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sábado, 18 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

O LUGAR DA SOLIDÃO

Era assim que Fernando Lopes Graça se passeava nas ruas da Parede quando saía para fazer compras.

A fotografia é de Rui Ochoa e faz parte de um trabalho de Joaquim Vieira, publicado no Expresso de 31 de Dezembro de 1981.

Não é uma reprodução de qualidade mas não quis deixar de a publicar.

A vida é isto, os homens são assim.

Álvaro Guerra escreveu que nascer é inaugurar a solidão.

Nem todos os bi menois que Fernando Lopes Graça escreveu, por vezes, lhe permitiram ultrapassar a esquina terrível da solidão.

Escolheu-a porque, para fazer o seu trabalho, não queria intromissões.

O preço que pagou para deixar uma obra grandiosa.

José Gomes Ferreira tinha razão:

Olhem-no bem, porque nunca mais veremos um homem assim.

Numa noite Olga Prats acompanhava-o  a casa, e o Graça disse-lhe:

Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.

José Saramago:

Morreu o Fernando Lopes-Graça. Telefonaram hoje da TSF, muito cedo, para pedir-me, como depois verifiquei no gravador, o cumprimento desse dever mediático a que se dá o nome de depoimento. Deixaram números de telefone, mas não liguei. Por pudor acho eu. E agora acabo de saber, por Carmélia, que o Graça morreu sozinho. Creio que esta última solidão me doeu mais ainda que a própria morte. Não vai faltar quem diga que o Lopes Graça morrendo aos 88 anos, tinha vivido já a sua vida. Como frase de consolação, talvez sirva para quem se satisfaça com o que lhe foi dado. Por mim, penso que nunca acabamos de viver a nossa vida.

Texto Publicado em 17 de Outubro de 2015.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

EM ARANJUEZ PASSANDO POR COCHOFEL


João José Cochofel é um amável poeta.

Claro que já ninguém o lê, muito poucos saberão quem seja.

Quando havia tertúlias nos cafés de Lisboa, lá estava ele juntamente com o Carlos de Oliveira, o Augusto Abelaira, o José Gomes Ferreira, o Manuel Mendes.

Penso na casa de campo que tinha no Senhor da Serra, em Semide, onde na sala Ping-Pong nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Um ministro de Salazar disse:

«É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.»

José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…

- Há por lá alguma pensão?

- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.»

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.

Tudo isto para vos dizer que ao folhear o 46º Aniversário de João José Cochofel, pág. 127, encontrei o poema XI de Emigrante Clandestino, com estes versos sublinhados:

«O concerto de Aranjuez aquece e refresca
esta tristeza de emigrar
sem ter para onde na bagagem.»

A tal ponto que chegou a comprar um EP do Richard Anthony em que o francês canta um excerto do Concerto. Chegou a falar-me se quando encontrasse interpretações cantadas do Concerto lhe dissesse. Prazeres secretos nunca revelados.

Aqui há uns largos tempos, a Aida falou-me de que existia uma interpretação de Dulce Pontes. 

O meu já há muito que não anda por aqui, e eu não sou fã da cantora, mas o ter encontrado o poema do Cochofel fez-me lembrar que deveria ir à procura da interpretação da Dulce Pontes.

Estou certo que o meu pai gostaria e, por ele, nesta tarde asfixiante de calor, deixo-vos a Dulce Pontes com um trecho do Concerto de Aranjuez e o poema do João José Cochofel:

Aranjuez surge
com as suas águas mais vivas,
as suas sombras mais densas,
o seu sol mais estival,
que os olhos cegos de Rodrigo
trouxeram até à lonjura sem distância de ouvir
entre a pedra violenta de Toledo
 a carne lilás da caixeirinha da Gran Via
a guitarra de Yepes
O concerto de Aranjuez aquece e refresca
esta tristeza de emigrar
sem ter para onde na bagagem.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

LEVEI TEMPO A ENTENDER QUE SIM


Tudo se complicava muito porque nós (mas quais de nós?, quantos de nós?) sentíamos, como um espinho na carne, o dever de lutar pela felici­dade dos outros. Não o fazer era uma espécie de pecado. Não sabíamos viver com esse peso, essa hi­pótese sequer, na consciência. Mas lutar seria obe­decer de olhos fechados a uma orientação que (e assim me parecia mais e mais) não levaria a lado algum, à transformação dos homens certamente não? E o papel do intelectual (como o de qualquer outro militante) poderia limitar-se a subir e descer escadas com o único objectivo de subir e descer es­cadas? Não seria sua estrita obrigação (não só dele, mas sobretudo dele) esclarecer, esclarecer, esclare­cer os que só o não são, à partida, por defeituosa, criminosa organização da sociedade? Uns, como eu, pensavam (o Cochofel, o Carlos de Oliveira, o Lopes Graça, não só estes) que a militância do ar­tista deveria ser sobretudo (sobretudo, não só) no campo cultural. E que ela de modo nenhum deve­ria impedir o artista de dedicar-se ao conhecimento profundo da linguagem específica da arte e seus problemas. Que não havia arte revolucionária sem começar por ser arte. Que a desejada acção da arte junto do público, além de arte ser, exigia um míni­mo de preparação da parte deste, a incluir nas tare­fas políticas dos intelectuais. Que — princípio e fim de tudo — considerar a chamada «forma» e o chamado «conteúdo» elementos (metafisicamente) separáveis revelava, não um conceito marxista, mas um «mecanicismo pré-dialéctico», como já lhe chamara, sem que qualquer de nós o pudesse então saber, o insuspeito Mikail Bakhtine. Outros (muito mais poderosos na organização, deliberando o que pensar, desde o vértice da pirâmide a toda a base) defendiam, e com que intransigência!, precisamen­te o contrário.
 Coisas graves me pareciam que a crítica de bai­xo para cima (a inversa nunca esteve em causa), embora muito apregoada, nunca fosse possível exercê-la, que a repetição de palavras de ordem até ao atordoamento, mesmo no interior, substituísse uma cultura cientificamente indagadora, que qual­quer discordância de fundo obtivesse invariavel­mente como resposta: «terás razão, mas não é este o momento de». Quando a cultura não é nunca para amanhã, é sempre para já. O futuro o diria, o presente o está dizendo.
 Por que não se esquecem certas coisas? Ao pas­sar a simples «simpatizante» (era tudo afinal o que então queria e, a custo, consegui), um «amigo» — entre aspas a partir desse preciso instante — disse-me de olhinhos fixos e brilhantes: «Nunca mais farás nada». Mau agoiro para quem queria fa­zer tanto.
 Uma ameaça? Levei tempo a entender que sim.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio. Fotografia tirada do catálogo Passageiro Clandestino

domingo, 17 de dezembro de 2017

O CENTENÁRIO DO GRAÇA


Fernando Lopes-Graça faria hoje 100 anos.
Foi um dos maiores maestros e compositores portugueses do século XX.
A sua vida foi uma longa luta contra a ditadura, o obscurantismo.
Esteve preso nas masmorras do Aljube e em Caxias.
Era militante do Partido Comunista Português.
Como escreveu José Saramago, quando soube da sua morte: «o querido Graça, o amigo do coração, o camarada fidelíssimo e leal.»

quarta-feira, 29 de março de 2017

MARCHAS, DANÇAS E CANÇÕES


Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Na Sala Ping-Pong, nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

O Acordai nasceu durante o reino do medo, quando os frutos amargavam e o luar sabia a azedo e é uma das muitas canções a que alguns dos nossos melhores poetas emprestaram palavras e que foram musicadas por Fernando Lopes Graça.

Na contra capa do disco, explica ao que vinham essas canções:

O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto.

Um ministro de Salazar disse:

É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.

Por sua vez, José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…

- Há por lá alguma pensão?

- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.

Novamente José Gomes Ferreira:

Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias aos circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas infantis, hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos muito, pois a inspiração já ardia.

Esgotada a inspiração dos poetas circundantes, Fernando Lopes Graça implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim Namorado, Arquimedes, Ferreira Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e Edmundo Bettencourt.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

AS UTOPIAS TAMBÉM SE REALIZAM


As entrevistas que Baptista- Bastos publicou no semanário O Ponto, fizeram um tempo.
O autor entendeu, muito bem, seleccionar algumas e reuni-las em livro, publicado em Abril de 1984.
São notáveis entrevistas, provavelmente datadas, mas mesmo assim importantes para se ficar a conhecer algumas das personagens que fizeram esse tempo.
São intérpretes: Otelo, Manuel da Fonseca, António Victorino d’Almeida, João Camossa. Fernando Lopes-Graça, Artur Correia. Lucas Pires. António Arnaut, Maria João Seixas, Manuel Alegre, Guilherme de Melo, Lena d’Água, Almeida Santos Davis Mourão Ferreira, Helena Roseta, Fernando Lopes, Ary dos Santos, Alexandre O’Neill, Lídia Jorge, José Mário Branco.

Reproduzo a abertura da entrevista a Fernando Lopes Graça,  a que Baptista-Bastos chamou As Utopias Também se Realizam, feita na sua casa, um modesto segundo andar de uma vivenda, na Parede:


quarta-feira, 27 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Poesia Continua
Velas e Novas Circunstâncias

José Gomes Ferreira
Capa: Vitorino Martins
Obras Completas de José Gomes Ferreira nº 15
Moraes Editores, Lisboa, Maio de 1981

E foi para esta farsa
que se fez a revolução de Abril, capitães,
ao som das canções de Lopes-Graça? 

Foi para voltar à fúria dos cães,
ao suor triste das ceifeiras nas searas,
as espingardas que matam os filhos as mães
num arder de lágrimas na cara?

E, no entanto,
no princípio, todos ouvíamos uma Voz
a dizer-nos que a nossa terra poderia tornar-se num pomar
de misteriosos pomos. 

E nós,
todos nós, chegámos a pensar
que éramos maiores do que somos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

VERSOS PARA UMA CANÇÃO DE FERNANDO LOPES GRAÇA


Os anjos cantam? Não cantam.
Canto eu que me apetece:
Quando a voz dum homem canta
A voz do céu emudece.

Cantam as fontes? Talvez,
porque o meu canto as impele:
Quando a voz de um homem canta
a terra canta com ele.

Carlos de Oliveira em Poesias

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

OS AMIGOS DE MANUEL COSTA E SILVA


Os Meus Amigos é um livro-homenagem a Manuel Costa e Silva.
O livro é composto por fotografias de amigos de Manuel Costa e Silva e para esses amigos, o editor Nelson de Matos, arranjou alguém que desses amigos falasse.
São estes os amigos de Manuel Costa e Silva que aparecem no livro:

Fernando Lopes – texto de João César Monteiro
Maria João Seixas – texto de Maria Belo
José Gomes Ferreira – texto de Fernando Lopes Graça
Lia Gama – texto de Baptista-Bastos
Luandino Vieira – texto de Augusto Abelaira
João Hogan – texto de Virgílio Domingues
Eugénio de Andrade – texto de Eduardo Prado Coelho
Carlos de Oliveira – texto de Salvato Teles de Menezes
Rogério Ribeiro – Alexandre Cabral
Sérgio Niza – José Manuel C. Mendes
Maria do Céu Guerra – Vitorino d’Almeida
José Saramago – Carlos Eurico da Costa
João Abel Manta – José Carlos de Vasconcelos
Ilda Moreira – Luísa Dacosta
Ricardo Pais – Maria Velho da Costa
António Borges Coelho – José Saramago
Maria Emília Correia – Miguel Serras Pereira
Frederico George – Daciano Costa
José Cardoso Pires – Maria Lúcia Lepecki
Vitorino – Maria do Céu Guerra
António Ole – David Mestre
Zita Duarte – Fernando Lopes
Pedro Bessa Múrias – pelo próprio
Júlio Pomar – pelo próprio
Vespeira – António Ramos Rosa
Mario Vargas Llosa – Irineu Garcia
Virgílio Domingues – Rui Mário Gonçalves
João Cutileiro – Sílvia Chicó
Aníbal Falcato Alves – António Simões
Eduardo Geada – Artur Semedo
Rosalina Gomes d’Almeida – Sérgio Niza
José Bizarro – Mário Barradas

Legenda. Fotografia de Manuel Costa e Silva tirada de Os Meus Amigos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O GRAÇA



Andando a folhear livralhada, fui dar a um livro que é uma conversa do Baptista-Bastos, em Lanzarote, com José Saramago.

Esta fotografia de dois homens, dedicadíssimos amigos e camaradas, é tirada de lá.

Pela sua claridade, a fotografia não se presta a uma boa digitalização.

Mas é uma fotografia que considero muito bonita.

Bonita pela conversa, interessantíssima, certamente, que estavam a ter, com uma garrafa de whisky Ballantines, no canto direito, em cima de uma cadeira.

Hoje, passam 21 anos sobre a morte de Fernando Lopes Graça e fui buscar estas palavras de Saramago sobre a morte do Graça, o amigo do coração.

Na entrada que colocou no 1º volume dos Cadernos de Lanzarote, dois dias depois da morte, de Lopes-Graça, José Saramago escreveu:

 Morreu o Fernando Lopes-Graça. Telefonaram hoje da TSF, muito cedo, para pedir-me, como depois verifiquei no gravador, o cumprimento desse dever mediático a que se dá o nome de depoimento. Deixaram números de telefone, mas não liguei. Por pudor acho eu. E agora acabo de saber, por Carmélia, que o Graça morreu sozinho. Creio que esta última solidão me doeu mais ainda que a própria morte. Não vai faltar quem diga que o Lopes Graça morrendo aos 88 anos, tinha vivido já a sua vida. Como frase de consolação, talvez sirva para quem se satisfaça com o que lhe foi dado. Por mim, penso que nunca acabamos de viver a nossa vida.

Nesse dia, José Saramago não ligou para a TSF, mas dias depois, escreveu um depoimento para o JL, que também pode ser lido nos Cadernos:

Morreu o querido Graça, o amigo do coração, o camarada fidelíssimo e leal. Tudo isso acabou. Sim, já sei, a recordação, a memória, a saudade, a lembrança. Essas coisas duram, de facto, mas porque duram, cansam. Um dia destes a evocação de Lopes-Graça só causará uma leve mágoa, que disfarçaremos contando uma das sua mil vezes repetidas anedotas. Buscaremos então o Graça onde ele verdadeiramente sempre esteve: nos seus livros, de uma linguagem puríssima que poderia servir de lição a escritores, principiando por este; nos seus discos, mas também nas salas de concerto, que não lhe abriram tanto quanto deveriam enquanto viveu. O homem acabou, não podemos pedir-lhe mais nada, mas a obra aí ficou, à espera do que sejamos capazes de pedir a nós próprios. O justo juízo vem sempre depois, quase sempre tarde de mais. Talvez seja essa a causa do amargor de boca que sinto ao terminar estas linhas.

sábado, 17 de outubro de 2015

O LUGAR DA SOLIDÃO



Era assim que Fernando Lopes Graça se passeava nas ruas da Parede quando saía para fazer compras.

A fotografia é de Rui Ochoa e faz parte de um trabalho de Joaquim Vieira, publicado no Expresso de 31 de Dezembro de 1981.

Não é uma reprodução de qualidade mas não quis deixar de a publicar.

A vida é isto, os homens são assim.

Álvaro Guerra escreveu que nascer é inaugurar a solidão.

Nem todos os bi menois que Fernando Lopes Graça escreveu, por vezes, lhe permitiram ultrapassar a esquina terrível da solidão.

Escolheu-a porque, para fazer o seu trabalho, não queria intromissões.

O preço que pagou para deixar uma obra grandiosa.

José Gomes Ferreira tinha razão:

Olhem-no bem, porque nunca mais veremos um homem assim.

Numa noite olga prats acompanhava-o  a casa, e o Graça disse-lhe:

Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.

José Saramago:

Morreu o Fernando Lopes-Graça. Telefonaram hoje da TSF, muito cedo, para pedir-me, como depois verifiquei no gravador, o cumprimento desse dever mediático a que se dá o nome de depoimento. Deixaram números de telefone, mas não liguei. Por pudor acho eu. E agora acabo de saber, por Carmélia, que o Graça morreu sozinho. Creio que esta última solidão me doeu mais ainda que a própria morte. Não vai faltar quem diga que o Lopes Graça morrendo aos 88 anos, tinha vivido já a sua vida. Como frase de consolação, talvez sirva para quem se satisfaça com o que lhe foi dado. Por mim, penso que nunca acabamos de viver a nossa vida.

domingo, 4 de outubro de 2015

PORQUE HOJE É DOMINGO


Porque hoje não é um domingo qualquer.
Talvez que o nosso destino mude.
Nem que seja um poucochinho.
Bom domingo!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

HORAS DE MÚSICA




A 12 de Novembro de 1966, o Diário de Lisboa-Juvenil retomava, com a presença de Eduardo Prado Coelho, os seus Encontros.
No dia 26 de Novembro foi a vez do jornalista Manuel de Azevedo.
Fernando Lopes Graça e Dulce Cabrita, foram os convidados para o Encontro realizado no dia 21 de Janeiro de 1967-

Companheira da vida e trabalhos do povo português, a canção segue-o do berco ao tumulo, exprimindo-lhe as alegrias e as dores, as esperanças e as incertezas, o amor e a fé, retratando-lhe fielmente a fisionomia, o género de ocupações, o próprio ambiente geográfico, de tal maneira ela, a acnção, o homem e a terra, onde uma floresce e o outro labuta, e ama, e crê, e sonha e a que entrega por fim o corpo, forma uma unidade, um todo indissolúvel.

Fernando Lopes Graça

O FIO QUE SE QUEBROU


14 de Maio de 1969

Fui esta noite à Academia dos Amadores de Música ouvir o coro do Graça que está em boa forma…
Na assistência muitas caras conhecidas. Caras antigas. Mas o fio encantado que nos unia a todos noutros tempos quebrou-se.

José Gomes Ferreira no 7º volume dos Dias Comuns.

sábado, 2 de maio de 2015

O FINAL DA GUERRA EM LISBOA, 1945


Não houve qualquer meio de impedir os portugueses de, nos primeiros dias de Maio de 1945, virem para as ruas, euforicamente, festejar a vitória dos aliados face à besta nazi.

Tão pouco isso interessava aos propósitos de hipocrisia neutral de Salazar.

Por isso as tolerou.

Sempre esteve com Deus e com o Diabo.

Tinha eu pouco mais de um mês de vida, mas por esses dias por estas ruas, lá andaram o meu avô e o meu pai.

O meu avô contava que, nas ruas, apareceram bandeiras portuguesas, britânicas, norte-americanas, francesas e… bandeiras do Benfica, habilidade, contava ele, utilizada para representarem a bandeira da União Soviética.

Numa entrevista, de que não tenho indicação de nome e data do jornal, José-Augusto França confirma a versão do meu avô:

Mais tarde, soube que por cá os meus amigos tinham andado em grandes festas e que se fizeram manifestações a festejar a vitória dos aliados, apareceram uns paus sem bandeira e até bandeiras do Benfica. Eram, evidentemente, a homenagem aos aliados soviéticos, cujo nome não podia ser mencionado

José Gomes Ferreira, em Intervenção Sonâmbula, também refere o episódio:

No entanto, o povo berrava nas ruas a sua alegria com lágrimas e bandeiras (muitos empunhavam apenas paus nus com imaginárias bandeiras vermelhas da pátria dos sovietes), ainda com alguns ingénuos a quererem convencer-se de que a mágica queda do salazarismo aconteceria no dia seguinte.

Quem não dançou, quem não cantou, quem não soltou vivas e morras nessa noite? Mas entre aqueles milhares e milhares de pessoas, recordo-me sobretudo – é curioso como certas imagens sobrenadam na memória em detrimento de outras – recordo-me do Fernando Lopes Graça então 30 anos mais novo, a mancar, com os pés doridos de tanto marchar pelas pedras de Lisboa


No prédio onde está o British-Bar, em Março de 1945 içaram-se as bandeiras portuguesa, britânica e norte-americana.


Legenda: fotografia da Fundacionmapfre

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

SILÊNCIOS



                                                             Homenagem a Fernando Lopes-Graça

Frémito
ou minuciosa dança
talvez um murmúrio de glória
ínfima
um passo
de sílabas

um luminoso
espectro

em obscura cave

um eco de música
num país silencioso

uma pedra
se levanta leve e alta
sobre uma invisível cicatriz

antigas claras vozes
elevam-se de um rio
como ramagens de água

uma estrela pródiga e precária
cintila no limiar da página

um pássaro
obstinado
fractura
uma  porta
de pedra

acende-se o sentir sonoro
sobre a lenta passadeira do silêncio

fio fundo
de um espelho
flutuantes bosques
o tremor azul de uma mulher

entre fogos contrários
delicadas surpresas
traçam na areia
ténues linhas de água

ecos de uma sombra
entre pilares de névoa
túmulos e cúpulas
antenas breves
mandíbulas de insectos

por uma escada branca
desce um longo vestido
com sete galgos brancos
as duas mãos de sangue

um astro de chuva
cada gota é uma sílaba
de água silenciosa

suspende-se
a mão errante
num ramo de lágrimas
ou nos dedos da sede

uma fronte respira
uma página de pássaros
de tranquilos clamores

de imperceptíveis
e lentas
germinações
de olhos
de mãos
de tornozelos de lua

vagas flores
labirinto
de minúsculas guitarras
logaritmos
o fogo branco do vento
uma secção cónica

(harmoniosa
desarmonia)

alguns volumes cálidos
o mar os livros
minuciosa monotonia de uma música
o longínquo leque de um riso
os fragmentos lunares
as ruas os jardins
através da neblina azul

o gosto do sal
sobre o veludo da língua
o profundo odor de um nome
pré-natal
a tranquilidade clara
de um privilégio o enlace o desenlace
de uns veios de pedra

ou de dois pensamentos
como dois arcos
de água

o pulso toca uma pequena ilha
de orvalho
uma lâmpada submersa (o azul o verde)
de uma fresca antiguidade
acende-se
no coração errante

a lenta melodia
flui
com um punhado de imagens
quase dissolvendo-se
no anónimo
intermitente
idêntica

(sob o arco do olvido
pássaro de sombra
lâmpada
ou haste de silêncio
embriagada pela sede
da sua luz
minuciosa
mínima
apaixonada
no seu sentir
sonoro
pelo pólen do instante
de um ouro leve

de um alado refúgio)


António Ramos Rosa, inédito publicado no JL

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Dicionário de Música (Ilustrado)

Tomás Borba e Fernando Lopes Graça
Capa: Martins Correia
Edições Cosmos, Lisboa, Dezembro de 1962

Alguns anos antes da sua morte, por volta de 1945, confiara-nos o Padre Tomás Borba, nosso antigo e respeitado professor no Conservatório, que com a sua amizade nos distinguia, o grosso volume dactilografado do seu último trabalho musicológico, o Dicionário de Música, para o qual ainda não havia encontrado editor. Convictos tratar-se de uma obra a todos os títulos notável, que à nossa parca cultura musicológica trazia uma contribuição valiosa, chamámos para ela a atenção de Bento Jesus Caraça, que a morte havia tão prematuramente de roubar tempos depois ao convívio dos seus amigos e à vida intelectual do País, procurando interessá-lo, como director da «Biblioteca Cosmos», na sua publicação.
O espírito largo e generosos de bento Jesus Caraça, de quem o próprio Padre Borba nos dizia que era «um homem de grande valor», imediatamente se interessou de facto pelo caso, começando a estudar connosco, e com o assentimento do Autor, a possibilidade de dar realização à obra.
Considerando que o trabalho original era apenas de índole técnica e histórica e que, para melhor êxito junto do público, conviria ampliá-lo com matéria biográfica, expusemos esta ideia ao Padre Borba, que com ela concordou, alegando, porém, estar já por de mais avançado em anos para poder ele mesmo proceder à de certo modo pesada tarefa dos complementos biográficos; e propôs-nos, num gesto de amizade e confiança que muito nos penhorou, nos encarregássemos nós dessa parte do Dicionário. Por seu turno Bento Caraça aceitou amàvelmente a sugestão, e assim se assentou em que a obra fosse um trabalho de colaboração.

(Do prefácio de Fernando Lopes Graça)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

UM PIANO EM CAMPO DE OURIQUE


Isabel da Nóbrega em Diário de Lisboa, 18 de Dezembro de 1976

domingo, 21 de dezembro de 2014

UM HOMEM COMOVENTE


Fernando Lopes Graça com Soeiro Pereira Gomes, Sidónio Muralha e outros, a bordo da fragata Liberdade, num dos Passeios doTejo.

Legenda: fotografia tirada de Na Esteira da Liberdade, Edição do Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, Novembro de 2009.