Pela publicidade
dos anos 60 andaram, entre muitos outros, Luís de Sttau Monteiro, Vasco da
Costa Marques, Alves Redol, José Cardoso Pires, Alberto Ferreira, Álvaro
Guerra, Cipriano Dourado.
Ary, nos anos 60,
inventa:
Cerveja
Sagres, a sede que se deseja.
Para a Wollmark:
Minha lã, meu
amor.
Também:
Knorr é
naturalmente melhor.
Para o Grémio
Nacional dos Seguradores:
Mais seguro,
mais futuro.
Para o Banco
Pinto & Sotto Mayor:
Deposite
confiança no futuro.
Numa reunião para
encontrar um slogan para o Halazon, um spray oral, Ary, durante a
mesma, mostrou um perfeito desprendimento, está em toda a parte menos
ali.
Mas quase no
final da reunião rabisca num papel:
Halazon, a
melhor invenção depois do beijo!
Legenda: cartaz
tirado de Ary dos Santos; O Homem, o Poeta, o Publicitário.
Hoje, pela manhã, teria sido o tempo de ir a um
supermercado comprar, para os netos, um coelho grande de chocolate, com surpresa,
e gomas.
Mas pronto!, o tal vírus deu cabo do almoço de Páscoa,
deu cabo do festival chocolateiro.
Claro, que havemos todos de nos vingar destas tropelias,
que palavra tão suave, deste maldito, outra palavra suave, coronavírus.
A festa chocolateira não é só dos netos.
Chocolatedependente que sou, a posição primeira na grelha
de partida, é minha.
Doce dependência, com o pormenor-escândalo-da-família, de
que não se contenta, logo que a tablete é aberta, em comer um quadradinho,
ficar a saboreá-lo de olhos fechados, enquanto se derrete na boca.
Não!Tabelete
aberta, tablete consumida.
O resto, bom o resto logo se vê e aguardar as palavras do costume do médico de família quando olha as análises deste
emocionalmente desequilibrado portador de angústias chocolateiras.
Talvez tenha lido, não tem a certeza, que sem um toque de
loucura não existem homens sensatos.
Mas de onde lhe vem o grito delicioso do chocolate?
Como quase tudo, terá que ir à infância
Já contei isto, mas continuemos.
A caminho do Liceu Gil Vicente, na Graça, também para a
casa da avó paterna na Rua Senhora do Monte, percorria toda a Rua da Penha de França, chegava
a Sapadores, e aí estava a Fábrica de Chocolates Favorita e, neste ponto, socorre-se
de Mário de Carvalho porque conta melhor do que alguma vez posso contar:
«Voltemos ao volutpuoso aroma de chocolate que descia por
sobre o bairro e impregnava os ares, as casas, as roupas e nos punha logo bem
dispostos, na nossa meninice voraz de guloseimas caras. Provinha ele da Fábrica
Favorita que levantava na outra esquina, a sua arquitectura graciosa e robusta,
mesmo ao lado de um jardim esconso e sombrio em que ficava a casa do arquitecto
Raul Lino. Nos anos oitenta do século vinte, por contingências do mercado ou por
gestão trapalhona, a velha Favorita fechou e ficoupara ali, abandonada. Aquela atmosfera
adocicada e benigna dilui-se tristemente nas alturas e o bairro foi invadido pelos odores banais de Lisboa. Se não fosse a variação dos ventos, pesaria ali
a fumarada dos escapes e outros eflúvios maléficos…
Na Lisboa tristonha e pobre desses tempos eram estes
pequenos milagres que alegravam a nossa infância e deixaram um sorriso na
memória.»
Guardo o cheiro a chocolate e também lembro, com uma
nitidez deveras melancólica, os operários de ganga azul, as operárias de bata
branca, a descerem a rampa para irem almoçar.
Ou almoçavam no refeitório e depois saíam para irem beber
café nas pastelarias em redor, certamente a «A Mimosa da Graça»?
Este pormenor não consigo clarificar, mas o que lembro
são os operários, elas de bata branca, eles de ganga azul.
Depois chegaria ao poema de Álvaro Campos:
«Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso, e ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida!»
Há também Chocolate um delicioso filme de Lasse
Hallstrom, um conto de fadas maravilhoso pelos chocolates mas também – e não é
aspecto de somenos – pela Juliette Binoche.
Li, já não lembro
onde, que é um filme para comer com os
olhos.
E ficamos assim.
Amanhã é Domingo de Páscoa.
No meio da quarentena, eu e a Aida, teremos um almoço
virtual em que um coelho de chocolate, imaginariamente, será partilhado com os
cinco netos.
Os sonhos são assim mesmo.
Ah!, o Tom Hanks, na pele de Forresr Gump, sentado num
banco à espera de um autocarro diz:
«A vida é como uma caixa de bombons. Nunca
sabemos o que nos espera…»
Mas fiquem a saber que há poucos problemas que um chocolate não possa resolver.
A música deste sábado de Páscoa , não poderia deixar de
ser a Hallelujah do Messias de Handel.
1.
A Suécia já registou mais de 10 mil casos de pessoas
infetadas com o novo coronavírus, num país que tem uma população de cerca de 10
milhões de pessoas. Ao todo, 887 infetados já morreram de Covid-19.
«A nossa preparação não foi boa o suficiente e isso é
evidente para todos, em vários aspectos».
Em termos concretos, Löfven não quis responsabilizar os
suecos pelos números elevados de infectados e mortes por Covid-19 que se têm
registado no país, que adoptou uma estratégia de imunidade de grupo, em
contra-corrente com o resto do mundo. O primeiro-ministro considerou que
a maioria dos cidadãos seguiu as recomendações das autoridades, mas admitiu a
possibilidade de fechar alguns restaurantes que não estejam a cumprir as
regras:
«Há aqueles que não as seguem, não compreendem ou não
querem saber da gravidade da situação e aí teremos de colocar as luvas e passar
à acção».
2.
O atelier da artista Joana Vasconcelos, em Lisboa,
anunciou que encerrou portas, "pela primeira vez em 25 anos", devido
à pandemia de covid-19, e abriu um processo de 'lay-off' para cerca de 50
trabalhadores.
3.
O grupo Estoril Sol explica que decidiu aplicar o 'lay-off' simplicado,
com a suspensão temporária dos contratos de trabalho ou a redução dos tempos de
trabalho da grande maioria dos trabalhadores.
O grupo Estoril Sol detém casinos no Estoril, em Lisboa e
na Póvoa de Varzim, e todos estão encerrados desde 14 de março.
4.
Com a leitura mais atenta de toda a papelada, os
especialistas vão ficando com a ideia de que o acordo do Eurogrupo deixa mais
dúvidas que certezas.
5.
«O vírus mata
portugueses. E mata a economia. Matará o conhecimento se deixarmos que mate o
livro. Livro e leitura são a mais sólida forma de adquirirmos saber, ciência e
identidade. Mas as livrarias fecharam e os editores não publicam.»
Cais negramente reflectido
nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!
Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa,
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...
Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, vistas de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.
Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
– O medo ancestral de se afastar e partir,
O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo –
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa.
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...
A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca,
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida,
E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva.
Aos poucos vamos
deixando para trás o culto dos mortos.
Por este dia de
finados, os caminhos para os cemitérios já não se encontram tão pejados de
carros e pessoas como há uns anos atrás.
Os cemitérios já são
pouco visitados.
Lembro que a Rua
Morais Soares, caminho para o Cemitério do Alto de São João, há uns anos atrás,
era um mar de gente com vendedoras de flores ao longo dos passeios.
José Gomes Ferreira,
no dia 2 de Novembro de 1968, escrevia nos seus Dias Comuns
«Hoje, dia de esquecer os mortos… De calcá-los bem na cova – com missas,
crepes, luto, flores para coroar caveiras…»
A minha avó marcava o dia de finados acendendo, numa
grande cómoda, de madeira muito antiga, lamparinas que se reduziam a um pires
com azeite e um paviozinho, colocadas junto aos santos de devoção e às
fotografias dos seus mortos.
O meu avó
exasperava-se com esta devoção. Dizia-me que o que devemos é respeitar e amar
as pessoas enquanto andam ao nosso lado, o resto é hipocrisia e os fantasmas
devemos deixá-los em seu sítio.
Muitos anos depois, hei-de ler em Dóris Graça Dias:
«Apaixonamo-nos
pelas pessoas, quando as escutamos. Amamo-las. E só deixamos de as desejar
quando deixamos de as ouvir.»
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
Edgar Allan Poe
Tradução de
Fernando Pessoa, poema retirado do catálogo «Um Mar de Filmes» editado pela Cinemateca.
Carta de António José
Saraiva para Óscar Lopes, datada de Amsterdão, Janeiro de 1972, e em que
continua a manifestar o seu encantamento pela obra de Agustina Bessa-Luís.
Antes já dissera que relendo algumas páginas de Agustina ficara tonto «como se ouvisse música de Beethoven.»
Quanto à Agustina
gostaria que me desses as tuas razões Eu considero-a com Fernando Pessoa um dos
dois escritores verdadeiramente geniais que Portugal produziu no século XX, e
creio que todos os outros estão muito, mas muito baixo deles. Mais: para mim a
Agustina é o maior escritor em prosa de toda a literatura portuguesa, talvez
com excepção do Fernão Lopes (na parte em que este pode ser considerado como
artista criador, como o João de Barros nunca foi). Eu não consigo ler a
Agustina durante muito tempo porque não suporto a vertigem, e o mesmo me
acontece com o Pessoa. Não entendo como a poder pôr abaixo do Aquilino. É um
dos raríssimos pontos em que estou quase de acordo com o Sena: o Aquilino é um
grande escritor menor, salvo no Malhadinhas e nas Terras do demo. É um artífice
com muito talento, ao passo que a Agustina e o Pessoa são escritores-mediuns. Tem-se vontade de crer que algo
a que chamaríamos Espírito os tocou, e nos toca para eles.
Pessoa nunca foi capaz de praticar o objectivismo puro. Deixava-se
envolver nas coisas. Deixava-se envolver em tudo o que fazia. Para ele tudo era
pensamento e sentimento, não conseguindo libertar-se dos sonhos para ver as
coisas como elas próprias são. Foi o seu drama. O subjectivismo e a relação de
intimidade que estabelecia com tudo foram o seu grande drama.
Foi por isso que o Fernando Pessoa nunca conseguiu deixar de fumar…
O Caso daQuinta Avenida é o nº 13 da nova
série da clássica Colecção Vampiro, de novo publicada por Livros do Brasil, mas
agora englobada no grupo editorial da Porto Editora. Tem tradução de Fernando Pessoa, completada por Catarina Rocha Lima. A páginas 134 desta edição pode ler-se: «Aqui termina a parte traduzida por Fernando Pessoa, mas os seus critérios e opções, tanto quanto possível, continuarão a ser respeitados até ao fim do romance, embora não seja pretensão da tradutora imitar o grande escritor. Assim, notará o leitor, por certo, mudança de estilo que, a partir deste ponto, será, não o de Fernando Pessoa, mas tão-só, o próprio da tradutora que recebeu o pesado encargo de completar a obra por ele iniciada.» Segundo informação prestada pelo editor, no final desta desta edição, a tradução de Fernando Pessoa apareceu, sob a forma de folhetim, no jornal diário O Sol, cujo director era Celestino Soares, tendo sido publicados apenas trinta e três números, entre 30 de Outubro de 1926 e 1 de Dezembro do mesmo ano. O curto período de vida de O Sol apenas permitiu a publicação de cerca de um terço do livro e o fim do jornal levou, por sua vez, ao fim da tarefa de tradução de Fernando Pessoa.
Na primeira
série da colecção O Caso da Quinta Avenida tinha o nº 562.
A velha Colecção
Vampiro, que começou em 1947, abre com Agatha Christie e o seu Poirot Desvenda
o Passado, teve o seu epílogo em 2007 com o número de colecção 703 que
corresponde a Do Álbum de Um Detective da autoria de Headon Hill.
Apetece dizer
que, casa que se preze, guarda no seu interior um qualquer livro da Colecção
Vampiro.
São fantásticas
as capas de Cândido da Costa Pinto, algumas verdadeiras obras de arte,
interessantes também as de Lima de Freitas mas, verdadeiramente, a cereja no
topo do bolo são as capas de Cândido Costa Pinto que as desenha até ao número
104 da colecção, enquanto que as de Lima de Freitas vão do número 105 até ao
número 325.
A partir daqui
as capas perdem qualidade, alguns volumes mencionam que as capas são de autoria
de A. Pedro e grande parte são de um péssimo gosto, muitas a resvalar para a
pornografia pura e dura, com o mero propósito de chamar a atenção com vista à fácil compra.
Diga-se também
que as traduções não primavam pela qualidade. A maior parte seguia a edição
brasileira, revistas, em cima do joelho, para português.
A Vampiro seguia
o lema que tudo o que viesse à rede era peixe e daí encontramos, na colecção, autores da segunda,
terceira e quarta divisão do Romance Policial.
Mas, no fundo
dos fundos, o balanço final é positivo.
Manuel Alberto
Valente, responsável editorial da nova série da Vampiro, revelou ao Diário de
Notícias que «as capas tendem a assumir o estilo retro e vintage da
coleção inicial mesmo que executadas por um designer actual».
Quanto às
traduções, a maioria das novas edições irão recuperar as antigas versões, mas alerta
para alterações muito significativas: «Serão fortemente revistas e o texto será
integral, situação que nem sempre se verificava pois eram feitos cortes em
certas partes para caber na paginação. Desta vez, serão publicados os textos
originais.»
Divertido, mas um pouco desconcertado, por este súbito
desvio de conversa, olhei interrogativamente para o chefe Gryce.
- Ora, o senhor, naturalmente – exclamou ele -, nasceu
nessa classe. É mesmo capaz de convidar uma senhora para dançar sem ficar
corado, hein?
Ri francamente, e ia começar a falar, mas ele
prosseguiu:
- É claro. Ora aí está uma coisa que eu não sou capaz
de fazer. Sou capaz de entrar numa casa, cumprimentar a dona dela, seja ela a
criatura mais elegante deste mundo, logo que leve comigo um mandadozito de
captura, ou qualquer outro trabalhinho profissional; mas quando se trata de ir
fazer visitas de luvas de pelica, ou erguer a minha taça, como eles lá dizem,
para responder a um brinde, e outras lérias assim, já não sirvo para nada.
Recebi uma carta do Joel Serrão a falar-me do vosso
plano de conferências sobre o Cesário e a pedir a minha intervenção junto do
Torga. Já lhe respondi a dizer-lhe que, neste momento, não sou a pessoa mais
indicada para o fazer, poi o Torga está amuado comigo, por certo pela minha
resposta ao inquérito do Tetracórnio – e como sinal disto, não me enviou o
último livro. Ou ele está ofendido por eu considerar o Fernando Pessoa a mais fascinante
personalidade do meio-século ou então por ter citado um livro de versos do
Régio e ter citado dele, Torga, um livro de prosas. De resto eu já previa isso;
sei muito bem que a sua megalomania está sempre acima da sua amizade.
No dia 7 de
Janeiro de 1782 abria as portas na Praça do Comércio a Casa da Neve, primeira
designação do café que ao longo do tempo passou por vários nomes - e cuja
história está irremediavelmente ligada ao nome de Fernando Pessoa. Depois da
Casa da Neve chamar-se-ia, a partir de 1784, a Casa de Café Italiana. Anos mais
tarde, em 1795, passa a Café do Comércio e em 1824 o nome oficial muda para
Café da Arcada do Terreiro do Paço e, seis anos mais tarde, passa a chamar-se
Café Martinho, designação que mantém até hoje. Martinho era apelido do dono
nessa altura, que o quis distinguir (da Arcada) do outro café que abrira com o
nome de Café Martinho do Camões.
Conta a lenda
que foi no Martinho da Arcada que Fernando Pessoa terá tomado um último café,
na companhia de Almada Negreiros, o amigo poeta e pintor, três dias antes de
falecer.
A mesa ainda lá
está.
Após o Nobel, a gerência,
atribuiu uma mesa a José Saramago.
No Livro de Visitas
do Café, Saramago escreveu:
Que palavras poderei escrever na minha mesa? Provavelmente
não há outra melhor que a mais banal de todas. Obrigado.
Leio no Diário
de Notícias que Luiz Machado vai retomar as tertúlias que, a partir de
1991, volta e meia, tem organizado no Martinho da Arcada, onde já levou
personagens como Álvaro Cunhal, Mário Soares, Amália, Siza Vieira, Eusébio ou
Júlio Pomar.
Para Luís
Machado, escritor e jornalista, o Martinho da Arcada começou por ser o sítio
onde ele bebia um cafezinho quase diário com a namorada que vivia na margem sul
do Tejo e ali chegava de barco nos anos 70.
As tertúlias recomeçam
no dia 20 deste mês com Eunice Muñoz e terminam a 4 de abril com o Presidente
da República.
Um dos livros herdados
da biblioteca do meu pai, é um calhamaço, mais de 700 páginas, da Editorial
Inquérito:A História das Religiões de Chantepie de la Saussaye.
Tinha os meus 17
anos, passei os olhos, apanhei o que consegui entender e, passados uns tempos,
não lembro quanto tempo, comecei a ler o Albert Camus.
Quanto a religiões
fiquei vacinado.
Respeito a fé,
as crenças, tudo, de quem entenda a isso dedicar-se.
Gostaria que
respeitassem o facto de não frequentar deuses, mas não acontece facilmente.
Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do
respeito que tenho pela fé dos outros.
Como será possível acreditar num Deus criador do
Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a
existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus.
José
Saramago, Cadernos de Lanzarote
Muitos não o perceberam: a grande acusação que José
Saramago faz a Deus é Ele não existir, a não ser criado pelos homens.
José Manuel dos
Santos
Alguns
fundamentalistas católicos citam:
Deus não é silencioso. Nós é que somos surdos.
O que censuro ao cristianismo, é ser uma doutrina de
injustiça.
Albert Camus
Um milhão de velas ardendo pela ajuda que nunca veio.
Leonard Cohen
não creio como eles creem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.
Marguerite
Yourcenar
A Bíblia refere
a pergunta de Jesus:
Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?
No livroTrês Vezes Deus, de Ana Marques Gastão, António Rego Chaves, Armando da Silva
Carvalho, a vez de António Rego Chaves chama-se A Morte de Deus.
São 24 poemas.
O primeiro foi atrás transcrito, os restantes irão surgindo.
Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a
morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que
cultivava não só a poesia em moldes originais, mas também a crítica
inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu, mas como as
letras em Portugal não sustentam ninguém, Fernando Pessoa empregou-se num
escritório comercial, e, linhas adiante, junto do jazigo deixaram os seus
amigos flores de saudade. Não diz mais este jornal, outro diz doutra maneira o
mesmo, Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação
nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar,
surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à
noite, na poesia não era só ele, Fernando Pessoa, ele era também Álvaro de Campos,
e Alberto Caeiro, e Ricardo Reis.
Fernando Pessoa já não é Fernando Pessoa, e não porque
esteja morto, a grave e decisiva questão é que não poderá acrescentar mais nada
ao que foi e ao que fez, ao que viveu e escreveu, se falou verdade no outro
dia, já nem sequer é capaz de ler, coitado. Terá de ser Ricardo Reis a ler-lhe
esta outra notícia publicada numa revista, com retrato em oval, A morte
levou-nos há dias Fernando Pessoa, o poeta ilustre que levou a sua curta vida
quase ignorado das multidões, dir-se-ia que, avaliando a riqueza das suas
obras, as ocultava avaramente, com receio que lhas roubassem, ao seu fulgurante
talento será feito um dia inteira justiça, à semelhança de outros grandes
génios que já lá vão, reticências, filhos da mãe, o pior que têm os jornais é
achar-se quem os faz autorizado a escrever sobre tudo, é atrever-se a pôr na
cabeça dos outros ideias que possam servir na cabeça de todos, como esta de
ocultar Fernando Pessoa as obras com medo de que lhas roubassem, como é
possível ousarem-se tais inépcias.
Para Pessoa seria impossível imaginar uma
morte mais perfeita, mais em pontas dos pés. Ele foi internado de urgência num
hospital, ficou um dia, e no dia seguinte morreu. Na ficha clínica não consta
uma razão da morte que seja elucidativa, porque uma crise hepática não quer
dizer nada, qualquer pessoa pode ter uma e não morrer.