Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
Edgar Allan Poe
Tradução de
Fernando Pessoa, poema retirado do catálogo «Um Mar de Filmes» editado pela Cinemateca.
Carta de António José
Saraiva para Óscar Lopes, datada de Amsterdão, Janeiro de 1972, e em que
continua a manifestar o seu encantamento pela obra de Agustina Bessa-Luís.
Antes já dissera que relendo algumas páginas de Agustina ficara tonto «como se ouvisse música de Beethoven.»
Quanto à Agustina
gostaria que me desses as tuas razões Eu considero-a com Fernando Pessoa um dos
dois escritores verdadeiramente geniais que Portugal produziu no século XX, e
creio que todos os outros estão muito, mas muito baixo deles. Mais: para mim a
Agustina é o maior escritor em prosa de toda a literatura portuguesa, talvez
com excepção do Fernão Lopes (na parte em que este pode ser considerado como
artista criador, como o João de Barros nunca foi). Eu não consigo ler a
Agustina durante muito tempo porque não suporto a vertigem, e o mesmo me
acontece com o Pessoa. Não entendo como a poder pôr abaixo do Aquilino. É um
dos raríssimos pontos em que estou quase de acordo com o Sena: o Aquilino é um
grande escritor menor, salvo no Malhadinhas e nas Terras do demo. É um artífice
com muito talento, ao passo que a Agustina e o Pessoa são escritores-mediuns. Tem-se vontade de crer que algo
a que chamaríamos Espírito os tocou, e nos toca para eles.
Pessoa nunca foi capaz de praticar o objectivismo puro. Deixava-se
envolver nas coisas. Deixava-se envolver em tudo o que fazia. Para ele tudo era
pensamento e sentimento, não conseguindo libertar-se dos sonhos para ver as
coisas como elas próprias são. Foi o seu drama. O subjectivismo e a relação de
intimidade que estabelecia com tudo foram o seu grande drama.
Foi por isso que o Fernando Pessoa nunca conseguiu deixar de fumar…
O Caso daQuinta Avenida é o nº 13 da nova
série da clássica Colecção Vampiro, de novo publicada por Livros do Brasil, mas
agora englobada no grupo editorial da Porto Editora. Tem tradução de Fernando Pessoa, completada por Catarina Rocha Lima. A páginas 134 desta edição pode ler-se: «Aqui termina a parte traduzida por Fernando Pessoa, mas os seus critérios e opções, tanto quanto possível, continuarão a ser respeitados até ao fim do romance, embora não seja pretensão da tradutora imitar o grande escritor. Assim, notará o leitor, por certo, mudança de estilo que, a partir deste ponto, será, não o de Fernando Pessoa, mas tão-só, o próprio da tradutora que recebeu o pesado encargo de completar a obra por ele iniciada.» Segundo informação prestada pelo editor, no final desta desta edição, a tradução de Fernando Pessoa apareceu, sob a forma de folhetim, no jornal diário O Sol, cujo director era Celestino Soares, tendo sido publicados apenas trinta e três números, entre 30 de Outubro de 1926 e 1 de Dezembro do mesmo ano. O curto período de vida de O Sol apenas permitiu a publicação de cerca de um terço do livro e o fim do jornal levou, por sua vez, ao fim da tarefa de tradução de Fernando Pessoa.
Na primeira
série da colecção O Caso da Quinta Avenida tinha o nº 562.
A velha Colecção
Vampiro, que começou em 1947, abre com Agatha Christie e o seu Poirot Desvenda
o Passado, teve o seu epílogo em 2007 com o número de colecção 703 que
corresponde a Do Álbum de Um Detective da autoria de Headon Hill.
Apetece dizer
que, casa que se preze, guarda no seu interior um qualquer livro da Colecção
Vampiro.
São fantásticas
as capas de Cândido da Costa Pinto, algumas verdadeiras obras de arte,
interessantes também as de Lima de Freitas mas, verdadeiramente, a cereja no
topo do bolo são as capas de Cândido Costa Pinto que as desenha até ao número
104 da colecção, enquanto que as de Lima de Freitas vão do número 105 até ao
número 325.
A partir daqui
as capas perdem qualidade, alguns volumes mencionam que as capas são de autoria
de A. Pedro e grande parte são de um péssimo gosto, muitas a resvalar para a
pornografia pura e dura, com o mero propósito de chamar a atenção com vista à fácil compra.
Diga-se também
que as traduções não primavam pela qualidade. A maior parte seguia a edição
brasileira, revistas, em cima do joelho, para português.
A Vampiro seguia
o lema que tudo o que viesse à rede era peixe e daí encontramos, na colecção, autores da segunda,
terceira e quarta divisão do Romance Policial.
Mas, no fundo
dos fundos, o balanço final é positivo.
Manuel Alberto
Valente, responsável editorial da nova série da Vampiro, revelou ao Diário de
Notícias que «as capas tendem a assumir o estilo retro e vintage da
coleção inicial mesmo que executadas por um designer actual».
Quanto às
traduções, a maioria das novas edições irão recuperar as antigas versões, mas alerta
para alterações muito significativas: «Serão fortemente revistas e o texto será
integral, situação que nem sempre se verificava pois eram feitos cortes em
certas partes para caber na paginação. Desta vez, serão publicados os textos
originais.»
Divertido, mas um pouco desconcertado, por este súbito
desvio de conversa, olhei interrogativamente para o chefe Gryce.
- Ora, o senhor, naturalmente – exclamou ele -, nasceu
nessa classe. É mesmo capaz de convidar uma senhora para dançar sem ficar
corado, hein?
Ri francamente, e ia começar a falar, mas ele
prosseguiu:
- É claro. Ora aí está uma coisa que eu não sou capaz
de fazer. Sou capaz de entrar numa casa, cumprimentar a dona dela, seja ela a
criatura mais elegante deste mundo, logo que leve comigo um mandadozito de
captura, ou qualquer outro trabalhinho profissional; mas quando se trata de ir
fazer visitas de luvas de pelica, ou erguer a minha taça, como eles lá dizem,
para responder a um brinde, e outras lérias assim, já não sirvo para nada.
Recebi uma carta do Joel Serrão a falar-me do vosso
plano de conferências sobre o Cesário e a pedir a minha intervenção junto do
Torga. Já lhe respondi a dizer-lhe que, neste momento, não sou a pessoa mais
indicada para o fazer, poi o Torga está amuado comigo, por certo pela minha
resposta ao inquérito do Tetracórnio – e como sinal disto, não me enviou o
último livro. Ou ele está ofendido por eu considerar o Fernando Pessoa a mais fascinante
personalidade do meio-século ou então por ter citado um livro de versos do
Régio e ter citado dele, Torga, um livro de prosas. De resto eu já previa isso;
sei muito bem que a sua megalomania está sempre acima da sua amizade.
No dia 7 de
Janeiro de 1782 abria as portas na Praça do Comércio a Casa da Neve, primeira
designação do café que ao longo do tempo passou por vários nomes - e cuja
história está irremediavelmente ligada ao nome de Fernando Pessoa. Depois da
Casa da Neve chamar-se-ia, a partir de 1784, a Casa de Café Italiana. Anos mais
tarde, em 1795, passa a Café do Comércio e em 1824 o nome oficial muda para
Café da Arcada do Terreiro do Paço e, seis anos mais tarde, passa a chamar-se
Café Martinho, designação que mantém até hoje. Martinho era apelido do dono
nessa altura, que o quis distinguir (da Arcada) do outro café que abrira com o
nome de Café Martinho do Camões.
Conta a lenda
que foi no Martinho da Arcada que Fernando Pessoa terá tomado um último café,
na companhia de Almada Negreiros, o amigo poeta e pintor, três dias antes de
falecer.
A mesa ainda lá
está.
Após o Nobel, a gerência,
atribuiu uma mesa a José Saramago.
No Livro de Visitas
do Café, Saramago escreveu:
Que palavras poderei escrever na minha mesa? Provavelmente
não há outra melhor que a mais banal de todas. Obrigado.
Leio no Diário
de Notícias que Luiz Machado vai retomar as tertúlias que, a partir de
1991, volta e meia, tem organizado no Martinho da Arcada, onde já levou
personagens como Álvaro Cunhal, Mário Soares, Amália, Siza Vieira, Eusébio ou
Júlio Pomar.
Para Luís
Machado, escritor e jornalista, o Martinho da Arcada começou por ser o sítio
onde ele bebia um cafezinho quase diário com a namorada que vivia na margem sul
do Tejo e ali chegava de barco nos anos 70.
As tertúlias recomeçam
no dia 20 deste mês com Eunice Muñoz e terminam a 4 de abril com o Presidente
da República.
Um dos livros herdados
da biblioteca do meu pai, é um calhamaço, mais de 700 páginas, da Editorial
Inquérito:A História das Religiões de Chantepie de la Saussaye.
Tinha os meus 17
anos, passei os olhos, apanhei o que consegui entender e, passados uns tempos,
não lembro quanto tempo, comecei a ler o Albert Camus.
Quanto a religiões
fiquei vacinado.
Respeito a fé,
as crenças, tudo, de quem entenda a isso dedicar-se.
Gostaria que
respeitassem o facto de não frequentar deuses, mas não acontece facilmente.
Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do
respeito que tenho pela fé dos outros.
Como será possível acreditar num Deus criador do
Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a
existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus.
José
Saramago, Cadernos de Lanzarote
Muitos não o perceberam: a grande acusação que José
Saramago faz a Deus é Ele não existir, a não ser criado pelos homens.
José Manuel dos
Santos
Alguns
fundamentalistas católicos citam:
Deus não é silencioso. Nós é que somos surdos.
O que censuro ao cristianismo, é ser uma doutrina de
injustiça.
Albert Camus
Um milhão de velas ardendo pela ajuda que nunca veio.
Leonard Cohen
não creio como eles creem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.
Marguerite
Yourcenar
A Bíblia refere
a pergunta de Jesus:
Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?
No livroTrês Vezes Deus, de Ana Marques Gastão, António Rego Chaves, Armando da Silva
Carvalho, a vez de António Rego Chaves chama-se A Morte de Deus.
São 24 poemas.
O primeiro foi atrás transcrito, os restantes irão surgindo.
Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a
morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que
cultivava não só a poesia em moldes originais, mas também a crítica
inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu, mas como as
letras em Portugal não sustentam ninguém, Fernando Pessoa empregou-se num
escritório comercial, e, linhas adiante, junto do jazigo deixaram os seus
amigos flores de saudade. Não diz mais este jornal, outro diz doutra maneira o
mesmo, Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação
nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar,
surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à
noite, na poesia não era só ele, Fernando Pessoa, ele era também Álvaro de Campos,
e Alberto Caeiro, e Ricardo Reis.
Fernando Pessoa já não é Fernando Pessoa, e não porque
esteja morto, a grave e decisiva questão é que não poderá acrescentar mais nada
ao que foi e ao que fez, ao que viveu e escreveu, se falou verdade no outro
dia, já nem sequer é capaz de ler, coitado. Terá de ser Ricardo Reis a ler-lhe
esta outra notícia publicada numa revista, com retrato em oval, A morte
levou-nos há dias Fernando Pessoa, o poeta ilustre que levou a sua curta vida
quase ignorado das multidões, dir-se-ia que, avaliando a riqueza das suas
obras, as ocultava avaramente, com receio que lhas roubassem, ao seu fulgurante
talento será feito um dia inteira justiça, à semelhança de outros grandes
génios que já lá vão, reticências, filhos da mãe, o pior que têm os jornais é
achar-se quem os faz autorizado a escrever sobre tudo, é atrever-se a pôr na
cabeça dos outros ideias que possam servir na cabeça de todos, como esta de
ocultar Fernando Pessoa as obras com medo de que lhas roubassem, como é
possível ousarem-se tais inépcias.
Para Pessoa seria impossível imaginar uma
morte mais perfeita, mais em pontas dos pés. Ele foi internado de urgência num
hospital, ficou um dia, e no dia seguinte morreu. Na ficha clínica não consta
uma razão da morte que seja elucidativa, porque uma crise hepática não quer
dizer nada, qualquer pessoa pode ter uma e não morrer.
Uma andorinha, que tinha andado por terras
longínquas e conhecido muita gente, visitou um cisne. Admirada por verificar
que o cisne se sentia feliz no lago onde sempre vivera, cercado pelo mesmo
cenário, perguntou-lhe se não gostaria de viajar, de conhecer outras terras e
outras gentes. «Viajar par quê? – disse o cisne. Se tudo está dentro de nós…»
Uma
noite, na Brasileira do Chiado, meados dos anos 60, eu e o Zé Ferraz, mesas
cheias de intelectuais, outras gentes, também pides, e o Armindo a entrar porta dentro, com a sua pasta de cabedal
preto, que colocava ao seu lado como se fosse um cão.
Bica escaldada pedida,
começou a tirar da pasta uma série de folhas A4, que eram poemas de Walt
Whitman que ele acabara de traduzir.
O
Armindo deu a cada um de nós, cópias dessas traduções que ele tivera o cuidado de
passar a papel químico. Longe estava o mundo das fotocópias.
Foi
assim que conheci Walt Whitman.
Digo
com mágoa: não sei que descaminhos levaram essas traduções, excelentes
traduções.
Armindo,
um jovem cheio de talento que um dia, para fugir à guerra colonial se exilou em
Paris, e de quem não mais tive notícias.
O Zé
Ferraz também seguiu os mesmos passos, e também o silêncio.
Walt Whitman, autodidacta, aprendiz de tipografia, jornalista, enfermeiro na
Guerra da Secessão confortando soldados, escrevendo-lhes cartas para os familiares,
lendo-lhes poemas. Assumindo a sua homossexualidade, em tempos tão difíceis
para esses sentimentos, teve de enfrentar os mais diversos ódios e
incompreensões.
Como os
de um crítico de um jornal de Boston em 1855:
O autor devia ser corrido a pontapés de
qualquer sociedade decente, por pertencer a um nível inferior ao das bestas.
Não há inteligência nem método nesta tagarelice desarticulada e cremos que deve
tratar-se de um pobre louco fugido do manicómio em pleno delírio.
Ou os
de um crítico londrino:
Mas que direito tem este Walt Whitman de ser
considerado um poeta? A sua familiaridade com a arte é tão escassa como a de um
porco com a matemática.
Mas o seu pensamento, livre e corajoso, tudo
varreu.
Fernando
Pessoa, via Álvaro de Campos, em Junho de 1915, envia-lhe uma saudação de que se
reproduz um extracto:
Portugal-Infinito, onze de Junho de mil
novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu
cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em
Universo,
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos
concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a
diversidade das coisas
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores,
pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das
meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro
aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros
saudando Deus!
Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidérmico, contíguo a tudo
em corpo e alma,
Carnaval de todas as acções, bacanal de todos
os propósitos
Irmão gémeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de
produzir máquinas,
Homero do insaisissable do flutuante carnal,
Shakespeare da sensação que começa a andar a
vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Electricidade
futura!
Incubo de todos os gestos,
Espasmo p’ra dentro de todos os objectos de
fora
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares,
paneleiro de Deus!
Eu, de monóculo e casaco exageradamente
cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o
não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente
cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e
amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano
em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste,
e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e
me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn
Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo
que não é a rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá
estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando
o universo na alma.
Quantas vezes eu beijo o teu retrato.
Lá onde estás agora (não sei onde é mas é
Deus)
Sentes isto, sei que o sentes, e os meus
beijos são mais quentes (em gente)
E tu assim é que os queres, meu velho, e
agradeces de lá,
Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado
no meu espírito,
Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da
minha alma.
Federico
Garcia Lorca, em 1930, escreve-lhe uma ode, musicada há uns anos por Patxi
Andion e que está incluída no álbum Poetas en Nueva York, um trabalho,
publicado em 1986, por ocasião dos 50 anos do assassinato, pelo franquismo, deFederico
Garcia Lorca:
Ni un solo momento, Viejo hermoso Walt
Whutman,
he dejado de ver tu barba llena de mariposas,
ni tus hombros de pana gastados peor la luna,
ni tus muslos de Apolo virginal,
ni tu voz como una columna de ceniza.
Também
Pablo Neruda:
Eu não me lembro
com que idade,
nem onde,
se no grande Sul molhado
ou na costa
temível, sob o breve
grito das gaivotas,
toquei certa mão e era
a mão de Walt Whitman:
pisei a terra
com os pés descalços,
andei sobre o pasto,
sobre o firme orvalho
de Walt Whitman.
Yeats, Ezra Pound, Allen Ginsberg, também saudaram
Walt Whitman.
E ainda
há Robin Williams, em O Clube dos Poetas Mortos, a recitar Oh
capitain, my capitain!
Pessoa, de
certo modo, acreditava em tudo, mas sem ter fé em nada. Isso é, estava aberto a
tudo, absorvia tudo para depois fazer o seu próprio percurso.
Richard
Zenith diz que, com este poema, escrito a 5 de Janeiro de 1935, devemos estar atentos à atitude religiosa de
Pessoa. Legenda: Fernando Pessoa nas notas de cem escudos, impressas nos anos 80.