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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A Pátria é um território cultural.

Fernando Piteira Santos

Legenda: caricatura de Fernando Piteira Santos da autoria de Sérgio Carvalhão Duarte.

FICHA


Ficha técnica da Exposição Fernando Piteira Santos_ Português, Cidadão do Século XX.

OLHAR AS CAPAS


Fernando Piteira Santos_Português, Cidadão do Século XX
Catálogo da Exposição
2005
Câmara Municipal da Amadora, Amadora 2004

As preocupações intelectuais acompanham-no até ao fim da vida como se constata nos textos, de caligrafia já incerta, deixados no quarto do Hospital onde morreu em 28/09/92. Nesse dia o o território cultural que é a pátria portuguesa ficou mais escasso porque se viu privado de um homem raro pela sua inteligência, CULTURA, CORAGEM, INTEGRIDADE DE CARÁCTER, COERÊNCIA DE IDEIAS E IDEAIS. Um homem discreto e luminoso na sua entrega permanente à respública.
Com a morte de Piteira os peralvilhos da politiquice sentiram-se mais livres e a POLÍTICA ficou mais pobre. Por isso se torna premente prosseguir a sua luta por uma “civilização da dignidade e da cidadania”.


(Texto retirado do catálogo)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

TEMOS UMA PÁTRIA


Garrett tem 20 anos. Abraça entusiasticamente o ideário da Regeneração vintista. Em 1821 publica o opúsculo O Dia 24 de Agosto, mo qual exclama: «Já temos uma pátria, que nos roubado o despotismo; a timidez, a cobardia, a ignorância que o tinham criado, que se prostrava com vil idolatria ante a obra de suas mãos, acabou. – Qual era, de entre nós, que se não pudesse chamar oprimido? Qual há, de entre nós, que se não possa chamar libertado?»


Legenda: Almeida Garrett entre Passos Manuel, Alexandre Herculano e José Estevão de Magalhães

sexta-feira, 17 de abril de 2015

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


17 de Abril de 1975

SAI o PRIMEIRO número do Jornal Novo.

Dirigido pelo cronista, dramaturgo e romancista Artur Portela Filho que, antes e depois do 25 de Abril, manteve uma coluna no República intitulada A Funda.

O chefe de redacção é José Sasportes e, como redactores, aparecem Carlos Ventura Martins, Mário Mesquita, José Manuel Barroso, Diogo Pires Aurélio, António Ribeiro, Maria Guiomar, Carlos Pinto Coelho, António Mega Ferreira, Cândido de Azevedo, Mário Bettencourt Resendes, Wilton Fonseca, Jorge Leitão Ramos, sendo colaboradores Eduardo Lourenço, Fernando Piteira santos, José-Augusto França, Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Sottomayor Cardia, Vergílio Ferreira, Vital Moreira, Vitor Constâcio e Vitorino Magalhães Godinho.

Este é o anúncio que, a partir de Março, começou a aparecer em jornais e revistas, lançando um jornal necessário, na medida em que os portugueses, principalmente sobre política nacional, não estavam devidamente informados.

Criado para combater aquilo a que determinados sectores chamavam gonçalvismo, foi perdendo espaço à medida que a acalmia se ia instalando no país.

O último número do Jornal Novo saíu no dia 29 de Setembro de 1979.

Foram também seus directores Proença de Carvalho, Helena Roseta, Torquato da Luz

Anos mais tarde, Artur Portela Filho explicou como nasceu o Jornal Novo:

Trabalhava na altura numa agência de publicidade que tinha como cliente a CIP, dirigida por Vasco Mello, Morais Cabral e Carlos Robalo. Sugeri-lhes que se criasse um diário, diário porque os acontecimentos sucediam-se em catadupa, que defendesse uma democracia de tipo ocidental para o país. Mostraram interesse. Convidei o historiador Vitorino Magalhães Godinho para director mas surgiram problemas. Depois contactei o Eduardo Lourenço, que não tinha disponibilidade. Eu próprio assumi o cargo. O José Sasportes era o chefe de redação, o Francisco Agarez o director da publicidade, o Luís Duran o autor do grafismo. Saímos sem dinheiro, sem estrutura. A administração não deu os apoios de que necessitávamos. O projecto, a estrutura eram inovadores. A ideologia seguida, socialista e independente, provocou desde logo atritos com a administração. Entrámos em ruptura quando não apoiámos a ilegalização do PCP proposta pela direita após o 25 de Novembro. Fui despedido. O Sasportes e outros solidarizaram-se comigo e saíram.

Cumprindo o seu papel o Jornal Novo, estava em funções o V Governo Provisório chefiado por Vasco Gonçalves, é o primeiro órgão de comunicação a publicar o Documento do Grupo dos Nove que visava defender a pureza do MFA.
Em pleno Verão Quente, os partidários de Mário Soares já tinham lançado a palavra de ordem: O Povo NÃO está com o MFA.
Não tardaria muito que Novembro entrasse pelos quartéis dentro.

O DECRETO-LEI nº 210-A/75 institui o dia 25 de Abril como feriado nacional tório e substitui o 10 de Junho como o Dia de Portugal.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

CRIMINOSO ATENTADO CONTRA A PÁTRIA


O 25 de Abril de 1974 poderia ter acontecido 12 anos antes.

Mas um certo amadorismo, um romantismo-quixotesco, frustrou mais uma tentativa para derrubar Salazar, a última antes do 25 de Abril.

O assalto ao Quartel de Infantaria 13, em Beja, na madrugada do dia 1 de Janeiro de 1962, foi um dos prólogos das diversas tentativas para derrubar Salazar.

A revolta juntava uma brigada mista de militares e civis. Os militares eram comandados pelo Capitão Varela Gomes, enquanto Manuel Serra liderava os elementos civis, cerca de oitenta, entre os quais se encontravam Edmundo Pedro, Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Piteira Santos, Joaquim Barradas de Carvalho.

O Notícias de Portugal, boletim semanal de propaganda do regime, editado pelo SNI, chamou-lhe um “criminoso atentado contra a Pátria” e, em patética prosa, desenvolvia:

A noite de 31 de Dezembro de 1961 para 1 de Janeiro de 1962 ficou assinalada, em Portugal, pelo acto repulsivo de alguns indivíduos desvairados que tentaram assaltar oi quartel de Infantaria nº 3, em Beja. Aproveitando-se da circunstância da passagem do ano, que as famílias comemoravam, discretamente, no recolhimento de suas casas, dada a tristeza em que os acontecimentos da Índia mergulharam o espírito dos portugueses, esses indivíduos quiseram, ardilosamente, a coberto da negrura da noite, preparar um foco de agitação propício aos seus negros desígnios. Foi manifesta a intenção de especular com o actual momento que o País atravessa, o que, por si só, define a falta de patriotismo e de exemplos cívicos daqueles que, por todos os meios, querem alterar a ordem e subverter a paz em que o País vive, mau grado os ventos nefastos que do exterior procuram virar-se contra nós.

Tudo correu mal, a começar na deficiente ligação entre civis e militares, pois nem sequer tinham um qualquer meio de comunicação.


Maria Eugénia Varela Gomes, no seu livro Contra Ventos e Marés, lembra:

Bem, começou por correr mal pelo seguinte: havia horas marcadas para o encontro e o Manuel Serra e os rapazes não estavam. Então os militares, o João e os outros, andaram às voltas por Beja. Quando depois se encontram, já muito tarde, houve uns que, como quaisquer garotos, acharam por bem saltar por cima do muro do quartel, em vez de entrar pela porta. Finalmente, houve a surpresa de o comandante se encontrar na unidade, contra todas as expectativas.
Evidentemente, a mim ninguém me tira da cabeça que as três idas a Beja que eles fizeram antes do golpe lançaram o alarme. Não era possível manter o segredo com perto de cem homens que não estavam habituados a nenhuma disciplina. Alguma coisa tinha que transpirar… Também é verdade que havia muitos boatos e eram tantas as intentonas que eles não sabiam exactamente… Mas, neste caso concreto, sabiam alguma coisa… E não foi por acaso que o comandante lá estava. Eu, para mim, o comandante sabia e até sabia quem vinha lá, até sabia quem vinha lá…

Um certo amadorismo, um romantismo-quixotesco, frustrou o que poderia ter sido o primeiro dia do resto de muitas vidas., pois uma boa parte daqueles homens, que participaram no assalto ao quartel de Beja, acabou por não assistir à madrugada libertadora.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

PASSEIOS DO TEJO


Os célebres passeios do Tejo, na fragata Liberdade do Mestre Jerónimo Matos, o Tarrinca, efectuavam-se entre Vila Franca de Xira e Azambuja.
Subia-se o Tejo, liam-se poemas e outros textos literários, discutiam-se problemas da criação artística, o papel dos intelectuais, a organização do Partido.
Para além de Soeiro Pereira Gomes, participaram Alves Redol, Arquimedes da Silva Santos, Álvaro Cunhal, Manuel Campos Lima, Fernando Piteira Santos, Cândida Ventura, Dias Lourenço, Fernando Lopes Graça, entre outros.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ONDE É QUE EU JÁ VI ESTE FILME?


O informe vem no Diário de Notícias de hoje:

 Manuel Valls já tinha sugerido a mudança no nome do Partido Socialista Francês em 2007 e 2011.

A proposta não fez caminho mas abriu a discussão no seio dos socialistas franceses.

Em converseta com os jornais lá do sítio, o primeiro-ministro francês, volta ao assunto para dizer que é preciso acabar com a esquerda saudosista, agarrada ao passado. O primeiro passo é abri-la às forças do centro e tirar o "socialista" do nome ao seu partido.

Tirar é uma maneira de falar.

Alguns partidos, ditos como tal, nunca foram socialistas.

Tratou-se de um embuste.

Sempre foram sociais-democratas e as voltas que, entretanto a social-democracia, já não sofreu.

Provavelmente, cá pelo pedaço, já existem condições para discutir o , mas ainda há alguma tinta fresca.

Será um dia…

Em Julho de 1977, Jean-Pierre Chavenement, durante o Congresso do Partido Socialista Francês, propõe que o lema do partido seja:

Nem perecer como no Chile, nem trair como em Portugal.



Em Fevereiro de 1984 o descabelado do Vasco Pulido Valente dizia que o PS se transformou no maior e mais eficaz partido da direita portuguesa.


Em 6 de Março de 1988, o mesmo Pulido Valente, declara num , publicado em O Independente:

O Partido Socialista nunce existiu!

José Saramago em Outubro de 1996:

Os partidos chamados socialistas deixaram de ser esquerda. É melhor assumir essa realidade. Não vale a pena continuar com uma ficção que é a de julgar que os partidos socialistas ainda são esquerda. Já não são esquerda, são centro. É o centro de que o tempo em que vivemos hoje necessita.

Fernando Piteira Santos sempre manifestou a sua coeência com a ideologia marxista.

A mando de Mário Soares, alguém perguntou-lhe

- Por que é que não filias no Partido Socialista?

Piteira Santos respondeu:

- Porque sou socialista!

Legenda: tempo do champanhe, para a posteridade, no final da reunião em Bad Munstereifel, que transformou a Acção Socialista Portuguesa no chamado Partido Socialista: 20 votos a favor, sete contra.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

OS IDOS DE MAIO 74



De 1 a 5 de Maio de 1974

Aquele primeiro 1º de Maio…

As ruas cheias de gente, homens e mulheres a chorarem, a abraçarem-se, que se chamaram «tu» sem se conhecerem de parte alguma, sonhos buliçosos, uma autêntica nave de loucos, fim de um tempo abjecto, desesperado, os nossos os jovens a morrerem numa guerra inglória – felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem, António Lobo Antunes em Os Cus de Judas.

Não acreditem no que as fotografais dos jornais, os registos dos filmes mostram.
Foi muito do que aquilo que vos é mostrado.

Sabemos, hoje, que esses dias foram de uma perenidade violenta, esperanças frustradas, desilusões, esforços, muitos esforços mas que, pequenos que sejam., eram resultados.
Roubar a alguém o sonho duma vida inteira é pior, e mais imperdoável, do que privá-lo do pão que lhe é devido.

A festa do 1º de Maio de 1974, em que milhares e milhares de pessoas vieram para a luz do mundo forra de carne humana e cores livres de bandeiras, os prédios, o céu, o vento, o pesadelo morto. Momento que já principia a parecer um sonho, talvez apenas possível de descrever com a tinta mágica das lágrimas que todos nós trouxemos para a rua nessa tarde tão generosa e inocente.
Mas oxalá essas lágrimas do povo não tenham um dia de gelar até à dureza de balas viris – mutação a que eu também já assisti em ocasiões terríveis de terramotos implacáveis.

(José Gomes Ferreira em Revolução Necessária, Diabril, Junho de 1975).



VINDOS do exílio em Argel, chegam a Lisboa Fernando Piteira Santos e Manuel Alegre. Manuel Alegre na Praça da Canção tem um poema: Nós Voltaremos sempre em Maio:

Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.

OS EXILADOS políticos poderão, logo que entenderem, regressar a Portugal e com o pleno exercício dos seus direitos.

A VIOLAÇÃO da correspondência era feita por acção directa da PIDE/DGS e não pelos trabalhadores dos CTT.

O SINDICATO dos Escritórios denuncia que há patrões que não querem pagar o 25 de Abril aos trabalhadores e chegaram a despedir trabalhadores que faltaram nesse dia.

A RÁDIO Renascença é ocupada pelos trabalhadores com uma nova administração eleita, depois de a anterior administração ter censurado as reportagens da chegada a Lisboa de Mário Soares e Álvaro Cunhal e dos cantores Luís Cilia e José Mário Branco.

AOS POUCOS os jornalistas vão demitindo as direcções e conselhos de administração dos diversos órgãos de informação, colocando nos seus lugares jornalistas e pessoas que estejam com o espírito de Abril.
Eduardo Valente da Fonseca publica no República uma Carta Aberta a alguns jornalistas:
Vocês que bajularam ministros, presidentes das câmaras, governadores civis, figuras proeminentes da política e da finança, vocês que se bateram à miseranda cartinha com uma gratificação dentro para tecerem toda a espécie de falsos elogios e louvores, que enriqueceram ou passaram a levar um estilo de vida que o vosso magro ordenado não comportava, que se puseram sempre do lado das autoridades contra os trabalhadores e os estudantes, vocês que sob o estado repressivo de Salazar e Marcelo nunca apareceram publicamente a manifestar o vosso desacordo, vocês não são dignos de escrever para um Povo que só agora se apressam a vir dizer que respeitam, e não são dignos de serem lidos por um leitor novo, que começa a despertar para ajudar o verdadeiro jornalista a construir com ele um outro país, uma nova relação humana sem censura nem camaleonismo. Desistam e reformem-se que o Povo, a Cultura e o Jornalismo agradecem.

O ESCUDO subiu em Nova Iorque, também em Londres, o que é inédito numa revolução.

ANÙNCIO no Diário de Notícias de 3 de Maio de 1974, um político libertado procura emprego:


O TEATRO da Cornucópia decidiu suspender a peça que tinha em ensaios para começarem a trabalhar na encenação de «Grandezas e Misérias do III Reich» de Bertold Brecht


                             
A DIRECÇÂO do Teatro Nacional de S. Carlos decidiu a abolição da obrigatoriedade do uso de traje de rigor que se mantinha para os espectáculos de estreia. Aguarda-se uma nova política de preços.

DEIXAM de publicar-se dois jornais que apoiavam o antigo regime: Novidades e Debate.

Diariamente os jornais vão publicando numerosos desmentidos de pessoas das quais se diz que eram informadores da PIDE/DGS: fulano de tal vem por este meio comunicar que jamais pertenceu aos quadros da PIDE/DGS, ou a ela esteve ligado, conforme documento passado pela Junta de Salvação Nacional.

A RÚSSIA passa a ser incluída na programação de cruzeiros promovidos pela Agência Marítima Transatlântica.

O PAIGC rejeita a autodeterminação de Spínola.

O EX- MINISTÉRIO das Corporações passa a denominar-se Ministério do Trabalho.

FRANCISCO Pinto Balsemão pretende fundar um partido de centro-esquerda.

CHEGAM do exílio no Brasil, Ruy Luís Gomes e José Morgado.

A JUNTA de Salvação Nacional desmente a prisão de Amália Rodrigues.

O PARLAMENTO Europeu regozija-se com os acontecimentos que se verificaram em Portugal.

Decretada a amnistia a refractários e desertores das Forças Armadas.

MANIFESTAÇÃO do MRPP impede no Aeroporto o embarque de soldados para as colónias: Regresso imediato dos Soldados! Nem mais um militara para as colónias!

FORAM em vão as diversas tentativas que o jornal Época fez para que o jornal passasse de intransigente defensor do antigo regime a apoiante do espírito de Abril.
Passou de Época a A Época, depois A Época Livre.


REGRESSO do Capitão Sarmento Pimentel do seu exílio no Brasil.


1º ENCONTRO Livre da Canção, transmitido pela Emissora Nacional, no Pavilhão de Desportos do Porto. Participação, entre outros, de José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho. Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Luis Cilia, Manuel Freire.

OCUPADAS as casas da Fundação Salazar vazias há dois anos (90 moradias prontas e 200 inacabadas).

MÁRIO Soares em Bruxelas: o perigo comunista não existe em Portugal. Não vai instalar-se em Lisboa um governo popular mas de Salvação Nacional.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Maio de 74 Dia a Dia, Edição de Teorema e Abril em Maio, Lisboa, Maio de 2001, Portugal Hoje edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

sexta-feira, 31 de maio de 2013

AS APOSTAS DO PS


Não se pode menosprezar o papel que a poesia de Manuel Alegre representou na luta contra a ditadura.

Não posso esquecer as noites de instrução nocturrna, no Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Raínha, em que os poemas da Praça da Canção, o meu velhinho exemplar da Ulisseia, eram lidos por um alferes que, conjuntamente com outros que tinham recusado continuar carreira militar na Academia, foram mobilizados e acabaram por fugir, uns  para Estocolmo, outros para Paris.

Uma poesia que ajudou a rasgar caminhos, a abrir janelas.

Mas há a faceta Manuel Alegre pós- 25 de Abril, dirigente e deputado do Partido Socialista.
O caso muda de figura.

De alegre se fez triste.

Há dias, num entrevista ao I declarou:

Temos o privilégio de ter a esquerda mais forte da Europa, mas a esquerda em Portugal não serve para nada.

Manuel Alegre foi comunista, esteve na guerra colonial, exilou-se em Argel, onde manteve laços de amizade com Fernando Piteira Santos.

Ainda em Argel, Manuel Alegre afastou-se do Partido, Fernando Piteira Santos, alvo de falsas calúnias, acabou por ser expulso
.
Álvaro Cunhal reconhecerá, mais tarde, que dos muitos erros cometidos pelo Partido, Fernando Piteira Santos foi um desses erros.

Alegre e Piteira Santos regressam, no mesmo dia, ao Portugal de Abril
.
Alegre filia-se no Partido Socialista, Fernando Piteira Santos, até à sua morte, manteve-se sempre fora de qualquer partido, mas nunca da militância política.
.
A sua coerência com a ideologia marxista que sempre orientou impossibilitou-o de aceitar qualquer cargo que o afastasse do marxismo que o norteou desde jovem. Cabe aqui contar um episódio que revela a integridade e coerência política do Fernando. Alguém perguntou-lhe um dia: “por que é que não te filias no Partido Socialista?” Resposta: “Porque sou socialista!”. (1)

Mário Soares, o animal político, como gosta que lhe chamem, nunca foi socialista.

Os seus princípios são os da social-democracia e a invocação do socialismo foi, apenas, uma história para juntar pedras para o passeio da sua caminhada política
.
Na primeira oportunidade, Outubro de 1974, Soares mandou às urtigas as ideias e arrumou – para sempre! – o marxismo bem no fundo da gaveta.

José Saramago em Outubro de 1996:

Os partidos chamados socialistas deixaram de ser esquerda. É melhor assumir essa realidade. Não vale a pena continuar com uma ficção que é a de julgar que os partidos socialistas ainda são esquerda. Já não são esquerda, são centro. É o centro de que o tempo em que vivemos hoje necessita.

No decorrer dos tempos, a social-democracia acabará por ser devorada pelo neo-liberalismo.

Bem o sabemos!

É em todo este deslizar de palavras, que se chega ao ponto de, face ao momento trágico que o país vive, sabermos, que o Partido Socialista, quer a todo o custo eleições, apela a uma maioria absoluta, difícil de obter, mas, mais uma vez, já fizeram saber que deve dar-se absoluta prioridade ao CDS para uma coligação. Francisco Assis declarou-o em Fevereiro: é mais fácil uma aliança com a direita.

É nesta certeza que Paulo Portas, coligado ainda com o PSD, já anda a tratar da sua  sobrevivência.

A esquerda em Portugal não serve para nada.

Pano para muitas mangas.

A política de esquerda terá que ser uma acção constante de cidadãos, de partidos de esquerda e não uma intrincada partida de xadrez, de movida por privilegiados de casta, casa e sangue.

A direita nunca defendeu causas, apenas interesses.

 Dizem que é estúpida mas o que é facto é que tem sabido tirar partido da divisão – por que não cegueira? - da esquerda.

As esquerdas, sim esquerdas, têm sido impotentes para mudar o poder e colocá-lo ao serviço do povo.

Não há democracia sem cultura.

Mas em tempo de eleições, voltarão os políticos do arco governamental, contar a velha milonga de que o povo português sabe escolher.

Apenas dizer:

Perdoai-lhes, Senhor, que eles não sabem onde votam.

Hélas!



 (1)   Depoimento de Maria Branco em Fernando Piteira Santos Português, Cidadão do Século XX,  Campo das Letras, Porto Maio de 2003.

sexta-feira, 15 de março de 2013

OLHAR AS CAPAS


Depois das Revoluções

Mário Murteira
Prefácio: Fernando Piteira Santos
Capa: Luís Carrolo
Edições ES, Lisboa Novembro de 1986

O 25 de Abril foi o romper do dique que a ditadura salazarista construiu para suster o tempo histórico em Portugal. O tempo português, assim liberto, correu vertiginosamente em 1974/75. Depois, a pouco e pouco, a política nacional o passo – mas bem na cauda, ou na periferia, da Europa.
O chamado gonçalvismo nunca existiu. Existiu, sim, no Portugal recém-libertado, um movimento social anticapitalista que entre Março e Novembro de 1975 atingiu o climax. Em 16 de Novembro desse ano, no Terreiro do Paço, entre algumas centenas de milhares de manifestantes, pareceu-me que a revolução era possível. Mas tratava-se de um equívoco. A revolução é, em última análise, uma questão de poder. E o poder não estava nas ruas de Lisboa ou nos campos do Alentejo.
Na altura, não se sabia bem onde estava o poder - se poder havia. Hoje, sei que estava e está na lógica de um sistema mundial que nos permite alguns graus de liberdade, mas não todos. A menos que...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

Já teve vários prémios, mas nunca teve um grande prémio. Magoa-o?

Respondeu:

Acho que sim. Através da indiscrição dos júris, tenho sabido que tem havido resistências devido às minhas posições políticas. Ser comunista tem o seu preço.

De uma entrevista de Urbano Taveres Rodrigues, concedida a Rodrigues da Silva, JL, 30 de Outubro de 2002.

Legenda: José Saramago, Fernando Piteira Santos, Maria Rosa Colaço, Fernando Lopes Graça, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Desfile na Avª  da Liberdade, 25 de Abril de
1983. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Geografia e Economia da Revolução de 1820

Fernando Piteira Santos
Capa de António Domingues
Publicações Europa-América, Dezembro 1962

O Banco foi um dos frutos de Revolução de 24de Agosto; o liberalismo foi o seu programa político e económico. As mesmas restrições de certas liberdades são impostas pela necessidade de criar a liberdade nas condições do mercado e do Estado
capitalistas que, no contexto histórico do Portugal de 1820, correspondia aos interesses da burguesia comercial. Os membros da Comissão do Comércio de Lisboa dão à palavra liberalismo o significado de um amplo e extenso programa e não escondem – e, neste ponto, burgueses de Lisboa e burgueses do Porto pensam de modo idêntico – que se consideram interessados em soluções políticas concretas, que se sentem chamados a participar na solução dos problemas nacionais e na construção do Estado burguês e liberal, do Estado capitalista. A monarquia autocrática não correspondia aos interesses da classe burguesa; não oferecia garantias e perspectivas favoráveis ao progresso capitalista. As condições económicas, sociais e políticas colocam perante a consciência burguesa o problema grave e decisivo: conquistar o poder. Pois não é isto que o próprio Manuel Fernandes Tomás, na sessão de 3 de Fevereiro, aos deputados das Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes?

Quando um governo, Senhores, trata os interesses dos povos pelo modo que tendes ouvido, e que desgraçadamente é muito verdadeiro, fazendo, ou consentindo, que se faça males tão grandes, ninguém poderá deixar de confessar que ele é um Governo mau: e em tal caso seria bem admirável que houvesse ainda quem se lembrasse de disputar à Nação o direito de escolher, ou fazer outro melhor.”


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

sábado, 29 de janeiro de 2011

PAÍS DE ABRIL


Foi o poeta que iluminou as nossas trevas, que deu palavras à música e voz de Adriano Correia de Oliveira. Por isso tem um lugar na nossa estória.

Chegou do exílio, em Argel, bateu à porta do PS que lhas escancarou. Com ele vinha outro exilado, Fernando Piteira Santos, a quem um dia perguntaram porque se não tinha filiado no Partido Socialista e aquele que perguntou, ouviu a resposta: “Porque sou socialista”.

A cineasta Teresa Vilaverde disse ter dificuldade em compreender o desejo de alguém querer ser Presidente da República.

 Manuel Alegre deveria ter tido a lucidez, suficiente para não se submeter ao enxovalho de andar à compita com Cavaco. Tão pouco merecia que Mário Soares, o pai da Democracia, como ele gosta de se intitular, lhe lançasse às canelas, como mesquinha vingança, a candidatura de Fernando Nobre.

O país de poetas, que gostamos de dizer que somos, para Presidente da República, entre um poeta e um economista, escolheu o homem dos números. 

Já Brecht dizia que quem tem ideias se torna um homem perigoso e as gentes, velhos hábitos, têm sempre medo das ideias

Alegre deverá estar mais que arrependido por não ter sabido resistir à vaidade de querer ser presidente. Mas é sempre tarde quando se chora. 

Por mim, nesta tarde cinzenta e fria, volto, como tantas vezes o faço, à “Praça da Canção”, mesmo sabendo que o poeta desse livro, já nada tem a ver com o homem que, após a chegada do exílio, em Argel, se tornou num funcionário partidário:

“São tristes as cidades sob a chuva
E as canções que se atiram contra as grades
- a minha pátria vestida de viúva
entre as grades e a chuva das cidades.

É triste o cão que ladra no canil
Quando é março ou abril e lhe prendem as pernas
É triste a primavera no País de Abril
- minha pátria perfil de mágoas e tabernas.

É triste: uns vestem-se de abril outros de trapos.
Tu ó estrangeiro é só por fora que nos olhas
- a minha pátria bordada de farrapos
capa de trapos remendada a verdes folhas.

Abril tão triste no País de Abril. Por fora
é tudo verde. (Abril com máscaras de festa).
Por dentro – minha pátria a rir como quem chora.
(A festa da tristeza é tudo quanto lhe resta).

Abril tão triste no País de Abril. Aqui
A noite aqui a dor meninos velhos
- minha pátria a chorar como quem ri
em surdina em silêncio. E de joelhos.”