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sábado, 25 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Homem na Cidade

Vários autores
Prefácio: Mário Sacramento
Capa: Luís Carrôlo
Colecção O Homem no Mundo nº 5
Prelo Editora, Lisboa, Julho 1968

Era ao cair da tarde – e havia mortos. Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.
Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.
- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967.

terça-feira, 28 de março de 2017

OLHAR AS CAPAS


Tenho Cinco Minutos para Contar uma História

Fernando Assis Pacheco
Prefácio: João Pacheco
Capa: V. Tavares
Tinta-da-China, Lisboa, Janeiro de 2017

Nem sempre calha eu ler estas crónicas como deve ser: com voz pousada, os fonemas bem soletrados. Sou um trapalhão. Mas não é da língua, é de mim, que chego ao microfone estafado da vida que levo.
O Português parece-me muito belo. Estarei a exagerar? Porque a verdade é que me ponho a reler Camões e fico deslumbrado. Releio um poeta vivo como Eugénio de Andrade e apercebo-me de que a língua que mamei possui virtualidades invulgares, voltas que são de uma viola sábia. Ou então os versos de Herberto Helder – a maravilha esplêndida, penso às vezes, o Português do dia a dia transfigurado. Quero lá saber dos franceses e dos ingleses e dos italianos e dos espanhóis castelhanos e dos alemães e dos russos e dos persas – bolas, a minha língua não tem parecença com outra nenhuma!
É em Português que eu me entendo enquanto for vivo. Tristes dos emigrantes forçados a usar a alheia linguagem! Deve subir-lhe à boca um travo bem amargo, bem azedo. Não é pelo pastel de bacalhau que eles regressam todos os anos, como as andorinhas. Não é pela bôla de carne. É por saudades do Português. Estou a dizer uma verdade maior do que um punho.
Já vivi longe de casa e doía-me. O meu interlocutor na cidade universitária de Heidelberg ninguém acredita mas era um surdo-mudo, o Heinz. Eu morava em casa da mãe dele, a Frau Schwarzbeck, numa rua esconsa chamada Vangerowstrasse. Chegou-se quase ao natal e o Heinz, por gestos, quis saber coisas de mim. Fui-lhe explicando o que me vinha à cabeça.
Os surdos-mudos são insaciáveis quando o parceiro mostra simpatia. Às tantas já discutíamos futebol, ele muito orgulhoso do FC Koln, eu muito ancho do Benfica, que por acaso nesse ano foi campeão europeu.
Entenda-se: falávamos por gestos, gestos alemães.
Se há um Prémio Nobel do Companheirismo acho que o mereci no Inverno de 1960.
O Heinz lá ficou em Heidelberg, pelas minhas contas deve ser agora um senhor surdo-mudo de quase 60 anos. A mãe, a Frau Schwarzbeck, morreu entretanto. Vivíamos perfeitamente «entrosados», conforme de diz no futebol. Ao almoço eu comia no restaurante universitário, ao jantar abancávamos os três diante da televisão. Despesas a meias, os Schwarzbeck e o Herr Pacheco de Portugal. Certo dia a minha mãe mandou um cachecol pelo correio para o Heinz. Havia de ver-se a extenuante alegria do surdo-mudo! Tive de ir passear com ele, que não me largava enquanto o não exibisse na Hauptstrasse de lã ao pescoço.
Uma noite agarrei nuns brasileiros e prantei-os em casa dos Schwarzbeck. Um paulista tocava sambas em caixas de fósforos, o de Gôânia assobiava. Eu limitava-me a bater com o pé, e já era forte invenção do coimbrinha. Tanto bastou para a mãe alemã e o filho surdo-mudo alemão se renderem aos nossos talentos. Mas como diabo o Heinz tereia gostado? Se calhar gostou pela cena: a casa invadida, os copos sujos, a deambulação eléctrica dos meus amigos brasileiros da copa para a cozinha, da cozinha para a marquise, da marquise para a casa de banho e vice-versa. Garanto que o Heinz estava atordoado – e feliz. Disse-mo depois, por gestos.
Mas é pensando nesta gente toda, uma destas manhãs em que o bico do poema começa a morder, eu sozinho diante da folha branca, imagem clássica da criação literária, que escrevo umas linhas em louvor da língua portuguesa.
Não maço o ouvinte com mais nada. Aceite-me como sou:

A língua que mamei
é esta doce portuguesa
que me dizem fechada na boca mastigada
pela cárie dos pobres
e vai-se a ver cantante no meu beiço
como flauta de cana

vós chamareis-me o bronco da Europa
porém o jeito leve
na garganta o trilo modulado
quem há por essas raias eu pergunto
que melhor o conheça?

eu sou nesta canção igual que um pássaro
nem a crítica aceito
do latim vulgar estropeado
por um fundo ibérico malsão

cá vou dizendo tudo sobretudo
a alegria estes espantos

com o que tenho à mão, o coração  

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Musa Irregular

Fernando Assis Pacheco
Capa: Rui André Delídia
Colecção Ideias e Atitudes nº  18
Hiena Editora, Lisboa, Fevereiro de 1991

Ó Anna Lüsa Uski minha dama de antanho
o que é feito da tua bizarria
continuas bela como na fotografia?
eu quando penso em ti ainda tenho

dentro do pobre coração torcaz
aquele bicho a roer devagarinho
tu eras só pen pal mas tanto faz
mais sede não se tem de um pucarinho

não te perdoo que ficasses por lá
em Likkolampi casando com um qualquer
como pudeste ó Anna ser tão má?
yours sincerely já te chamava mulher

mais tarde eu fiz catorze anos
o amor era no meu peito como um lenho
quereis saber críticos vós fulanos?

inda me arrepia esta dama de antanho

segunda-feira, 21 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS



Respiração Assistida

Fernando Assis Pacheco
Organização: Abel Barros Baptista
Posfácio: Manuel Gusmão
Capa: Bárbara Assis Pacheco
Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003

O que vai ser avô saúda-vos
parentes meus
mudos sob a terra guardados
em roupas que sobraram nas gavetas
papeleiras inúteis
pratas deformadas

velhas fotos severas
numa delas meu pai menino
de pé no seu bibe escolar
e a cara tão séria
que jamais perdeu
mesmo quando sorria

minha mãe moça magra
o que se dizia bem posta
vinda nesse ano
de Melias em Ourense
aturdida com a festa
que as minhas filhas
foram conhecer comigo
e como ela bonitinhas

mas depois chega a morte
adeus Cazurro barqueiro
adeus sr. Santiago A. A. Mendes
-nome comercial- adeus tios Eládios
logo dois um deles meu tio-avô

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Bronco Angel, o Cow-Boy Analfabeto

Fernando Assis Pacheco
Edição e Prefácio de Carloa Vaz Marques
Ilustrações: João Fazenda
Capa: V. Tavares
Tinta-da-China, Lisboa, Novembro de 2015

«Eu nasci de catorze meses, que é assim um bocadinho prematuro ao contrário, e foi por causa que a minha mãe não queria alcançar mas depois distraiu-se e o meu pai disse:
«Olha, se for rapariga chama-se Custódia», mas nasci eu.
Quando eu nasci, a parteira olhou muito para mim e exclamou:
 «Este moço é mais feio do que uma embalagem de fósforos de cozinha!»
Isto são coisas que eu ouvi contar e não ligo, porque realmente se fosse a ligar emigrava mas era para o Alasca e nunca mais punha os pés em Crow Junction, ora essa. A parteira nem levou dinheiro pelo serviço, ficou cheia de pena. Diz-se que disse à madrinha:
«Mais valia ter nascido de sete meses, para vocês se irem habituando. Agora de catorze…»
O certo é que em pequenino não fui feliz nem infeliz, antes pelo contrário. Como todos os putos, roubava marmelada das tigelas e apanhava porradões na cabeça. Deve aliás ter sido disso que saí para o chocho. Ah, mas eu pelava‑me por marmelada! Mais tarde, quando subi a xerife, assinei logo um mandado de busca à confeitaria de Crow Junction para poder trazer de lá toda a marmelada da montra. Bem, e o dono da confeitaria por acaso tinha ideias contrárias à Constituição Federal. Esperto, hein?
Houve uma altura que eu não conseguia adormecer sem devorara meio quilo de marmelada. Comia no escuro. Com as mãos, e deixava a almofada toda besuntada. De manhã a minha mãe tinha um trabalhão para me despegar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Variações Em Sousa

Fernando Assis Pacheco
Capa: Augusto T. Dias
Hiena Editora, Lisboa, Maio de 1987

F.A.P. FECIT

Este livro é teu que me aturaste
desvairos saüdades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada

o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desamparaste

Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia

E não sublinhem o que não escrevi

A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Paixões e Trabalhos de Benito Prada

Fernando Assis Pacheco
Capa: Ana Assis Pacheco
Edições Asa, Porto, Outubro de 1993

Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.
O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.
«Caramba», disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, «é à segoviana!»
«Mas não lhe pões o dente», cortou o outro.
Entretanto o mais novo, regressado já do Pereiro, aonde fora avisar o Padre Mestre, manifestou desejos de capar Manolo Cabra. O do meio olhou muito sério para o Padeiro Velho. Este cuspiu enojado e decretou:
«É tudo para os cães. E agora tragam-me lá a roupa do fiel defunto, que já não tem préstimo senão no inferno.»
Se perguntassem ao Padeiro Velho o que mais queria naquele momento, teria respondido:
«Assar-lhe até a memória.»

quinta-feira, 30 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Catabalanza Quilolo e Volta

Fernando Assis Pacheco
Capa: A.J. Cortez Pinto
Centelha Editora, Coimbra, Maio de 1976


NÃO DORMIAS, NÃO DORMES

(1)
    Olha, Nambuangongo! As bombas explodem na mesa de cabeceira.

(2)
    Mais de um vi eu que se lhe prendiam as fezes e saía cá para fora falando alto contra o regime (leia-se alimentar)

(3)
   Num sábado fui para um morro à espera da coluna, se soubesses o que a gente imagina, imagina tudo, imagina que uma cabra duma bala ou um estilhaço ou uma bailarina e depois a gente tristemente põe-se a fumar, mija de manso no camuflado, grita coisas que são versos para 1980, ah.

(4)
   Eu mostrar-te-ia o Quengue, o Camecungo aprendi depressa uma guerra e digo: algum dia hás-de ouvir-me, digo que mão dormias, não dormes, quem dorme é o Luiz Pacheco mas a esse desculpo e empresto vintes.

(5)
   Olha, a picada do Huong. Julgas que tirei, se tiram fotografias? Aquilo a gente, vai, volta, e sossegadinhos. Tem capim desta altura!

(6)
   As bombas – e tu se calhar crês que não – explodiam na mesa de cabeceira. Literalmente. Explodiam às três e às quatro. Morri uma sexta-feira, uma quinta, no dia seguinte davam-se massas ao faxina para recolher tudo para o balde – ossos, tripas tudo.

(7)
   Por favor olha: onde estive, onde o capim passava do ombro, a morte passava e a melancolia.

OLHAR AS CAPAS


Câu Kiên: Um Resumo

Fernando Assis Pacheco

Capa: A.J. Cortez Pinto
Edição do Autor, Lisboa, Maio de 1972

NÃO DORMIAS, NÃO DORMES

(1)
    Olha, Câu Kien! As bombas explodem na mesa de cabeceira.

(2)
    Mais de um vi eu que se lhe prendiam as fezes e saía cá para fora falando alto contra o regime (leia-se alimentar)

(3)
   Num sábado fui para um morro à espera da coluna, se soubesses o que a gente imagina, imagina tudo, imagina que uma cabra duma bala ou um estilhaço ou uma bailarina e depois a gente tristemente põe-se a fumar, mija de manso no camuflado, grita coisas que são versos para 1980, ah.

(4)
   Eu mostrar-te-ia Bac Ai, Than Van Phuc, Song My, aprendi depressa uma guerra e digo: algum dia hás-de ouvir-me, digo que mão dormias, não dormes, quem dorme é o Luiz Pacheco mas a esse desculpo e empresto vintes.

(5)
   Olha, a picada do Hinda. Julgas que tirei, se tiram fotografias? Aquilo a gente, vai, volta, e sossegadinhos. Tem capim desta altura!

(6)
   As bombas – e tu se calhar crês que não – explodiam na mesa de cabeceira. Literalmente. Explodiam às três e às quatro. Morri uma sexta-feira, uma quinta, no dia seguinte davam-se massas ao faxina para recolher tudo para o balde – ossos, tripas tudo.

(7)
   Por favor olha: onde estive, onde o capim passava do ombro, a morte passava e a melancolia.

sábado, 19 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS

Walt

Fernando Assis Pacheco
Capa: Manuel Dias
Livraria Bertrand, Lisboa, Outubro de 1978

Esta besta barco chama-se Apocalypse, é branca e tem duas chaminés providas de sendas riscas azul-ferrete. Vejo claramente visto que já não é nova, a besta, mas para irmos aonde vamos qualquer traineira servia, qualquer caca inventada à pressão pelos altos poderes sereníssimos, desde que flutuasse.
Atrás de mim, e de que partem vozes, o pelotão alinhado. Soma trinta e cinco gatilhos, um dos quais o único até agora íntimo, preto rural da Carolina do Sul que quis ser meu impedido e na hora de deixarmos Baltimore e o abarracamento: chorava, chorava com os focinhos metidos na boina.