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domingo, 15 de janeiro de 2012

QUANDO JÁ NÃO HÁ NADA


Quando já não há nada
absolutamente nada pra dizer
e cada dia te parece apenas
uma longa e inútil sequência
de vinte e quatro horas vazias;

quando uma folha de papel
é um deserto branco já sem rosto,
um firmamento sem constelações,
uma página nua, uma página
muda,
há dois rápidos olhos que te falam
desde sempre da terra prometida.

Consegues fixá-los? Não tens medo?
Vê como arde súbito o seu gelo
no fundo das pupilas
e não hesites -  rouba essa vertigem
à madrugada de Jerusalém
porque às vezes não há outra saída
para algumas palavras que ainda podem
ser um arco  uma flecha
perto do alvo que ninguém conhece.



Legenda: pintura de Edouard Manet.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

MENTIRAS



As das crianças, para não serem castigadas;
as dos apaixonados de uma noite
quando prometem um amor eterno;
as de quem tudo vende, corpo e alma,
para subir o preço desses bens;
as dos que inventam histórias inverosímeis
em busca de atenção;
as dos médicos, quando compreendem
que já não é possível;
as dos candidatos a eleições;
as dos melhores actores, tão perfeitas
que se tornam verdade;
as dos padres de todas as igrejas
anunciando a salvação;
as mais inofensivas ou as mais perversas;
as mais piedosas ou as mais cruéis;
as que todos descobrem num relance;
as que só se conseguem detectar
num momento feroz de lucidez;
as que apenas se dizem ao telefone
quando falta a coragem de um olhar;
as que começam por pedir desculpa
e geram outras cada vez maiores
até que uma só vida se transforme
em duas ou três vidas paralelas;
as que explodem de súbito, lavadas
pelas lágrimas de uma confissão;
as que perduram pela vida inteira
como um crime perfeito
e levamos connosco para o túmulo.

Sobre elas assenta desde sempre
o que chamamos mundo, o que chamamos ainda humanidade.

Como o sol ou a água, sempre foram
imprescindíveis para a vida humana
e Atlas agradece-as
porque tornam mais leve, dia a dia,
o peso dos seus ombros.


Fernando Pinto do Amaral