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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
POSTAIS SEM SELO
A Pátria é um território cultural.
Fernando Piteira Santos
Legenda: caricatura de Fernando Piteira Santos da autoria de Sérgio Carvalhão Duarte.
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Postais Sem Selo
OLHAR AS CAPAS
Fernando Piteira Santos_Português, Cidadão do Século
XX
Catálogo da
Exposição
2005
Câmara Municipal
da Amadora, Amadora 2004
As preocupações intelectuais acompanham-no até ao fim
da vida como se constata nos textos, de caligrafia já incerta, deixados no
quarto do Hospital onde morreu em 28/09/92. Nesse dia o o território cultural
que é a pátria portuguesa ficou mais escasso porque se viu privado de um homem
raro pela sua inteligência, CULTURA, CORAGEM, INTEGRIDADE DE CARÁCTER,
COERÊNCIA DE IDEIAS E IDEAIS. Um homem discreto e luminoso na sua entrega
permanente à respública.
Com a morte de Piteira os peralvilhos da politiquice
sentiram-se mais livres e a POLÍTICA ficou mais pobre. Por isso se torna
premente prosseguir a sua luta por uma “civilização da dignidade e da cidadania”.
(Texto retirado
do catálogo)
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
TEMOS UMA PÁTRIA
Garrett tem 20 anos. Abraça entusiasticamente o
ideário da Regeneração vintista. Em 1821 publica o opúsculo O Dia 24 de Agosto,
mo qual exclama: «Já temos uma pátria, que nos roubado o despotismo; a timidez,
a cobardia, a ignorância que o tinham criado, que se prostrava com vil
idolatria ante a obra de suas mãos, acabou. – Qual era, de entre nós, que se
não pudesse chamar oprimido? Qual há, de entre nós, que se não possa chamar
libertado?»
Fernando Piteira
Santos em Geografia e Economia da Revolução de 1820
Legenda: Almeida
Garrett entre Passos Manuel, Alexandre Herculano e José Estevão de Magalhães
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Fernando Piteira Santos
sexta-feira, 17 de abril de 2015
OS IDOS DE ABRIL DE 1975
17 de Abril de
1975
SAI o PRIMEIRO número do Jornal
Novo.
Dirigido pelo cronista,
dramaturgo e romancista Artur Portela Filho que, antes e depois do 25 de Abril,
manteve uma coluna no República intitulada A Funda.
O chefe de
redacção é José Sasportes e, como redactores, aparecem Carlos Ventura Martins,
Mário Mesquita, José Manuel Barroso, Diogo Pires Aurélio, António Ribeiro,
Maria Guiomar, Carlos Pinto Coelho, António Mega Ferreira, Cândido de Azevedo,
Mário Bettencourt Resendes, Wilton Fonseca, Jorge Leitão Ramos, sendo
colaboradores Eduardo Lourenço, Fernando Piteira santos, José-Augusto França,
Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Sottomayor Cardia, Vergílio Ferreira, Vital
Moreira, Vitor Constâcio e Vitorino Magalhães Godinho.
Este é o anúncio
que, a partir de Março, começou a aparecer em jornais e revistas, lançando um
jornal necessário, na medida em que os portugueses, principalmente sobre
política nacional, não estavam devidamente informados.
Criado para
combater aquilo a que determinados sectores chamavam gonçalvismo, foi perdendo
espaço à medida que a acalmia se ia instalando no país.
O último número
do Jornal Novo saíu no dia 29 de Setembro de 1979.
Foram também
seus directores Proença de Carvalho, Helena Roseta, Torquato da Luz
Anos mais tarde,
Artur Portela Filho explicou como nasceu o Jornal Novo:
Trabalhava na altura numa agência de publicidade que
tinha como cliente a CIP, dirigida por Vasco Mello, Morais Cabral e Carlos
Robalo. Sugeri-lhes que se criasse um diário, diário porque os acontecimentos
sucediam-se em catadupa, que defendesse uma democracia de tipo ocidental para o
país. Mostraram interesse. Convidei o historiador Vitorino Magalhães Godinho
para director mas surgiram problemas. Depois contactei o Eduardo Lourenço, que
não tinha disponibilidade. Eu próprio assumi o cargo. O José Sasportes era o
chefe de redação, o Francisco Agarez o director da publicidade, o Luís Duran o
autor do grafismo. Saímos sem dinheiro, sem estrutura. A administração não deu
os apoios de que necessitávamos. O projecto, a estrutura eram inovadores. A
ideologia seguida, socialista e independente, provocou desde logo atritos com a
administração. Entrámos em ruptura quando não apoiámos a ilegalização do PCP
proposta pela direita após o 25 de Novembro. Fui despedido. O Sasportes e
outros solidarizaram-se comigo e saíram.
Cumprindo o seu
papel o Jornal Novo, estava em funções o V Governo Provisório
chefiado por Vasco Gonçalves, é o primeiro órgão de comunicação a publicar o Documento
do Grupo dos Nove que visava defender a pureza do MFA.
Em pleno Verão
Quente, os partidários de Mário Soares já tinham lançado a palavra de
ordem: O Povo NÃO está com o MFA.
Não tardaria
muito que Novembro entrasse pelos quartéis dentro.
O DECRETO-LEI nº 210-A/75 institui o dia 25 de Abril como feriado nacional tório e substitui o 10 de Junho como o Dia de Portugal.
O DECRETO-LEI nº 210-A/75 institui o dia 25 de Abril como feriado nacional tório e substitui o 10 de Junho como o Dia de Portugal.
Fontes:
- Acervo
pessoal;
- Os Dias
Loucos do PREC de Adelino
Gomes e José Pedro Castanheira.
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Verão Quente 1975
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
CRIMINOSO ATENTADO CONTRA A PÁTRIA
O 25 de Abril de 1974 poderia ter acontecido 12 anos antes.
Mas um certo amadorismo, um romantismo-quixotesco, frustrou mais uma
tentativa para derrubar Salazar, a última antes do 25 de Abril.
O assalto ao Quartel de Infantaria 13, em Beja, na madrugada do dia 1
de Janeiro de 1962, foi um dos prólogos das diversas tentativas para derrubar
Salazar.
A revolta juntava uma brigada mista de militares e civis. Os militares
eram comandados pelo Capitão Varela Gomes, enquanto Manuel Serra liderava os
elementos civis, cerca de oitenta, entre os quais se encontravam Edmundo Pedro,
Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Piteira Santos, Joaquim Barradas de
Carvalho.
O Notícias de Portugal, boletim semanal de propaganda do
regime, editado pelo SNI, chamou-lhe um “criminoso atentado contra a
Pátria” e, em patética prosa, desenvolvia:
A noite de 31 de Dezembro de 1961 para 1 de Janeiro de
1962 ficou assinalada, em Portugal, pelo acto repulsivo de alguns indivíduos
desvairados que tentaram assaltar oi quartel de Infantaria nº 3, em Beja.
Aproveitando-se da circunstância da passagem do ano, que as famílias
comemoravam, discretamente, no recolhimento de suas casas, dada a tristeza em
que os acontecimentos da Índia mergulharam o espírito dos portugueses, esses
indivíduos quiseram, ardilosamente, a coberto da negrura da noite, preparar um
foco de agitação propício aos seus negros desígnios. Foi manifesta a intenção
de especular com o actual momento que o País atravessa, o que, por si só,
define a falta de patriotismo e de exemplos cívicos daqueles que, por todos os
meios, querem alterar a ordem e subverter a paz em que o País vive, mau grado
os ventos nefastos que do exterior procuram virar-se contra nós.
Tudo correu mal, a começar na deficiente ligação entre civis e
militares, pois nem sequer tinham um qualquer meio de comunicação.
Maria Eugénia Varela Gomes, no seu livro Contra Ventos e Marés, lembra:
Bem, começou por correr mal pelo seguinte: havia horas
marcadas para o encontro e o Manuel Serra e os rapazes não estavam. Então os
militares, o João e os outros, andaram às voltas por Beja. Quando depois se
encontram, já muito tarde, houve uns que, como quaisquer garotos, acharam por
bem saltar por cima do muro do quartel, em vez de entrar pela porta.
Finalmente, houve a surpresa de o comandante se encontrar na unidade, contra
todas as expectativas.
Evidentemente, a mim ninguém me tira da cabeça que as
três idas a Beja que eles fizeram antes do golpe lançaram o alarme. Não era
possível manter o segredo com perto de cem homens que não estavam habituados a
nenhuma disciplina. Alguma coisa tinha que transpirar… Também é verdade que
havia muitos boatos e eram tantas as intentonas que eles não sabiam
exactamente… Mas, neste caso concreto, sabiam alguma coisa… E não foi por acaso
que o comandante lá estava. Eu, para mim, o comandante sabia e até sabia quem
vinha lá, até sabia quem vinha lá…
Um certo amadorismo, um romantismo-quixotesco, frustrou o que poderia
ter sido o primeiro dia do resto de muitas vidas., pois uma boa parte daqueles
homens, que participaram no assalto ao quartel de Beja, acabou por não assistir
à madrugada libertadora.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
PASSEIOS DO TEJO
Os célebres passeios do Tejo, na fragata Liberdade do
Mestre Jerónimo Matos, o Tarrinca, efectuavam-se entre Vila Franca de Xira e
Azambuja.
Subia-se o Tejo, liam-se poemas e outros textos literários,
discutiam-se problemas da criação artística, o papel dos intelectuais, a
organização do Partido.
Para além de Soeiro Pereira Gomes, participaram Alves Redol, Arquimedes
da Silva Santos, Álvaro Cunhal, Manuel Campos Lima, Fernando Piteira Santos,
Cândida Ventura, Dias Lourenço, Fernando Lopes Graça, entre outros.quinta-feira, 23 de outubro de 2014
ONDE É QUE EU JÁ VI ESTE FILME?
O informe vem no Diário de Notícias de hoje:
Manuel Valls já tinha sugerido a mudança
no nome do Partido Socialista Francês em 2007 e 2011.
A proposta não fez caminho mas abriu a discussão no seio dos
socialistas franceses.
Em converseta com os jornais lá do sítio, o primeiro-ministro francês,
volta ao assunto para dizer que é preciso acabar com a esquerda
saudosista, agarrada ao passado. O primeiro passo é abri-la às forças
do centro e tirar o "socialista" do nome ao seu partido.
Tirar é uma maneira de falar.
Alguns partidos, ditos como tal, nunca foram socialistas.
Tratou-se de um embuste.
Sempre foram sociais-democratas e as voltas que, entretanto a social-democracia,
já não sofreu.
Provavelmente, cá pelo pedaço, já existem condições para discutir o ,
mas ainda há alguma tinta fresca.
Será um dia…
Em Julho de 1977, Jean-Pierre Chavenement, durante o Congresso do
Partido Socialista Francês, propõe que o lema do partido seja:
Nem perecer como no Chile, nem trair como em Portugal.
Em Fevereiro de 1984 o descabelado do Vasco Pulido Valente dizia que o
PS se transformou no maior e mais eficaz partido da direita portuguesa.
Em 6 de Março de 1988, o mesmo Pulido Valente, declara num , publicado
em O Independente:
O Partido Socialista nunce existiu!
José Saramago em Outubro de 1996:
Os partidos chamados socialistas deixaram de ser
esquerda. É melhor assumir essa realidade. Não vale a pena continuar com uma
ficção que é a de julgar que os partidos socialistas ainda são esquerda. Já não
são esquerda, são centro. É o centro de que o tempo em que vivemos hoje
necessita.
Fernando Piteira Santos sempre manifestou a sua coeência com a
ideologia marxista.
A mando de Mário Soares, alguém perguntou-lhe
- Por que é que não filias no Partido Socialista?
Piteira Santos respondeu:
- Porque sou socialista!
Legenda: tempo do champanhe, para a posteridade, no final da reunião em
Bad Munstereifel, que transformou a Acção Socialista Portuguesa no chamado
Partido Socialista: 20 votos a favor, sete contra.
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quinta-feira, 15 de maio de 2014
OS IDOS DE MAIO 74
De 1 a 5 de Maio de
1974
Aquele primeiro 1º de Maio…
As ruas cheias de gente, homens e mulheres a chorarem, a
abraçarem-se, que se chamaram «tu» sem se conhecerem de parte alguma, sonhos buliçosos,
uma autêntica nave de loucos, fim de um tempo abjecto, desesperado, os nossos
os jovens a morrerem numa guerra inglória – felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem, António Lobo
Antunes em Os Cus de Judas.
Não acreditem no que as fotografais dos jornais, os registos
dos filmes mostram.
Foi muito do que aquilo que vos é mostrado.
Sabemos, hoje, que esses dias foram de uma perenidade
violenta, esperanças frustradas, desilusões, esforços, muitos esforços mas que,
pequenos que sejam., eram resultados.
Roubar a alguém o sonho duma vida inteira é pior, e mais
imperdoável, do que privá-lo do pão que lhe é devido.
A festa do 1º de
Maio de 1974, em que milhares e milhares de pessoas vieram para a luz do mundo
forra de carne humana e cores livres de bandeiras, os prédios, o céu, o vento,
o pesadelo morto. Momento que já principia a parecer um sonho, talvez apenas
possível de descrever com a tinta mágica das lágrimas que todos nós trouxemos
para a rua nessa tarde tão generosa e inocente.
Mas oxalá essas lágrimas do povo não tenham um dia de gelar até à dureza de balas viris – mutação a que eu também já assisti em ocasiões terríveis de terramotos implacáveis.
Mas oxalá essas lágrimas do povo não tenham um dia de gelar até à dureza de balas viris – mutação a que eu também já assisti em ocasiões terríveis de terramotos implacáveis.
VINDOS do exílio em Argel, chegam a Lisboa Fernando Piteira Santos e Manuel Alegre. Manuel Alegre na Praça da Canção tem um poema: Nós Voltaremos sempre em Maio:
Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.
Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.
Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.
Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles
amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.
OS EXILADOS políticos poderão, logo que entenderem, regressar a Portugal e com o pleno exercício dos seus direitos.
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.
Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.
Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.
Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles
amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.
OS EXILADOS políticos poderão, logo que entenderem, regressar a Portugal e com o pleno exercício dos seus direitos.
A VIOLAÇÃO da correspondência era feita por acção directa da
PIDE/DGS
e não pelos trabalhadores dos CTT.
O SINDICATO dos Escritórios denuncia que há patrões que não
querem pagar o 25 de Abril aos trabalhadores e chegaram a despedir
trabalhadores que faltaram nesse dia.
A RÁDIO Renascença é ocupada pelos trabalhadores com uma
nova administração eleita, depois de a anterior administração ter censurado as
reportagens da chegada a Lisboa de Mário Soares e Álvaro Cunhal e dos cantores
Luís Cilia e José Mário Branco.
AOS POUCOS os jornalistas vão demitindo as direcções e
conselhos de administração dos diversos órgãos de informação, colocando nos
seus lugares jornalistas e pessoas que estejam com o espírito de Abril.
Eduardo Valente da Fonseca publica no República uma Carta
Aberta a alguns jornalistas:
Vocês que bajularam ministros, presidentes das câmaras, governadores
civis, figuras proeminentes da política e da finança, vocês que se bateram à miseranda
cartinha com uma gratificação dentro para tecerem toda a espécie de falsos
elogios e louvores, que enriqueceram ou passaram a levar um estilo de vida que
o vosso magro ordenado não comportava, que se puseram sempre do lado das
autoridades contra os trabalhadores e os estudantes, vocês que sob o estado
repressivo de Salazar e Marcelo nunca apareceram publicamente a manifestar o
vosso desacordo, vocês não são dignos de escrever para um Povo que só agora se
apressam a vir dizer que respeitam, e não são dignos de serem lidos por um
leitor novo, que começa a despertar para ajudar o verdadeiro jornalista a
construir com ele um outro país, uma nova relação humana sem censura nem
camaleonismo. Desistam e reformem-se que o Povo, a Cultura e o Jornalismo
agradecem.
O ESCUDO subiu em Nova Iorque, também em Londres, o que é
inédito numa revolução.
ANÙNCIO no Diário de Notícias de 3 de Maio de
1974, um político libertado procura emprego:
A DIRECÇÂO do Teatro Nacional de S. Carlos decidiu a
abolição da obrigatoriedade do uso de traje de rigor que se mantinha para os
espectáculos de estreia. Aguarda-se uma nova política de preços.
DEIXAM de publicar-se dois jornais que apoiavam o antigo regime:
Novidades
e Debate.
Diariamente os jornais vão publicando numerosos desmentidos
de pessoas das quais se diz que eram informadores da PIDE/DGS: fulano
de tal vem por este meio comunicar que jamais pertenceu aos quadros da PIDE/DGS,
ou a ela esteve ligado, conforme documento passado pela Junta de Salvação
Nacional.
A RÚSSIA passa a ser incluída na programação de cruzeiros
promovidos pela Agência Marítima Transatlântica.
O PAIGC rejeita a autodeterminação de Spínola.
O EX- MINISTÉRIO das Corporações passa a denominar-se
Ministério do Trabalho.
FRANCISCO Pinto Balsemão pretende fundar um partido de centro-esquerda.
CHEGAM do exílio no Brasil, Ruy Luís Gomes e José Morgado.
A JUNTA de Salvação Nacional desmente a prisão de Amália
Rodrigues.
O PARLAMENTO Europeu regozija-se com os acontecimentos que
se verificaram em Portugal.
Decretada a amnistia a refractários e desertores das Forças
Armadas.
MANIFESTAÇÃO do MRPP impede no Aeroporto o embarque de soldados
para as colónias: Regresso imediato dos Soldados! Nem mais um militara para as colónias!
FORAM em vão as diversas tentativas que o jornal Época
fez para que o jornal passasse de intransigente defensor do antigo regime a
apoiante do espírito de Abril.
Passou de Época a A Época, depois A
Época Livre.
REGRESSO do Capitão Sarmento Pimentel do seu exílio no
Brasil.
1º ENCONTRO Livre da Canção, transmitido pela Emissora
Nacional, no Pavilhão de Desportos do Porto. Participação, entre outros, de
José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho. Adriano Correia de Oliveira,
Fausto, Luis Cilia, Manuel Freire.
MÁRIO Soares em Bruxelas: o perigo comunista não existe em
Portugal. Não vai instalar-se em Lisboa um governo popular mas de Salvação Nacional.
Fontes: Recortes
de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de
1978, Maio de 74 Dia a Dia, Edição de Teorema e Abril em Maio,
Lisboa, Maio de 2001, Portugal Hoje edição da Secretaria
de Estado da Informação e Turismo, A
Funda,
Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa
sexta-feira, 31 de maio de 2013
AS APOSTAS DO PS
Não se pode menosprezar o papel que a poesia de Manuel Alegre representou na luta contra a ditadura.
Não posso esquecer as noites de instrução nocturrna,
no Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Raínha, em que os poemas da Praça
da Canção, o meu velhinho exemplar da Ulisseia, eram lidos por
um alferes que, conjuntamente com outros que tinham recusado continuar carreira
militar na Academia, foram mobilizados e acabaram por fugir, uns para Estocolmo, outros para Paris.
Uma poesia que ajudou a rasgar caminhos, a abrir
janelas.
Mas há a faceta Manuel Alegre pós- 25 de Abril,
dirigente e deputado do Partido Socialista.
O caso muda de figura.
De
alegre se fez triste.
Há dias, num entrevista ao I declarou:
Temos
o privilégio de ter a esquerda mais forte da Europa, mas a esquerda em Portugal
não serve para nada.
Manuel Alegre foi comunista, esteve na guerra
colonial, exilou-se em Argel, onde manteve laços de amizade com Fernando
Piteira Santos.
Ainda em Argel, Manuel Alegre afastou-se do Partido,
Fernando Piteira Santos, alvo de falsas calúnias, acabou por ser expulso
.
Álvaro Cunhal reconhecerá, mais tarde, que dos muitos
erros cometidos pelo Partido, Fernando Piteira Santos foi um desses erros.
Alegre e Piteira Santos regressam, no mesmo dia, ao
Portugal de Abril
.
Alegre filia-se no Partido Socialista, Fernando
Piteira Santos, até à sua morte, manteve-se sempre fora de qualquer partido,
mas nunca da militância política.
.
A
sua coerência com a ideologia marxista que sempre orientou impossibilitou-o de aceitar
qualquer cargo que o afastasse do marxismo que o norteou desde jovem. Cabe aqui
contar um episódio que revela a integridade e coerência política do Fernando.
Alguém perguntou-lhe um dia: “por que é que não te filias no Partido Socialista?”
Resposta: “Porque sou socialista!”. (1)
Mário Soares, o animal político, como gosta que lhe
chamem, nunca foi socialista.
Os seus princípios são os da social-democracia e a
invocação do socialismo foi, apenas, uma história para juntar pedras para o
passeio da sua caminhada política
.
Na primeira oportunidade, Outubro de 1974, Soares
mandou às urtigas as ideias e arrumou – para sempre! – o marxismo bem no fundo
da gaveta.
José Saramago em Outubro de 1996:
Os
partidos chamados socialistas deixaram de ser esquerda. É melhor assumir essa
realidade. Não vale a pena continuar com uma ficção que é a de julgar que os
partidos socialistas ainda são esquerda. Já não são esquerda, são centro. É o
centro de que o tempo em que vivemos hoje necessita.
No decorrer dos tempos, a social-democracia acabará
por ser devorada pelo neo-liberalismo.
Bem o sabemos!
É em todo este deslizar de palavras, que se chega ao
ponto de, face ao momento trágico que o país vive, sabermos, que o Partido
Socialista, quer a todo o custo eleições, apela a uma maioria absoluta, difícil
de obter, mas, mais uma vez, já fizeram saber que deve dar-se absoluta
prioridade ao CDS para uma coligação. Francisco Assis declarou-o em Fevereiro: é
mais fácil uma aliança com a direita.
É nesta certeza que Paulo Portas, coligado ainda com
o PSD, já anda a tratar da sua sobrevivência.
A
esquerda em Portugal não serve para nada.
Pano para muitas mangas.
A política de esquerda terá que ser uma acção
constante de cidadãos, de partidos de esquerda e não uma intrincada partida de
xadrez, de movida por privilegiados de casta, casa e sangue.
A direita nunca defendeu causas, apenas interesses.
Dizem que é
estúpida mas o que é facto é que tem sabido tirar partido da divisão – por que
não cegueira? - da esquerda.
As esquerdas, sim esquerdas, têm
sido impotentes para mudar o poder e colocá-lo ao serviço do povo.
Não há democracia sem cultura.
Mas em tempo de eleições, voltarão os políticos do
arco governamental, contar a velha milonga de que o povo português sabe
escolher.
Apenas dizer:
Perdoai-lhes, Senhor, que eles não sabem onde votam.
Hélas!
(1) Depoimento
de Maria Branco em Fernando Piteira Santos Português, Cidadão do Século
XX, Campo das Letras, Porto Maio de 2003.
sexta-feira, 15 de março de 2013
OLHAR AS CAPAS
Depois das Revoluções
Mário Murteira
Prefácio: Fernando Piteira Santos
Capa: Luís Carrolo
Edições ES, Lisboa Novembro de 1986
O 25 de Abril foi o romper do dique que a ditadura salazarista construiu para suster o tempo histórico em Portugal. O tempo português, assim liberto, correu vertiginosamente em 1974/75. Depois, a pouco e pouco, a política nacional o passo – mas bem na cauda, ou na periferia, da Europa.
O chamado gonçalvismo nunca existiu. Existiu, sim, no Portugal recém-libertado, um movimento social anticapitalista que entre Março e Novembro de 1975 atingiu o climax. Em 16 de Novembro desse ano, no Terreiro do Paço, entre algumas centenas de milhares de manifestantes, pareceu-me que a revolução era possível. Mas tratava-se de um equívoco. A revolução é, em última análise, uma questão de poder. E o poder não estava nas ruas de Lisboa ou nos campos do Alentejo.
Na altura, não se sabia bem onde estava o poder - se poder havia. Hoje, sei que estava e está na lógica de um sistema mundial que nos permite alguns graus de liberdade, mas não todos. A menos que...
sexta-feira, 1 de junho de 2012
À CONVERSA
Perguntaram-lhe:
Já teve vários prémios, mas nunca teve um grande prémio. Magoa-o?
Respondeu:
Acho que sim. Através da indiscrição dos júris, tenho sabido que tem havido resistências devido às minhas posições políticas. Ser comunista tem o seu preço.
De uma entrevista de Urbano Taveres Rodrigues, concedida a Rodrigues da Silva, JL, 30 de Outubro de 2002.
Legenda: José Saramago, Fernando Piteira Santos, Maria Rosa Colaço, Fernando Lopes Graça, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Desfile na Avª da Liberdade, 25 de Abril de
1983.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
OLHAR AS CAPAS
Geografia e Economia da Revolução de 1820
Fernando Piteira Santos
Capa de António Domingues
Publicações Europa-América, Dezembro 1962
O Banco foi um dos frutos de Revolução de 24de Agosto; o liberalismo foi o seu programa político e económico. As mesmas restrições de certas liberdades são impostas pela necessidade de criar a liberdade nas condições do mercado e do Estado
capitalistas que, no contexto histórico do Portugal de 1820, correspondia aos interesses da burguesia comercial. Os membros da Comissão do Comércio de Lisboa dão à palavra liberalismo o significado de um amplo e extenso programa e não escondem – e, neste ponto, burgueses de Lisboa e burgueses do Porto pensam de modo idêntico – que se consideram interessados em soluções políticas concretas, que se sentem chamados a participar na solução dos problemas nacionais e na construção do Estado burguês e liberal, do Estado capitalista. A monarquia autocrática não correspondia aos interesses da classe burguesa; não oferecia garantias e perspectivas favoráveis ao progresso capitalista. As condições económicas, sociais e políticas colocam perante a consciência burguesa o problema grave e decisivo: conquistar o poder. Pois não é isto que o próprio Manuel Fernandes Tomás, na sessão de 3 de Fevereiro, aos deputados das Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes?
Quando um governo, Senhores, trata os interesses dos povos pelo modo que tendes ouvido, e que desgraçadamente é muito verdadeiro, fazendo, ou consentindo, que se faça males tão grandes, ninguém poderá deixar de confessar que ele é um Governo mau: e em tal caso seria bem admirável que houvesse ainda quem se lembrasse de disputar à Nação o direito de escolher, ou fazer outro melhor.”
Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.
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Fernando Piteira Santos,
Olhar as Capas
sábado, 29 de janeiro de 2011
PAÍS DE ABRIL
Foi o poeta que iluminou as nossas trevas, que deu palavras à música e voz de Adriano Correia de Oliveira. Por isso tem um lugar na nossa estória.
Chegou do exílio, em Argel, bateu à porta do PS que lhas escancarou. Com ele vinha outro exilado, Fernando Piteira Santos, a quem um dia perguntaram porque se não tinha filiado no Partido Socialista e aquele que perguntou, ouviu a resposta: “Porque sou socialista”.
A cineasta Teresa Vilaverde disse ter dificuldade em compreender o desejo de alguém querer ser Presidente da República.
Manuel Alegre deveria ter tido a lucidez, suficiente para não se submeter ao enxovalho de andar à compita com Cavaco. Tão pouco merecia que Mário Soares, o pai da Democracia, como ele gosta de se intitular, lhe lançasse às canelas, como mesquinha vingança, a candidatura de Fernando Nobre.
Manuel Alegre deveria ter tido a lucidez, suficiente para não se submeter ao enxovalho de andar à compita com Cavaco. Tão pouco merecia que Mário Soares, o pai da Democracia, como ele gosta de se intitular, lhe lançasse às canelas, como mesquinha vingança, a candidatura de Fernando Nobre.
O país de poetas, que gostamos de dizer que somos, para Presidente da República, entre um poeta e um economista, escolheu o homem dos números.
Já Brecht dizia que quem tem ideias se torna um homem perigoso e as gentes, velhos hábitos, têm sempre medo das ideias
Já Brecht dizia que quem tem ideias se torna um homem perigoso e as gentes, velhos hábitos, têm sempre medo das ideias
Alegre deverá estar mais que arrependido por não ter sabido resistir à vaidade de querer ser presidente. Mas é sempre tarde quando se chora.
Por mim, nesta tarde cinzenta e fria, volto, como tantas vezes o faço, à “Praça da Canção”, mesmo sabendo que o poeta desse livro, já nada tem a ver com o homem que, após a chegada do exílio, em Argel, se tornou num funcionário partidário:
Por mim, nesta tarde cinzenta e fria, volto, como tantas vezes o faço, à “Praça da Canção”, mesmo sabendo que o poeta desse livro, já nada tem a ver com o homem que, após a chegada do exílio, em Argel, se tornou num funcionário partidário:
“São tristes as cidades sob a chuva
E as canções que se atiram contra as grades
- a minha pátria vestida de viúva
entre as grades e a chuva das cidades.
É triste o cão que ladra no canil
Quando é março ou abril e lhe prendem as pernas
É triste a primavera no País de Abril
- minha pátria perfil de mágoas e tabernas.
É triste: uns vestem-se de abril outros de trapos.
Tu ó estrangeiro é só por fora que nos olhas
- a minha pátria bordada de farrapos
capa de trapos remendada a verdes folhas.
Abril tão triste no País de Abril. Por fora
é tudo verde. (Abril com máscaras de festa).
Por dentro – minha pátria a rir como quem chora.
(A festa da tristeza é tudo quanto lhe resta).
Abril tão triste no País de Abril. Aqui
A noite aqui a dor meninos velhos
- minha pátria a chorar como quem ri
em surdina em silêncio. E de joelhos.”
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25 de Abril,
Fernando Piteira Santos,
Manuel Alegre
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