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quinta-feira, 11 de julho de 2019

QUOTIDIANOS


As cerejas estão a acabar.
Parece que o Verão chegou a Portugal.
A corrupção alastra nas autarquias.
Não há meio de sabermos o que se passou realmente no roubo de armamento em Tancos.
Vítor Constãncio recebe de reforma do Banco Central Europeu 17 mil euros e 17 mil de Portugal. O que fez na estranja não é público, o que (não) fez em Portugal vai-se sabendo aos poucos, mas perdeu a memória e Joe Berardo continua a rir-se.
Soube-se agora que a campanha de Cavaco Silva á presidência da República beneficiou de dez cheques de 25.000 euros provenientes do saco azul gerido por Ricardo salgado no BES.
Soube-se hoje que somos menos, que estamos mais envelhecidos e que a taxa de pobreza diminuiu um pouco mas continua elevada e que afecta os jovens até aos 18 anos e os adultos com mais de 65 anos.
As televisões, diariamente, ocupam horas e horas e horas e horas de futebol.
Hélia Correia, uma escritora portuguesa, venceu o com o seu livro Um Bailarino na Batalha venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Talvez alguma televisão tenha gasto 3 segundos com a notícia.
Dizem que a chuva talvez volte amanhã.
A certeza é que quando as cerejas acabarem, só as voltaremos a ver lá para o Natal, vindas do Chile, a preços astronómicos.
No dia 20 de Julho, um sábado, às 21H30 irei rever, na Cinemateca, Belarmino, esse belo filme de Fernando Lopes.
No meio disto tudo, lembrar que Mário de Carvalho começa assim o seu livro Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina:

«Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, “ensembles”, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.»

terça-feira, 30 de abril de 2019

RELACIONADOS


Capa do programa do filme Uma Abelha na Chuva, um trabalho cuidado: oito páginas ilustradas, um artigo de António Pedro Vasconcelos a contar das dificuldades do novo cinema português, uma selecção de declarações de Fernando Lopes sobre as filmagens, a montagem do filme., um artigo de Eduardo Prado Coelho fazendo a ligação entre o livro e o filme, uma breve biografia de Carlos de Oliveira e o poema Cinema extraído de Sobre oLado Esquerdo.

«A abelha abriu as asas, atirou-se ao voo e foi apanhada pela chuva. Sofreu de tudo. Os fios do aguaceiro a enredá-la; golpes de vento a amocharem-lhe o voo; sacolejões, vergastadas, impulsos. Deu com as asas em terra. A chuva espezinhou-a, arrastou-se no saibro, debateu-se ainda. Mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.»

João César Monteiro não tinha qualquer dúvida quando afirmou: «devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»


Contra capa  do programa de Uma Abelha na Chuva com a reprodução do poema Cinema de Carlos de Oliveira:


CINEMA

I

O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.

II

A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.

III

Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua arquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.

OLHARES


Não há vez alguma que passe pela porta do Gambrinus que não me lembre do Fernando Lopes.

Porque o balcão do Gambrinus era o lugar preferido do Fernando Lopes, tinha outros mas o Gambrinus é que era.

 Ao ponto de, numa entrevista deixou dito, cito de memória,  que um do seus grandes sonhos era ter ali uma placa bem visível com o seu nome, assim ao jeito das cadeiras de lona dos realizadores..

Maravilhado, ainda estou sentado da sala Estúdio do Cinema Império a assistir ao filme que Fernando Lopes realizou, adaptando Uma Abelha na Chuva de Carlos de Oliveira.

Jamais esquecerei.

Luís de Pina escreveu que Uma Abelha na Chuva de Fernando Lopes «é talvez o momento estético mais importante do cinema novo português.»

No dia da morte de Fernando Lopes, « um visionário que não teve mais eco» Jorge Silva Melo, velho companheiro do cineasta, escreveu:

«O cinema do Fernando Lopes tinha a liberdade e a delicadeza das composições de jazz. Tinha uma forte presença musical. E era o cinema da amizade porque é indissociável dos seus amigos. O Belarmino [começou assim, nas] noites de conversa e amizade no café na Avenida da Liberdade, que foi gravando na pedra. O Baptista-Bastos, o Alexandre O’Neill, o Alberto Seixas Santos a irem depois comer as comidas da mãe do Fernando na Avenida de Roma. Ele prezava os amigos, dava-se bem com toda a gente e era impossível resistir ao Fernando. Os seus filmes são sobre isso e são também a solidão em que foi avançando ao longo da vida. Não era ra ele a compadecer-se com as suas dores, era ele a encontrar um amigo. Era um entusiasta e espalhava imensa ternura por todos. Mas ele ficava genuinamente feliz com as conquistas dos outros. Não se desanimava com seus filmes não terem êxito. Queixava-se muito que os meios de produção actuais estavam esclerosados, e dizia que era precisa uma nova nouvelle vague, com meios mais ligeiros para fazer cinema. O Fernando gostava de meter as mãos na massa que eram os filmes dos outros. Há uma famosa história em que depois da estreia de Verdes Anos, de Paulo Rocha, foram para o laboratório cortar 3 minutos no positivo, porque o Fernando achava que ainda havia coisas para acertar. Tinha 14 ou 15 anos quando vi o “Belarmino” e conheci o Fernando à mesa do Monte Carlo, um café que existia no Saldanha.»

segunda-feira, 15 de abril de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O meu primeiro contacto com João César Monteiro remete-me para a década de 70, quando começou a fazer crítica de cinema para o Diário de Lisboa, tendo como companheiros o Eduardo Prado Coelho, o Lauro António e o Vitor Silva Tavares.


«Eu sempre disse por exemplo que o cinema sou eu. E isto é uma afirmação que não tem nada de monárquico ou de centrista. Tudo o que eu faço é singular, insubstituível.»

E ainda:

«Eu sou um realizador que não sabe efectivamente, «a ponta de um corno». Sei que isto é horrível, mas é assim. Devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»

Fiquei com um gosto assolapado pelo João.

Mais ainda quando colaborou na folha cultural q. b. &.etc. principalmente, quando lá  escarrapachou A Minha Certidão:

Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Eu e o meu pai, volta e meia, íamos para a petisqueira e para a conversa e depois havia «piolho»

Tudo corria melhor, a cereja no topo do bolo, quando calhava um filme do João César Monteiro.

Infelizmente só vimos quatro filmes, a sua morte em 1990, roubou-me esse insubstituível prazer.

Para além do génio, para além da arte, para além de tudo, os filmes do João César Monteiro davam-nos um imenso gozo.

Foram estes os filmes:

Silvestre no Cine-Bloco
À Flor do Mar no Ávila
Recordações da Casa Amarela no Fórum Picoas e éramos os únicos espectadores.

João César:

«A mim interessa-me fazer filmes para todos os públicos. Noventa por cento da população do país não é um espectador de cinema e provavelmente será esse o público mais inocente e disponível, porque menos condicionado por certos códigos imperialistas. É um dever cívico fazer cinema para essa gente, embora sem grandes esperanças de que a curto prazo possam ser espectadores de cinema.»

Vitor Silva Tavares:

«Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.»


Pego no guião de Recordações da Casa Amarela, publicado no 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro e entretenho-me a copiar a Cena 06 do filme.

João César escreve que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.


«Ferdinando sentado à mesa, serve-se de uma cabeça de garoupa com todos. Olha para fora de campo e diz:

Ferdinando: Caríssimo João de Deus: isso é reumático ou venéreo?

João de Deus entra em campo, com o sobretudo vestido, aperta a mão a Ferdinando, enquanto sussurra, debruçado sobre Ferdinando:

João de Deus: É coisa que me apareceu nas virilhas.

João de Deus senta-se em frente de Ferdinando.

Ferdinando (a rir): Nas brilhas, como se diz no Porto. Manda vir qualquer coisa que se trinque.

João de Deus: Não me apetece, Ferdinando. Tenho a boca a arder e custa-me mastigar.

Ferdinando: Estamos todos podres, é o que isso quer dizer. E a tua mãe?

Enquanto Ferdinando se vai  batendo com a cabeça de garoupa, João de Deus puxa de um cigarro, acende-o e, com o cotovelo apoiado no tampo da mesa, encosta a cabeça ao punho fechado.

João de Deus: Lá anda.

Ferdinando: Madre de Deus só há uma. Nunca o esqueças, meu filho.

João de Deus: Não consegui foi escrever nada. Sou amigo do tipo. Pelo menos, fui amigo da mulher e custa-me um bocado. Conheço-os há uma data de anos, ainda do tempo da outra senhora.

A câmara desloca-se ligeiramente para a esquerda, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que suspende o garfo, junto à boca.

Ferdinando: Estás a perder qualidades, Se me é permitido um reparo – não leves a mal - , por vezes consegues ser contundente, mas nunca fulminante. Andas às voltas, não vais direito ao assunto. Bebe nos clássicos, meu filho. Fulmina. Recordas-te da polémica de Camilo com Mesquita Fialho?

A câmara desloca-se ligeiramente para a direita, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que muito devastou a pratada e emborca um copo de branco.

João de Deus: O problema é que este não se chama Filho.

Ferdinando pousa o copo na mesa e diz com toda a gravidade que se impõe:

Ferdinando: Mas também deputa… filho.

João de Deus: Estou farto de escrever imundícies.

Ferdinando está boquiaberto.

Ferdinando: Mas tu nunca arriscaste a ponta de um corno, nem sequer o nome.
As chatices com a «judite», os processos em tribunal, as pesadas indemnizações, tudo te tem sido poupado. Nunca me vi confrontado com um caso de tamanha ingratidão: metes-me nojo.

O criado entra pela esquerda e levanta o prato de Ferdinando.

Ferdinando: Só café e uma bagaceira fresquinha. Da casa.

O criado sai por onde entrara. Percebe-se que Ferdinando acende uma cigarrilha. O criado entre em campo com o café e o bagaço, pousa-os na mesa e volta a sair.

Ferdinando: Vá-me tirando a continha, la dolorosa.»

Uma cena maravilhosa.

Por alturas da exibição do Silvestre em Lisboa, Mário Castrim abria, no Diário de Lisboa uma sua crítica de televisão, dizendo que tinha ido ver o filme pela segunda vez como quem se vai purificar nas águas do Jordão.

Sobre Silvestre, o João César disse que era um filme para as pessoas que ainda conseguem sentir-se crianças.

Agarrando na frase, José Saramago escreveu que «é um filme que não infantiliza os adultos que nós somos, mas adultiza as crianças que continuamos a ser.»

Fernando Lopes:

«Ao César perdoa-se tudo porque ele tem um talento que se ri de si próprio. Em suma. É um grande demente que faz coisas muito belas.»

Ainda o João:

«Ninguém morre por não fazer filmes e se morrer é idiota. Não avle a pena. Morre-se, sim, por fazer filmes, por na idade em que se fazem as opções mais importantes (que não são necessariamente as mais graves) se ter optado pelo ofício de cineasta, Agora estou sozinho diante das estrelas.»

Tenho saudades do João César Monteiro, do meu pai.

A falta que me fazem!

sábado, 22 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Relâmpago

Nº 11
Número dedicado a Carlos de Oliveira
Colaborações:
José Ricardo Nunes, Manuel Gusmão, Pedro Eiras, Rosa Maria Martelo, Armando Silva carvalho, Augusto Abelaira, Eduarda Dionísio, Eduardo Prado Coelho, Fernando Lopes, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, José Manuel Mendes, Margarida Gil, Nuno Júdice, Urbano Tavares Rodrigues
Capa: Nuno Marques Mendes
Assírio Alvim, Lisboa, Outubro de 2002

De súbito, o Carlos de Oliveira pediu-me:
- Você por acaso tem aí um lápis?
Aquele “por acaso” impressionou-me, era indicativo de que, para ele, só por acidente um escritor usaria lápis (então eu ainda não publicara nenhum livro). E fui perguntando:
- Você esqueceu-se?
Para meu espanto, revelou-me que nunca, por nunca ser, trazia um lápis (ou caneta) na algibeira. O seu lápis era a memória, construía as poesias “na cabeça”. Alinhava e desalinhava as palavras na memória durante o dia, durante as horas do dia, e quando chegava a casa, era somente escrevê-las. Somente? Escrevê-las, reescrevê-las, quem conhece o Carlos sabe como é.
Então, com o lápis, para depois a Ângela as passar à máquina. Quantas vezes?

(Do texto de Augusto Abelaira)

terça-feira, 23 de maio de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Uma das muitas vezes que vi Belarmino, filme-reportagem de Fernando Lopes. foi na noite de 10 de Outubro de 1972, na televisão a preto e branco da ditadura.

O filme fechava um breve ciclo dedicado ao cinema português.

Guardo o recorte do Diário Popular desse dia e onde Baptista-Bastos deixou uma breve evocação:

Era uma vez um filme à procura de espectadores. Foi há tantos anos que muitos dos que nele participaram só de vago se recordam: os dias vararam os meses, outra década surgiu, e o que figurava como imprecação e cólera – é, apenas, a ingénua aspereza de um protesto. O tempo sugere estas direcções inesperadas: o índice moral altera-se e as porções de coisas que entendêramos como verdades inarredáveis irão, sempre, obedecer a outros estatutos, «Belarmino» (é necessário dizê-lo) nasceu de projectos asseados e da urgência que tínhamos em cometer alguns desacatos. Gente considerável viu no seu comovido inconformismo um panfleto contra a fome e o desespero de um homem – quando era, tão-sòmente, a forma humilde de manifestarmos a incomodidade de termos trinta anos e de viver em Portugal perfilados na mesma coragem de ser campeões sem murro, poetas sem rima, cronistas sem coluna, bebedores sem bebida. Amantes sem amor. O filme procurava os espectadores que jamais teve: estreado num cinema de bairro, apoiado pela grita e pelo entusiasmo dos cineclubes – essa noite foi um alvoroço e uam discreta esperança. A peregrinação das conversas, entre o Vává, o Ribadouro e o Monte Carlo, num esquerdismo festivo que desejava áulicos e trompetistas da nossa efémera glória, cumpriu-se durante alguns meses. Mas «Belarmino», no Aviz era a desolação e o riso; um filme à procura daquela gente para quem Belarmino-o-homem afinal se dirigira sempre: «às vezes as palmas apeteciam-me mais do que as bolas de Berlim com que enganava a fome.» O recado que queríamos dar foi apressado, certamente; foi tosco, desajeitado e parvo, talvez. Mas esta noite, quando a Televisão fizer correr o filme para dois milhões de espectadores, há uma que estará a dobrar o cansaço para aquém do tempo, a sonhar as mesmas cóleras e as mesmas imprecações. E, talvez, a pensar que os miúdos desta cidade se recusam, hoje, a ser campeões. Campeões de quê? Campeões de quê?
Responde lá, ó Belarmino…



O Helder Pinho foi o responsável por vender a ideia ao Mário Castrim para que o Belarmino fizesse parte de um dos Encontros do Diário de Lisboa-Juvenil:

O retrato de um antigo lutador de boxe, Belarmino Fragoso, através das suas deambulações por uma Lisboa que já não existe. A solidão, o medo e a derrota cruzam-se num filme que baralha o documentário, a ficção e a entrevista num passeio por antigas salas de cinema e clubes nocturnos.

Para um catálogo da Cinemateca dedicado a Fernando Lopes, escreveu Manuel Monzos:

O Fernando fez um dos filmes que mais estimo e admiro. É o Belarmino. Apesar de não o achar perfeito, tenho por ele um enorme carinho, não somente pelo filme em si, mas, e talvez principalmente, por aquilo que pude sentir e aprender do que pode ser também o cinema.
A primeira vez que o vi foi há muitos anos, ainda era um miúdo e desde então recordo-o pela estranha sensação de surpresa e espanto com que fui confrontado com algo tão directo, tão próximo e tão real.
Foi um dos meus tios que nos fez vê-lo, a mim e aos meus primos, porque para além do que ele gostava do filme, trabalhavam nele dois dos seus amigos, o Manuel Jorge Veloso e o Augusto Cabrita.
Isso para mim já era divertido, pois através do meu tio eu também os conhecia.
Mas o que realmente me impressionou foi o próprio filme. Tudo o que nele se encontrava me era próximo. Era Lisboa, a Baixa e mesmo o meu bairro, a Mouraria. As ruas por onde andava, as pessoas com quem me cruzava.
Era o estádio do meu clube e o clube do bairro, a Barros Queirós, o Arcádia, o largo de São Domingos, onde muitas vezes encontrei Belarmino Fragoso, um tipo a quem eu até cumprimentava quando nos cruzávamos.


Pela primeira vez via um filme que me dava a sensação de poder estar lá, era um mundo palpável de coisas reais e que eu conhecia. E isso era fantástico. Essa possibilidade que descobria com aquele filme, daquilo que o cinema permitiria.
Nessa época ainda não pensava vir a dedicar-me ao cinema, mas dos fi lmes que via nos cinemas de bairro, como o Royal, o Rex, o Liz, o Cine-Oriente, ou nas grandes salas como o Império, o Monumental, o Tivoli, o Alvalade, o
Avis, os cinemas da rua dos Condes, nas escolas, salões paroquiais ou no Centro Espanhol, nesses primeiros filmes que via apenas com a emoção inocente de quem «vê» uma história, entre eles recordo bem o Belarmino por isso.
Essa capacidade de usar e reproduzir o real. E também o modo como era feito, mesmo sem perceber nada disso nessa altura, aquilo usava a montagem de um modo novo e surpreendente para mim e não tinha nada a ver com
o que eu vira até então. Aquilo foi forte e marcou-me. Mesmo hoje é um filme que revejo com enorme carinho e considero dos melhores filmes Portugueses.

Belarmino é um dos Amigos Pensados que o Alexandre O’ Neill deixou estampado na Feira Cabisbaixa:

TIVESTE  jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeões com jeito,
é a nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
– e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Belarmino:
Quando ao tapete nos levar
a mofina;
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.

Uma das perguntas do Baptista-Bastos no filme do Fernando Lopes:

- Belarmino, tu és um homem ou um animal?


- Um pugilista é sempre um homem.


Belarmino Fragoso morreu a 19 de Abril de 1982.

Baptista-Bastos escreveu a notícia, o requiem por aquele bailarino em pleno ringue, um movimento perpétuo, um vigor que não se estilhaçava, um vulcão de poder e de força.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

À CONVERSA


JL - O Alberto Seixas Santos tem um belo texto sobre ti no catálogo da Cinemateca, no qual afirma: «O mundo de Fernando Lopes não é alegre».

FL – Nem podia ser. Se pensares no que foi a minha vida… Fui salvo in e xtremis aos 4 anos de idade…

JL – Porque a tua mãe se piorou do teu pai e trouxe-te com ela.

FL – Foi. E eu sempre tenho tentado sobreviver a desgraças. A minha força, se calhar, é essa. Não vou ter nunca condições para poder fazer musicais, que era o sonho da minha vida. E era porque quando vim para Lisboa, aos 14 anos, trabalhar como paquete da empresa Durand Garcia & Companhia, aqui neste edifício onde estamos, o do Restaurante Comodoro, no Largo D. João da Câmara, era pelo sonho que eu me salvava. Indo ao São Luiz ver filmes musicais da MGM. Daí que haja cineastas que eu adore, como o  Vincente Minelli (1906-86). Parece esquisito, num tipo como eu que nunca faz nada disso, mas nessa altura o sonho compensava-me do mundo nada alegre em que vivia, à boleia nos eléctricos, a fugir à polícia, inso às sessões duplas do cinema. O Seixas tem razão: o meu mundo não é alegre. Mas ter sobrevivido a isto tudo é um bom sinal de vida. Ou seja: se tu combates, se tu te bates até ao fim, talvez consigas modificar alguma coisa. Às vezes não consegues, outras consegues, mas nunca te podes deixar ir abaixo.

Fernando Lopes entrevistado por Rodrigues da Silva, Jl 3 de Abril de 2002

domingo, 7 de agosto de 2016

TODA A MEMÓRIA



Texto de Fernando Lopes, sobre o filme Hiroshima, Meu Amor de Alain Resnais, publicado no nº 1 do Cinéfilo, 4 de Outubro de 1973.

terça-feira, 3 de março de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Um livro organizado, por Manuel Costa Silva, para Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura.

Das palavras introdutórias

Graças às histórias e aos mitos do cinema, os filmes deram-nos a conhecer inúmeras cidades, a sua geografia, a sua arquitectura, o seu retrato imaginário o o seu verdadeiro rosto.

O binómio cidade/Cinema tem muitas leituras. Essa relação consegue transformar a cidade em protagonista, quer dizer incorporando a ventura humana, as personagens e os seus estados de alma.

A cidade pode ser cenário activo ou pode existir como um elemento passivo que favorece no mistério de uma história.

Lisboa a 24 Imagens é uma recolha de textos inéditos que pretende dar a ver a inscrição desta cidade nas histórias que os filmes contaram.


Textos de gente vária como João Bénard da Costa, Mário Castrim, Álvaro Guerra, Antonio Tabucchi, David Mourão-Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Zambujal, Urbano tavares Rodrigues, Fernando Lopes, Jorge Silva Melo, José Fonseca e Costa, Lauro António, Monique Rutler, Joaquim leitão, Paulo Rocha, outros mais.

Pelo livro encontramos memórias dispersas, cartazes, revistas e folhetos que fizeram a história da cidade no cinema.

Cento e quatorze filmes nacionais e estrangeiros tiveram Lisboa como cenário ou apenas como nome mencionado, ou fonte de inspiração.


O último, e doloroso, capítulo do livro fala-nos dos cinemas desaparecidos, mortos e moribundos.

Estão lá o Eden, o Salão Lisboa, o Paris, o Jardim Cinema, o Royal, o Politeama, o Cinearte, o Tivoli, o Odeon, o Capitólio, o Berna, o Olympia, o Cine Pátria.

De 1994 até aos dias hoje quantos mais cinemas, tragicamente abatidos, outros a exercerem outras funções, outros, inexplicavelmente, abandonados, degradando-se em cada dia que passa?

O nosso adeus aos Cinemas Paraíso de tantas infâncias e adolescências.


Joaquim Leitão, no capítulo das Visões da Cidade, conta esta Pequena História Inspirada em Factos Verídicos:

Lembro-me, como se fosse hoje, da última vez em que me senti completamente feliz.

Foi em Lisboa. Num domingo ao fim da manhã, em maio. Ia a descer a Rua Morais Soares, pelo passeio onde dava o sol.

Lembro-me perfeitamente. Não aconteceu nada de especial. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

OLHARES


No regresso a Lisboa António da Cunha Telles, em 1961, encontra as portas do cinema português fechadas; nem um estágio consegue. A recusa dos velhos cineastas em integrarem os mais novos, leva-os a cerrarem fileiras. Cria-se uma pequena comunidade à volta do café Vavá na Avenida de Roma. É lá que decorre, por exemplo, a última cena de Os Verdes Anos e foi também numa toalha de papel de café que Cunha Telles e Fernando Lopes assinaram o contrato de Belarmino.

João Ladeira no Ipsilon, suplemento do Público, 8 de Agosto de 2014.

Nota do editor: a morada exacta do Vá-Vá é Avenida dos Estados Unidos da América.

terça-feira, 4 de março de 2014

ALAIN RESNAIS (1922-2014)


O primeiro olhar que tenho sobre Alain Renais é no primeiro número do Cinéfilo,  num dossier sobre filme o  Hiroxima  Meu Amor 

O filme só o veria depois do 25 de Abril

O tempo de ver os filmes de Alain Renais era um tempo que não se pode definir. Pelo menos não sei definir. Se há cineasta que me causa as mais diversas sensações, as mais diversas incompreensões, o pensar que o que estou a ver é assim e ser absolutamente o contrário, tem Resnais como mola impulsionadora. Maneira única de gostar de um cineasta e tenho poucos como ele.

Fumar ou não Fumar depois vaguear, tal como há mar e mar.

Hiroxima  Meu Amor tem por detrás um magnífico argumento, chamo-lhe livro, mas Resnais consegue dar a todo aquele trama uma envolvência com tanto de poético como de trágico.

Sabemos do horror de todas as Hiroximas da História, mas é necessário alguém com um dom especial que possa transmitir, naquele extraordinário preto e branco, todo esse horror e o que para além desse horror ainda possa estar.

Saber que nunca tinha dirigido actores e ter em mãos Emmanuelle Riva já a dizer ao que vinha, cumplicidades várias, a mão de Resnais, essa extraordinária actriz que tão recentemente vimos nesse admirável  Amour de Michael  Haneke.

Emmanuelle Riva, na entrevista ao Cinéfilo:


Hiroshima Mon Amour foi evidentemente uma experiência muito importante! Resnais ainda não tinha dirigido actores - era a sua primeira longa metragem - e ele mesmo dizia que não sabia dirigi-los. Mas havia uma grande precisão no argumento, resultado do trabalho conjunto Duras-Resnais. Toda a história do filme estava escrita com muito pormenor, muito detalhadamente, o que nos ajudou muito. Também foi um incentivo a relação de amizade que já existia entre os dois. Havia uma compreensão tácita, em meias palavras, apenas com um olhar...

Essa mão, esses dons, partiram na noite de sábado, aos 92 anos e nunca aquela frase batida de que Alain Resnais nos deixou quando ainda tinha alguns filmes na manga para nos dar,  tem tanta aplicação no momento em que se sabe da sua morte.

Um extraordinário Providence, - como é que se sai, ou se entra num castelo daqueles? - que vi numa matinée no Quarteto em que, duas filas à frente, estava o José Afonso, e o que eu gostei deste filme e dele nem uma palavra consigo alinhar, também essa deliciosa brincadeira que É Sempre a Mesma Canção, ternuras várias ao som das canções francesas que marcaram tempos, histórias envolvidas em canções de histórias tão simples ou mesmo sem história.

Ah!... e esse Último Ano em Marienbad para voltar a ser uma viagem de regresso e de que tornarei com pouco ou nada compreender, nem querer compreender, talvez porque o tempo não significa nada, como a certo ponto diz o homem, a que se tem de  juntar uma banda sonora inacreditável e envolvente, talvez o tempo das escuridão, talvez das trevas… regressar a Marienbad...

É assim a história do cinema. Também a nossa história.

Todos somos dotados de memória e todos fazemos as mais diversas tentativas para esquecer essas memórias…

Acabamos por ficar sós.

Será mesmo o fim da noite?

Resnais já não nos poderá ajudar mais.

Legenda: Reprodução da abertura que o realizador Fernando Lopes escreveu para um dossier sobre Hiroxima  Meu Amor, publicado no nº 1 do Cinéfilo de 4 de Outubro de 1973.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

RIBADOURO


Para mim, a Ribadouro, esquina do fundo da Rua do Salitre com a Avª da Liberdade, está sempre agarrada ao Belarmino, filme do Fernando Lopes, ali pensado, escrito, encenado, discutido.

Também conhecida pela Universidade do Tremoço.

O José Cardoso Pires em A Balada da Praia dos Cães:

O chá na cervejaria Ribadouro: Isto não é uma cervejaria, é uma baía de cascas de tremoços com canecas à deriva. Chulos do Parque Mayer a atacarem o fastio na perna da boa santola, chauffeurs de praça a combinarem a sua bandeirada de jogo num casino clandestino para os lados de Arroios ou para Campolide que são bancas de entendidos por onde a polícia faz que não vê. Um galador de coristas a puxar fumaças à distância. A dono Lurdes abortadeira. Mestres-de-obras a arrrotar! Oh, senhores.

Quantos finos, quantos bifes com ovo a cavalo, quantas conversas pela noite dentro, a esperança vã de mandar Salazar borda fora.

O que ainda tivemos de esperar!...

Hoje, a Ribadouro está mais voltada para os turistas, para uma classe específica,  gente que encheu os bolsos de dinheiro para, nos tempos que correm, nos acusarem de que andámos a viver acima das nossas possibilidades.

Já não anda por lá a malta do Parque Mayer, gente do jazz, das escritas, dos jornais e onde pontificava o clã da Ribadouro.

Assim de memória, alguma da rapaziada desse clã: Fernando Lopes, Canto e Castro, Manuel de Azevedo, Baptista-Bastos, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires, Alexandre Vieira, Carlos de Oliveira, rapazes, outros já entradotes, que, no fundo, só queriam assaltar a felicidade, felicidade que, como dizia o Saint-Just, era possível.

Esperanças, sonhos, amores, desamores, frustrações, andaram por aquelas  mesas, juntamente com cervejas, tremoços, cafés, o que calhava.

Não consigo passar junto à Ribadouro, sem que os passos se encaminhem para o balcão, beber um copo de cerveja clara, Sagres, naturalmente, olhar as mesas, agora atoalhadas para turistas e gente fina, e sentir o rumor das conversas, não deixando de seguir os ditames do José Gomes Ferreira:

Saudades de não poder inventar o futuro. Às mais variadas horas, desde as sete da manhã até ao fim da tarde.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

A tragédia humana dos ídolos é o que mais resulta como filme?

Respondeu:

 No caso do Belarmino era de tudo mais a riqueza humana que ele tinha.
Se pensar no Vitor Baptista, é uma espécie de Belarmino no futebol. Eles não são a preto e branco, têm muitas "nuances". Eventualmente, ele explorou, mas foi mais explorado que explorador. E tinha tudo contra ele, o semianalfabetismo, a miséria. A favor, só a cara e um talento para o boxe fora de série. Se olharmos para o Eusébio, ele ficou aquém do que devia.
É acusado de muitas coisas, mas nós devemos-lhe muito mais do que ele nos deve a nós. Devemos-lhe quase tudo e pagámos-lhe pouco.

Fernando Lopes, entrevista de Luís Eme no Record, Março 1992

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


A Cinemateca Portuguesa exibe amanhã sábado, às 23h30, o filme Belarmino.

Muitas vezes como profissional fui para dentro do ringue com uma bola de Berlim e um copo de leite, porque não tinha para comer. E consegui ganhar os combates. Tive sempre, toda a minha, combates a sério. Fui talvez o boxeur mais sério que houve em Portugal!
Muitas e muitas vezes eu levo socos no boxe!…e nunca sinto, e às vezes levo uma pequena estalada e sinto. É conforme a ocasião e o sítio em que forem dadas.

Diálogo do filme Belarmino


Legenda: anúncio tirado do Diário de Notícias de 3 de Dezembro de 1964.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

POSTAIS SEM SELO


Em Maio de 1971 o filme está pronto e é misturado, tendo a cópia síncrona saído em Agosto. Até ao fim desse ano será visionado por vários distribuidores que o recusam por achar que “Uma Abelha na Chuva” não é um filme “normal”. Um distribuidor acusa-o mesmo de ser um filme contra o cinema. O que é verdade, também. Eu por mim penso, hoje, que “Uma Abelha na Chuva” é um ensaio que pergunta: Que é o cinema?

Fernando Lopes, de um texto sobre Uma Abelha na Chuva publicado na Vida Mundial  de 14 de Abril de 1972.

Legenda: Primeira página do Suplemento Literário do Diário de Lisboa de 7 de Abril
                de 1972, dedicado a Uma Abelha na Chuva de Fernando Lopes.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

FERNANDO LOPES (1935-2012)


Morreu hoje o realizador Fernando Lopes.

Tal como disse o Alexandre O’ Neill, um grande amigo do Fernando:

A morte é uma fuga definitiva a todas as chatices.