Taça dos Campeões Europeus, jogo com o Feyenoord no velho Estádio da Luz. Na primeira mão o Benfica perdera, em Roterdão, por 1-0. Aos 5 minutos de jogo já Nené empatara a eliminatória. Depois foi um festival do mesmo Nené e do companheiro Jordão. Resultado final: 5-1.
Não mais esquecerei esta noite, não mais esquecerei o bailado coreografado que Jordão, depois de  meter o quarto golo, fez, na baliza norte, ao longo da linha final em direcção à bandeirola de canto. Deslumbrante.
Foi uma pena ter ido para o Sporting, dizem que era o seu clube de coração, mas foi um homem que dignificou todas as camisolas que envergou e a todas deu o seu melhor.
Já não há jogadores assim!...
Talvez um rapaz que joga no Liverpool, de seu nome Sadio Mané, aufere por semana cerca de 170 mil euros, se assemelhe.
Esta semana disse não esquecer os tempos de pobreza durante a infância.
«Para que quero dez Ferraris, 20 relógios com diamantes e dois aviões? O que faria isso pelo mundo? Eu passei fome, trabalhei no campo, joguei descalço e não fui à escola. Hoje posso ajudar as pessoas. Prefiro construir escolas e dar comida ou roupa às pessoas pobres.»
Com gente desta, podemos dizer que o futebol  pode ser mesmo o maior espectáculo do mundo.»

Quando pendurou as botas, jogava então no Vitória de Setúbal, não mais quis saber do futebol. Dedicou-se a uma paixão que sempre o acompanho: a pintura.

Rui Jordão era um homem simples.

Na entrevista que o excelente Fernando Assis Pacheco, lhe fez em Janeiro de 1988, e que intitulou «Sem Sombra de vedeta», perguntou-lhe qual era a sua refeição favorita. E este respondeu-lhe que era bife.

Assis que era um eterno gozador e praticante ávido  da boa comida, da boa bebida, comentou:.

Coisa mais monótona!

Jordão acrescentou:

Eu não tenho o prazer da mesa, seria incapaz de sair de casa para ir a tal ou tal sítio comer determinada coisa. De maneira que o que lhe estou a dizer é uma habituação: bife, arroz, às vezes peixe grelhado, pouca batata. No meu caso foram dezasseis anos desta dieta. De vez em quando lá experimentamos uma feijoada, ou um cozido à portuguesa, um bacalhau, mas nada disso entra no dia a dia.

Outra vez o Assis:

A culinária angolana seria impensável para a sua vida de jogador?

Impensável.

Recorda algum prato angolano preferido?

 Muamba. A que se come aqui em Portugal não é genuína, está falsificada.

Na abertura  da entrevista pode ler-se:

«Aí está ele outra vez, o goleador emérito, Tem 35 anos e escolheu Setúbal para voltar aos relvados, depois de um afastamento penosos em que se disse que acabar para o futebol. Rui Jordão, angolano de Benguela, quer manter-se honesto até ao fim da carreira sem cair no vedetismo.»

Assim foi.

domingo, 13 de outubro de 2019

ETECETERA


Domingo de eleições.

Conclui, mais uma vez, passados que são 45 anos de democracia, que não elevámos o nível de cultura dos portugueses.

Entristeceu-se com o cair do dia, a chegada da noite.

Sabe o porquê da tristeza e não pode dizer que é só por os pássaros terem partido para o sul.

1.

Francisco Mendes da Silva, membro da comissão política do CDS, numa entrevista ao Público, disse que «o aparecimento do Chega põe em causa todo o regime.»

Diz também que a direita terá de se entender para poder ir a eleições e governar, mas exclui o Chega porque não basta dizer que os políticos são todos uma cambada de ladrões, ou dizer mal dos ciganos.

2.

Rui Montenegro perfila-se para discutir a presidência do PSD a Rui Rio.

O partido necessita de uma lufada de ar fresco, disse, ou alguém por ele.

Nada tenho nada, mesmo nada a ver com o PSD, mas garanto que prefiro que a conduzir os destinos do partido esteja Rui Rio, do que o antigo parlamentar,  um sorriso cínico, um encadeador de palavras que nada dizem, que lembra as políticas pedropassoscoelhos, mais o Relvas, a Maria Albuquerque .

O rapaz diz, agora, que o Partido Socialista era batível se tivesse existido uma oposição firme.


Pois… ou os prognósticos só no fim do jogo, como diria o outro…

3.



Recortes do Público.

4.

Não digo que não existam razões, mas tudo o resto é uma mentira e uma imbecilidade.

Ninguém deixa de ser culpado neste circo de vaidades, desprezos e vinganças.

Um dos últimos nomes que entrou na roda é o de Plácido Domingo.

Jorge Calado, numa crónica publicada no Expresso, deixa  a ideia que Domingo se terá portado um tanto ou quanto mal.


Este é o final da crónica:


5.

No dia 8 morreu o jornalista Rogério Rodrigues.

Ainda sou do tempo em que havia jornais e jornalistas e, com a sua morte, já não resta quase ninguém como eçe.
.já poucos restam
Rogério Rodrigues foi fundador do semanário O Jornal, foi um dos últimos chefes de redação do jornal A Capital, foi jornalista no Público e Jornal de Notícias trabalhou na RTP e no Rádio Clube português.

Quando Fernando Assis Pacheco morreu, Rogério Rodrigues escreveu uma emocionada prosa:

«Morreu o Assis como é do conhecimento público, como já tinha morrido o Esteves da leitaria, o O’Neill da seda chinesa em feira de cigano. Morreu o Assis, o doido que me foi buscar a um modesto liceu de Trás-os-Montes, em má hora me trouxe para os jornais, durante meses me aklimentou, foi meu mestre, foi meu amigo e foi meu compadre. Aquele barbas, aquele doido. Porque o Assis era doido – de ternura, de generosidade, de talento.»

Rogério Rodrigues foi também jornalista do Diário de Lisboa, no qual, em Maio de 1975, publicou uma crónica sobre uma mulher, de seu nome Teresa Olga, que, num intervalo do tratamento psiquiátrico, dançava nua no cruzamento da Avenida Miguel Bombarda com a Avenida 5 de Outubro, acontecimento de que José Afonso faria poema e música e que faz parte do álbum Com as Minhas Tamanquinhas.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Antologia Breve

Pablo Neruda
Selecção, tradução e prefácio: Fernando Assis Pacheco
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Cadernos de Poesia nº 2
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1969

Madrigal Escrito no Inverno

No fundo do mar profundo,
na noite de longas riscas
como um cavalo atravessa correndo
o teu calado calado nome.

Dá-me lugar no teu ombro, ai, abriga-me,
aparece-me no teu espelho, de repente,
brotando do escuro, detrás de ti.

Flor da doce luz completa,
acode-me com a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.

Pois digo-te, no mais longe dos longes,
de um esquecimento a outro moram comigo
os carris, o grito da chuva:
o que a escura noite preserva.

Acolhe-me no tear da tarde,
quando o anoitecer vai urdindo
o seu vestuário e palpita no céu
uma estrela cheia de vento.

Traze-me a tua ausência até ao fundo,
pesadamente, com os olhos tapados,
atravessa-me a tua existência, admitindo
que este meu coração está destruído.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

BOA TARDE, FERNANDO ASSIS PACHECO!


Sou um saudoso dos suplementos literários dos jornais.
O que então aprendi com essas leituras.
Fernando Assis Pacheco, nos jornais por onde andou, fazia uma simples mas eficaz divulgação dos livros que iam saindo.
Hoje, na visita regular que faço à Loja Frenesi, o blogue onde o poeta e livreiro Paulo da Costa Domingues, expões os livros que tem à venda, encontrei estas palavras:

«Há ainda uma questão que deve ser aqui lembrada: Em finais dos anos 70 e início de 80 do século passado, o falecido Assis Pacheco, ao serviço de O Jornal, alimentava uma coluna jornalística que ainda hoje poderia servir de modelo a muito noticiário de publicação de livros. Chamava-se «Bookcionário», e perdeu-se-lhe o rasto como se perde tudo neste mundo quando os interessados se desinteressam, ou morrem, ou mudam de ramo. Nós, não esquecemos. Nem essa simpática coluna, nem o seu intuito, nem o estilo. – Os presentes verbetes de leitura, na nossa loja, em apoio das respectivas fichas técnicas, tomaram daí a antiga inspiração.»

quinta-feira, 21 de março de 2019

POSTAIS SEM SELO


Gostarias que de ti ficasse (mas qual?) uma memória. Em todo o caso não a forces.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

FEIRA DO LIVRO DE POESIA


Aqui pelo Cais temos a tineta de não ligar aos dias determinados, sejam eles da Poesia, da Mulher, do Pai, da Mãe, da Árvore e por aí fora.

Hoje é o Dia da Poesia.

Por nós, a Poesia é de todos os dias, feita por todos, e dentro dessa filosofia tentamos que, em cada dia, os viajantes encontrem um poema.

Mas falamos do Dia da Poesia porque a Casa Fernando Pessoa realiza, até domingo, no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, uma pequena Feira do Livro em que é possível encontrar livros de pequenas editoras que a selvajaria do mercado não permite colocar nos escaparates das livrarias.

Ainda há livrarias?

O dia está bonito e é bem provável que os nossos passos para Campo de Ourique se encaminhem.

Por Poesia, por Campo de Ourique, recordar que Fernando Assis Pacheco, que por ali viveu, chegou a escrever conselhos da vida e para a vida que intitulou «Regras Para Viver emCampo de Ourique».

Claro que o conceito das regras pode e deve ser alargado a outras paragens:

1. Pratica a arte da boa vizinhança; estás numa terra pequena, não sejas opaco.
2.  Dá o máximo de ti, pede aos outros o máximo. A escassez não vale uma vida.
3.  O alheamento não vale uma vida.
4.  Faz-te conhecer pelos gestos de todos os dias; mesmo os gestos neutros; mesmo os inúteis.
5.  Não deixes de contrastar os homens sobre as pedras.
6.  Saboreia os teus trajectos com uma paixão minuciosa,
7.  Mas reserva-te para a surpresa e para o imprevisto (como no trabalho).
8.  Vive direito. Vive claro. Evita enganar-te neste ponto.
9.  Aceita os outros, que são sempre diversos.
10.  Gostarias que de ti ficasse (mas qual?) uma memória. Em todo o caso não a forces.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


 Crónica de Uma Morte Anunciada

Gabriel Garcia Márquez
Tradução: Fernando Assis Pacheco
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, Agosto de 1983


No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros. “Sonhava sempre com árvores”, disse-me a mãe, Plácida Linero, recordando 27 anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata. “Na semana anterior tinha sonhado que ia sozinho num avião de papel de estanho que voava sem tropeçar por entre as amendoeiras”, disse-me. Tinha reputação bastante bem ganha de intérprete certeira dos sonhos alheios, desde que lhos contassem em jejum, mas não descobrira qualquer augúrio aziago nesses dois sonhos do filho, nem nos restantes sonhos com árvores que ele lhe contara nas manhãs que precederam a sua morte.
Santiago Nasar também não reconheceu o presságio. Dormira pouco e mal, sem despir a roupa, e acordou com dores de cabeça e com um sedimento de estribo de cobre na boca, e interpretou-os como estragos naturais da farra de casamento que se tinha prolongado até depois da meia-noite.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

SARAMAGUEANDO



«Uma leitora na Feira: «Para o ano que vem teremos mais Cadernos?» Respondo medievalmente como de costume: «Vida havendo e saúde não faltando…» E ela: «É que quero ler neles a notícia do Prémio Nobel…» Ponho a cara de sempre, sorriso contrafeito, tonto e de pouco caso, agradeço a gentileza do voto, e passo a assinar o livro que o leitor seguinte me apresenta. «Eu também…», diz este, que ouviu a rápida troca de palavras. Desta vez fico sem saber que sorriso pôr. O terceiro leitor, felizmente, é dos calados,»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote Volume III


Desde Lanzarote, terceiro volume do «contar os dias pelos dedos e encontrar a mão cheia.»

O ano é o de 1995 e logo nos primeiros dias regista a morte de Miguel Torga:

«Sempre se morre demasiado cedo.»

Miguel Torga morreu com 87 anos.

«Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde.»

Preste o ano a findar, outra morte: a de Fernando Assis Pacheco.

«Não éramos amigos o que se chama amigos, mas havia ente nós relações muitos cordiais, de simpatia e respeito mútuos, e a admiração que sentia por ele não a sinto por muitos. Morreu daquele coração que desde há muitos anos o vinha ameaçando. Morreu numa livraria, provavelmente o lugar que ele próprio teria escolhido para quando tivesse de sair da vida.»

Legenda: capa de Cadernos de Lanzarote Volume III publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de  José Carlos de Vasconcelos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Por favor olha: onde estive, onde o capim passava do ombro, a morte passava e a melancolia.

Fernando Assis Pacheco em Catabalanza, Quilolo e Volta

sábado, 31 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS




Novembro
Cadernos de Poesia

Poesias de António-Franco Alexandre, Fernando Assis Pacheco, Herberto Helder,
                   José Gomes Ferreira e Nuno Júdice

Coordenação de Casimiro de Brito e Gastão Cruz
Capa: Manuel Baptista
Edição dos Coordenadores, Lisboa, Novembro de 1972

Minha Pequenas Dúvidas e a Guerra


                               1

minhas pequenas dúvidas estabelecem
habitação violenta. furam pelos ossos,
espalham os dedos em volta, os caules
aquecidos do vento, roem
lentamente os pátios inertes,
instalam a dobra azul dos cotovelos,
resistem. Têm, ambígua, a elegância
elementar da água. Dobram
as espigas nos dentes,
conhecem o nervo
estendido no céu.
                            mexem
os dedos na gaveta, o calcário
das costas, vigiam com cuidado
as vísceras dos galos, a variável
rotação dos planetas; enquanto a galáxia
gira em si mesma intensamente inútil.
minhas pequenas dúvidas multiplicam os dentes,
decoram marx, passeiam o silêncio
pela trela. resistem,
furam pelos dedos, as vísceras
intensas do vento, estabelecem
cotovelos completos.
                                   têm
a violência constante dos ossos,
resistem, dobram lentamente
a trela das estrelas,
ferem as vísceras
inertes do silêncio, espalham
em volta a demasia oblíqua
das espigas nos pulsos. lêem
o jornal misturado à saliva, aprendem
sem ruído as máquinas da pele:
minhas pequenas dúvidas resistem
o calcário dos nervos,
                             estabelecem
habitação inútil,
dobram os ossos ao calor dos pátios.


                          2

 enquanto o coração se prende às cordas
cruzadas do silêncio, esmago
entre os dedos uma gota estreita de noite,
fecho os olhos ao gás das granadas em voo,
escrevo, rumino, peso as estrelas
ao fundo da garganta moída,
buscando entre polícias de dentes aos ombros
uma mancha de vento que nos sirva de céu
e um corpo que permita
o repouso velocíssimo do esperma.
                                          porque, entendes,
minhas pequenas dúvidas explodem
no ar balões de espiga, cotovelos
oblíquos, quando voam no pátio
as curvas variáveis da matraca.
uma ternura, entendes, uma ternura de ombros,
de cabelos completos, de nervos na água,
de dedos constantes ao calor dos ossos,
enquanto o coração se agarra à noite espessa
ou me conhece um caule de elegância nos pulsos.
                                    ternura, entendes,
é ter perdido voz
a granada que voa, pesada como
esta palavra: ternura, ao cair sobre a trela
elementar dos dias.
são ombros, entendes, um nervo cruzado,
a doce rotação
do sangue nos ossos,
o cansaço dos galos quando limpo
o suor anguloso das axilas,
um corpo respirado por dentro, junto à boca.


                                   3

minhas pequenas dúvidas embatem contra o chão
da gasolina ardida, moram
dentro da trela,
leram platão, arrastaram carroças,
cortaram de manhã as vísceras da água,
hesitam na carícia do corpo que se estende
e dobra sobre os ossos, como
uma fonte.
minhas pequenas dúvidas enumeram os dentes,
conhecem hegel, ultrapassam
oblíquamente os pulsos, procuram
habitação inerte.
minhas pequenas dúvidas pequenas
aconchegam no bolso um rato amargo,
vestem à pressa os ossos, aguardam
a rotação inútil dos planetas,
vigiam as estrelas moídas na garganta

                                     4

pornogràficamente acordo
com o sexo dentro da boca.
minhas pequenas dúvidas acendem luzes,
arames, fazem vibrar alarmes,
estabelecem gritos cruzados nos ossos,
abençoam granadas de dentro da janela,
acordam a polícia do seu sono oblíquo.
                              estabelecem
habitação de galos no silêncio.
minhas pequenas dúvidas arrancam os dedos
do chão, cortam as árvores,
alcatroam a alma,
                               proíbem
movimentos de mais de duas mãos.
avisaram de noite a presidência.
ferem a água, estabelecem
vísceras variáveis,
aconchegam um rato no calcário.
                                   pornograficamente
adormeço com o sexo dentro do bolso.
minhas pequenas dúvidas pequenas
abrigam-se do voo nas axilas do vento.

                                      5

minhas pequenas dúvidas não morrem. sei-as
dentro dos galos, vigiando a carroça
elementar  dos ossos,
agarradas ao nervo do silêncio.
resistem. furam pelos dentes,
espalham em torno o vento seco,
os caules, estabelecem
cotovelos inertes.

                     enquanto uma guerra
se prende às cordas
constantes da ternura,
minhas pequenas dúvidas desatam
os nós dentro da boca

                            6

madrugada, as lanternas apitam
a corrida dos dentes pela rua,
estamos contando os dedos que nos restam.
                                   não sei
se são de gás ou raiva
as lágrimas nos pulsos.
                                   ajudo-te
a despir, notando as cicatrizes
e algum piolho oculto.
minhas pequenas dúvidas cansadas
adormecem num bolso, e estamos nus.
                                       abraço-te
devagarinho, com as costas dos ossos,
dobrando os cotovelos na gaveta.

minhas pequenas dúvidas pequenas
sussurram junto ao chão,
movimentam espigas
sobre os nervos,
desejam vigilância.
                              minhas pequenas
dúvidas, minhas trelas miúdas,
sufocam numa névoa de granadas.
                   pouso
as asas angulosas no cimento.
dói-me na mão direita
uma falta de dedos, uma falta
de rios.
            pornogràficamente
adormecemos.

(Poema de António-Franco Alexandre)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Fernando Assis Pacheco em O Poeta no Supermercado

Legenda: pintura de Diego Rivera

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Figuras, Figurantes e Figurões

Luiz Pacheco
Selecção e prefácio: João Pedro George
Capa: André Carrilho
O Independente, Lisboa, 2004

Estive até aqui a ver se me distraía… e não posso. Morreu a semana passada o Fernando Assis Pacheco. A coincidência do nome não é o que me preocupa. Mas a perda de uma Amigo, numa Amizade velha de muitos anos e nunca desmentida, nunca traída. O Fernando era prosador de qualidade (como poeta não o apreciava tanto) e o seu último romance (ganhou no público um êxito que não logrou dos júris dos prémios) uma obra notável. Eu, que digo mal de tudo, se bem me lembro, escrevi-lhe uma carta, com justos louvores, porque gostei do livro. Tirando isso, que era muito e nada vulgar, menos vulgar ainda era a cordialidade, a simpatia, o entusiasmo que o Fernando punha no seu noticiário cultural, nas entrevistas, numa atenção eufórica perante a coisa literária e os coitados da República das Letras, sempre ansiosos por um conforto, uma palavrinha de ternura. Quanto a mim, posso e devo acrescentar: deu-me trabalho e razoavelmente remunerado, n’ O Jornal, quando eu andava por aí aos caídos.
Podendo, falarei talvez melhor do Fernando Assis Pacheco daqui a uns tempos, desculpem.

sábado, 4 de novembro de 2017

VELHOS RECORTES


Recorte do suplemento de «Artes e Letras» do jornal «República» de 1 de Fevereiro de 1973.
Uma ausência forçada, não permitiu que Fernando Assis Pacheco, no seu «Prontuário das Letras», saudasse  o aparecimento da revista«& etc.» em 17 de Janeiro de 1973.
Até ao número 6 (30.03.1973) a revista foi dirigida por Fernando Luso Soares.
Depois passou a ser dirigida por Vitor Silva Tavares.

terça-feira, 13 de junho de 2017

LISBOA E DESFADOS


Construir a cidade e dá-la a toda gente.
Lisboa é uma cidade que vê com os pés. «andando pensa-se melhor do que sentado», diz o João Botelho
«O que há em Lisboa?» pergunta Bogart na tela da sala escura.
Lisboa de Cesário Verde, «nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia», Lisboa de José Gomes Ferreira, Lisboa do Armindo «decerto esta é a mais bela cidade de todas as cidades do mundo, e hoje toda a cidade me fala de ti», Lisboa de Eugénio de Andrade «alguém diz com lentidão: Lisboa, sabes…». Lisboa de António de Sousa «de mal te conhecer é que eu sofria, cidade clara em tuas sete colinas!», Lisboa «cidade branca» de Tanner. Ou Fernando Assis Pacheco: «se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa», Lisboa que «cheira aos cafés do Rossio, cheira a castanha assada se faz frio. A fruta madura quando é Verão». Lisboa de José  Cardoso Pires, «logo a abrir, pareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar», Lisboa de José Saramago, Lisboa de José Rodrigues Miguéis, Lisboa de Alexandre O’Neill «se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa»,  a «Lisboa menina e moça de Ary dos Santos», Lisboa de tanta e tanta gente, «chamar-te a ti Lisboa camarada e depois eu sei lá enlouquecer», para citar Joaquim Pessoa, lembrar Desfado da Ana Moura e, hoje, por aqui ficar.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O DIA EM QUE ACABOU A CENSURA


Já do dealbar da tarde de 25 de Abril, depois de vividos os acontecimentos do Largo do Carmo, os tiros na fachada do quartel, o discurso de Francisco Sousa Tavares, megafone em punho, desemboquei na redacção do República.

O último dos tunantes de que fala o Fernando Assis Pacheco, nos cinco minutos para contar uma história, foi o José Cardoso Pires, sentado na secretária do Vítor Direito, sita no canto, junto à varanda, da redacção do República, um grande sorriso na cara, olho brilhante, cigarro atrás de cigarro.

O relato da transmissão das polícias do regime, foi publicado no República de 26 de Abril e que acima se reproduz.

Fica também  a crónica do Assis Pacheco e um pormenor da capa do República de 26 de Abril: nunca mais um jornal foi visado pela Censura.



segunda-feira, 17 de abril de 2017

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...



Há um pequeno texto de Jorge Listopad, provavelmente publicado no JL, não encontro a data, muito bonito e em louvor das máquinas de escrever. Acredito que muito boa agente desconheça do que se trata:

Tinha um vizinho desconhecido. Mas ouvia-o a escrever à máquina às mais variadas horas nocturnas. Agora reina o silêncio. Pergunto: morreu? Foi raptado? Mudou-se? Comprou um computador?
Seja como for, celebro a memória daquela máquina de escrever, desconhecida.

Sabe-se que Fernando Assis Pacheco, uma das muitas suas imagens de marca, martelava o teclado da sua máquina de escrever HCESAR, apenas com o dedo indicador da mão direita e que se perguntava a Augusto Abelaira por que é que ele demorava tanto tempo a publicar um livro:

É que eu escrevo à mão e depois passo à máquina. Só que depois de uma primeira passagem à máquina vêm as modificações. Então é preciso passar tudo de novo à máquina.

Um dia hei-de falar da minha máquina de escrever, também uma HCESAR.

Está ali, naquele canto, a olhar…

terça-feira, 28 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


É em Português que eu me entendo enquanto for vivo.

Fernando Assis Pacheco em Cinco Minutos para Contar uma História.

Legenda: imagem Vimeo

sábado, 4 de fevereiro de 2017

RECADOS

Fernando Assis Pacheco em «Prontuário das Letras», habitual coluna que assinava no Suplemento Literário do «República» faz, aquando da publicação de «Quatro Paredes Nuas» uma curiosa abordagem, à prosa de Augusto Abelaira.
«República» 23 de Novembro de 1972.