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domingo, 26 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

ESTES PUBLICITÁRIOS!...

Contam os experts, que deve-se a Fernando Pessoa o slogan para a Coca-Cola:

Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Os intelectuais deram à publicidade um toque único.

Alexandre O’Neill e José Carlos Ary dos Santos, na publicidade, são o exemplo perfeito do direito à diferença.

Pela publicidade dos anos 60 andaram, entre muitos outros, Luís de Sttau Monteiro, Vasco da Costa Marques, Alves Redol, José Cardoso Pires, Alberto Ferreira, Álvaro Guerra, Cipriano Dourado.

Ary, nos anos 60, inventa:

Cerveja Sagres, a sede que se deseja.

Para a Wollmark:

Minha lã, meu amor.

Também:

Knorr é naturalmente melhor.

Para o Grémio Nacional dos Seguradores:

Mais seguro, mais futuro.

Para o Banco Pinto & Sotto Mayor:

Deposite confiança no futuro.

Numa reunião para encontrar um slogan para o Halazon, um spray oral, Ary, durante a mesma, mostrou um perfeito desprendimento,  está em toda a parte menos ali.

Mas quase no final da reunião rabisca num papel:

Halazon, a melhor invenção depois do beijo!

Legenda: cartaz tirado de Ary dos Santos; O Homem, o Poeta, o Publicitário.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2015.

sábado, 11 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS




Sábado de Aleluia.

Hoje, pela manhã, teria sido o tempo de ir a um supermercado comprar, para os netos, um coelho grande de chocolate, com surpresa, e gomas.

Mas pronto!, o tal vírus deu cabo do almoço de Páscoa, deu cabo do festival chocolateiro.

Claro, que havemos todos de nos vingar destas tropelias, que palavra tão suave, deste maldito, outra palavra suave, coronavírus.

A festa chocolateira não é só dos netos.

Chocolatedependente que sou, a posição primeira na grelha de partida, é minha.

Doce dependência, com o pormenor-escândalo-da-família, de que não se contenta, logo que a tablete é aberta, em comer um quadradinho, ficar a saboreá-lo de olhos fechados, enquanto se derrete na boca. 

Não!Tabelete aberta, tablete consumida.

O resto, bom o resto logo se vê e aguardar as palavras do costume do médico de família quando olha as análises deste emocionalmente desequilibrado portador de angústias chocolateiras.

Talvez tenha lido, não tem a certeza, que sem um toque de loucura não existem homens sensatos.

Mas de onde lhe vem o grito delicioso do chocolate?

Como quase tudo, terá que ir à infância

Já contei isto, mas continuemos.

A caminho do Liceu Gil Vicente, na Graça, também para a casa da avó paterna na Rua Senhora do Monte, percorria toda a Rua da Penha de França, chegava a Sapadores, e aí estava a Fábrica de Chocolates Favorita e, neste ponto, socorre-se de Mário de Carvalho porque conta melhor do que alguma vez posso contar:

«Voltemos ao volutpuoso aroma de chocolate que descia por sobre o bairro e impregnava os ares, as casas, as roupas e nos punha logo bem dispostos, na nossa meninice voraz de guloseimas caras. Provinha ele da Fábrica Favorita que levantava na outra esquina, a sua arquitectura graciosa e robusta, mesmo ao lado de um jardim esconso e sombrio em que ficava a casa do arquitecto Raul Lino. Nos anos oitenta do século vinte, por contingências do mercado ou por gestão trapalhona, a velha Favorita fechou e ficou  para ali, abandonada. Aquela atmosfera adocicada e benigna dilui-se tristemente nas alturas e o bairro foi invadido pelos odores banais de Lisboa. Se não fosse a variação dos ventos, pesaria ali a fumarada dos escapes e outros eflúvios maléficos…
Na Lisboa tristonha e pobre desses tempos eram estes pequenos milagres que alegravam a nossa infância e deixaram um sorriso na memória.»

Guardo o cheiro a chocolate e também lembro, com uma nitidez deveras melancólica, os operários de ganga azul, as operárias de bata branca, a descerem a rampa para irem almoçar.

Ou almoçavam no refeitório e depois saíam para irem beber café nas pastelarias em redor, certamente a «A Mimosa da Graça»?

Este pormenor não consigo clarificar, mas o que lembro são os operários, elas de bata branca, eles de ganga azul.

Depois chegaria ao poema de Álvaro Campos:

«Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso, e ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida!»

Há também Chocolate um delicioso filme de Lasse Hallstrom, um conto de fadas maravilhoso pelos chocolates mas também – e não é aspecto de somenos – pela Juliette Binoche.

Li,  já não lembro onde, que é um filme para comer com os olhos.

E ficamos assim.

Amanhã é Domingo de Páscoa.
No meio da quarentena, eu e a Aida, teremos um almoço virtual em que um coelho de chocolate, imaginariamente, será partilhado com os cinco netos.

Os sonhos são assim mesmo.

Ah!, o  Tom Hanks, na pele de Forresr Gump, sentado num banco à espera de um autocarro diz:

 «A vida é como uma caixa de bombons. Nunca sabemos o que nos espera…»



Mas fiquem a saber que há poucos problemas que um chocolate não possa resolver.

A música deste sábado de Páscoa , não poderia deixar de ser a  Hallelujah do Messias de Handel.


1.

A Suécia já registou mais de 10 mil casos de pessoas infetadas com o novo coronavírus, num país que tem uma população de cerca de 10 milhões de pessoas. Ao todo, 887 infetados já morreram de Covid-19.

«A nossa preparação não foi boa o suficiente e isso é evidente para todos, em vários aspectos».

Em termos concretos, Löfven não quis responsabilizar os suecos pelos números elevados de infectados e mortes por Covid-19 que se têm registado no país, que adoptou uma estratégia de imunidade de grupo, em contra-corrente com  o resto do mundo. O primeiro-ministro considerou que a maioria dos cidadãos seguiu as recomendações das autoridades, mas admitiu a possibilidade de fechar alguns restaurantes que não estejam a cumprir as regras: 

«Há aqueles que não as seguem, não compreendem ou não querem saber da gravidade da situação e aí teremos de colocar as luvas e passar à acção».

2.

O atelier da artista Joana Vasconcelos, em Lisboa, anunciou que encerrou portas, "pela primeira vez em 25 anos", devido à pandemia de covid-19, e abriu um processo de 'lay-off' para cerca de 50 trabalhadores.

3.

O grupo Estoril Sol explica que decidiu aplicar o 'lay-off' simplicado, com a suspensão temporária dos contratos de trabalho ou a redução dos tempos de trabalho da grande maioria dos trabalhadores.

O grupo Estoril Sol detém casinos no Estoril, em Lisboa e na Póvoa de Varzim, e todos estão encerrados desde 14 de março.

4.

Com a leitura mais atenta de toda a papelada, os especialistas vão ficando com a ideia de que o acordo do Eurogrupo deixa mais dúvidas que certezas.

5.

«O vírus mata portugueses. E mata a economia. Matará o conhecimento se deixarmos que mate o livro. Livro e leitura são a mais sólida forma de adquirirmos saber, ciência e identidade. Mas as livrarias fecharam e os editores não publicam.»

Manuel S. Fonseca

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cais negramente reflectido nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!

Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa,
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...

Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, vistas de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.

Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
– O medo ancestral de se afastar e partir,
O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo –
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa.
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...

A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca,
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida,
E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva.

Fernando Pessoa

sábado, 2 de novembro de 2019

MORRER É SÓ NÃO SER VISTO


Aos poucos vamos deixando para trás o culto dos mortos.

Por este dia de finados, os caminhos para os cemitérios já não se encontram tão pejados de carros e pessoas como há uns anos atrás.

Os cemitérios já são pouco visitados.

Lembro que a Rua Morais Soares, caminho para o Cemitério do Alto de São João, há uns anos atrás, era um mar de gente com vendedoras de flores ao longo dos passeios.

José Gomes Ferreira, no dia 2 de Novembro de 1968, escrevia nos seus Dias Comuns

«Hoje, dia de esquecer os mortos… De calcá-los bem na cova – com missas, crepes, luto, flores para coroar caveiras…»

A minha avó marcava o dia de finados acendendo, numa grande cómoda, de madeira muito antiga, lamparinas que se reduziam a um pires com azeite e um paviozinho, colocadas junto aos santos de devoção e às fotografias dos seus mortos.

O  meu avó exasperava-se com esta devoção. Dizia-me que o que devemos é respeitar e amar as pessoas enquanto andam ao nosso lado, o resto é hipocrisia e os fantasmas devemos deixá-los em seu sítio.

Muitos anos depois, hei-de ler em Dóris Graça Dias:

«Apaixonamo-nos pelas pessoas, quando as escutamos. Amamo-las. E só deixamos de as desejar quando deixamos de as ouvir.»

segunda-feira, 1 de julho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Nunca li com vagar o Álvaro de Campos porque aquilo era demasiado meu para ser dele.

Raul de Carvalho

terça-feira, 2 de abril de 2019

POSTAIS SEM SELO


Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria «provincianismo».

Fernando Pessoa

domingo, 3 de março de 2019

ANNABEL LEE


Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

Edgar Allan Poe

Tradução de Fernando Pessoa, poema retirado do catálogo «Um Mar de Filmes» editado pela Cinemateca.

Legenda: fotograma do filme Annabelle Lee de William J. Scully

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

NÃO SUPORTO A VERTIGEM


Carta de António José Saraiva para Óscar Lopes, datada de Amsterdão, Janeiro de 1972, e em que continua a manifestar o seu encantamento pela obra de Agustina Bessa-Luís. Antes já dissera que relendo algumas páginas de Agustina ficara tonto «como se ouvisse música de Beethoven.»

Quanto à Agustina gostaria que me desses as tuas razões Eu considero-a com Fernando Pessoa um dos dois escritores verdadeiramente geniais que Portugal produziu no século XX, e creio que todos os outros estão muito, mas muito baixo deles. Mais: para mim a Agustina é o maior escritor em prosa de toda a literatura portuguesa, talvez com excepção do Fernão Lopes (na parte em que este pode ser considerado como artista criador, como o João de Barros nunca foi). Eu não consigo ler a Agustina durante muito tempo porque não suporto a vertigem, e o mesmo me acontece com o Pessoa. Não entendo como a poder pôr abaixo do Aquilino. É um dos raríssimos pontos em que estou quase de acordo com o Sena: o Aquilino é um grande escritor menor, salvo no Malhadinhas e nas Terras do demo. É um artífice com muito talento, ao passo que a Agustina e o Pessoa são escritores-mediuns. Tem-se vontade de crer que algo a que chamaríamos Espírito os tocou, e nos toca para eles.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

POSTAIS SEM SELO


Pessoa nunca foi capaz de praticar o objectivismo puro. Deixava-se envolver nas coisas. Deixava-se envolver em tudo o que fazia. Para ele tudo era pensamento e sentimento, não conseguindo libertar-se dos sonhos para ver as coisas como elas próprias são. Foi o seu drama. O subjectivismo e a relação de intimidade que estabelecia com tudo foram o seu grande drama.
Foi por isso que o Fernando Pessoa nunca conseguiu deixar de fumar…


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

POSTAIS SEM SELO


O mito é o nada que é tudo. 

Fernando Pessoa

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

QUANDO ESTÁ FRIO NO TEMPO DO FRIO


Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno—
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar-
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro

Legenda: pintura de Claude Monet

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo.

Bernardo Soares em Livro do Desassossego

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

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O  Caso daQuinta Avenida é o nº 13 da nova série da clássica Colecção Vampiro, de novo publicada por Livros do Brasil, mas agora englobada no grupo editorial da Porto Editora.

Tem tradução de Fernando Pessoa, completada por Catarina Rocha Lima. 

A páginas 134 desta edição pode ler-se:

«Aqui termina a parte traduzida por Fernando Pessoa, mas os seus critérios e opções, tanto quanto possível, continuarão a ser respeitados até ao fim do romance, embora não seja pretensão da tradutora imitar o grande escritor. Assim, notará o leitor, por certo, mudança de estilo que, a partir deste ponto, será, não o de Fernando Pessoa, mas tão-só, o próprio da tradutora que recebeu o pesado encargo de completar a obra por ele iniciada.»

Segundo informação prestada pelo editor, no final desta desta edição, a tradução de Fernando Pessoa apareceu, sob a forma de folhetim, no jornal diário O Sol, cujo director era Celestino Soares, tendo sido publicados apenas trinta e três números, entre 30 de Outubro de 1926 e 1 de Dezembro do mesmo ano. O curto período de vida de O Sol apenas permitiu a publicação de cerca de um terço do livro e o fim do jornal levou, por sua vez, ao fim da tarefa de tradução de Fernando Pessoa.

Na primeira série da colecção O Caso da Quinta Avenida tinha o nº 562.

A nova série da Colecção Vampiro começou com Os Crimes do Bispo de S.S. Van Dine, cuja primeira publicação já aqui foi apresentada com capa de Cândido Costa Pinto.


A velha Colecção Vampiro, que começou em 1947, abre com Agatha Christie e o seu Poirot Desvenda o Passado, teve o seu epílogo em 2007 com o número de colecção 703 que corresponde a Do Álbum de Um Detective da autoria de Headon Hill.

Apetece dizer que, casa que se preze, guarda no seu interior um qualquer livro da Colecção Vampiro.

São fantásticas as capas de Cândido da Costa Pinto, algumas verdadeiras obras de arte, interessantes também as de Lima de Freitas mas, verdadeiramente, a cereja no topo do bolo são as capas de Cândido Costa Pinto que as desenha até ao número 104 da colecção, enquanto que as de Lima de Freitas vão do número 105 até ao número 325.

A partir daqui as capas perdem qualidade, alguns volumes mencionam que as capas são de autoria de A. Pedro e grande parte são de um péssimo gosto, muitas a resvalar para a pornografia pura e dura, com o mero propósito de chamar a atenção com vista à fácil compra. 

Diga-se também que as traduções não primavam pela qualidade. A maior parte seguia a edição brasileira, revistas, em cima do joelho, para português.

A Vampiro seguia o lema que tudo o que viesse à rede era peixe e daí encontramos, na colecção, autores da segunda, terceira e quarta divisão do Romance Policial.

Mas, no fundo dos fundos, o balanço final é positivo.

Manuel Alberto Valente, responsável editorial da nova série da Vampiro, revelou  ao Diário de Notícias que «as capas tendem a assumir o estilo retro e vintage da coleção inicial mesmo que executadas por um designer actual».

Quanto às traduções, a maioria das novas edições irão recuperar as antigas versões, mas alerta para alterações muito significativas: «Serão fortemente revistas e o texto será integral, situação que nem sempre se verificava pois eram feitos cortes em certas partes para caber na paginação. Desta vez, serão publicados os textos originais.»

Legenda: contracapa de O Caso da Quinta Avenida

OLHAR AS CAPAS


O Caso da Quinta Avenida

Anna Katharine Green
Tradução: Fernando Pessoa e Catarina Rocha Lima
Capa: Luís Alegre
Colecção Vampiro nº 13 (Nova Série)
Livros do Brasil, Lisboa, 2017

Divertido, mas um pouco desconcertado, por este súbito desvio de conversa, olhei interrogativamente para o chefe Gryce.
- Ora, o senhor, naturalmente – exclamou ele -, nasceu nessa classe. É mesmo capaz de convidar uma senhora para dançar sem ficar corado, hein?
Ri francamente, e ia começar a falar, mas ele prosseguiu:

- É claro. Ora aí está uma coisa que eu não sou capaz de fazer. Sou capaz de entrar numa casa, cumprimentar a dona dela, seja ela a criatura mais elegante deste mundo, logo que leve comigo um mandadozito de captura, ou qualquer outro trabalhinho profissional; mas quando se trata de ir fazer visitas de luvas de pelica, ou erguer a minha taça, como eles lá dizem, para responder a um brinde, e outras lérias assim, já não sirvo para nada.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

MEGALOMANIA ACIMA DA AMIZADE


Recebi uma carta do Joel Serrão a falar-me do vosso plano de conferências sobre o Cesário e a pedir a minha intervenção junto do Torga. Já lhe respondi a dizer-lhe que, neste momento, não sou a pessoa mais indicada para o fazer, poi o Torga está amuado comigo, por certo pela minha resposta ao inquérito do Tetracórnio – e como sinal disto, não me enviou o último livro. Ou ele está ofendido por eu considerar o Fernando Pessoa a mais fascinante personalidade do meio-século ou então por ter citado um livro de versos do Régio e ter citado dele, Torga, um livro de prosas. De resto eu já previa isso; sei muito bem que a sua megalomania está sempre acima da sua amizade.

Eugénio de Andrade, carta datada de 24 de Março de 1953 em Correspondência Jorge deSena/Eugénio de Andrade.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

TERTÚLIAS NO MARTINHO DA ARCADA


No dia 7 de Janeiro de 1782 abria as portas na Praça do Comércio a Casa da Neve, primeira designação do café que ao longo do tempo passou por vários nomes - e cuja história está irremediavelmente ligada ao nome de Fernando Pessoa. Depois da Casa da Neve chamar-se-ia, a partir de 1784, a Casa de Café Italiana. Anos mais tarde, em 1795, passa a Café do Comércio e em 1824 o nome oficial muda para Café da Arcada do Terreiro do Paço e, seis anos mais tarde, passa a chamar-se Café Martinho, designação que mantém até hoje. Martinho era apelido do dono nessa altura, que o quis distinguir (da Arcada) do outro café que abrira com o nome de Café Martinho do Camões.

Conta a lenda que foi no Martinho da Arcada que Fernando Pessoa terá tomado um último café, na companhia de Almada Negreiros, o amigo poeta e pintor, três dias antes de falecer.

A mesa ainda lá está.

Após o Nobel, a gerência, atribuiu uma mesa a José Saramago.

No Livro de Visitas do Café, Saramago escreveu:

Que palavras poderei escrever na minha mesa? Provavelmente não há outra melhor que a mais banal de todas. Obrigado.

Leio no Diário de Notícias que Luiz Machado vai retomar as tertúlias que, a partir de 1991, volta e meia, tem organizado no Martinho da Arcada, onde já levou personagens como Álvaro Cunhal, Mário Soares, Amália, Siza Vieira, Eusébio ou Júlio Pomar.

Para Luís Machado, escritor e jornalista, o Martinho da Arcada começou por ser o sítio onde ele bebia um cafezinho quase diário com a namorada que vivia na margem sul do Tejo e ali chegava de barco nos anos 70.

As tertúlias recomeçam no dia 20 deste mês com Eunice Muñoz e terminam a 4 de abril com o Presidente da República.

O preço, com jantar incluído, é de 20 euros.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

DIZENDO-ME: AQUI ESTOU!


Um dos livros herdados da biblioteca do meu pai, é um calhamaço, mais de 700 páginas, da Editorial Inquérito: A História das Religiões de Chantepie de la Saussaye.

Tinha os meus 17 anos, passei os olhos, apanhei o que consegui entender e, passados uns tempos, não lembro quanto tempo, comecei a ler o Albert Camus.

Quanto a religiões fiquei vacinado.

Respeito a fé, as crenças, tudo, de quem entenda a isso dedicar-se.

Gostaria que respeitassem o facto de não frequentar deuses, mas não acontece facilmente.

Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do respeito que tenho pela fé dos outros.

Sobre Deus há um poema dramático de António Rego Chaves:

Olhava o mar
As ondas
O último esgar
Dos afogados.

Dizia: não salvo.
Vejo e contemplo.
Como se fosse Deus.

Parto para outras citações:

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

Alberto Caeiro

Como será possível acreditar num Deus criador do Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

Muitos não o perceberam: a grande acusação que José Saramago faz a Deus é Ele não existir, a não ser criado pelos homens.

José Manuel dos Santos

Alguns fundamentalistas católicos citam:

Deus não é silencioso. Nós é que somos surdos.

O que censuro ao cristianismo, é ser uma doutrina de injustiça.

Albert Camus

Um milhão de velas ardendo pela ajuda que nunca veio.

Leonard Cohen

não creio como eles creem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.

Marguerite Yourcenar

A Bíblia refere a pergunta de Jesus:

Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?

No livro Três Vezes Deus, de Ana Marques Gastão, António Rego Chaves, Armando da Silva Carvalho, a vez de António Rego Chaves chama-se A Morte de Deus.

São 24 poemas.

O primeiro foi atrás transcrito, os restantes irão surgindo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

RICARDO REIS NA MORTE DE PESSOA


Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que cultivava não só a poesia em moldes originais, mas também a crítica inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu, mas como as letras em Portugal não sustentam ninguém, Fernando Pessoa empregou-se num escritório comercial, e, linhas adiante, junto do jazigo deixaram os seus amigos flores de saudade. Não diz mais este jornal, outro diz doutra maneira o mesmo, Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite, na poesia não era só ele, Fernando Pessoa, ele era também Álvaro de Campos, e Alberto Caeiro, e Ricardo Reis.

José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis, pág. 35.

Fernando Pessoa já não é Fernando Pessoa, e não porque esteja morto, a grave e decisiva questão é que não poderá acrescentar mais nada ao que foi e ao que fez, ao que viveu e escreveu, se falou verdade no outro dia, já nem sequer é capaz de ler, coitado. Terá de ser Ricardo Reis a ler-lhe esta outra notícia publicada numa revista, com retrato em oval, A morte levou-nos há dias Fernando Pessoa, o poeta ilustre que levou a sua curta vida quase ignorado das multidões, dir-se-ia que, avaliando a riqueza das suas obras, as ocultava avaramente, com receio que lhas roubassem, ao seu fulgurante talento será feito um dia inteira justiça, à semelhança de outros grandes génios que já lá vão, reticências, filhos da mãe, o pior que têm os jornais é achar-se quem os faz autorizado a escrever sobre tudo, é atrever-se a pôr na cabeça dos outros ideias que possam servir na cabeça de todos, como esta de ocultar Fernando Pessoa as obras com medo de que lhas roubassem, como é possível ousarem-se tais inépcias.

José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis, pág. 91

Legenda: ilustração encontrada em Sul 21

ULTIMO POEMA, ÚLTIMAS PALAVRAS


Em 19 de Novembro de 1935, segundo Richard Zenith, Fernando Pessoa escreveu o seu último poema em português:

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Em 29 do mesmo mês e ano, escreveu as últimas palavras em inglês:

I Know not what tomorrow will bring.

Traduzindo:

Não sei o que trará o amanhã.

Fernando Pessoa morreu no Hospital de S. Luís dos Franceses, com quarenta e sete anos, no dia 30 de Novembro de 1935, vítima de uma crise hepática.

QUOTIDIANOS


Para Pessoa seria impossível imaginar uma morte mais perfeita, mais em pontas dos pés. Ele foi internado de urgência num hospital, ficou um dia, e no dia seguinte morreu. Na ficha clínica não consta uma razão da morte que seja elucidativa, porque uma crise hepática não quer dizer nada, qualquer pessoa pode ter uma e não morrer.

Antonio Tabucchi no Expresso, 4 de Junho de 1988

Legenda: Fernando Pessoa por Costa Pinheiro